60 dias em casa

60 dias em casa. São 60 dias sem saber o que é andar pela rua, sem sentir o vento balançar o cabelo, sem pegar ônibus, sem andar no Bolinha nem de Patineco, sem ver e/ou interagir com outras pessoas.

Tenho dias melhores, e dias piores. Tive crise de asma semana passada, e nessa semana a sinusite está querendo me pegar. Estou tentando evitar ir ao hospital neste momento – por ser parte de um dos grupos de risco, eu ainda não me sinto confortável pra sair de casa, embora o governo já tenha começado a relaxar a quarentena por aqui.

Tem dias que eu acordo muito animada pra me exercitar, e tem dias que eu só quero ficar no sofá. Tem dias que escrevo 3, 4, 5 páginas. Tem dias que estudo muito. Tem dias que eu só quero ver Disney+. Tem dias que eu esqueço de beber água. Tem dias que eu quero comer tudo o que tá na minha frente.

Tem dias que eu leio todas as notícias. Tem dias que eu só leio as manchetes da página principal dos jornais. Tem dias que não estou disposta nem pra isso.

Tem dias que eu choro diante da minha impotência, pensando em todas as pessoas que não tem uma casa onde se abrigar, nem comida pra comer. Choro pensando nas famílias das pessoas que morreram por conta do covid-19, principalmente por aqueles que nem conseguiram o diagnóstico. Tem dias que eu choro pelo Brasil.

Mas também tem dias em que eu sorrio bem mais do que eu choro. Tem dias que as alegrias são maiores do que as tristezas. As vezes é por causa do canto dos pássaros. As vezes é porque chegou a compra do mercado e, mesmo tendo que higienizar tudo antes de guardar, me dá alegria ter tanta coisa boa pra comer. As vezes a razão da alegria é ficar horas no FaceTime com meus pais. E todos os dias eu fico feliz porque o marido está trabalhando de casa, dividindo o home office comigo.

Aqui em casa, nós tentamos manter a rotina o mais normal possível. Continuamos acordando cedo, continuamos dormindo cedo. Continuei pintando minhas unhas às quintas feiras, e cuidando das unhas dos meus pés a cada 15 dias, porque isso me faz sentir um pouco de normalidade. Continuamos mantendo nossos horários das refeições, continuamos comendo pizza aos domingos, continuamos tendo bolo pros lanches dos finais de semana (graças as aptidões do marido). Continuamos sendo muito companheiros um do outro, porque há muito descobrimos que só temos um ao outro.

Eu ainda não sei quando vou sair de casa. Eu ainda não sei quando vou poder ir ao supermercado, à farmácia, ao correio, à papelaria (entre outras coisas, estou precisando urgentemente de uma pasta pra organizar meus papéis). Eu ainda não sei quando vou rever meus pais, meus amigos, minha família.

Em um momento de tantas incertezas, a única certeza que eu tenho é que a gente precisa se cuidar, a gente precisa se preservar, a gente precisa preservar o sistema de saúde e todas as pessoas que são obrigadas a trabalhar em meio a pandemia. A gente tem a obrigação de fazer a nossa parte, que nem é tão difícil assim. A gente só precisa ficar em casa mais um pouco. Quanto mais ficarmos em casa agora, mais rapidamente vamos poder nos ver de novo.

Coincidentemente, hoje faz 20 anos desde que Harry Potter foi publicado no Brasil pela Editora Rocco.

2 Comments

  1. Nane

    Que crônica linda Letícia! Assim como todas as outras que você fez sobre os sentimentos durante esse período. Me vejo refletida em cada uma delas, compartilhando dos mesmos sentimentos, das mesmas incertezas e angústias, mas também de momentos de felicidades parecidos… todos encontrados nos detalhes. Porém, tenho um momento de felicidade a mais, que é poder ler seus textos. Stay strong ❤ Vamos sair disso tudo em breve.

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