1 ano em isolamento

Não dá pra dizer que parece que foi ontem, ao mesmo tempo em que parece que foi.

O 1º caso confirmado de coronavírus na Suíça foi em 25.02.2020. Em poucos dias, novos casos começaram a pipocar pelo país todo – em 03.03.2020, já eram 56 casos confirmados. Os meus primeiros dias de isolamento, começando em 02.03.2020, não foram exatamente propositais, embora eu já ensaiasse não sair de casa até que a situação melhorasse. De todo modo, acabaram sendo adicionados à conta dos primeiros 102 dias sem sair de casa. Na verdade, eu tomei a decisão consciente de não sair mais uns poucos dias depois.

dias iguais

Neste um ano isolada, eu saí (bem) menos de 30 vezes, eu tive quase nenhum contato com outras pessoas, e todas as minhas interações foram realizadas de máscara. Faz um ano que eu não vou nem tirar o lixo sem máscara. Das interações que tive, 90% foram resultantes de necessários cuidados com a saúde – check up no hospital, exame de vista, buscar remédios na farmácia – ou das entregas das compras de supermercado. Meu Deus, tem mais de um ano que eu não faço uma compra de supermercado no supermercado. Os outros 10% de interações eu deixo por conta das vezes que encontrei com os vizinhos nas escadas quando ia tirar o lixo ou buscar o correio, ou das pouquíssimas vezes que fui muito corajosa de entrar numa loja pra fazer uma compra presencial. Depois de tanto tempo isolada, a rotina vai tomando formas estranhas. Os meus dias são muito iguais, cronometrados, e a passagem do tempo parece ficar marcada mesmo pela mudança na paisagem que eu vejo pelas janelas. Eu me organizo pra dar conta de todas as tarefas domésticas e pra não deixar acumular nada do doutorado, e me continuo me forçando a fazer exercícios físicos (quase) diariamente.

Os efeitos do isolamento ainda não são todos conhecidos, mas confesso que tem dias que eu vejo minha sanidade mental se esvair. As vezes me falta vontade até de ver TV. Eu me pergunto até quando vamos viver nessa situação, até quando eu vou ter que esperar pra poder rever meus pais, meus amigos, minha família. Me pergunto se eu ainda vou ter chance de vivenciar um pouco do doutorado na Universidade, como deveria ser. Me pego pensando na rotina que eu desenhei dentro das paredes dessa casa, com o marido como meu único companheiro, e como ele é a minha paz no meio do caos. Me pergunto se eu vou conseguir voltar a dormir uma noite de sono completa.

No meio desse caminho, ficaram tantos posts na aba de rascunhos. As linhas ensaiadas para contar da última viagem de férias que fizemos antes do caos tomar conta não me pareciam fazer nenhum sentido. Do mesmo modo, mal comecei a rascunhar sobre nossas rápidas escapadas no verão até Vaduz – numa segunda-feira sem ninguém nas ruas da capital de Liechtenstein, pra onde fomos e voltamos no nosso fiel Bolinha, levando nossa comida pra não precisar nem entrar em nenhum restaurante – ou até o Blausee numa manhã ensolarada. Em algum momento, eu sei que essas linhas tortas sobre dias quase normais lá fora vão sair, mas não agora.

A marca dos 365 dias isolada tá sendo “celebrada” com uma belíssima crise de sinusite, super forte, daquelas como há muito tempo eu não tinha. Estou no 8º dia de antibiótico, 9º dia de corticóide. Ontem, meu ouvido esquerdo parecia que ia explodir. Hoje ele me deu uma trégua, e é o ouvido direito que tá me incomodando mais. Já faz uns anos que a minha congestão nasal faz pressão nos meus ouvidos, e a dor é algo difícil de descrever – tanto quanto esse um ano que se passou.