Khor Virap: um pouco mais de história!

Pode-se dizer, sem medo de errar, que o principal cartão postal da Armênia, e consequentemente uma das principais atrações turísticas do país, é o mosteiro de Khor Virap, que fica a cerca de 50km do centro de Yerevan. Já teve post aqui no blog sobre a primeira vez que fui visitar este lugar de peregrinação aqui na Armênia, mas hoje quis dedicar mais um tempinho para aprender melhor sobre a história desse lugar e dos personagens que fazem parte dela!

IMG_4465.JPG

Uma capela foi inicialmente erguida no ano de 642 em Khor Virap por Nerses III O Construtor como marco de veneração a São Gregório. Ao longo dos séculos, foi constantemente reconstruída. No ano de 1662, a Igreja da Santa Mãe de Deus (Astvatsatsin) foi construída em torno das ruínas da antiga capela, do mosteiro, do refeitório e dos aposentos dos monges. Hoje em dia, atividades normais da Igreja acontecem ali, um dos lugares mais visitados da Armênia pelos peregrinos (e também pelos turistas). É recomendado que as mulheres, ao visitar a Igreja, cubram a cabeça e não usem roupas muito curtas e/ou decotadas.

A colina de Khor Virap e suas adjacências correspondem ao local da primeira capital da Armênia, Artashat (ou Artaxiasata), fundada pelo Rei Artashes I (o primeiro da dinastia Artashesid) por volta de 180 a.C. Artashat permaneceu como capital da dinastia até o reinado do Rei Khosrov III (330-339), quando foi transferida para Dvin. Subsequentemente, Artashat foi destruída pelo Rei Persa Shapur II. Artashat é uma província muito próxima à colina de Khor Virap. Até a construção da capela, Khor Virap era utilizada como prisão real.

Quando o Rei Tiridates III governava a Armenia, seu assistente era o cristão Grigor Lusavorich, que pregava a religião cristã. Entretanto, Tiridates, um seguidor da religião pagã, não estava contente em ter um conselheiro de outra religião, e submeteu Gregório a torturas severas. Quando o rei soube que o pai de Gregório, Anak o Parthian, foi responsável pelo assassinato do pai do rei, o rei Tiridates III ordenou que fossem atadas as mãos e os pés de Gregório, e que ele fosse abandonado em Khor Virap para que morresse na masmorra profunda localizada em Artashat. Além disso, a refusa de Gregório em oferecer sacrifício a deusa Anahita provocou a ira do rei Tiridates, que o torturou e condenou à prisão.

Gregório foi, então, esquecido na prisão, enquanto o Rei Tiridates III comandavas guerras e perseguições às minorias cristãs. Entretanto, Gregório não morreu durante os seus 13 anos de aprisionamento. Sua sobrevivência foi atribuída a uma viúva cristã da província local que, sob a influência de visões em sonhos, alimentava Gregório regularmente com folhas de pão (provavelmente lavash) que ela levava até a beira do poço que dava acesso à masmorra.

Durante este período, o Imperador Romano Diocletian queria se casar com uma mulher bonita, e mandou seus agentes e busca da mulher mais bela que existisse. Eles encontraram uma menina chamada Rhipsime em Roma, que estava sob a tutela da Madre-Superiora Gayane em um convento cristão. Quando Rhipsime soube da proposta de casamento do Imperador, ela fugiu para a Armênia para evitar as bodas. Uma busca foi iniciada para que se encontrasse a garota e punisse quem a tivesse ajudado a escapar, e eventualmente Tiridates encontrou Rhipsime, levando-a à força ao seu palácio. Depois de tentar cortejá-la, sem sucesso, o rei ordenou que ela fosse levada à sua presença usando uma coleira, na esperança de conseguir persuadir Rhipsime a casar-se com ele.

IMG_4426.JPG

Entretanto, o que sucedeu foi a perseguição e assassinato de Rhipsime, Gaiane e muitos outros cristãos. Tiridates enlouqueceu e acredita-se que ele passou a agir de maneira descontrolada, enquanto demônios possuíam muitos cidadãos. Foi então que a irmã de Tiridates, Khosrovidhukt, teve uma visão à noite, quando um anjo disse a ela sobre o prisioneiro Gregório na cidade de Artashat, que podia pôr fim no sofrimento causado pelos demônios, e ensinaria a eles os remédios para todas as doenças. As pessoas não confiaram muito nesta visão, pois todos acreditavam que Gregório teria morrido após poucos dias do seu aprisionamento. Khosrovidhukt teve o mesmo sonho repetidas vezes, eventualmente sendo ameaçada de que, caso as instruções dos seus sonhos não fossem seguidas, haveria graves consequências. O príncipe Awtay foi confiado com a missão de resgatar Gregório de Khor Virap. Ele foi até a masmorra e gritou para Gregório que, se ele estivesse em algum lugar ali embaixo, que ele saísse, pois o Deus a quem ele adorava tinha ordenado que ele fosse tirado dali. Gregório foi encontrado em estado miserável, e foi levado até Tiridates. O Rei Tiridates tinha enlouquecido, alimentando-se entre os porcos em Valarshapar e arrancando sua própria pele. Gregório curou o Rei Tiridates, trazendo-o de volta às suas capacidades mentais. Gregório soube de todas as atrocidades que foram cometidas, e viu os corpos de muitos mártires que foram cremados. O Rei, acompanhado de sua corte, aproximou-se de Gregório, procurando perdão por todos os pecados que haviam cometido. Daí pra frente, Gregório passou a pregar o cristianismo ao Rei, a sua corte e ao seu exército.

O Rei Tiridates, que abraçou o Cristianismo como sua religião após a sua cura miraculosa, realizada por meio da intervenção divina de Gregório, proclamou o Cristianismo como religião de Estado da Armênia no ano de 301. Gregório se tornou o Bispo de Cesareia, e permaneceu a serviço do Rei até cerca de 314. Uma outra versão atribuída à conversão do Rei Tiridates ao cristianismo é que foi um movimento estratégico para criar uma unidade nacional e vencer a hegemonia dos Persas Zoroastrianos e da Roma pagã e, desde então, a Igreja Cristã tem exercido uma forte influência na Armênia, sendo parte da identidade nacional.

IMG_4413

Khor Virap fica a cerca de 1h de carro do centro de Yerevan, e o percurso de ida e volta num táxi do tipo conforto (com ar condicionado), contabilizando o tempo de espera do motorista, custa por volta de 15.000 AMDs (cerca de US$31). Algumas empresas turísticas oferecem o passeio para Khor Virap e outros pontos históricos da Armênia em roteiros de um dia (day-trip), e custam por volta de 20.000 AMDs (cerca de US$42) por pessoa.

Advertisements

Հայոցգրեր, o alfabeto armênio

O alfabeto armênio (em armênio: Հայոցգրեր) é o sistema de escrita usado para escrever a língua armênia. O alfabeto armênio como se conhece hoje foi desenvolvido por volta de 405 d.C. por Mesrop Mashtots, linguista armênio e líder eclesiástico. A palavra armênia para “alfabeto” é “այբուբեն” (lê-se: aybooben), criada a partir das duas primeiras letras do alfabeto armênio: “Ա” e “Բ”. A língua armênia é escrita horizontalmente, da esquerda para a direita.

IMG_1913.JPG

Uma das principais histórias sobre a existência de um alfabeto armênio antes do desenvolvimento do linguista Mashtots vem de Fílon de Alexandria (20 a.C. – 50 d.C.), que, nos seus registros, nota que o trabalho do filósofo e historiador grego Metrodorus de Scepsis (145 a.C. – 70 a.C.), “Sobre os Animais”, foi traduzido para o armênio. Metrodorus foi um amigo próximo e historiador da corte do Imperador Tigranes o Grande, e também escreveu a sua biografia. Outro teólogo romano do século III, Hippolytus de Roma (170-235 d.C.), em sua obra “Crônica”, menciona que os armênios estão entre as nações que tinham seu próprio alfabeto distinto ao escrever sobre a sua contemporaneidade. Filóstrato o Ateniense, filósofo sofista dos séculos II e III, escreveu sobre inscrições no alfabeto armênio.

De acordo com Movses Khorenatsi, historiador armênio do século V, Bardesanes de Edessa (154-222 d.C.), que fundou a corrente gnóstica dos Bardaisanites, foi até o castelo armênio de Ani e, lá, leu o trabalho de Voghyump, um sacerdote armênio pré-cristão, registrado no manuscrito de Mithraic dos templos armênios nos quais, entre outras histórias, notava-se o episódio do Rei Armênio Tigranes VII (que reinou entre 144-161 d.C. e novamente entre 164-188 d.C.) erguendo um monumento na tumba do seu irmão, o Alto Sacerdote Mithraic do Reino da Grande Armênia, Mazhan. Khorenatsi notou que Bardesanes traduziu este livro armênio para o aramaico, e depois para o grego. Outra importante evidência da existência de um alfabeto armênio antes de Mashtots é o fato de que o panteão pagão armênio incluiu Tir, o deus da Escrita e da Ciência.

Vardan Areveltsi, historiador armênio do século XIII, notou que, durante o reinado do Rei Armênio Leo o Magnífico (entre 1187 e 1219), foram encontrados artefatos com inscrições em armênio sobre os deuses pagãos antigos. A evidência de que os acadêmicos armênios da Idade Média sabiam da existência de um alfabeto pré-Mashtotsiano também pode ser encontrada em outros trabalhos medievais, incluindo o primeiro livro escrito com o alfabeto Mashtotsiano pelo pupilo de Mashtots, Koriwn, na primeira metade do século V. Koriwn revela que Mashtots foi instruído sobre a existência de letras armênias antigas, que ele inicialmente tentava integrar ao seu próprio alfabeto.

O alfabeto armênio foi introduzido por Mersrop Mashtots e Isaac da Armênia (Sahak Partev) em 405 d.C. As fontes armênias medievais também alegam que Mashtots inventou os alfabetos georgiano e caucasiano-albaniano na mesma época. Entretanto, a maioria dos acadêmicos relaciona a criação dos manuscritos georgianos ao processo de cristianização da Ibéria, centro do reino georgiano de Kartli. O alfabeto foi, portanto, muito provavelmente criado entre a conversão da Ibéria sob o Rei Mirian III e as inscrições Bir el Qutt de 430 d.C., contemporaneamente ao alfabeto armênio. Tradicionalmente, acredita-se que a primeira frase a ter sido escrita em armênio por Mashtots seja “Para se conhecer a sabedoria e a instrução; para se entenderem as palavras da prudência” (Provérbios 1, 2).

Muitos manuscritos foram creditados como protótipos do alfabeto armênio. Pahlavi era o manuscrito sacerdotal em armênio antes da introdução do cristianismo, e siríaco, junto do grego, foi um dos alfabetos da Escritura Cristã. O armênio mostra algumas similaridades com estes alfabetos, mas o consenso geral é de que o alfabeto armênio foi modelado de acordo com o alfabeto grego, suplementado com letras de diferentes fontes para sons armênios que não são encontrados no grego. Algumas evidências sustentam este argumento: a ordem do alfabeto armênio, o conector ow para a vogal u, e as formas de algumas letras que parecem derivar das letras cursivas gregas.

Existem quatro principais caligrafias dos manuscritos. Erkatagir, ou “letras de ferro”, são como as letras originais de Mashtots, usadas nos manuscritos entre os séculos V e XIII, e ainda escolhidas para inscrições epigráficas. Bolrgir, ou “cursiva”, que foi inventada no século X, ficou popular no século XIII, e tem sido a impressão padrão desde o século XVI. Notrgir, ou “minúscula”, inventada inicialmente para ter mais agilidade, foi extensivamente usada pela diáspora armênia nos séculos XVI e XVIII, e depois se tornou popular nas impressões. Sheghagir, ou “escrita inclinada”, é, agora, a forma mais comum.

O exemplo mais antigo sobre o uso do alfabeto armênio foi uma dedicatória inscrita sobre a porta oeste da Igreja de São Sarkis em Tekor, datada 480 d.C. O exemplo vivo mais antigo desses manuscritos fora da Armênia é uma inscrição num mosaico da metade do século XI numa capela em Jerusalém. Agora na Biblioteque Nationale de France, um papiro descoberto em 1892 em Fayyum, contendo palavras gregas escritas com letras armênias foi datado, em termos históricos, para um período anterior a conquista do Egito – ou seja, antes de 640 d.C. – e em termos paleográficos ao século VI. Os mais antigos manuscritos com letras armênias na língua armênia datam dos séculos VII/VIII.

Algumas mudanças na língua não foram refletidas imediatamente na ortografia. O dígrafo աւ(au) seguido por uma consoante era pronunciado como “au” no armênio clássico mas, por conta de uma mudança de sons, passou a ser pronunciado como “o”, e tem sido escrito como “o” desde o século XIII. Por exemplo, a palavra“աւր” (lê-se “awr” e significa “dia”) passou a ser pronunciada “or” e agora é escrita “օր”. Por essa razão, hoje, há palavras armênias nativas que começam com a letra “o” embora esta letra tenha sido adaptada do alfabeto grego para escrever palavras estrangeiras que começavam com “o”.

O número e ordem das letras foram modificados com o tempo. Na Idade Média, duas novas letras (օ [o], ֆ [f])foram introduzidas para melhor representar sons estrangeiros, o que aumentou o número de letras de 36 para 38. Entre 1922 e 1924, a Armênia Soviética adotou uma reforma ortográfica da língua armênia: a reforma transformou o dígrafo “ու” e o conector “և” em duas novas letras. Aqueles fora da esfera soviética (incluindo os armênios ocidentais e os armênios orientais do Irã) rejeitaram as reformas ortográficas, e continuam usando a ortografia tradicional armênia, enquanto criticam alguns aspectos das reformas e alegam motivações políticas por trás delas.

O alfabeto armênio é celebrado em Yerevan na avenida Mesrop Mashtots, que homenageia o linguista armênio, e que também abriga o Mesrop Mashtots Institute of Ancient Manuscripts, também conhecido como Matenadaran.

Auschwitz-Birkenau, memória viva do Holocausto

Já estamos em Budapeste! Estávamos em Cracóvia até anteontem, dormimos uma noite em Brno (a 2a. maior cidade da República Tcheca), e chegamos hoje na Hungria! Quem está acompanhando #letíciadeférias no instagram está vendo todas as nossas aventuras em tempo real (ou quase!). Mas é claro que não vou deixar de escrever detalhes sobre o que estamos fazendo por aqui!

img_3248
a famosa entrada do campo de concentração Auschwitz I, com os dizeres “arbeit macht frei” (o trabalho liberta)

Enquanto estávamos em Cracóvia, fomos visitar os campos de concentração e exterminação nazista Auschwitz-Birkenau, que ficam a cerca de 65km do centro de Cracóvia. Mesmo tendo alugado um carro pra essa viagem (já passamos dos 1000km!), optamos por fazer o tour guiado com a empresa Escape2Poland. Foi uma visita muito emocionante e intensa.

Auschwitz se tornou um símbolo do terror, do genocídio e do Holocausto. Foi criado em 1940 pelos alemães nos subúrbios de Oswiecim, uma cidade polonesa que tinha sido anexada ao Terceiro Reich pelos Nazistas. O seu nome foi modificado para Auschwitz, que também se tornou o nome do campo de concentração (Konzentrationslager Auschwitz). A principal razão para criação desse campo de concentração foi o aumento das prisões em massa dos poloneses, que excediam as capacidades das prisões locais existentes. O primeiro transporte de poloneses chegou até Auschwitz da prisão de Tarnów em 14 de junho de 1940. Inicialmente, Auschwitz seria mais um dos campos de concentração que os nazistas estavam estabelecendo desde o começo da década de 1930, funcionando de acordo com seu papel por todos os anos em que foi usado, mesmo quando, em 1942, se tornou o maior dos campos de extermínio.

O primeiro e mais antigo campo de concentração e extermínio era o chamado “campo principal”, mais tarde conhecido como Auschwitz I (o número de prisioneiros flutuava em torno de 15 mil, às vezes ficando acima de 20 mil), estabelecido nas terras e prédios dos quartéis pré-guerra.

A segunda parte era o campo de Birkenau (que abrigou mais de 90 mil prisioneiros em 1944), também conhecido como Auschwitz II. Este era o maior terreno do complexo de Auschwitz. Os nazistas começaram a construí-lo em 1941 na vila de Brzezinka, a 3km de Oswiecim. A população civil polonesa foi despejada, e suas casas confiscadas e demolidas. A maior parte do aparato de exterminação em massa foi construído em Birkenau, e a maioria das vítimas era assassinada ali: 1 em cada 6 vítimas do Holocausto foi morta neste campo de concentração.

Mais de 40 sub-campos, explorando os prisioneiros e trabalhadores escravos, foram fundados, muitos na forma de diversas indústrias e fazendas alemãs, entre 1942 e 1944. O maior deles era chamado Buna (Monowitz, com 10 mil prisioneiros) e foi aberto pela administração do campo em 1942 nas terras de Buna-Werke à 6km do campo de Auschwitz. Em novembro de 1943, o sub-campo de Buna se tornou o centro de comando da terceira parte do campo, Auschwitz III, ao qual alguns outros sub-campos de Auschwitz eram subordinados.

Os alemães isolaram todos os campos e sub-campos do mundo exterior, e os cercavam com arame farpado. Todo contato com o mundo exterior era proibido. Entretanto, a área administrada pelo comandante e patrulhada pela tropa da SS ia além das terras cercadas por arame farpado, incluindo uma área adicional de aproximadamente 40 quilômetros quadrados (a chamada “Interessengebiet”, a área de interesse), que fica em torno dos campos de Auschwitz I e Auschwitz II-Birkenau.

A população local, os poloneses e judeus vivendo perto do campo recém-fundado, foi despejada entre 1940-1941. Aproximadamente mil das suas casas foram demolidas. Outros prédios foram designados para oficiais e oficiais não-comissionados da tropa da SS do campo, que as vezes estavam acompanhados de todos das suas respectivas famílias. As instalações industriais do pré-guerra na área, tomada pelos alemães, era expandida em alguns casos e, em outro, demolidas para abrir espaço para novas instalações associadas às necessidades militares do Terceiro Reich. A administração do campo usava a zona em torno dele para apoio técnico, workshop, depósitos, escritórios e quartéis para a SS.

Ao chegar no campo de concentração de Auschwitz, os prisioneiros eram selecionados entre aqueles aptos para trabalhar, e aqueles que sediam mortos imediatamente. Os médicos pediam aos prisioneiros que deixassem seus pertences, e entregavam a eles um sabonete para que fossem “tomar banho”; os prisioneiros eram, então, encaminhados para as câmaras de gás. Outros prisioneiros eram assassinados por meio de injeções letais. Estas práticas tinham sido suspendidas temporariamente durante a primavera de 1943, mas foi retomada em seguida para matar prisioneiros judeus.

Registros documentais dos Campos (Zugangslisten Jugen) indicam que, dos 973 judeus provindos da Eslováquia em 17/abril/1942, apenas 88 ainda estavam vivos menos de 4 meses depois. A maioria dos prisioneiros judeus tinha o mesmo destino; eles constituíam a categoria mais baixa na população multiétnica do campo de concentração, que também consistia de poloneses, russos, tchecos, bielorrussos, alemães, franceses, iugoslavos, ucranianos, entre tantas outras nacionalidades e minorias como homossexuais, ciganos, testemunhas de Jeová, etc.

As punições eram aplicadas em Auscwitz de acordo com ordens escritas do comandante ou do diretor do campo, bem como por relatórios dos oficiais da SS e prisioneiros funcionários. As infrações mais comumente punidas incluíam todos os tipos de tentativas de conseguir comida, várias formas de tentar fugir do trabalho ou trabalho de forma insatisfatória, fumar ou até mesmo atender às necessidades fisiológicas em horas impróprias, usar roupas diferentes dos uniformes, ou tentativas de suicídio. As punições eram completamente arbitrárias. Os prisioneiros recebiam penas diferentes para as mesmas infrações. As punições mais frequentes eram as flagelações, confinamento no bloco 11 do campo principal, e tortura por enforcamento.

A participação de inúmeros médicos alemães em experimentos médicos criminosos nos prisioneiros dos campos de concentração era uma instância particularmente drástica do atropelo da ética médica. Os iniciadores e facilitadores destes experimentos eram o Reichsführer SS Heinrich Himmler, o médico chefe, junto do SS-Obergruppenführer Ernst Grawitz, o chefe de polícia, e do SS-Standartenführer Wolfram Sievers, o secretário geral da Associação de Herança (Ahnenerbe Association) e diretor do Waffen SS Instituto Militar-Científico de Pesquisa.

O SS-WVHA (Escritório Principal de Economia e Administração da SS, responsável pelos campos de concentração desde março de 1942) tinha autoridade administrativa e financeira. O apoio na forma de estudos analíticos especializados veio do Waffenn SS Instituto de Higiene, dirigido pelo SS-Oberführer Joachim Mrugowsky, professor mestre de bacteriologia na Escola de Medicina da Universidade de Berlim.

Os experimentos eram planejados nos mais altos níveis para atender às necessidades do exército (alguns pretendiam melhorar a saúde dos soldados) ou planos pós-guerra (incluindo políticas populacionais), ou para reforçar as bases da ideologia racial (incluindo visões avançadas quando à superioridade da “raça nórdica”). Além dos experimentos planejados nos níveis mais altos, muitos médicos nazistas experimentavam nos prisioneiros em nome das companhias farmacêuticas ou institutos médicos alemães. Outros o faziam por interesse pessoal, ou para avançar em suas carreiras acadêmicas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os médicos nazistas se apoiavam nas expectativas das lideranças do Terceiro Reich, apoiando as políticas demográficas do regime. Eles iniciaram uma ampla pesquisa em métodos de esterilização em massa que seriam aplicados aos povos que eram vistos como inferiores.

Quando o Exército Vermelho chegou à linha de Vistula-Wisłoka em julho/agosto de 1944, a menos de 200km de Oświęcim, a liderança germânica considerava duas opções para o campo: liquidação, no caso de sucesso contínuo do Exército Vermelho, ou manter o campo de pé sob circunstâncias favoráveis. Os alemães, então, começaram uma série de passos de evacuação/liquidação, que durou até o meio de janeiro de 1945, mas evitaram fazer qualquer coisa que pudesse impedir que o campo continuasse funcionando.

Na segunda metade de 1944 e nas duas primeiras semanas de janeiro de 1945, cerca de 65 mil prisioneiros, incluindo quase todos os poloneses, russos e tchecos que restavam no campo (cerca de 15 mil homens e mulheres) foram evacuados para várias plantas industriais nas profundezas do Reich. Entretanto, cerca de 65 mil outros prisioneiros foram mantidos em Auschwitz até o último segundo. A maioria deles foi empregada nas plantas da região industrial da Silesia do Norte e outros centros próximos que eram importantes para manter o potencial de guerra germânico. Em dezembro de 1944, oficiais germânicos da indústria química se encontraram em Katowice para discutir meios de aumentar a produtividade dos prisioneiros de Auschwitz que trabalhariam nas suas plantas industriais no ano seguinte. No começo de janeiro, poucas semanas antes do Exército Vermelho chegar até o norte da Silesia, o trabalho continuou a equipar o recém-fundado sub-campo de Hubertshütte, num moinho de aço em Bytom-Łagiewniki.

A exterminação em massa dos judeus nas câmaras de gás terminou em novembro de 1944. A maioria dos prisioneiros judeus que trabalhavam no crematório e nas câmaras de gás foram liquidados em setembro, outubro e novembro como testemunhas da exterminação. Mais de 400 judeus morreram durante um motim realizado por uma equipe do crematório (Sonderkommando) em 7 de outubro de 1944. Muitos membros do Sonderkommando foram mantidos vivos até a liquidação final do campo.

O Crematório IV, avariado durante o motim do Sonderkommando, foi destruído no fim de 1944. Em novembro e dezembro, os alemães fizeram preparações para explodir os outros 3 prédios de crematórios. Eles desinstalaram o equipamento técnico das câmaras de gás e o salão de fornalha dos crematórios II e III, e enviaram a maioria desses equipamentos para as profundezas da Alemanha. Entretanto, deixaram o crematório V e suas câmaras de gás funcionando até a segunda metade de janeiro de 1945.

Ao fim de 1944, como parte dos esforços de remover as evidências dos crimes cometidos em Auschwitz, eles rapidamente liquidaram os fossos cheios de cinzas humanas (os fossos onde eles queimavam corpos e outros onde eles despejavam as cinzas dos crematórios) em Auschwitz-Birkenau. Eles intensificaram a rotina de destruição dos registros que não eram mais necessários, incluindo arquivos e listas de prisioneiros. Eles também passaram a queimar as listas com os nomes dos judeus deportados para morrer em Auschwitz.

Nos últimos meses em que o campo de concentração de Auschwitz esteve em operação, os alemães enviaram uma grande quantidade de material de construção e itens saqueados dos judeus vítimas das exterminações em massa. Na metade de janeiro de 1945, pouco antes da ofensiva Vistula-Oder do Exército Vermelho, os alemães começaram a evacuação final e liquidação do campo.

Entre 17 e 21 de janeiro, os alemães marcharam aproximadamente 56 mil prisioneiros para fora de Auschwitz e seus sub-campos nas colunas de evacuação, em sua maioria na direção oeste, pela Silesia do norte e do sul. 2 dias depois, eles evacuaram 2 mil prisioneiros em trens dos sub-campos de Świętochłowice e Siemianowice. As principais rotas de evacuação levavam a Wodzisław Sląski e Gliwice, onde as muitas colunas de evacuação eram fundidas em transportes ferroviários. Do sub-campo de Jaworzno, 3.200 prisioneiros fizeram uma das maiores marchas: 250km até o Campo de Concentração Gross-Rosen na Silesia do sul.

As colunas de evacuação deveriam ser formadas somente pelas pessoas saudáveis com força suficiente para marchar muitos quilômetros. Entretanto, na prática, prisioneiros doentes e enfraquecidos também se voluntariaram, porque pensaram (e com alguma razão) que os alemães iriam matar aqueles que ficassem pra trás. Crianças judias e polonesas também marcharam com os adultos.

Ao longo de todas as rotas, os guardas da SS atiravam nos prisioneiros que tentavam escapar e aqueles que estavam fisicamente exaustos para continuar no mesmo ritmo dos seus companheiros desafortunados. Milhares de corpos dos prisioneiros que foram assassinados ou que morreram de fatiga ou exposição ao frio ficavam alinhados ao longo das rotas por onde todos os outros prisioneiros passavam a pé ou de trem. Apenas na Silesia do norte, cerca de 3 mil prisioneiros morreram. Estima-se que pelo menos 9 mil (e mais provavelmente 15 mil) prisioneiros de Auschwitz perderam suas vidas nas operações de evacuação. Depois da guerra, estas rotas ficaram conhecidas como “Marchas da Morte”. Um dos poucos documentos nazistas existentes sobre as Marchas da Morte é um relatório da SS de 13 de março de 1945 na chegada no campo de Leitmeritz na Boêmia, de 58 prisioneiros evacuados do sub-campo Hubertushütte de Auschwitz. O relatório indica que 144 prisioneiros (a maioria judeus) morreram na rota.

10741575344_img_4824

Massacres de prisioneiros aconteceram em alguns lugares ao longo das rotas de evacuação. Na estação de trem Leszczyny/Rzędówka perto de Rybnik, na noite de 21 para 22 de janeiro de 1945, um trem carregando cerca de 2.500 prisioneiros de Gliwice parou. Na tarde de 22 de janeiro, os prisioneiros receberam a ordem de desembarcar. Alguns deles estavam muito exaustos para fazê-lo. Homens da SS da comitiva e a polícia nazista local dispararam tiros contra as portas abertas dos vagões dos trens. Os alemães então conduziram os prisioneiros remanescentes na direção oeste. Depois que eles marcharam, mais de 300 corpos de prisioneiros que tinham sido atingidos pelos tiros ou tinham morrido de exaustão foram recolhidos da estação e suas imediações. Muitos residentes poloneses e tchecos de lugarejos ao longo da rota de evacuação procuravam ajudar os prisioneiros. Em grande parte, davam a eles água e comida, e também abrigavam aqueles que conseguiam escapar.

Caminhar por aqueles lugares onde tanto sofrimento e tanto sangue foi derramado foi uma experiência indescritível, que certamente ficará marcada para sempre em mim. As consequências do nazi-fascismo parecem estar vivas até hoje em Auschwitz, para que não nos esqueçamos e jamais permitamos que este horror se repita em nenhum lugar do mundo. Fascismo nunca mais!

Monet no Albertina Museum

Quem me segue no Instagram já está acompanhando mais um período movimentado na hashtag #letíciadeférias! Passei por Paris e Londres com meus pais, depois Moscou com o marido, uma pequena paradinha de 6 dias em Yerevan e já estamos em Viena! Hoje visitamos o Albertina Museum, que inaugurou há poucos dias uma exposição temporária reunindo obras de Claude Monet (1840-1926).

IMG_4469

Monet é o principal representante do impressionismo, e é conhecido como o mestre da luz francês, além de ser um dos pioneiros da pintura do século XX. As cores e a luz das pinturas de Monet mudam nas telas de acordo com a transformação constante da natureza, bem como a diversidade das suas impressões atmosféricas. Monet tinha urgência em capturar a diversidade dos elementos da natureza, e isso o estimulava a criar suas séries de pinturas – por vezes, o artista pintava 4 quadros ao mesmo tempo, objetivando capturar as mudanças de iluminação e cores da maneira mais real possível!

O Museu Albertina, entre 21 de setembro de 2018 e 6 de janeiro de 2019, dedica uma ampla exibição ao tratamento que Claude Monet dava às cores, bem como à apaixonada fascinação do pintor com o jardim da sua casa em Giverny. Com o apoio do Musée Marmottan Monet, 3 pinturas do acervo do museu Albertina se juntam a diversas obras emprestadas por outros museus e coleções privadas para iluminar o desenvolvimento de Monet do realismo para o impressionismo, e em seguida para um modo de pintura em que as cores e as luzes gradualmente se separavam dos sujeitos que as refletiam. Tais pinturas abririam caminho para o expressionismo abstrato após a morte de Monet.

O ingresso para o Museu, que dá acesso à todas as galerias e exposições, custa 14 euros. O Albertina Museum está aberto todos os dias entre 10h e 18h, ficando aberto até 21h nas quartas e sextas feiras. As estações de metrô mais próximas são Karlsplatz/Oper (linhas U1, U2, U4) e Stephansplatz (linha U3).