Um texto desconexo

Dizer que 2020 foi um ano difícil é um eufemismo tremendo.

Se 2019 foi um ano definido por uma grande mudança – desde a preparação para sair da Armênia até a adaptação depois de chegarmos na Suíça, passando pela entrada no doutorado (que já seria uma enorme mudança por si só!) -, 2020 começou com a promessa de dias tranquilos, de conhecer gente nas aulas na Universidade, de trocar, de crescer.

De tudo, só se cumpriu o crescimento.

Desde que eu me entendo por gente, eu acredito que o sofrimento oferece pra gente a grande chance de aprender e crescer. E 2020 foi, sim, marcado pelo sofrimento. Mas eu tentei aprender muito com ele.

E todo o medo, o desespero
E a alegria
E a tempestade, a falsidade
A calmaria
E os teus espinhos
E o frio que eu sinto
Isso vai passar
Também

Pra mim, desde que nós saímos do Brasil, o mais difícil de tudo sempre foi encarar a distância dos meus pais, da minha família e dos meus amigos. Estar longe de tudo que nos traz conforto no dia a dia já era difícil pra mim num contexto normal, e isso foi potencializado esse ano, por conta de todas as incertezas e o isolamento completo. Não saber quando eu vou poder reencontrar meus pais é o que mais me dói o tempo todo, ao mesmo tempo que eu aprendo a descobrir em mim uma força que eu nem sabia que eu tinha.

Nesse ano, eu me reconectei com várias partes de mim mesma, e muitas delas que precisavam ser curadas. Muita coisa ainda é um processo, mas eu sinto que, nesse ano, eu consegui me apropriar ainda mais da mulher que eu sou.

Uma dessas reconexões foi com o meu amor por Sandy & Junior, e pelos dois individualmente. Eu fui muito fã de Sandy & Junior a minha vida inteira, mas eu neguei isso por alguns anos por conta do bullying que eu sofria. Parte do combustível pro bullying era justamente o meu amor pela dupla e a possibilidade que eu tinha de consumir o que eles produziam, de ir aos shows, comprar os CDs e DVDs, etc. Ao perceber isso, logo depois do lançamento do álbum “Identidade”, eu tentei criar uma nova identidade pra mim mesma, rejeitando esse amor que morava dentro de mim pra tentar ser aceita pelos meus colegas. É claro que não adiantou.

O bullying não parou porque eu não manifestava mais o meu amor por Sandy & Junior, porque eu não mais ia aos shows, porque eu não mais comprava os discos deles. Eu precisei mudar de colégio pra que eu parasse de sofrer bullying. Só que eu tava tão machucada, e é claro que aos 14 anos eu não tinha a maturidade que eu tenho hoje, que eu nem pensei em retomar, naquele momento, essa parte tão importante de mim. Ficou lá, adormecida, machucada pelas memórias ruins do sofrimento do bullying.

Eu lembro que, quando eles anunciaram o fim da dupla, eu me senti muito mal, mas eu ainda não tinha força suficiente pra me reconectar com essa parte de mim, com essa parte da minha história. Só que essa reconexão que eu me permiti profundamente nesse ano não começou agora.

Foi em 2015 que eu comecei a me reconectar com essa parte de mim. Primeiro, resgatando do alto de um dos armários lá de casa o meu teclado de Sandy & Junior, no qual eu dedilhava As Quatro Estações. Depois, no dia seguinte de dar uma limpa nos meus CDs e decidir não me desfazer da coleção de Sandy & Junior porque eu não podia traí-los dessa forma, ao ver os dois a menos de 3m de mim no aeroporto.

Eu ainda sinto as emoções daquele dia de uma maneira muito intensa, como se eu estivesse revivendo aquela hora em loop. Eu lembro com perfeição de detalhes de ter passado praticamente uma hora tremendo da cabeça aos pés enquanto tentava comer meu sanduíche (que, na época, era meu jantar característico no aeroporto) observando a Sandy e o Junior tão perto de mim. Eu falava no telefone com a minha mãe, e ela ficou preocupada de eu ter um troço no aeroporto. Eu tentava reunir coragem pra ir falar com eles, mas até eu ter coragem suficiente de me aproximar, cada um foi pegar seu respectivo voo, e eu acabei indo atrás do Junior – que foi tão atencioso e tão querido que eu queria poder agradecer a ele por aqueles minutos que ele conversou comigo.

No ano passado, com a turnê Nossa História, eu queria MUITO ter ido. MUITO. Eu não consigo nem dizer o quanto. Eu sentia que precisava estar presente. Mas eu não consegui. Se eu imaginasse que 2020 seria desse jeito, eu não só teria dado meus pulos pra ir no show em Portugal (mesmo tendo sido na véspera da entrega da mudança aqui), mas também teria ido a todos os shows no Brasil e até em Nova Iorque.

Mas foi em 2020 que eu dei as mãos pra Letícia de 13 anos e me reconciliei com ela. Foi nesse ano que eu compreendi o porquê de ter me afastado dessa parte de mim, e foi nesse ano que eu consegui me reconectar com isso que eu sinto pela Sandy, pelo Junior, e por Sandy & Junior. A minha história se confunde com a deles em tantas coisas que é mesmo a Nossa História.

No primeiro disco solo da Sandy, “Manuscrito”, de 2010, ela lançou a música “Tempo”. Mas foi só nesse ano, 10 anos depois do seu lançamento, que essa música me tocou profundamente. Ela foi a minha trilha sonora de 2020: “isso vai passar também“.

O meu maior arrependimento de 2020 foi, certamente, não ter ido passar o carnaval no Brasil. Nós decidimos não ir porque a semana do carnaval correspondia à primeira semana do semestre letivo, e eu não sabia se teria alguma atividade presencial com a antecedência necessária pra comprar as passagens. Hoje, eu me arrependo de não ter “chutado o balde” pra festejar com meus amigos no Maior Show da Terra.

Eu sempre fui uma pessoa que gosta de ficar em casa. Mas nesse ano em que eu me vi obrigada a ficar dentro de casa, eu fiquei incomodada com isso. Por duas vezes, estivemos de férias e não nos sentíamos livres pra sair, passear, quem dirá viajar.

As aulas foram online. Eu nunca passei tanto tempo diante de telas. E precisou chegar novembro pra eu me questionar e começar a entender o que é mesmo importante pra mim, o que é prioritário, o que merece minha energia e minha atenção.

2020 foi o ano em que eu, finalmente, coloquei toda a disciplina que me é característica para cuidar da minha pele, e é a primeira vez em muito tempo que o inverno começa e meu rosto não está totalmente ressecado. Ainda preciso aprimorar a hidratação das mãos, que estão sacrificadas de tanto higienizar coisas.

E também esse foi o ano em que eu mais me exercitei em toda a minha vida, e isso, pra mim, é uma vitória tremenda. Eu sempre tive pavor de exercícios físicos, e ainda é uma vitória diária me encaminhar pro nosso “espacinho fitness” e dedicar uma horinha do meu dia pra me mexer.

No dia a dia, eu continuo tentando aprofundar a minha fé. Eu nunca passei tanto tempo sem ir à igreja, mas eu tentei trazê-la pra dentro de casa todos os dias – fosse pelas missas transmitidas pela tv ou internet, ou pela meditação silenciosa da liturgia. A música também me ajuda a aprofundar a minha fé – eu realmente acredito que, quem canta, reza duas vezes.

Tudo passa. Meu pai sempre diz que 31 de dezembro chega na mesma hora pra todo mundo. E, nesse ano que parecia não ter fim, 31 de dezembro finalmente chegou. 2021 vem chegando com a promessa da vacina e, eu espero, com a possibilidade da reabertura das fronteiras, da gente poder receber nossos pais aqui, da gente poder ir ver nossa família e amigos no Brasil, de trazer de volta e dobrar todos os abraços que não pudemos abraçar nos últimos 366 dias.

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