Khachkars, as cruzes de pedra da Armênia

No primeiro post sobre cultura e história da Armênia, mencionei as Khachkars – as cruzes de pedra da Armênia, que receberam atenção numa matéria bacana da edição de verão da revista Armenia Tourism Magazine (nº18). Elas são tão interessantes que merecem de fato que nós saibamos um pouco mais sobre esta forma de arte!

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Acredita-se que os protótipos das khachkars eram vishaps, criaturas mitológicas, deidades e espíritos da água que, desde os tempos antigos, eram cravadas em pedra sólida. A altura das vishaps eram de 5 metros de altura, segundo os arqueólogos que as descobriram. Entre as imagens esculpidas, encontram-se peixes, pássaros, e outros animais. Depois, o significado das vishaps foi transformado e associado à dragões. A palavra vishap significa dragão. No livro “The Art of Armenia”, de Nonna Stepanyan, descreve-se como, ao longo do tempo, as vishaps foram gradualmente substituídas por monumentos de pedra refletindo a iconografia Cristã. Mais tarde, adotou-se a forma de lápides, que se tornaram a base para criar uma nova forma decorativa, as khachkars.

Em 301, os armênios adotaram oficialmente o Cristianismo, que se tornou a religião do Estado. Isso foi não só um importante evento para a vida espiritual do povo armênio, mas também um prenúncio da identidade escultural. O verdadeiro desenvolvimento e distribuição das khachkars aconteceu muitos séculos depois, quando finalmente tomaram sua forma única. As khachkars se tornaram um símbolo da fé Cristã, um modo de evidenciar o pertencimento dos habitantes ao novo mundo Cristão.

Cada khachkar, feita à mão por talentosos artistas, é única: nenhuma é igual a outra, ainda que todas elas obedeçam a um estilo.

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Desde os tempos antigos, as khachkars não apenas decoraram cemitérios, mas também passaram a ser esculpidas em honra à construção das catedrais e igrejas, construção de novas vilas e em outras ocasiões especiais. Os lugares onde as khachkars são colocadas são considerados santos. Muitas khachkars foram preservadas em antigos cemitérios armênios, onde podem ser admiradas tanto por residentes da Armênia quanto por turistas interessados na cultura do país.

Em muitos aspectos, devido à distribuição das khachkars, a Armênia é, por muitas vezes, considerada um museu a céu aberto, por conta das muitas cruzes de pedra que podem ser encontradas não só em lugares importantes mas também por diversos lugares nas cidades.

A estrutura clássica das khachkars é um bloco de pedra monolítico, com uma cruz esculpida no meio, geralmente a partir de um círculo de galhos ou flores. As imagens ornamentais se ondulam em torno da cruz, por muitas vezes com romãs e videiras, que são os símbolos principais da arte decorativa da Armênia.

O Museu Estatal de História da Armênia, na Praça da República, tem vários exemplares de khachkars expostas. Nelas, pode-se observar a história das khachkars e a evolução das suas formas desde que começaram a ser esculpidas até os dias atuais. Se, nos tempos antigos, os padrões circundavam a cruz, mais tarde as khachkars passaram a se parecer cada vez mais com uma renda feita na pedra, nas quais a cruz se integra perfeitamente ao ornamento. Mais tarde, no lugar das cruzes, começaram também a esculpir letras do alfabeto armênio.

Tradicionalmente, a khachkar é feita de tuff, uma pedra densa, formada de produtos sólidos de erupções vulcânicas, que depois são compactadas e cimentadas. De acordo com Varazdat Hambardzumyan, um grande escultor de Yerevan, é impossível imaginar uma oração armênia em frente à mármore ou granito. Há muitos séculos, as cruzes armênias são feitas de pedra tuff, e os armênios acreditam que esta pedra vulcânica pode absorver todas as coisas negativas como, por exemplo, doenças, das mãos do seu escultor ou de alguém que a tenha tocado.

A pedra tuff é encontrada em diversas cores. Para criar os padrões, os escultores primeiro desenham e depois esculpem a pedra com ferramentas específicas. O polimento das khachkars, quando estão quase prontas, é gentilmente chamado de massagem pelos artistas armênios.

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As khachkars ainda retém sua característica artística principal: apresentar a beleza da pedra. É graças a este princípio que algumas pedras parecem pequenos pedaços de paredes esculpidas, que por vezes são montadas em blocos únicos, tornando-se elementos decorativos da fachada como, por exemplo, em catedrais. As khachkars são um fenômeno original da memória escultural armênia.

Vou terminar este post com um fun fact: quando o marido estava trabalhando no Zimbábue, um armênio que trabalhava com ele deu de presente pra ele uma Khachkars e uma garrafa de conhaque Ararat! Infelizmente a cruz não foi adequadamente transportada entre o Zimbábue e o Brasil e, ao chegar em Brasília, estava absolutamente danificada. Mas o que eu acho mais bacana nesta história toda é que isso aconteceu em 2013, e a gente não fazia ideia de que viríamos morar na Armênia!

 

Quem foi Alexander Tamanyan?

Dando continuidade ao aprendizado sobre a Armênia, sua história e cultura, é impossível não falar de grandes personalidades armênias. Aproveitando a edição de verão da revista Armenia Tourism Magazine (nº18), pude aprender um pouco mais sobre Alexander Tamanyan, e vou dividir com vocês um pouquinho do que aprendi sobre o fundador da arquitetura de Yerevan.

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Tamanyan nasceu em 1878, na cidade de Ekaterinodar (hoje, Krasnodar). Sua educação em São Petersburgo garantiu seu sucesso como arquiteto, Tamanyan não hesitou em voltar para sua pátria histórica, que tinha, então, conquistado sua independência. Em 1919, pela primeira vez ele veio para a Armênia, na época da Primeira República (1918-1920). Por muitos anos antes disso, Tamanyan tinha interesse na arquitetura armênia. Em 1908, Nikolai Marr, que conduziu escavações em Ani, comissionou a Tamanyan um projeto de museu na capital do reino medieval armênio. Pouco tempo depois, Tamanyan disse a seus amigos que iria mudar-se para a Armênia e realizar planos arquitetônicos por aqui.

De fato, Tamanyan não conseguiu construir nada durante a Primeira República. No fim de 1920, a república foi submetida às tropas soviéticas, e o arquiteto se viu forçado a deixar o país com sua família, indo para a cidade de Tabriz no Irã.

Entretanto, o desejo de criar na sua pátria ainda tomava Tamanyan – afinal, a Armênia ainda existia, mesmo como uma República Socialista Soviética. Como resultado, sob garantias pessoais do Conselho dos Comissários do Povo para a Armênia, o arquiteto retornou para Yerevan em 1923. Já em 1924, ele apresentou para o governo um plano geral de arquitetura para a cidade, cheio de ideias inovadoras e soluções de planejamento urbano. Mais tarde, este plano foi revogado, mas seus principais pontos foram mantidos intactos.

De acordo com a ideia de Tamanyan, Yerevan deveria ser dividida em diversas zonas – administrativa, universitária, industrial, cultural – conectadas umas as outras e ao centro. Duas praças – a praça do Teatro e a praça de Lenin -, ligadas pela Northern Ave, se tornariam os centros da cidade. A principal vantagem do plano de Tamanyan era a disposição das ruas e prédios da cidade, de modo que muitos deles teriam vista livre para o Monte Ararat.

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vista pro Ararat daqui de casa: valeu, Tamanyan!

Graças ao plano arquitetônico de Alexander Tamanyan, Yerevan se tornou uma cidade compacta e confortável. O projeto inicial era para uma cidade com 150 mil habitantes, mas o projeto de Tamanyan prova-se bom até para a Yerevan de hoje acomodar um milhão de pessoas. Observando a cidade como herdeira das capitais antigas da Armênia, o arquiteto teve cuidado no design dos prédios, buscando conectar as tradições nacionais do país com soluções modernas.

A produção de Alexander Tamanyan é surpreendente: além do projeto original de Yerevan, muitos dos objetos arquitetônicos da cidade, que datam de 1925 a 1932, foram desenhados por ele. Além disso, Tamanyan não só criou Yerevan, mas também fez o desenho geral de Leninakan – hoje, Gyumri -, Etchmiadzin, Gavar e outras cidades armênias.

Tamanyan presidiu o Comitê para Proteção dos Monumentos Históricos da Armênia Soviética, o que, no contexto da agressiva renovação e destruição de estruturas religiosas e culturais do passado – característico dos primeiros anos de Repúblicas Soviéticas -, era uma questão difícil e insegura.

O projeto de Tamanyan para o prédio do governo, localizado na praça Lenin, que hoje é a praça da República, é singular. Este prédio, executado em estilo neoclássico, deu pontapé inicial para o desenvolvimento de toda a arquitetura armênia moderna.

Também é muito importante o projeto da Casa do Povo, o primeiro teatro de Yerevan. Conhecida, hoje, como a Ópera, o teatro imenso pode acomodar até 3 mil espectadores. Na Casa do Povo, foram planejadas muitas inovações técnicas – por exemplo, duas salas semicirculares, que poderiam, em ocasiões especiais, serem unidas para formar um único grande palco. Infelizmente, o projeto de Tamanyan não foi inteiramente implementado: finalizada em 1953, o National Theater of Opera and Ballet after A. Spendiarian (ou, apenas, Ópera) é apenas uma realização parcial das ideias do arquiteto.

Este não foi o único projeto que Tamanyan não viu pronto. A Casa do Governo e a Praça Central só ficaram prontas depois de décadas, e a Northern Avenue só foi implementada em 2007. Além disso, outras ideias do arquiteto permanecem no papel.

Membro do Comitê Executivo Central da Armênia Soviética, entitulado Arquiteto do Povo, Alexander Tamanyan vivia modestamente. Seus amigos repetidas vezes pediram ao governo por melhores condições de vida para o arquiteto, que jamais pediu coisas do tipo para si mesmo. Apesar das condições modestas em que vivia, a casa de Tamanyan sempre recebia artistas proeminentes da Armênia, que também eram seus amigos. Entre eles, Martiros Saryan, Avetik Isahakyan, Alexander Spendiarian, e muitos outros.

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Próximo do Cascade, na praça que leva o nome de Tamanyan, está o grande monumento ao arquiteto. O mestre se debruça sobre três pedras: a da esquerda simboliza a arquitetura antiga, a da direita simboliza a nova arquitetura, e o próprio Tamanyan, com seus trabalhos, parece estar lançando uma ponte entre as duas.

Tamanyan transformou Yerevan de uma pequena cidade provinciana na verdadeira capital da Armênia – uma cidade moderna, em constante desenvolvimento e crescimento, que ao mesmo tempo reflete toda a herança cultural do povo armênio. As capitais antigas da Armênia – Tigranakert, Ani, Dvin, entre outras – eram cidades esplendorosas, e Tamanyan fez com que Yerevan também o seja, enquanto a capital do presente e do futuro.

O que é que Yerevan tem?

Yerevan é uma cidade incrível. Já falei e repito que fico constantemente impressionada pela beleza da cidade, e pelo tanto de coisas que a capital da Armênia oferece. Na edição de verão da Armenia Tourism Magazine (nº18), são apontados alguns aspectos que fazem a cidade se destacar entre os turistas, e que também são pontos extremamente positivos pra quem mora por aqui.

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  • Paisagens

É possível ver a cidade inteira (ou quase) de alguns dos principais pontos turísticos da cidade, como o Cascade, o Parque da Vitória, e o Museu do Genocídio. As paisagens são incríveis, tanto no verão quanto no inverno, e também há sempre um cantinho lindo pra se observar. A cidade tem muitos parques, é bastante arborizada e, na primavera, tudo fica florido!

  • Monumentos históricos e culturais

Há tantos monumentos históricos e culturais em Ierevan que pode ser que nós terminemos nosso tempo aqui sem conhecer tudo – Deus me livre! Prometo me esforçar pra conhecer tudo! A capital da Armênia é um tesouro em si mesma, com material histórico e cultural diverso, como o Museu Nacional de História, o Museu dos Manuscritos Antigos Matenadaran, as galerias de arte, etc.

  • Cafés, bares e restaurantes (muito) bons e baratos

Já destaquei aqui no blog várias vezes que, aqui em Ierevan, nós comemos muito bem, geralmente gastando pouco – principalmente quando comparamos a restaurantes do mesmo nível em outras capitais, como Moscou, Berlin, Milão, etc. Os bares e pubs também tem preços convidativos para deliciosas bebidas.

  • Segurança

Sem dúvida, este é uma das melhores características da cidade (e do país). Comparada com os indicadores de outros países europeus e até mesmo das antigas repúblicas soviéticas, não há crime na Armênia. Podemos sair tranquilamente a qualquer hora do dia e da noite sem medo, usar as passagens subterrâneas (geralmente vazias) sem temer, e caminhar felizes pela cidade. Deus conserve!

  • Água

A água aqui na Armênia é muito limpa, e a cidade de Ierevan conta com diversas fontes (Tsaytaghbyur) espalhadas para que os transeuntes possam se refrescar.

  • Serviços de saúde

A Armênia é conhecida na região por ter ótimos Gastroenterologistas, e as consultas médicas aqui não custam muito caro. Outro dia, fui numa clínica próxima aqui de casa e a consulta com um Ortopedista que custou 7.000AMD (cerca de USD15,00). Os remédios aqui também são bem baratos, e há muitas farmácias pela cidade. A Armênia tem se tornado um destino de turismo médico justamente pela alta qualidade dos serviços médicos oferecidos a preços competitivos. Eu confesso que acho turismo médico uma coisa meio esquisita, mas, já que eu moro aqui, fico feliz em saber que é um destino, pois isso significa que os tratamentos oferecidos realmente tem qualidade. Entre outros, cirurgia plástica, tratamentos e implantes dentários, cardiologia e oftalmologia compõem a lista de especialidades oferecidas para quem quer ficar mais saudável na Armênia.

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Estes fatores, entre outros, contribuem pra que a qualidade de vida aqui seja muito muito boa. Pra não dizer que só falei de flores, uma coisa que me irrita profundamente por aqui é que as pessoas fumam muito, e é permitido fumar nos restaurantes, mesmo nos ambientes fechados. Outra coisa que tem me incomodado bastante por aqui é o calor intenso do verão, que também é extremamente seco.

O dia em que Anitta tocou na Armênia

Estava eu hoje de manhã no shopping quando começou a tocar PARADINHA, música sucesso da cantora brasileira Anitta. Enquanto eu escrevia o Tweet printado abaixo, já começou a tocar logo SUA CARA, outro sucesso de Anitta, em parceria com Pabllo Vittar e Major Lazer.

Aí eis que a própria me retuíta minutos depois:

Juro que, enquanto ouvia estas músicas tocando no shopping, não só fiquei cheia de orgulho mas também me deu uma vontade imensa de sair cantando e dançando pelos corredores.

Claro que o objetivo é mesmo fazer sucesso internacional, mas daí ouvir estas músicas tocarem em lugar público aqui na Arménia foi incrível e surpreendente! You go girl!

Até hoje, a maior referência de Brasil que os armênios com quem eu conversei disseram ter eram os jogadores de futebol (de Pelé a Neymar, passando por Garrincha e Nilton Santos) e as novelas (principalmente O Clone).

Não podemos esquecer que aqui é Eurásia. Estamos longe pra caramba do Brasil! Além disso, a Arménia é um país consideravelmente conservador.

Se o sucesso SUA CARA já representa uma quebra de paradigmas no Brasil e em países ocidentais, imagina nestes lados de cá.

Anitta e Pabllo, continuem por favor quebrando tudo mundo afora. Dá um orgulho danado ver artistas brasileiros bombando assim!

Ierevan 40ºC

É oficial: o verão em Ierevan é quente demais!

Há várias semanas que os termômetros só marcam temperaturas acima dos 30ºC, e chegam diariamente aos 40ºC! A sensação térmica já chegou, inclusive, aos 42ºC. É um calor que sufoca a gente, difícil de aguentar até pra carioca! Neste exato momento, a temperatura está 40ºC e a sensação térmica 41ºC.

E a secura?! Gente, que verão mais seco!! Não chove há 1 mês! E, da última vez que choveu, não melhorou muita coisa não… Outro dia tivemos 7% de humidade. Hoje, neste exato momento, a humidade está em 8%. OITO!!! O ar tá tão seco que mal dá pra ver o Ararat, já que a poluição tá acumulada no ar.

Em casa, só mesmo com o ar condicionado ligado. Pra ajudar a sobreviver a esse calorão, estamos tentando aproveitar ao máximo a piscina externa da nossa academia, que não deixa de ser um clube. Graças a Deus tem isso aqui bem pertinho de casa! O problema é quando tá tão calor que a gente não aguenta sair nem pra ir pra piscina hihihihi

Esse clima exige que a gente redobre o cuidado com a saúde: temos que beber MUITA MUITA MUITA água, e optar sempre por comidas mais leves. E quando a gente esquece de ter esse cuidado, bebe menos água do que devia, e/ou exagera em alguma comidinha mais pesada?! O corpo paga o preço! Na verdade, isso acontece em qualquer estação do ano… a gente precisa viver em vigilância constante!