Mudanças de rotina que melhoraram minha vida

Eu sempre fui uma pessoa muito, muito, muito ansiosa. Isso sempre me atrapalhou muito nas minhas atividades, principalmente acadêmicas. Já perdi a conta de quantas noites passei em claro por sentir uma angústia intensa, por sofrer antecipadamente, por sofrer em consequência da falta de comprometimento de outras pessoas com quem eu convivia, por querer fazer mais do que as 24 horas de um dia me permitiam.

Na terapia desde os 10 anos, aumentei a frequência no período em que eu viajava semanalmente entre RJ e Brasília, fazendo até 2 sessões por semana quando a coisa estava muito tensa. Minha saúde estava tão prejudicada que, além das muitas crises de sinusite terríveis que eu tive, consegui a proeza de ter caxumba e pedras na vesícula em menos de 6 meses.

Mudar para a Armênia me forçou a mudar a minha rotina, pois me tirou do espaço que eu já conhecia e me levou para um lugar completamente novo, colocando a administração do meu tempo toda nas minhas mãos, e me permitindo, enfim, ter controle absoluto da minha vida.

Eu sabia que eu precisava reformular completamente a minha rotina, mas eu não imaginava que isso teria tantos efeitos positivos pra mim: eu não sinto mais uma ansiedade constante, e percebo que me tornei uma pessoa mais calma, e até minha saúde melhorou. Eu, que sempre tomei incontáveis remédios pra rinite, sinusite, asma, etc quase não tenho mais crises alérgicas – e olha que aqui todo mundo fuma muito em tudo quanto é lugar, o que sempre foi um gatilho pra sérias crises.

Resolvi, então, compartilhar aqui algumas das coisas que mudei na minha rotina desde que chegamos em Ierevan e que eu noto que fizeram muita diferença na minha qualidade de vida.

  • Escrever diariamente

Eu sempre gostei muito de escrever, mas há muito tempo que eu não conseguia fazer isso diariamente ou mesmo por prazer.

  • Movimentar o corpo diariamente

Eu nunca gostei de academia e continuo não gostando, mas eu sempre gostei de andar. Em Niterói, eu andava muito; em Brasília, é impossível não ficar refém do carro. Aqui em Ierevan, eu tento ir a academia pelo menos 3 vezes na semana, mas não me culpo quando não vou. Se eu não vou até a academia me exercitar, eu ando pela cidade pra resolver pendências, ou danço em casa, ou arrumo coisas em casa. Já gastei mais calorias organizando armários do que indo pra academia.

  • Me permitir ficar a toa

Eu nunca consegui ficar parada, sempre tive necessidade de ocupar minha cabeça com alguma coisa. Agora que o tempo é todo meu, eu me permito também ficar a toa: se eu não quiser fazer nada produtivo hoje, tudo bem, eu agora consigo lidar bem com o ócio. E, pra falar a verdade, é nos momentos em que eu fico a toa que surgem boas ideias pra colocar em prática.

  • Desconectar

Ao longo do dia, é importante tentar não ficar conectada o tempo todo. Pelo menos durante as refeições, e principalmente 1h antes de dormir, eu deixo de lado computadores e celulares, e qualquer outra coisa que possa tirar minha concentração na comida ou meu sono. Comer apreciando a refeição é muito melhor.

  • Tomar sol

Pra completar o pacote das doenças que me assolaram em 2015 e 2016, eu estava com insuficiência de vitamina D. Os exames mostravam resultados preocupantes, e as recomendações médicas iam além da suplementação: eu precisava tomar sol. Mas eu não tinha tempo pra tomar sol. Mesmo quando estava em Niterói, eu quase não tomava sol, nunca ia na praia, nunca tinha tempo pra cuidar disso. Agora faz parte da minha rotina tomar pelo menos 15 minutos de sol, ao menos enquanto o inverno não chega, nem que seja na varanda.

  • Beber muita água

Desde que tivemos acompanhamento nutricional em Brasília, eu percebi que nunca bebi água suficiente. Mesmo quando o clima tava muito seco, ou quando fazia muito calor, eu quase não bebia água. Essa mudança de hábito começou lá em 2014, e eu persisto até hoje pra não esquecer de beber, pelo menos, 2l de água por dia. Faz bem pra pele, faz bem pro corpo, faz bem pra tudo.

  • Diminuir a quantidade de coisas na minha bolsa

Eu sempre carreguei o mundo dentro da minha bolsa, e isso não é bom nem pra coluna nem pra rotina diária. Afinal, bolsa cheia geralmente significa bagunça. Graças a Deus eu consegui reduzir muito a quantidade de coisas que eu carregou e ainda assim me sentir tranquila para enfrentar qualquer adversidade do dia a dia, já que eu não abro mão do gel antisséptico e dos lenços umedecidos.

  • Evitar a reatividade e ceder mais

Sempre tive personalidade forte, mas ser assim não significa que eu preciso reagir veemente e imediatamente a qualquer situação. A gente não precisa responder a tudo e a todos. Evitar atrito deixa a vida mais leve, e simplesmente respirar antes de falar pode fazê-lo desaparecer. É preciso ter sabedoria para escolher nossas batalhas, e isso traz mais leveza pra nossa vida.

  • Buscar inspirações boas e editar o conteúdo que se consome

Tenho buscado cada vez mais me aprofundar na fé porque, pra mim, isto tem grande importância, e as coisas do alto me inspiram positivamente. Também tenho tentado editar o conteúdo que eu consumo: menos tragédia e mais coisas boas. A gente não precisa ser alienado, mas podemos focar no que de fato traz positividade pro dia a dia. O que não acrescenta, fica de fora.

  • Reeducação alimentar sem paranóias

Desde 2014 até o ano passado, fui acompanhada por uma nutricionista que traçou um plano alimentar pra mim que me reeducou. Eu sempre me alimentei bem, mas também sempre adorei uma porcaria. Eu já cheguei a ir 4 vezes ao Outback em uma única semana, sempre consumindo alimentos gordurosos. Depois da reeducação alimentar, eu aprendi a valorizar mais os alimentos que trazem benefícios pro meu corpo e me tornam uma pessoa mais saudável. Ao mesmo tempo, eu aprendi a não ficar paranóica e a desfrutar mais dos meus momentos em que eu escolho comer porcaria, que ficaram mais raros por conta da consciência que eu desenvolvi, e ainda mais raros depois que eu tirei a vesícula.

  • Ler mais

Desde muito criancinha, sempre fui ávida leitora (basta dizer que aprendi a ler e a escrever sozinha porque decorava os livros infantis que meus pais e Mivó liam pra mim). Infelizmente, durante alguns anos, eu me privei das leituras que me davam prazer porque eu já lia tantas coisas relacionadas à minha vida acadêmica que eu não tinha mais gás pra ler nenhuma outra coisa. Graças a Deus este período passou e eu retomei meu ritmo intenso de leitura, variando os títulos e assuntos.

  • Respeitar o meu EU

Quanto mais eu aprofundo meu autoconhecimento, mais eu entendo as vontades mais profundas do meu EU. E quanto mais eu entendo os meus desejos mais profundos, mais livre eu me sinto pra correr atrás dos meus sonhos, transformando-os em objetivos reais.

  • Transformar vontades em hábitos

Quando uma nova atividade vira hábito, a rotina fica muito mais leve, e é muito mais fácil de cumprir com todas as atividades. A gente pode criar tempo pra tudo no nosso dia a dia, basta ter um pouquinho de foco.

  • Respeitar meu horário de dormir

Isso não foi propriamente uma mudança de hábito, porque eu sempre prezei muito pela qualidade do meu sono, mas eu reforcei o meu respeito pelo meu horário de dormir. Meu organismo funciona muito melhor se eu tenho pelo menos 8h de sono, então eu dificilmente vou dormir depois das 22h. Quando acordo às 6 ou as 7 da manhã, estou bem disposta pra viver meu dia tranquila e feliz!

  • Aprender a cozinhar

Eu costumo brincar que estou treinando pro MasterChef dois mil e nunca! Eu não sabia fazer absolutamente nada na cozinha e, quando tentava, sempre fazia besteira. Ultimamente, tenho me arriscado cada vez mais no forno e no fogão, bem concentrada, e quase sempre dá certo. Cozinhar é tão bacana!

Quem foi Martiros Saryan?

Pra continuarmos aprendendo mais sobre a Armênia, sua história e cultura, é impossível não falar de grandes personalidades armênias. Já conversamos um pouquinho sobre Alexander Tamanyan, e agora é a vez de Martiros Saryan ser o nosso “objeto de estudo”. Ele é, sem dúvida, a figura mais importante da arte moderna armênia. Aproveitando a edição de verão da revista Armenia Tourism Magazine (nº18), pude aprender um pouco mais sobre esta personalidade armênia, e vou dividir com vocês um pouquinho do que aprendi sobre este artista. Ele, que nasceu no sul da Rússia, estudou em Moscou e mudou-se para a Armênia em 1921, desempenhando papel importantíssimo no reavivamento da cultura armênia na sua terra natal histórica.

Martiros Saryan nasceu na cidade de Nakhichevan-on-Don (hoje, Rostov-on-Don) em uma grande família armênia: seus ancestrais saíram da antiga capital armênia Ani. Os pais de Martiros eram agricultores, e ele passou sua infância no interior, às margens do rio Sambek. Martiros compreendia a vida da natureza de maneira muito colorida, o que contribuiu para sua escolha de se tornar pintor. Durante seus estudos na escola Armênia-Russa de Novonakhichevan, ele fez aulas particulares de desenho e, aos 15 anos, recebeu um prêmio escolar. Hovhannes, irmão mais velho de Martiros, incentivou sua vocação para a arte e o ajudou a continuar seus estudos em Moscou. É verdade de que a mãe deles não aprovava a escolha do filho, duvidando de que ele pudesse se manter sendo artista. O artista Hmayak Artsatpanyan, amigo de Hovhannes que estudava em Moscou, preparou Martiros para os exames de admissão por um ano. Em 1897, Saryan se tornou aluno da Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou. Depois da formatura, ele participou de workshops e, graças a seus professores, Saryan conheceu as tendências avançadas da arte francesa, como o impressionismo e o pós-impressionismo, e conheceu a elite da inteligência russa.

Notando a importância das habilidades profissionais desenvolvidas na academia, Saryan, tendo embarcado no caminho de criar livre e independentemente, sentiu a necessidade de superar a academia. O artista foi conduzido por seu instinto por um caminho ainda novo na arte, com sua imaginação clamando por novas impressões, que ele conquistou em suas viagens pelo Cáucaso e pela Armênia Ocidental. Em 1902, ele visitou sua cidade natal histórica, Ani. Já na obra “Evening in the Armenian Village”, criada em 1903, uma paleta colorida do futuro pintor começou a tomar forma, suas linhas angulares mostrando o início de um estilo independente.

Entre 1904-1907, Saryan viveu o ciclo da aquarela de “Fairy Tales and Dreams”, cheio de lirismo e harmonia. O artista começou a ganhar fama com as exposições “Scarlet Rose”de 1904 em Saratov, e “Blue Rose” de 1907 em Moscou. Saryan gradualmente mudou da técnica da aquarela e guache para pintura à têmpera, e em 1905 ele criou “The Enchantment of the Sun”. O ano desta criação coincidiu com a primeira exposição de artistas fauvistas, conduzida por Henri Matisse em Paris. Em 1906, tendo visto o trabalho dos pós-impressionistas em Moscou, na coleção de S.I. Shchukin, Saryan percebeu que o caminho que ele tinha escolhido na arte estava certo e, nos anos seguintes, ele continuou a desenvolver seu estilo nesta direção. Depois de conhecer os franceses, ele não foi para Paris, mas sim pra Turquia (1910), Egito (1911) e Pérsia (1913).

Ele pintava o comum, a vida diária destes países, surpreendendo os conhecedores de arte com cores vivas e com uma visão singular das coisas. Saryan mostrou as obras de seus ciclos no Leste nas mais famosas exposições de Moscou e São Petersburgo, como “Mir iskusstva (World of Art)”, “Union of Russian Artists”, “Association of Moscow Artists”. Em 1910, dois trabalhos de Saryan foram comprados pela Galeria Tretyakov. Exibido em Roma em 1911, suas pinturas egípcias – “Egyptian Masks”, “Night Landscape Egypt”, “The Walking Woman” e outras – causaram fortes impressões nos círculos dos amantes de arte. Em 1912, em Londres, na segunda exposição pós-impressionista, foi apresentada a obra “Constantinople Dogs”.

Em 1914, Martiros Saryan foi para Tiflis, onde, junto com membros da Sociedade Etnográfica da Armênia, ele trabalhou na organização da filial transcaucasiana da “Society of Zealots of Armenian Antiquities”, fundada em Moscou sob o Instituto Lazarevsky. Ele viajou muito pelo Cáucaso Sul, manteve anotações e estudou sobre monumentos históricos, desenhou esboços e, novamente, exibiu suas pinturas em Moscou.

Os eventos sanguinolentos que começaram em 1915 no Império Otomano mudam sua vida por completo. O artista fechou seu ateliê em Moscou e foi para Echmiadzin participar da organização para assistência dos milhares de armênios refugiados que milagrosamente escaparam da morte certeira. Tendo chegado ao vale do Ararat, muitos deles morreram de fome e epidemias. Não conseguindo suportar o que viu, Saryan adoeceu e estava à beira de desenvolver problemas mentais, e então seus amigos o levaram para Tiflis. Lá, ele encontrou força para, lentamente, retomar sua vida normal e recomeçou a pintar.

Saryan retomou seu interesse na vida graças a Lusik Aghayan, a filha do famoso escritor armênio Ghazaros Aghayan, por quem se apaixonou à primeira vista e assim ficou o resto da vida. Em 1916, Lusik e Saryan se casaram, e ela se tornou a eterna musa do artista, sendo o ideal de beleza feminina do pintor.

Depois da Revolução de Outubro em Rostov-on-Don, Saryan se tornou diretor do Museu Armênio de História Local. A criatividade artística continuou sendo a principal esfera das suas atividades. Em 1919, ele mostrou 45 dos seus trabalhos em Rostov, na exibição “Lotus”.

Em 1921, à convite de Alexander Myasnikyan, o Presidente do Conselho do Comissariado do Povo na Armênia, Martiros Saryan e sua família se mudaram definitivamente para Yerevan, atuando ativamente no processo de reavivamento do país. Ele desenvolveu esboços para o emblema e a bandeira da Armênia, participou da fundação do Primeiro Museu Estatal da Armênia e encabeçou seus trabalhos, organizou a Associação dos Trabalhadores de Arte e a Faculdade de Arte de Yerevan, criou uma cortina para o Primeiro Teatro Dramático da Armênia, com quem colaborou ativamente.

Em 1926, Saryan foi para Paris, onde ele viveu e trabalhou por um ano e meio, e organizou sua exposição pessoal. Entretanto, a maioria das pinturas parisienses de Saryan pegaram fogo no caminho de volta para a Armênia, num incêndio que começou no Porto de Constantinopla. As únicas pinturas que sobreviveram foram aquelas que ele tinha vendido em Paris, ou aquelas que ele trouxe com ele.

A Grande Guerra Patriótica de 1941-1945 teve um impacto tremendo nos trabalhos de Martiros Saryan: ele vivenciou este evento não apenas de maneira global, mas também pessoalmente, uma vez que seu filho Ghazar foi para o front, mas o artista deu continuidade aos seus trabalhos. Depois da vitória, a vida de Saryan não ficou mais fácil: ele foi acusado de falta de ideologia, adesão à arte burguesa francesa, e formalismo anti-popular. Saryan só respirou livremente depois que Khrushchev assumiu o poder e o descongelamento da URSS começou.

Em 1965, os 85 anos de Martiros foram celebrados com grande festa, e exibições especiais em Moscou, Leningrado, Tbilisi e Yerevan. Naquela época, ele recebeu o título de Herói do Trabalho Socialista. No estúdio Armenfilm, o diretor Laert Vagharshyan fez um documentário dedicado à Saryan, com texto escrito por Ilya Ehrenburg. Em 1966, a memória do artista, “From my Life”, foi publicada. Em 1967, foi aberta sua casa-museu em Yerevan. Saryan não parou de trabalhar até o fim da sua vida: seu último desenho foi feito um mês antes de sua morte. Saryan morreu em 5 de maio de 1972, com 92 anos, e foi enterrado no Panteão de Komitas.

Martiros Saryan é um grande artista, mas sua contribuição para a cultura do povo armênio e para o mundo como um todo não se limitou a isso. Ele provou ser um ótimo organizador e incansável lutador pela preservação da herança cultural. Muitos monumentos no território da Armênia Soviética – por exemplo, a igreja de São Zoravor – foram preservados por esforço de Saryan. Além disso, o artista conseguiu defender a Catedral Armênia de Surb Khach em Rostov, que não só foi destruída, mas em 1958 foi restaurada, algo jamais visto na URSS. Como suplente do Soviete Supremo da URSS e depois da Armênia Soviética, ele apoiou jovens talentos, ajudando-os a entrar nas melhores universidades do país, e cuidou deles de todas as formas que pôde. A magnitude de Saryan não está refletida somente na sua arte brilhante, mas em toda a sua vida.

Porto, amor à primeira vista!

Se no dia 25 de junho eu estava voltando pra Ierevan com o marido, já no dia 29 eu embarquei em outro avião pra encontrar meus pais em Portugal! Fui pra Moscou na noite do dia 29, porque não tem vôo direto de Ierevan pra Portugal, e dia 30 cedinho eu peguei o vôo da TAP que sai do Domodedovo pra Lisboa. Em Lisboa, fiz uma conexão bem corrida pra pegar o vôo curtíssimo pra Porto, onde encontrei meus pais numa chegada bem sincronizada no aeroporto! Eles voaram também de TAP, mas direto do Rio pra Porto.

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Nós nos hospedamos em Vila Nova de Gaia, no Novotel. Vila Nova de Gaia nada mais é do que o outro lado do Rio Douro, onde ficam as principais caves de vinho. Como nós éramos 3 (marido não conseguiu ir comigo por causa do trabalho), optamos por hotéis que oferecessem acomodação em quarto triplo. O Novotel não só oferecia quarto triplo bastante espaçoso como, mesmo pagando pelo café da manhã, foi uma opção mais barata do que outros hotéis do mesmo nível em Porto.

Depois de nos instalarmos, nos arrumamos rapidamente e fomos para o Cais do Porto, mas do lado de Gaia mesmo, na Avenida Diogo Leite, em busca de alimento. Lá, paramos pra comer no restaurante Douro Velho, onde provamos deliciosos bolinhos de bacalhau e bacalhau à Brás acompanhados de vinho verde Casal Garcia, um dos meus vinhos preferidos da vida.

Aliás, se teve uma coisa que eu fiz em Portugal foi matar um pouquinho da saudade do Brasil: não só porque estava com meus pais depois de quase 6 meses sem vê-los, mas também porque o país guarda muito mais semelhanças com o Brasil do que eu pensava. Muito além do idioma, as comidinhas deliciosas que eu cresci comendo estavam todas lá, e eu confesso que me esbaldei!

Naturalmente, o cansaço imperava neste dia em que chegamos, então ficamos um pouquinho ali pelo cais mesmo, já compramos alguns souvenirs nas lojinhas dali, e logo logo voltamos pro hotel. Já fica a dica/spoiler: os souvenirs em Porto são bem mais baratos do que em Lisboa!

No sábado, acordamos com calma e desfrutamos muito do café da manhã super farto do Novotel. Por sinal, não há como tecer elogios suficientes para o hotel e para toda a equipe: o hotel é super bem estruturado e confortável, e conta com uma piscina excelente; a equipe é toda maravilhosa, super atenciosa e solícita. Saímos do hotel e fomos até o Cais do Porto, onde tomamos o ônibus turístico, que foi a nossa melhor escolha pra conhecer diversos pontos turísticos em um único dia já que nossa passagem por Porto era expressa. As opções de bilhete eram de 15 euros pra 24h e 17 euros pra 48h: nós só usaríamos mesmo no sábado, então compramos pra 24h mesmo. Nós demos uma volta completa com o ônibus, num passeio que leva cerca de 2h. Quando voltamos para a Sé do Porto, descemos para almoçar, escolhendo o Picota. No Picota, comemos peixe e frango deliciosos, acompanhados de sangria de verão.

Depois do almoço, subimos novamente no ônibus, desta vez para parar e descer nos lugares que mais despertaram o nosso interesse: a Igreja de São Nicolau, a Escola Superior Artística do Porto, e a Igreja do Carmo, que é uma das construções mais bonitas que eu já vi na minha vida.

A rota do ônibus terminava às 18h, e nós também já estávamos cansados e com fome. Descemos, então, no Cais do Porto e jantamos no Café do Cais, bem ali na beirinha do Rio Douro. O Café do Cais tem um ambiente bacana e o preço é bem justo. Eu e meu pai comemos carne acompanhada de batatas portuguesas, e minha mãe comeu um sanduíche leve de frango grelhado. Minha sobremesa foi pastel de nata, é claro.

Ali perto do Café do Cais também tem várias lojinhas de lembrancinhas, e nós aproveitamos pra arrematar mais algumas coisinhas – mas juro que não foi nem perto do suficiente!! Decidimos ir andando para Vila Nova de Gaia, atravessando a Ponte de D. Luís a pé. De lá, pedimos um Uber para nos levar até o hotel. Cada trecho desse entre o Cais e o hotel dava entre 7-10 euros. Foi quando entramos no Uber que descobrimos que, naquele dia, estava acontecendo a festa de São Pedro da Afurada, ali bem pertinho! Infelizmente não fomos lá conferir pois já estávamos bem cansados e o domingo prometia ser especial – precisávamos, então, descansar!

No domingo, acordamos cedo e fomos à missa na Igreja da Paróquia do Amial. Que gracinha de Igreja! E que missa maravilhosa! Foi minha primeira missa em português em meses e isso contribuiu pra que eu me emocionasse bastante. Depois da missa, voltamos pro hotel, terminamos de ajeitar as coisas, fizemos nosso check-out e almoçamos por lá mesmo. O almoço no Novotel era ótimo, com um farto buffet e 2 opções: buffet frio e de sobremesas a 12,50 euros por pessoa, e buffet completo (frio, quente e sobremesas) a 25 euros por pessoa. Não foi nosso almoço mais barato, mas foi uma excelente opção para economizar tempo, já que tínhamos hora pra ir pra estação de trem.

Pegamos o trem Alfa Pendular e descemos em Coimbra para tomar outro trem que nos levaria, enfim, ao nosso destino: Fátima! Confesso que essa viagem de trem entre Porto e Fátima não foi a melhor opção: além de termos que trocar de trem em Coimbra, a estação de trem em Fátima fica MUITO longe do Santuário. São mais de 40 minutos de táxi, que custa um pouco mais de 30 euros! E o trem de Coimbra pra Fátima ainda atrasou… realmente não recomendo. O melhor jeito de chegar e sair de Fátima é de ônibus – e vou dar mais detalhes sobre isso no post sobre este lugar santo que pudemos visitar.

 

Conexão de 11h em Paris

“Oh, but Paris isn’t for changing planes, it’s for changing your outlook!”

– do filme “Sabrina”, de 1954

Comecei a escrever este post no CDG, enquanto esperava meu voo pro RJ. Cheguei no Brasil anteontem ver a família e cuidar da saúde, e isso me rendeu uma conexão de 11 horas em Paris!

E aí o que a gente faz? Vai pra cidade, é claro!

Considerando que o CDG fica à cerca de 1h do centro da cidade (tanto de trem quanto de carro), acho que, numa conexão longa, vale a pena dar um pulinho na cidade pra fazer algumas coisas bacanas e matar o tempo da melhor forma possível. Afinal, a rotina de aeroporto é muito muito chata, e fica pior ainda sozinha (já tô com saudade do marido, and I’m not even sorry).

Meu plano inicial era pegar o RER pra cidade, em direção a Saint-Germain, mas, logo quando estava chegando na estação aqui do aeroporto, fecharam o acesso à plataforma porque alguém deixou alguma bagagem desacompanhada!! Era um aglomerado tão grande de gente que não consegui nem chegar no guichê de guardar bagagem (queria deixar minha bagagem de mão pra não ficar andando com a malinha a tarde toda; a bagagem despachada em Ierevan eu só vou pegar no RJ). E aí eu tomei a decisão de chamar um uber: são 50 euros (ouch!) no uber x, mas me garantiu chegar na cidade.

Minha primeira parada foi a Capela da Medalha Milagrosa. Das outras 2 vezes em que estive em Paris, não tinha conseguido entrar lá e eu sofria muito com isso. Pra hoje, eu conferi mil vezes que estaria aberta, e finalmente consegui entrar naquele lugar santo! É claro que eu sou incapaz de descrever toda a emoção de estar diante da imagem de Nossa Senhora das Graças no local em que ela apareceu para Santa Catarina. Desde muito pequena eu sou muito devota de Nossa Senhora e sempre faço a novena da Medalha Milagrosa, então eu sonhava muito em ir até a Capela. Só posso agradecer a Deus por este dia ter finalmente chegado!! A Capela da Medalha Milagrosa fica na 140 Rue du Bac, em Saint-Germain.

Quando saí da Capela da Medalha Milagrosa, já passava das 15h e eu ainda não tinha almoçado. Estava chovendo, e eu carregando a bagagem de mão. Decidi entrar na La Grande Épicerie mesmo, que fica coladinha na Capela, e comi uma empanada (não foi um super almoço mas é que eu não tava mais com fome de almoço mesmo).

La Grande Épicerie é conectada ao Le Bon Marché, e foi pra lá que eu fui. Andei bastante pelos vários andares da loja de departamentos e acabei parando mesmo na seção da livraria! Comprei 2 livros novos que acho que serão úteis pra mim.

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Depois dessa comprinha, parei no café Primo Piano que fica coladinho na seção dos livros e pedi o café gourmand deles. Confesso que fiquei decepcionada: dos doces que foram servidos, só o bolinho de chocolate era gostoso. Das outras vezes que fui pra Paris, em todos os lugares onde pedi café gourmand, serviam creme brulée, macarons e um bolinho de chocolate. Mas lá eles serviram uns doces de berries que eu não gosto. Não dá pra acertar sempre na vida né!

Já passava das 16h quando os amigos Guilherme e Thomás foram me encontrar, e, como já tinha parado de chover, ficamos nas mesinhas do lado de fora do café Le Babylone, no melhor jeito parisiense. Pouco depois das 17h, minha querida amiga Rebecca juntou-se a nós. Tomamos café e batemos papinho até 18h30, quando chamei outro uber x pra voltar pro aeroporto (mais 50 euros… ouch de novo!).

Cheguei no aeroporto umas 19h30 e fui pegar o reembolso de imposto das compras que tinha feito na viagem de Portugal e que não tinha aquela agência de reembolso no aeroporto da Grécia. Tava uma fila imensa e só depois das 20h é que eu consegui finalmente passar pela imigração, mas que acabou sendo bem rápida, graças a Deus.

Aproveitei o lounge da Airfrance pra tomar um banho, trocar de roupa e jantar. Depois de um dia inteiro entre aeroportos, avião e passear na rua, poder tomar banho e me trocar antes de entrar no avião foi maravilhoso.

Acho que, numa conexão superior a 6h, em que não seja preciso pegar e despachar bagagem novamente, vale muito a pena dar um passeio pela cidade em que se está! Pode ser que não dê pra fazer muita coisa, mas só de sair do aeroporto já é muito bom! O importante é sempre ficar atento ao tempo de deslocamento entre o aeroporto e a cidade, e também se programar pra chegar de volta ao aeroporto com pelo menos 2h de antecedência, principalmente em voos internacionais.

Khachkars, as cruzes de pedra da Armênia

No primeiro post sobre cultura e história da Armênia, mencionei as Khachkars – as cruzes de pedra da Armênia, que receberam atenção numa matéria bacana da edição de verão da revista Armenia Tourism Magazine (nº18). Elas são tão interessantes que merecem de fato que nós saibamos um pouco mais sobre esta forma de arte!

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Acredita-se que os protótipos das khachkars eram vishaps, criaturas mitológicas, deidades e espíritos da água que, desde os tempos antigos, eram cravadas em pedra sólida. A altura das vishaps eram de 5 metros de altura, segundo os arqueólogos que as descobriram. Entre as imagens esculpidas, encontram-se peixes, pássaros, e outros animais. Depois, o significado das vishaps foi transformado e associado à dragões. A palavra vishap significa dragão. No livro “The Art of Armenia”, de Nonna Stepanyan, descreve-se como, ao longo do tempo, as vishaps foram gradualmente substituídas por monumentos de pedra refletindo a iconografia Cristã. Mais tarde, adotou-se a forma de lápides, que se tornaram a base para criar uma nova forma decorativa, as khachkars.

Em 301, os armênios adotaram oficialmente o Cristianismo, que se tornou a religião do Estado. Isso foi não só um importante evento para a vida espiritual do povo armênio, mas também um prenúncio da identidade escultural. O verdadeiro desenvolvimento e distribuição das khachkars aconteceu muitos séculos depois, quando finalmente tomaram sua forma única. As khachkars se tornaram um símbolo da fé Cristã, um modo de evidenciar o pertencimento dos habitantes ao novo mundo Cristão.

Cada khachkar, feita à mão por talentosos artistas, é única: nenhuma é igual a outra, ainda que todas elas obedeçam a um estilo.

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Desde os tempos antigos, as khachkars não apenas decoraram cemitérios, mas também passaram a ser esculpidas em honra à construção das catedrais e igrejas, construção de novas vilas e em outras ocasiões especiais. Os lugares onde as khachkars são colocadas são considerados santos. Muitas khachkars foram preservadas em antigos cemitérios armênios, onde podem ser admiradas tanto por residentes da Armênia quanto por turistas interessados na cultura do país.

Em muitos aspectos, devido à distribuição das khachkars, a Armênia é, por muitas vezes, considerada um museu a céu aberto, por conta das muitas cruzes de pedra que podem ser encontradas não só em lugares importantes mas também por diversos lugares nas cidades.

A estrutura clássica das khachkars é um bloco de pedra monolítico, com uma cruz esculpida no meio, geralmente a partir de um círculo de galhos ou flores. As imagens ornamentais se ondulam em torno da cruz, por muitas vezes com romãs e videiras, que são os símbolos principais da arte decorativa da Armênia.

O Museu Estatal de História da Armênia, na Praça da República, tem vários exemplares de khachkars expostas. Nelas, pode-se observar a história das khachkars e a evolução das suas formas desde que começaram a ser esculpidas até os dias atuais. Se, nos tempos antigos, os padrões circundavam a cruz, mais tarde as khachkars passaram a se parecer cada vez mais com uma renda feita na pedra, nas quais a cruz se integra perfeitamente ao ornamento. Mais tarde, no lugar das cruzes, começaram também a esculpir letras do alfabeto armênio.

Tradicionalmente, a khachkar é feita de tuff, uma pedra densa, formada de produtos sólidos de erupções vulcânicas, que depois são compactadas e cimentadas. De acordo com Varazdat Hambardzumyan, um grande escultor de Yerevan, é impossível imaginar uma oração armênia em frente à mármore ou granito. Há muitos séculos, as cruzes armênias são feitas de pedra tuff, e os armênios acreditam que esta pedra vulcânica pode absorver todas as coisas negativas como, por exemplo, doenças, das mãos do seu escultor ou de alguém que a tenha tocado.

A pedra tuff é encontrada em diversas cores. Para criar os padrões, os escultores primeiro desenham e depois esculpem a pedra com ferramentas específicas. O polimento das khachkars, quando estão quase prontas, é gentilmente chamado de massagem pelos artistas armênios.

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As khachkars ainda retém sua característica artística principal: apresentar a beleza da pedra. É graças a este princípio que algumas pedras parecem pequenos pedaços de paredes esculpidas, que por vezes são montadas em blocos únicos, tornando-se elementos decorativos da fachada como, por exemplo, em catedrais. As khachkars são um fenômeno original da memória escultural armênia.

Vou terminar este post com um fun fact: quando o marido estava trabalhando no Zimbábue, um armênio que trabalhava com ele deu de presente pra ele uma Khachkars e uma garrafa de conhaque Ararat! Infelizmente a cruz não foi adequadamente transportada entre o Zimbábue e o Brasil e, ao chegar em Brasília, estava absolutamente danificada. Mas o que eu acho mais bacana nesta história toda é que isso aconteceu em 2013, e a gente não fazia ideia de que viríamos morar na Armênia!