Adeus ano velho, feliz ano todo!

Meu Deus, eu nem acredito que 2021 já vai chegar ao fim. É impressão minha ou esse ano passou voando?!

Não é que esse ano tenha sido fácil: na verdade, foi extremamente difícil, talvez até mais desafiador do que 2020 já que havia um cansaço acumulado no Ano II da pandemia. Sem contar que, nesse segundo semestre, a minha vida parecia virar de cabeça para baixo diariamente, e eu acabei deixando o blog completamente de lado por conta disso, tentando dar conta minimamente das demandas acadêmicas. Mas a minha sensação é de que ontem mesmo o ano começava, e agora falta muito pouco para acabar.

Algumas coisas que aconteceram no 2º semestre merecem destaques positivos, como o retiro acadêmico de que participei em outubro, a passagem relâmpago por Hamburgo em novembro pra participar de um encontro de doutorandos seguida de uma semaninha em Portugal que quase me fez achar que a vida estava voltando ao normal, e a 3ª dose da vacina contra COVID na semana passada. Eu pretendo escrever um pouquinho mais sobre essa viagem de novembro, talvez um post sobre minhas impressões de Hamburgo depois de caminhar pela cidade uma tarde inteira, talvez um outro post sobre o que fizemos em Portugal (caso você seja leitor novo, eu já tinha ido pra lá em 2017).

boosted!

Na verdade, não fosse a progressiva piora da pandemia na Suíça, talvez eu já tivesse tido ânimo de escrever sobre esse período de quase normalidade. Mas todas as vezes que eu pensava em escrever sobre esses passeios, eu ficava desanimada por ver o aumento consistente no número de casos diários de COVID por aqui. Aliás, justamente por conta dessa piora da pandemia na Suíça e na Europa como um todo, nós passamos as últimas duas semanas em casa – saindo uma única vez para tomar a 3ª dose da vacina – e, agora que marido voltou a trabalhar depois desses pouquinhos dias de férias, eu continuo em casa e não tô pretendendo sair tão cedo (a menos que tenha muita necessidade ou uma emergência, é claro). Antes, nós tínhamos planos de viajar por pelo menos 10 dias nessas 2 semanas, mas consideramos imprudente. Ontem, o Conselho Federal confirmou que a Ômicron é a variante predominante nos casos por aqui.

Pra você que está lendo esse post, o meu sincero agradecimento por não ter desistido de ler este blog mesmo quando eu não o mantive suficientemente atualizado. Eu desejo sinceramente que 2022 seja um ano cheio de alegrias e de muita saúde pra todos nós, e que a gente possa, enfim, vencer essa pandemia. Aqui em casa, 2022 já promete ser um ano cheio de emoções e aventuras, uma vez que, se tudo correr como de costume, devemos sair da Suíça rumo ao próximo posto – que ainda é um mistério até pra nós mesmos, mas que eu tenho muita fé de que será mais um lugar muito legal providenciado por Deus para nós. Vai ser uma loucura preparar mudança fazendo doutorado e ainda enfrentando a pandemia? Vai. Mesmo assim, eu farei o meu melhor não só pra dar conta de tudo isso, mas também de voltar a escrever aqui com mais frequência – algo que me faz tanta falta e que me faz tão bem.

Feliz ano novo! Feliz ano todo!

A volta dos que foram!

Meu Deus, faz um século que eu não escrevo por aqui.

Aconteceu TANTA coisa nos últimos 3 meses que, na verdade, parece ter passado mais tempo do que realmente passou. 3 meses pode ser pouco ou muito tempo, dependendo do referencial; pra mim, os últimos 3 meses foram super intensos e passaram rápido demais.

Mas vamos começar do começo, aproveitando que minhas férias de verão ainda não chegaram ao fim.

Logo depois de ter completado 2 semanas que marido tinha sido vacinado, eu fui à Zurique de trem; além de ter enrolado tempo demais pra levar alguns eletrônicos pra reciclagem na Apple e precisar deixar um sapato pra consertar numa loja que não tem mais em Berna, essa day trip foi um exercício pra me preparar pra viagem que viria em seguida, já que eu estava ligeiramente em pânico de entrar em aeroporto e pegar avião pra ir pro Brasil. Logo eu, sempre tão desenvolta pra viajar, tão acostumada a voar por aí sozinha, tava com um cagaço danado de viajar no meio da pandemia!

Graças a Deus, meses de terapia me ajudaram a me preparar pra enfrentar esse desafio, e agora posso dizer: sim, nós fomos ao Brasil! Depois de 19 meses sem ver meus pais, eu enfrentei todo o medo que eu tava de viajar em plena pandemia para poder, finalmente, revê-los, e também cuidar de umas questões de saúde que eu vinha adiando há algum tempo não só por conta da pandemia, mas porque eu precisava poder ficar mais tempo no Brasil pra resolver.

Foram 47 dias por lá, com direito à uma cirurgia no ouvido. Graças a Deus correu tudo bem na timpanotomia, e já faz 1 mês que eu não sei mais o que é dor no ouvido, que era uma coisa que me deixava absolutamente LOUCA pelos últimos 3 anos. Meu nariz é tão ruim que tava fazendo uma pressão absurda nos meus ouvidos, e eu sentia dor 24h por dia, então meu otorrino achou por bem fazermos a timpanotomia para colocar os tubos de ventilação pra tentar solucionar esse problema. Por enquanto, tá dando ótimo resultado; eu não senti nenhuma pressão no ouvido nem enquanto tava nos aviões dos voos de volta!

Além da cirurgia, fiz tooooodas as consultas e exames de rotina, e ainda consegui começar meu tratamento com o Invisalign. Já fazia um tempo que eu queria MUITO acertar os meus dentes, principalmente o apinhamento na arcada inferior, mas com a vida nômade ficava bem difícil fazer esse tratamento – dificultado, ainda, pela pandemia. Aí eu conversei com a minha ortodontista e ela me disse que daria pra fazer o tratamento à distância com o Invisalign, já que os alinhadores são todos entregues no início do tratamento, e o negócio é tão tecnológico que ela consegue acompanhar o meu progresso pelo aplicativo e pelas fotos. O treco é realmente um avanço gigantesco pra tratamentos ortodônticos, mas não vou negar que é bastante incômodo.

Eu gostaria de dizer que conseguir passear bastante, que fui à praia, e que me diverti muito nesse período que fiquei em Nikity city, mas a verdade é que eu só “passeava” entre um médico e outro exame, e só vi as praias passando de carro mesmo. Nos raros momentos que não tava correndo de um compromisso pra outro, eu aproveitei pra arrumar um bocado os armários lá de casa – não só os do meu quarto, mas também de outros cômodos – pra dar uma força pra mamãe, que tá investigando umas questões de saúde, enquanto meu pai faz fisioterapia diariamente pra tentar se recuperar do acidente que sofreu em março. É difícil demais acompanhar, à distância, essas pequenas coisinhas que vão mostrando o quanto a vida é frágil e que nossos pais não são eternos, e que a gente tem mesmo que valorizar cada segundo junto.

Marido só teve 3 semanas de férias, das quais ele só passou 2 dias em Niterói, então nós articulamos tudo para conseguirmos voltar no mesmo dia; voamos juntos de Lisboa pra Zurique. Voltamos pra Berna dia 28/08 e, desde que chegamos, eu tô tentando colocar a vida em ordem; tinha TANTA coisa pra ajeitar em casa (e ainda tem), e as férias de verão já estão quase no fim. Anteontem, dia da Independência do Brasil (o único feriado brasileiro no qual marido tem folga), nós fomos pra Lausanne, e depois eu vou escrever em detalhes os highlights desse passeio. Nós nos demos conta de que nosso tempo na Suíça tá quase se esgotando e nós ainda não conhecemos nem metade das coisas que gostaríamos, já que ficamos praticamente trancados dentro de casa nos primeiros 15 meses de pandemia. Agora que, além de vacinados, já fomos ao Brasil, decidimos tentar aproveitar o máximo que pudermos, ainda que com muita prudência.

Eu quero MUITO conseguir me organizar melhor a partir de agora pra conseguir escrever com mais frequência aqui e no leticiatostes.com. O doutorado ainda tem que ser a minha prioridade, e urge que eu comece a escrever a tese com afinco, mas tá me parecendo que esse semestre na Universidade será “um pouquinho mais light” (com bastante aspas), então eu vou realmente me esforçar pra não deixar de fazer meus registros aqui – já que, além de tudo, escrever me faz muito bem.

Tô vacinada! E outras notícias

Gentes, antes de qualquer coisa, quero pedir desculpas pelo meu sumiço. Acontece que os últimos meses foram nada menos do que enlouquecedores e eu não consegui parar pra escrever aqui nem uma única vez. Como vocês já sabem, eu gosto de escrever por aqui com calma e com dedicação; em tudo na minha vida, se não for pra fazer bem feito, eu nem começo.

A primeira grande notícia que quero dividir com vocês é que eu tô vacinada! A vacinação estava bem lenta na Suíça até meados de abril quando, de repente, começou a acelerar muito rápido. Por fazer parte de grupo de risco, pude agendar minha 1ª dose já pra última semana de abril, com a 2ª dose pro final de maio. Aqui no cantão de Berna, o sistema pra agendamento das vacinas foi abrindo de acordo com os grupos, seguindo as prioridades por idade e comorbidades, e já colocava o agendamento pras 2 doses, com um intervalo de 4 semanas, bastando escolher entre os horários disponíveis. Poucos dias depois, eles já abriram o agendamento também para pessoas que moram com quem é de grupos de risco; com isso, meu marido também já tá vacinado, graças a Deus.

Embora tenhamos tomado vacinas diferentes (não por escolha, porque aqui não tem ninguém nem doido de ficar escolhendo qual vacina quer ou não tomar – afinal, vacina boa é a vacina que tá disponível!), nós 2 tivemos reações bem fortes à 2ª dose. Na 1ª dose, eu tive MUITA dor no braço por 3 dias, enquanto meu marido sentiu uma dor mais intensa só no 1º dia. Já na 2ª dose, nós 2 tivemos efeitos colaterais mais fortes: eu tive calafrios e febre baixa na 1ª madrugada, além de sonolência, dor de cabeça, no corpo e no braço, e ele teve os mesmos sintomas, exceto pelo calafrio. Graças a Deus esse mal estar passou em 48h. Agora é esperar que a nossa imunização esteja completa pra que possamos, ainda com muito cuidado, voltar a dar alguns passeios. Continuamos e continuaremos usando máscara e mantendo distanciamento social. Em quase 2 anos de Suíça, nós ficamos 1 ano e meio praticamente sem sair de casa. Do jeito que o tempo tá passando rápido, a gente vai piscar e já vai tá na hora de “levantar o acampamento” pra mudar pro próximo país.

Ainda falando em vacina, tanto os meus pais quanto a minha sogra também já estão vacinados no Brasil. Viva a ciência! Viva o SUS!

O semestre de primavera na Universidade termina oficialmente hoje, o que significa que eu posso tirar uns dias de descanso pra me recuperar das maratonas que enfrentei nesse semestre. Não vai rolar de passar os 3 meses das férias de verão descansando 100% porque tô cheia de coisas pra ler e mais ainda pra escrever, mas meu plano é descansar da vida acadêmica pelo menos essas 2 primeiras semanas, e aí vou organizar meu horário pra estudar algumas horinhas por semana. Na verdade, como minha última atividade acadêmica foi na sexta-feira passada, nessa semana eu já consegui descansar um pouco – ainda que eu tenha feito umas limpezas mais pesadas em casa (tipo limpar as janelas, que é coisa que eu faço 2x no ano e olhe lá). Nesse exato momento, por exemplo, tô assistindo Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban – na segunda-feira eu assisti Pedra Filosofal e na quarta-feira assisti Câmara Secreta. Tinha TANTO TEMPO que eu não assistia Harry Potter que eu nem me lembro qual foi a última vez – prova de que estava realmente muito atolada. Por isso, era uma das minhas prioridades rever os 8 filmes tão logo entrasse de férias, e também quero rever os 2 filmes de Animais Fantásticos.

Por falar em filme, no sábado nós assistimos Cruella no Disney+ (nós pagamos pelo Premier Access; não sei se já falei por aqui mas, pra gente, pelo preço que custa um ingresso de cinema aqui na Suíça, o Premier Access é um ótimo negócio – até porque o filme fica disponível antecipadamente pra todos os perfis da nossa conta). Eu AMEI Cruella, e marido também aprovou! Já quero assistir de novo. Amei todas as referências (e não só ao desenho clássico dos 101 Dálmatas) e o humor ácido. Não vou escrever muito mais sobre porque não quero dar spoiler, mas é definitivamente o meu live action original favorito (ainda não tô preparada para dizer que é O live action favorito porque eu AMO o live action de Aladdin, mas é definitivamente o favorito entre os originais).

Outra notícia é que eu cortei meu cabelo super curtinho na última sexta! Eu aproveitei que meu compromisso acadêmico da sexta passada começava às 18h e consegui um horário no salão às 10h45 – o que me dava tempo suficiente de fazer tudo o que eu precisava no meio tempo. Fazia tempo que eu já tava doida pra cortar o cabelo curto outra vez, mas tava enrolando porque queria cortar no Brasil por 2 motivos: pra doar pro Cabelegria mais uma vez, e porque é bem mais barato do que aqui. Só que eu tava ficando cada vez mais irritada de demorar cerca de 20min por dia secando o cabelo (já que a temperatura ainda não subiu o suficiente), e eu lavo o cabelo pelo menos 1x ao dia, então resolvi cortar aqui mesmo. Vou tentar doar o cabelo aqui na Suíça mesmo, pra ser mais fácil, mas, se não rolar, pretendo levar pra doar quando eu conseguir ir pro Brasil. Tô aliviada demais de ter cortado o cabelo, minha vida já tá bem mais fácil.

Acho que era isso que eu tinha pra registrar hoje por aqui. Prometo que vou me esforçar pra escrever mais e não sumir por tanto tempo!

1 ano em isolamento

Não dá pra dizer que parece que foi ontem, ao mesmo tempo em que parece que foi.

O 1º caso confirmado de coronavírus na Suíça foi em 25.02.2020. Em poucos dias, novos casos começaram a pipocar pelo país todo – em 03.03.2020, já eram 56 casos confirmados. Os meus primeiros dias de isolamento, começando em 02.03.2020, não foram exatamente propositais, embora eu já ensaiasse não sair de casa até que a situação melhorasse. De todo modo, acabaram sendo adicionados à conta dos primeiros 102 dias sem sair de casa. Na verdade, eu tomei a decisão consciente de não sair mais uns poucos dias depois.

dias iguais

Neste um ano isolada, eu saí (bem) menos de 30 vezes, eu tive quase nenhum contato com outras pessoas, e todas as minhas interações foram realizadas de máscara. Faz um ano que eu não vou nem tirar o lixo sem máscara. Das interações que tive, 90% foram resultantes de necessários cuidados com a saúde – check up no hospital, exame de vista, buscar remédios na farmácia – ou das entregas das compras de supermercado. Meu Deus, tem mais de um ano que eu não faço uma compra de supermercado no supermercado. Os outros 10% de interações eu deixo por conta das vezes que encontrei com os vizinhos nas escadas quando ia tirar o lixo ou buscar o correio, ou das pouquíssimas vezes que fui muito corajosa de entrar numa loja pra fazer uma compra presencial. Depois de tanto tempo isolada, a rotina vai tomando formas estranhas. Os meus dias são muito iguais, cronometrados, e a passagem do tempo parece ficar marcada mesmo pela mudança na paisagem que eu vejo pelas janelas. Eu me organizo pra dar conta de todas as tarefas domésticas e pra não deixar acumular nada do doutorado, e me continuo me forçando a fazer exercícios físicos (quase) diariamente.

Os efeitos do isolamento ainda não são todos conhecidos, mas confesso que tem dias que eu vejo minha sanidade mental se esvair. As vezes me falta vontade até de ver TV. Eu me pergunto até quando vamos viver nessa situação, até quando eu vou ter que esperar pra poder rever meus pais, meus amigos, minha família. Me pergunto se eu ainda vou ter chance de vivenciar um pouco do doutorado na Universidade, como deveria ser. Me pego pensando na rotina que eu desenhei dentro das paredes dessa casa, com o marido como meu único companheiro, e como ele é a minha paz no meio do caos. Me pergunto se eu vou conseguir voltar a dormir uma noite de sono completa.

No meio desse caminho, ficaram tantos posts na aba de rascunhos. As linhas ensaiadas para contar da última viagem de férias que fizemos antes do caos tomar conta não me pareciam fazer nenhum sentido. Do mesmo modo, mal comecei a rascunhar sobre nossas rápidas escapadas no verão até Vaduz – numa segunda-feira sem ninguém nas ruas da capital de Liechtenstein, pra onde fomos e voltamos no nosso fiel Bolinha, levando nossa comida pra não precisar nem entrar em nenhum restaurante – ou até o Blausee numa manhã ensolarada. Em algum momento, eu sei que essas linhas tortas sobre dias quase normais lá fora vão sair, mas não agora.

A marca dos 365 dias isolada tá sendo “celebrada” com uma belíssima crise de sinusite, super forte, daquelas como há muito tempo eu não tinha. Estou no 8º dia de antibiótico, 9º dia de corticóide. Ontem, meu ouvido esquerdo parecia que ia explodir. Hoje ele me deu uma trégua, e é o ouvido direito que tá me incomodando mais. Já faz uns anos que a minha congestão nasal faz pressão nos meus ouvidos, e a dor é algo difícil de descrever – tanto quanto esse um ano que se passou.

Historinha

Quando eu vim pra Suíça pela 1ª vez, nos idos de 2009, comprei um relógio da Swatch pra Mivó. Foi o último presente que dei pra Mivó antes que recebesse o diagnóstico de ELA. Quase exatamente um ano depois de presenteá-la com o relógio, a Mivó morreu.

De todas as coisas que eram da Mivó, eu só quis ficar com os relógios. A Mivó amava seus relógios, tinha uma coleção, e tinha um que ela usava toda noite pra dormir – que escolhi usar no meu casamento. Os relógios da Mivó não eram necessariamente caros, mas eram todos escolhidos com cuidado por ela. O relógio que ela usava pra dormir, por exemplo, não era nem de longe o mais caro ou o mais bonito que ela tinha – mas era o relógio que ela usava todos os dias, sem exceção. Fora o Apple Watch, acho que nunca comprei um relógio nesses anos todos.

Eis que o tal relógio da Swatch parou de funcionar quando mudamos pra Armênia. Quando fui pro Brasil, levei pra trocar a bateria, mas me foi informado que o relógio estava com um problema e que eles não tinham as ferramentas ou peças necessárias pra consertá-lo.

Ao sabermos da mudança pra Suíça, pensei imediatamente que seria a minha chance de consertar esse relógio. Hoje, perto de completar 1 ano e 5 meses de Berna, recebi a notícia de que o relógio que comprei pra Mivó neste mesmo país há quase 12 anos atrás não tem mais conserto.

Um texto desconexo

Dizer que 2020 foi um ano difícil é um eufemismo tremendo.

Se 2019 foi um ano definido por uma grande mudança – desde a preparação para sair da Armênia até a adaptação depois de chegarmos na Suíça, passando pela entrada no doutorado (que já seria uma enorme mudança por si só!) -, 2020 começou com a promessa de dias tranquilos, de conhecer gente nas aulas na Universidade, de trocar, de crescer.

De tudo, só se cumpriu o crescimento.

Desde que eu me entendo por gente, eu acredito que o sofrimento oferece pra gente a grande chance de aprender e crescer. E 2020 foi, sim, marcado pelo sofrimento. Mas eu tentei aprender muito com ele.

E todo o medo, o desespero
E a alegria
E a tempestade, a falsidade
A calmaria
E os teus espinhos
E o frio que eu sinto
Isso vai passar
Também

Pra mim, desde que nós saímos do Brasil, o mais difícil de tudo sempre foi encarar a distância dos meus pais, da minha família e dos meus amigos. Estar longe de tudo que nos traz conforto no dia a dia já era difícil pra mim num contexto normal, e isso foi potencializado esse ano, por conta de todas as incertezas e o isolamento completo. Não saber quando eu vou poder reencontrar meus pais é o que mais me dói o tempo todo, ao mesmo tempo que eu aprendo a descobrir em mim uma força que eu nem sabia que eu tinha.

Nesse ano, eu me reconectei com várias partes de mim mesma, e muitas delas que precisavam ser curadas. Muita coisa ainda é um processo, mas eu sinto que, nesse ano, eu consegui me apropriar ainda mais da mulher que eu sou.

Uma dessas reconexões foi com o meu amor por Sandy & Junior, e pelos dois individualmente. Eu fui muito fã de Sandy & Junior a minha vida inteira, mas eu neguei isso por alguns anos por conta do bullying que eu sofria. Parte do combustível pro bullying era justamente o meu amor pela dupla e a possibilidade que eu tinha de consumir o que eles produziam, de ir aos shows, comprar os CDs e DVDs, etc. Ao perceber isso, logo depois do lançamento do álbum “Identidade”, eu tentei criar uma nova identidade pra mim mesma, rejeitando esse amor que morava dentro de mim pra tentar ser aceita pelos meus colegas. É claro que não adiantou.

O bullying não parou porque eu não manifestava mais o meu amor por Sandy & Junior, porque eu não mais ia aos shows, porque eu não mais comprava os discos deles. Eu precisei mudar de colégio pra que eu parasse de sofrer bullying. Só que eu tava tão machucada, e é claro que aos 14 anos eu não tinha a maturidade que eu tenho hoje, que eu nem pensei em retomar, naquele momento, essa parte tão importante de mim. Ficou lá, adormecida, machucada pelas memórias ruins do sofrimento do bullying.

Eu lembro que, quando eles anunciaram o fim da dupla, eu me senti muito mal, mas eu ainda não tinha força suficiente pra me reconectar com essa parte de mim, com essa parte da minha história. Só que essa reconexão que eu me permiti profundamente nesse ano não começou agora.

Foi em 2015 que eu comecei a me reconectar com essa parte de mim. Primeiro, resgatando do alto de um dos armários lá de casa o meu teclado de Sandy & Junior, no qual eu dedilhava As Quatro Estações. Depois, no dia seguinte de dar uma limpa nos meus CDs e decidir não me desfazer da coleção de Sandy & Junior porque eu não podia traí-los dessa forma, ao ver os dois a menos de 3m de mim no aeroporto.

Eu ainda sinto as emoções daquele dia de uma maneira muito intensa, como se eu estivesse revivendo aquela hora em loop. Eu lembro com perfeição de detalhes de ter passado praticamente uma hora tremendo da cabeça aos pés enquanto tentava comer meu sanduíche (que, na época, era meu jantar característico no aeroporto) observando a Sandy e o Junior tão perto de mim. Eu falava no telefone com a minha mãe, e ela ficou preocupada de eu ter um troço no aeroporto. Eu tentava reunir coragem pra ir falar com eles, mas até eu ter coragem suficiente de me aproximar, cada um foi pegar seu respectivo voo, e eu acabei indo atrás do Junior – que foi tão atencioso e tão querido que eu queria poder agradecer a ele por aqueles minutos que ele conversou comigo.

No ano passado, com a turnê Nossa História, eu queria MUITO ter ido. MUITO. Eu não consigo nem dizer o quanto. Eu sentia que precisava estar presente. Mas eu não consegui. Se eu imaginasse que 2020 seria desse jeito, eu não só teria dado meus pulos pra ir no show em Portugal (mesmo tendo sido na véspera da entrega da mudança aqui), mas também teria ido a todos os shows no Brasil e até em Nova Iorque.

Mas foi em 2020 que eu dei as mãos pra Letícia de 13 anos e me reconciliei com ela. Foi nesse ano que eu compreendi o porquê de ter me afastado dessa parte de mim, e foi nesse ano que eu consegui me reconectar com isso que eu sinto pela Sandy, pelo Junior, e por Sandy & Junior. A minha história se confunde com a deles em tantas coisas que é mesmo a Nossa História.

No primeiro disco solo da Sandy, “Manuscrito”, de 2010, ela lançou a música “Tempo”. Mas foi só nesse ano, 10 anos depois do seu lançamento, que essa música me tocou profundamente. Ela foi a minha trilha sonora de 2020: “isso vai passar também“.

O meu maior arrependimento de 2020 foi, certamente, não ter ido passar o carnaval no Brasil. Nós decidimos não ir porque a semana do carnaval correspondia à primeira semana do semestre letivo, e eu não sabia se teria alguma atividade presencial com a antecedência necessária pra comprar as passagens. Hoje, eu me arrependo de não ter “chutado o balde” pra festejar com meus amigos no Maior Show da Terra.

Eu sempre fui uma pessoa que gosta de ficar em casa. Mas nesse ano em que eu me vi obrigada a ficar dentro de casa, eu fiquei incomodada com isso. Por duas vezes, estivemos de férias e não nos sentíamos livres pra sair, passear, quem dirá viajar.

As aulas foram online. Eu nunca passei tanto tempo diante de telas. E precisou chegar novembro pra eu me questionar e começar a entender o que é mesmo importante pra mim, o que é prioritário, o que merece minha energia e minha atenção.

2020 foi o ano em que eu, finalmente, coloquei toda a disciplina que me é característica para cuidar da minha pele, e é a primeira vez em muito tempo que o inverno começa e meu rosto não está totalmente ressecado. Ainda preciso aprimorar a hidratação das mãos, que estão sacrificadas de tanto higienizar coisas.

E também esse foi o ano em que eu mais me exercitei em toda a minha vida, e isso, pra mim, é uma vitória tremenda. Eu sempre tive pavor de exercícios físicos, e ainda é uma vitória diária me encaminhar pro nosso “espacinho fitness” e dedicar uma horinha do meu dia pra me mexer.

No dia a dia, eu continuo tentando aprofundar a minha fé. Eu nunca passei tanto tempo sem ir à igreja, mas eu tentei trazê-la pra dentro de casa todos os dias – fosse pelas missas transmitidas pela tv ou internet, ou pela meditação silenciosa da liturgia. A música também me ajuda a aprofundar a minha fé – eu realmente acredito que, quem canta, reza duas vezes.

Tudo passa. Meu pai sempre diz que 31 de dezembro chega na mesma hora pra todo mundo. E, nesse ano que parecia não ter fim, 31 de dezembro finalmente chegou. 2021 vem chegando com a promessa da vacina e, eu espero, com a possibilidade da reabertura das fronteiras, da gente poder receber nossos pais aqui, da gente poder ir ver nossa família e amigos no Brasil, de trazer de volta e dobrar todos os abraços que não pudemos abraçar nos últimos 366 dias.

31

“Estais sempre alegres, orai incessantemente, dai graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus a vosso respeito em Cristo Jesus” (I Ts 16-18).

Eu considero meu aniversário meu ano novo particular. Esse ano não foi fácil pra ninguém, e pra mim não foi muito diferente.

Nos últimos 366 dias, tive que enfrentar a minha ansiedade de frente e lutar para não deixar que meus monstros me dominassem. Eu, que sempre gostei de ver o copo meio-cheio, tive meus dias de copo meio-vazio. Mas a minha fé – que vai muito além do meu otimismo – me segurou e me sustentou em todos os momentos. Todos os dias eu me lembrei de todas as razões que tenho pra agradecer, e eu sei que minha fé me fez continuar seguindo em frente.

A vida é cheia de incertezas mas, nesse ano, parece que todas elas foram aumentadas, potencializadas, escancaradas.

Nunca passei tanto tempo longe dos meus pais, dos meus amigos, dos meus parentes e familiares. Nunca fiquei tanto tempo dentro de casa. Nunca senti tanto medo da minha asma ser a minha maior fraqueza.

Eu poderia reclamar e dizer que nada do que eu planejei pra esse ano se concretizou. Mas eu tenho que reconhecer que esse ano me fez crescer muito, me permitiu que eu me reconectasse com camadas muito profundas de quem eu sou, me fez me sentir cada dia mais viva, me fez ter ainda mais motivos para agradecer.

Se, antes da pandemia, eu já sabia que tinha no meu marido o meu grande companheiro de vida, esse ano confirmou isso mais uma vez – se não fosse pelo Felipe, que é meu maior amigo, confidente, parceiro pra todas as horas, este ano teria sido realmente insuportável. E hoje, mais uma vez, ele provou ser o maior presente que eu podia ter nessa vida – inclusive fazendo um delicioso bolo de côco para cantarmos parabéns pra mim.

E, se o ano foi – no mínimo – esquisito, pelo menos hoje eu realizei meu sonho de infância de ter uma “festa” com o tema d’A Bela e a Fera. Quando eu era criança, eu sempre pensava em escolher esse tema pras minhas festas, mas sempre vinha algum outro desenho que eu também gostava e postergava A Bela e a Fera. Aos 31, o tema do meu aniversário foi, finalmente, A Bela e a Fera, numa festa pra dois.

40 dias sem sair de casa – de novo

Eu não sei se já escrevi isso aqui, mas o outono é a minha estação favorita do ano.

Desde que nós nos mudamos pra Armênia e eu comecei a ver a mudança das estações, eu fiquei completamente hipnotizada pelas cores do outono. Aqui na Suíça, não é diferente.

Eu amo a temperatura amena do outono, o ventinho fresco, as cores, o céu azul depois de um dia de chuva. Eu amo observar as árvores mudando de cor, as folhas caindo. Amo ver que cada árvore tem o seu próprio tempo, que umas perdem as folhas mais rápido do que outras, que suas cores podem ser tão diferentes entre si. Eu amo caminhar sobre as folhas secas, observar as diferentes cores e formas que cada folha tem nessa época.

outono da janela

Neste ano, não estou podendo viver o outono do jeito que eu gosto. A situação deteriorou muito e muito rápido por aqui, e eu resolvi me recolher – de novo – há 40 dias. Desde então, estou vendo o outono só pela janela, na esperança de que as pessoas tenham consciência e sigam as orientações para evitar a disseminação ainda maior do vírus.

No último dia que eu saí de casa (na missão de buscar remédios, pra variar), a Suíça estava começando a registrar mais de mil novos casos por dia. Enquanto ouvi/li que isso se dava porque os números de testes tinham aumentado muito, eu me apavorei. Afinal de contas, o verão mal tinha terminado, e na minha memória ainda estava fresco o resultado de menos de 10 casos positivos por dia no país.

Nesses 40 dias em casa, tem sido uma verdadeira montanha-russa acompanhar a evolução da pandemia por aqui: primeiro, os números aumentaram vertiginosamente, passando de mais de 10 mil casos em 24h (mais de uma vez). Depois, os números diários começaram a cair levemente, desde que o uso de máscara se tornou obrigatório em espaços públicos. Mas não observamos uma queda estável: ontem, foram registrados 4.560 casos; hoje, já são 6.114 – isso sem contar o aumento nas hospitalizações e mortes.

Pra completar, nos meus primeiros dias de “auto confinamento” em outubro, eu tive uma belíssima crise de sinusite, seguida por uma considerável crise de asma. E tem uma semana que estou lutando pra evitar uma crise de gastrite, mas hoje acordei com o estômago gritando de dor.

Enquanto eu tento me concentrar pra render o mínimo necessário que o doutorado me exige, são muitos os questionamentos que passam pela minha cabeça, entre eles: quando vou poder sair de casa de novo? Quando vou me sentir segura para andar sem máscara na rua? Quando vou poder rever meus pais? Quando vou ter coragem de viajar de trem/avião? Será que tudo isso só vai ter solução com uma vacina? Será que as pessoas vão se vacinar? Quando eu vou deixar de morrer de medo a cada crise de asma que eu tenho, por não saber se é “apenas” uma crise de asma “normal” ou se é um sintoma de coronavírus?

Outros outonos virão.

Um dia em Brugge

Quando estávamos definindo nosso roteiro de férias, acabamos optando por fazer de Bruxelas nossa base e, de lá, fazer day trips para outras cidades da Bélgica que nos interessavam – como, por exemplo, Bruges. Você, que é leitor assíduo desse blog, já se ligou que a gente gosta bastante de uma day trip.

Eu perdi a conta de quantas pessoas me disseram que Bruges é uma cidade lindíssima, um destino imperdível na Bélgica. Realmente, a cidade é uma gracinha, cortada pelos seus canais, caracterizada pelas ruas de paralelepípedos, cheia de construções medievais.

Bruges é a capital da província de Flandres Ocidental, e é bastante fácil viajar entre Bruxelas e Bruges: partindo da Estação Central de Bruxelas, a agradável viagem de trem dura 1h. Mesmo quando estamos de carro, como era o caso dessa viagem, por vezes nós achamos mais vantajoso fazer day trips de trem, seja pela comodidade de ir descansando no percurso ou por não precisarmos nos preocupar com estacionamento, por exemplo.

A sensação que eu tive é que realmente dá pra conhecer Brugge inteira em um dia de passeio. Nós caminhamos bastante pela cidade e as paisagens realmente são encantadoras.

Entre os destinos que visitamos na Bélgica, creio que Brugge foi o mais caro: os cafés e restaurantes não tinham opções muito acessíveis para o almoço, e nós acabamos comendo no Burguer King mesmo.

Lembro que o bilhete de trem que compramos dava direito a parar em Gant, o que fizemos no trecho de volta para Bruxelas, mas talvez já estivéssemos cansados e acabamos não achando nada demais. Talvez um dia voltaremos pra explorar com mais cuidado!

Porque você não deve visitar o Beer Museum em Bruxelas

Com tanta coisa acontecendo, parece que faz um século que nós viajamos de férias e passamos uns dias na Bélgica. Eu perdi a conta de quantas vezes ensaiei escrever os posts sobre nossos passeios por lá e acabava desanimada por conta do contexto pandêmico no qual estamos inseridos. Mas hoje resolvi aproveitar que tô numa crise de sinusite danada e, consequentemente, não existe a menor possibilidade de estudar pra, finalmente, contar um pouco do que fizemos naquelas férias.

A bela e grandiosa Grand-Place de Bruxelas.

Isto posto, não é novidade pra ninguém que a Bélgica é muito conhecida pelas suas cervejas – que são, de fato, muito saborosas. E, localizado no centro de Bruxelas, mais precisamente na Grand-Place, está o Belgian Brewers Museum, também conhecido como Beer Museum ou, em bom português, Museu da Cerveja. Como este blog é comprometido com a realidade, eu sou obrigada a dizer: é uma cilada, Bino!

O prédio da Maison des Brasseurs, que abriga o Museu da Cerveja.

Talvez nossa expectativa fosse muito alta por já termos visitado a Guinness Storehouse na Irlanda, mas tanto eu quanto o marido achamos o Museu da Cerveja de Bruxelas bastante decepcionante: além de ser muito pequeno, a impressão que tivemos é que não há um verdadeiro esforço pra contar a história da tradição belga em fazer cerveja. Pra completar, as poucas informações disponíveis são coladas nas paredes numas folhas A4 amadoramente impressas.

Fato é que, depois de olhar o museu, está incluído no ingresso a degustação de uma cervejinha. Se eu fosse você, quando estivesse em Bruxelas, economizaria tempo e dinheiro, pulava esse museu fajuto e tomava uma cervejinha direto em algum bar ou restaurante mais legal na cidade.

Coisas que eu aprendi em 1 ano de Suíça

Quando a gente tava na Armênia, eu fiz um post falando um pouquinho das coisas que tinha aprendido nos primeiros 6 meses por lá. Depois de 1 ano na Suíça, mesmo já tendo dado uns spoilers dos meus aprendizados por aqui nesse primeiro ano muito louco, resolvi escrever um post só pra listar as principais coisas que aprendi até agora.

Como qualquer outro lugar do mundo, a Suíça também tem problemas.

Eu sou do time que arranca logo o band-aid, então já trago essa verdade no primeiro tópico. A gente tem o costume de idealizar a vida em alguns lugares, e a Suíça costuma ser citada como um dos lugares mais maravilhosos do mundo. De fato, as belezas naturais desse país são inacreditáveis, beirando a perfeição. A arquitetura também encanta, principalmente nos centros históricos. A Suíça deve ser o único país do mundo em que o cartão-postal é realmente idêntico, retrato fiel da realidade. Mas, como qualquer outro lugar do mundo, o dia a dia é desafiador e apresenta problemas. O setor de serviços é bem ruim de uma maneira geral, desde demorar pra fazer a internet funcionar até atrasos em entregas programadas, passando pela TV a cabo sem tecla SAP. Aqui em casa, por exemplo, demoramos quase 9 meses pra conseguir concluir o processo de troca das persianas de alumínio de enrolar externas de dois dos quartos; foi tão traumático que, há poucas semanas, a persiana externa da sala de TV deu problema e a gente simplesmente comunicou à imobiliária pedindo pelo-amor-de-Deus pra eles deixarem assim porque a gente não quer passar por esse perrengue de novo (pelo menos, não tão cedo). Nem tudo funciona como um reloginho: desde atraso em entrega dos correios, ou entrega de supermercado, ou mesmo atrasos nos ônibus e trens, até marcar de fazerem um serviço em casa e simplesmente não aparecerem, tudo isso pode acontecer aqui como em qualquer outro lugar do mundo.

PS: aqui na Suíça é muito comum que os apartamentos/casas tenham a sala de jantar num cômodo separado da sala de estar; nós optamos por transformar esse cômodo imaginado pra ser a sala de jantar em uma sala de tv, e juntar a área estar com área de jantar no mesmo ambiente.

Pra economizar, é preciso planejamento.

A Suíça é um país muito caro, e isso não é novidade pra ninguém. Sem planejamento, é impossível economizar por aqui. E planejamento, nesse caso, precisa ir muito além de estipular uma meta de gastos mensais e uma meta de poupança: na maior parte das vezes, as maiores economias são feitas quando se consegue comprar um mini-estoque de coisas que estão com desconto. Nos mercados, por exemplo, é preciso ficar de olho nas promoções para aproveitar os preços mais baixos de artigos não-perecíveis (de papel higiênico a detergente, de papel toalha a sabão em pó). O mesmo vale pra dermocosméticos, por exemplo, já que algumas farmácias on-line oferecem descontos de até 20% de tempos em tempos. Outro jeito de economizar é se inscrevendo em todos os tipos de programa de fidelidade das lojas, farmácias, mercados, etc: muitos oferecem cashback de acordo com a quantia gasta, frete grátis, cupons de desconto, entre outros benefícios.

Tudo é correio, tudo é papel.

Eu nunca vou me esquecer de quando estávamos na expectativa de assinar o contrato de aluguel desse apartamento: aparentemente, tinha ficado tudo certo e deveríamos receber o contrato para lermos assinarmos e entregarmos na imobiliária. Passaram-se 2, 3, 4 dias, nada de receber o contrato por email. Resolvemos entrar em contato com o corretor pra saber se houve algum problema, manifestando novamente o nosso interesse no apartamento, ao que ele responde que o contrato tinha sido enviado pelo correio e que deveríamos receber no dia seguinte no hotel residencial onde estávamos hospedados. A partir de então, tivemos que nos acostumar que tudo é feito pelo correio, tudo é feito com muito papel. Recebemos, semanalmente, muitos encartes dos supermercados, mesmo já tendo pedido pra que não nos sejam enviados, já que eu consigo ver todas as ofertas online. Aliás, eu acho que os correios deveriam receber toda uma categoria neste post dedicada a eles, mas eu vou me limitar a dizer que os suíços confiam muito nos correios e dependem muito dos correios pra tudo, e nem sempre tem uma lógica nas entregas: as vezes eles interfonam avisando que chegou alguma coisa, as vezes é um silêncio absoluto e eu que lute pra descobrir se o que eu tô esperando foi entregue (tá, nem é tanta luta assim, é só entrar no rastreio que vai tá lá escrito, mas é que eu acho estranho eles só avisarem pelo interfone as vezes; pra mim, ou avisa sempre ou não avisa nunca! hihihihi).

Você pode pagar (quase) tudo por boleto.

Ah, os boletos. Aqui na Suíça, eles são laranja e devem ser pagos somente nas agências dos correios. Não, você não leu errado: por aqui, não existe a opção de ir no banco pagar um boleto. É possível pagar um boleto pelo internet banking, ou indo até uma agência dos correios. E tudo é boleto. Compra online pode ser paga por boleto. Supermercado pode ser pago por boleto. Aluguel de apartamento e vaga de garagem podem ser pagos por boleto. Dentista e consulta médica podem ser pagos por boleto. Óculos de grau pode ser pago por boleto. Quando eu fui fazer um check up, eu queria pagar na hora, mas simplesmente não consegui porque o sistema de pagamento deles é por envio de boleto, que poderia demorar até 2 meses(!) para chegar. Aqui, a lógica é que, se você tem um endereço na Suíça, o mais conveniente é receber um boleto (via correio, claro) para pagar pelas suas coisas. Você sempre tem, no máximo, 1 mês para pagar o boleto recebido – eu prefiro SEMPRE pagar no mesmo dia que recebo, que é pra não correr risco de ter complicação. E, sabendo como eles adoram um papel, eu nunca me esqueço de imprimir as confirmações de pagamento.

O verão é quente demais.

MEU DEUS DO CÉU. Que calorão!! Eu estava doida pro outono chegar – e chegou com tudo, com temperaturas de 3ºC na primeira semana. Mas, olha, que verão horrível. É lógico que a experiência do verão também foi prejudicada pela pandemia do coronavírus, já que eu mais fiquei em casa do que qualquer outra coisa, e as casas/aptos suíços são projetados para reter calor. Se tivesse sido um verão normal, saindo pra passear, andar na beira do rio, curtir o pôr do sol, sentar nas mesas externas dos restaurantes pra comer, essas coisas assim, talvez eu tivesse gostado um pouquinho. Quem sabe no ano que vem? Porém devo confessar que não tenho muita expectativa de gostar de verão porque eu nunca gostei de calor na minha vida.

Não dá pra evitar (conversas com) os vizinhos.

Vizinhos gostam de conversar, nem que seja parado na escada. É, eu sei, tem dias que a gente sai meio na correria, tem dias que a gente não tá muito pra conversa (o que pode ser potencializado se a conversa é num outro idioma que você não domina). Mas aqui, pelo que eu aprendi, não tem jeito: se eu cruzar com algum dos meus vizinhos na escada, ou na caixa de correio, ou na área da “garagem” (que, aqui, é diferente do conceito de garagem com o qual eu sempre estive acostumada), ou mesmo na lixeira, eu com certeza vou ter que parar e conversar com eles. E os vizinhos apreciam MUITO pequenas gentilezas, tipo um cartãozinho desejando bom final de semana ou coisas assim.

Não existe um “alemão suíço”, mas vários.

Todo mundo sabe que alemão é uma língua cheia das complicações. Geralmente, o alemão que estrangeiros aprendem é o “alemão padrão” (Standarddeutsch/Standardhochdeutsch/Hochdeutsch – tá vendo, uma língua que tem 3 jeitos de chamar a mesma coisa não é nada simples!), que com certeza vai te ajudar a ser compreendido em qualquer lugar onde se fale alemão. MAAAAAAS se, dentro da Alemanha, há vários jeitos diferentes de se falar alemão, a Suíça também não ia ficar de fora e é claro que há vários jeitos de se falar alemão na Suíça, mesmo sendo um país minúsculo, mesmo sendo um país com 4 idiomas oficiais. O alemão que se fala aqui em Berna, por exemplo, é diferente do alemão que se fala em Zurique. O que eu noto é que essas diferenças não impedem a comunicação mas, em geral, os interlocutores adaptam o alemão que estão falando pra que o outro tenha compreensão. E num país com 4 idiomas oficiais….

Tá liberado misturar italiano com francês com alemão (não necessariamente nessa ordem).

Eu nunca vou esquecer do dia que eu tava no ônibus e observei duas senhoras conversando: uma falava em alemão, a outra respondia em francês. E assim elas conversaram muito tranquilamente o trajeto inteiro. De acordo com minhas observações, o costume suíço é se expressar no idioma (oficial) que você se sente mais confortável. O alemão suíço “rouba” várias palavras do francês (e algumas do inglês, mas isso são outros 500), e eu já me liguei que, se eu não souber alguma palavra em alemão, eu posso falar em francês que há uma chance de 95% de ser compreendida, o que facilita bastante a minha vida.

Não é todo mundo que fala inglês.

Isso aí foi uma das coisas mais chocantes pra mim, confesso. Nas duas vezes que eu tinha vindo pra Suíça antes de mudarmos pra cá ano passado, fiquei em Genebra, e eu queria mais era gastar o meu francês. Chegando em Berna, com meu alemão ainda bem capenga (não que hoje esteja tinindo, mas já melhorou consideravelmente), era inevitável que tentássemos falar em inglês com as pessoas, principalmente pra resolver as coisas do apto/carro. E, meu Deus do céu, que dificuldade! Em Berna, era mais fácil eu me resolver em italiano do que em inglês. Lógico que, pensando em estrutura turística, você vai conseguir se comunicar em inglês. Mas, para o dia a dia, eu percebi que o alemão seria ainda mais importante aqui do que o russo era na Armênia.

Viajar não é tão fácil assim.

Uma das coisas que mais nos animava antes de chegarmos aqui era a possibilidade de viajarmos pela Europa – o que a gente não imaginava era que sair de Berna não é tão fácil assim. Pensando num mundo sem coronavírus (afinal de contas, quem podia imaginar?!), nossos planos incluíam viagens aos finais de semana (nem que fosse uma vez no mês) para países vizinhos/próximos. Mas logo logo vimos essa expectativa se frustrar, já que as conexões ferroviárias saindo de Berna são bem poucas e em horários pouco convenientes, e os horários de voos saindo de Zurique (o aeroporto mais próximo, que fica a quase 1h30 de trem) não ajudam quem está na capital da Suíça e quer dar uma escapadinha de fim de semana. Por sua vez, viajar dentro da Suíça é sempre bem fácil, seja pelas excelentes conexões ferroviárias, seja pelas estradas im-pe-cá-veis.

Coronavírus mudou tudo.

Impossível não refletir sobre esse aspecto, que mudou absolutamente TUDO. É claro que isso aconteceu pra todo mundo no mundo todo, mas eu não consigo evitar de pensar no impacto que a pandemia causou em diversas esferas da minha vida, da nossa vida aqui. A começar pela Universidade: por exemplo, eu achava que conseguiria formar um círculo de conhecidos (falar em círculo de amizades é algo complexo quando se mora tão pouco tempo em um lugar, e mais complexo ainda se tratando de uma sociedade mais fechada como é a Suíça), compartilhando as angústias e as alegrias da pesquisa de doutorado nas aulas, e é lógico que eu tive que me conformar com as aulas e seminários virtuais. As viagens, também, foram completamente comprometidas, mesmo dentro da Suíça. Meu Deus, eu mal tenho coragem de ir a pé ali no centro, vê se eu vou ter coragem de viajar pra um lugar turístico, me hospedar num hotel, etc? E não foram só as nossas viagens que foram afetadas: nossos pais ainda não conseguiram vir nos visitar, o que é algo muito, muito esquisito. Em tempos de coronavírus, lidar com a saudade é um desafio diário.

1 ano na Suíça!

Foi no dia 15 de agosto de 2019 que chegamos em Berna. Depois de 366 dias, devo dizer: que ano muito louco!

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Hoje, olhando pra trás, percebo que nós já chegamos aqui meio agitados; queríamos alugar apartamento rápido, queríamos comprar carro rápido, queríamos comprar móveis rápido, queríamos nos habituar ao ritmo da cidade e do país rápido. Pra completar a agitação, eu quis entrar no doutorado rápido.

Toda essa agitação foi boa e ruim; de fato, em pouco mais de 2 semanas aqui já tínhamos nos mudado pra esse apartamento e recebido os primeiros móveis que compramos e montamos sozinhos! Nunca pensei que eu fosse montar um sofá na minha vida! Tendo um endereço fixo, conseguimos também rapidamente abrir conta no banco, e eu pude me candidatar ao doutorado na Universidade de Berna.

Mas hoje consigo ver que a agitação toda do início pode ter feito com que tomássemos algumas decisões precipitadas. Nessas horas, eu sempre tenho que lembrar do que o meu pai sempre diz: “a pressa é inimiga da refeição!”

Além disso, a vontade de nos adaptar rápido ao novo país de nada adiantou – pra falar a verdade, ainda hoje, um ano depois, eu ainda não me sinto completamente adaptada.

Demorou um pouco pra que eu aprendesse a lidar com os nossos vizinhos, por exemplo. Neste prédio, são apenas 6 apartamentos, dos quais 5 tem residentes fixos. Todos eles se conhecem há muito tempo, são amigos, conversam por horas no jardim nas tardes de verão. E eles gostam de conversar. Demorou pra que eu entendesse o ritmo deles, demorou pra que eu entendesse que parar pra conversar na escada faz parte do costume deles, demorou pra que eu entendesse como eu tinha que me comportar quando encontro com eles. E, mesmo depois de um ano, eu ainda não entendo a obsessão deles  (e dos suíços em geral) com jardinagem!

Demorou, também, pra entender que não dá pra ficar comendo na rua todo sábado e domingo, muito menos no meio da semana, porque pesa muito no orçamento. Quando dizem que a Suíça é cara, não estão exagerando; o dia a dia aqui é muito caro mesmo. Restaurante tem que ser coisa de ocasião especial, e olhe lá.

E foi aí que eu comecei a cozinhar mais, a ter mais vontade de aprender a fazer coisas diferentes e gostosas, pra que a gente sentisse prazer em fazer todas as nossas refeições em casa.

Demorou (pouco, mas demorou) pra que eu entendesse que eu seria a minha melhor podóloga nesse país. Qualquer serviço aqui é muito caro, e podologia não seria diferente. Como meus pés são complicadinhos, eu não me incomodaria de pagar caro pra sair satisfeita – afinal, fazer meu próprio pé é absolutamente difícil e cansativo. No entanto, depois de três tentativas frustradas, das quais eu saía ainda com alienígenas precisando ser retirados dos cantinhos das minhas unhas encravadas, eu resolvi comprar todos os apetrechos disponíveis e tratar do meu pé sozinha. A cada 15 dias, a dor nas costas é certa, mas tenho feito cada vez menos barbeiragens.

Não demorou pra gente perceber que nós 2 teríamos que cuidar integralmente da casa, dividindo todas as tarefas: é financeiramente inviável contratar alguém para fazer os serviços domésticos. A gente fica cansado? Muito. Confesso que, pra mim, não é nada fácil acumular todas as atividades acadêmicas com as responsabilidades de organização e limpeza da casa. Mas, graças a Deus, até agora, estamos dando conta, e o apartamento fica um brinco.

Pra completar esse primeiro ano bem louco, veio a pandemia, nos colocando dentro de casa 24 horas por dias por praticamente 1/3 do nosso tempo de Suíça até agora. De repente, nos vimos presos os dois dentro de casa, mudando vários dos nossos planos, mudando as coisas de lugar, comprando (e montando) móveis novos. Nos vimos muito mais na frente da TV, cozinhando muito mais, limpando tudo mais intensamente. De repente, me vi tendo aulas online, enquanto o marido resolvia todas as coisas do trabalho pelo computador e telefone. Nos vimos dividindo o home office, aprendendo diariamente a não atrapalhar o trabalho do outro. Me vi 102 dias sem sair de casa, depois mais duas semanas, depois intercalando períodos longos em casa com saídas curtas quando não posso evitá-las, tendo que ser ainda mais cuidadosa do que sempre fui.

Nas minhas expectativas, em um ano de Suíça, já teríamos ido umas 3 vezes pra Disneyland Paris, pelo menos 1 vez pro WB Studio Tour e assistido a uma partida da NFL em Londres, já teríamos ido muito mais vezes pra Itália e pra Alemanha, já teríamos viajado muito mais dentro e fora da Suíça. Nos nossos planos, meus pais estariam aqui conosco.

Próximo de completar um ano por aqui, me vi tendo que abrir mão do conforto de ir nos meus médicos no Brasil, que me conhecem há tantos anos, que sabem exatamente do meu histórico, pra me consultar com os médicos daqui, falando em alemão e em inglês. Ter que explicar do zero todo o meu histórico (e também o histórico dos meus pais) de saúde não é uma tarefa que me deixa animada. E devo confessar que é sempre um desafio confiar em médicos que nunca vi na vida.

Minha ansiedade voltou com força e eu tô tendo que reaprender a lidar com ela. Os anos de Armênia tinham sido providenciais para que minhas crises de ansiedade tenham ficado sob controle, mas eu não consegui evitar que as crises voltassem nos últimos meses. A pandemia mexeu muito comigo em muitos níveis, resultando em crises frequentes.

Esse primeiro ano de Suíça foi de muito aprendizado, sem dúvida. E com certeza vou continuar aprendendo diariamente. Eu espero que os próximos anos aqui, antes do próximo posto que a gente nem imagina qual é, sejam mais leves do que este ano que passou.

O Bärenpark de Berna

A relação de Berna com os ursos é muito forte, já que Bärn (grafia do alemão bernense; lê-se “Bern”) significa “urso”.

Há várias versões sobre a origem desse nome mas, de acordo com a lenda local, Berchtold V von Zähringen, fundador de Berna, prometeu batizar a cidade com o nome do primeiro animal que encontrasse quando saiu pra caçar. Por ter encontrado um urso, a cidade ganhou o nome de Bärn, que também está representado no brasão da capital da Suíça e deste cantão.

A mais antiga referência à presença de ursos vivos na Bärengraben data de 1513! Até 1857, os ursos ficavam livres pela cidade, até serem colocados no poço dos ursos. A partir de 2009, houve uma expansão do Bärengraben, que se tornou o Bärenpark (ou “parque dos ursos”).

São 3 os ursos morando no Bärenpark: Finn (pai), Björk (mãe) e Ursina (filha). Durante o verão e o outono, os ursos se preocupam em buscar comida e encontrar o suficiente para sua alimentação. A vida dos ursos também inclui banhos regulares (no caso de Finn, Björk e Ursina, em uma faixa do rio Aare) e cochilos na parte da tarde, de preferência na sombra.

Os ursos que ficam no Bärenpark são alimentados de acordo com as estações, com muitos legumes e verduras, algumas frutas, e as vezes carnes ou peixes. Na medida em que o outono se aproxima, eles são alimentados com mais frutas e berres, que tem açúcar, bem como com castanhas que contém alto teor de gordura, para que os animais possam ficar bem nutridos para o inverno.

Os ursos não são alimentados em horários fixos; geralmente, a comida é distribuída e escondida no poço, sempre em lugares diferentes e horários diferentes. Desse modo, os animais podem procurar pelos alimentos e ficam constantemente ocupados por muitas horas, como é adequado para a espécie.

O Bärenpark fica bem próximo da cidade velha de Berna, onde o comércio da cidade se mistura à construções medievais, e o acesso é gratuito. É terminantemente proibido que os visitantes alimentem os ursos.

Segundo as minhas observações nas minhas idas a pé para o centro, a melhor época para ver os ursos é na primavera e no verão, principalmente na parte da manhã. Lembro de vê-los raramente no outono passado, que já foi bem fresquinho e chuvoso, e os ursos ficavam mais “escondidos”.

Notícias do lado de cá

Desde o meu último post, ensaiei várias vezes escrever alguma coisa por aqui, mas qualquer linha torta simplesmente parecia não fazer sentido.

Primeiro, pensei em contar sobre a sensação de sair de casa pela primeira vez depois de 102 dias, quando meu coração batia tão rápido por uma simples ida na farmácia pra buscar um remédio. Pensei em contar como me preparei toda, com uma roupa que fosse fácil de lavar e cheia de bolsos, porque eu não queria sair de bolsa. Pensei em contar sobre como saí sem mesmo levar carteira, colocando apenas cartão do banco e identidade em um pequeno plástico de documentos, que poderia ser facilmente higienizado quando chegasse em casa. Poderia contar sobre como prendi o cabelo bem preso, pra evitar mexer nele, e que coloquei as lentes de contato, que há tanto tempo não eram usadas, pra evitar ficar botando a mão no rosto toda hora pra acertar ou mesmo trocar os óculos escuros pelo de lentes claras. Pensei em escrever sobre a sensação de caminhar na rua sob o sol das vésperas do verão que logo ia chegar, de ver o céu azul sem a moldura das janelas, de passar pelo parque dos ursos e vê-los aproveitando o dia sem saber que há coronavírus modificando a vida de tanta gente pelo mundo. Pensei em registrar as milhares de sensações ao ver tanta gente andando na rua, entrando nas lojas e supermercados, andando de transporte público, retomando suas vidas. Pensei em escrever sobre ter visto tão pouca gente de máscara na rua – e, pior, tão pouca gente de máscara nos transportes públicos.

Aqui na Suíça nunca foi obrigatório o uso de máscara, e pouquíssimas pessoas optam por usá-las nas ruas. Parece que é uma tendência geral na Europa. Foi há poucos dias que entrou em vigor aqui a obrigatoriedade do uso de máscaras no transporte público, que eu evito pegar quando vou na rua.

Desde aquela primeira vez que saí, no dia 12 de junho, eu fui na rua algumas vezes – sempre com um propósito muito específico, sempre de máscara, sempre neurótica. Fui ao hospital fazer alguns exames de rotina, já que não há previsão de podermos ir ao Brasil. Naquele dia, fiquei em jejum por quase 17 horas, já que eu teria que fazer exame de sangue as 9 da manhã. Mesmo tendo levado um lanchinho, eu só consegui comer quando voltei pra casa porque eu simplesmente não podia tirar a máscara dentro do hospital. Poder, talvez até pudesse, mas cadê que eu tinha coragem? Preferi ficar com fome.

Daqui de casa até o centro é uma agradável caminhada de pouco mais de 1km, descendo com uma bela paisagem, passando pelo parque dos ursos. A volta é pelo mesmo caminho, mas a então subida torna-se um desafio caso eu esteja com alguma compra – o que, quase sempre, é o caso, já que eu só saio de casa com um objetivo claro, com uma rota estratégica traçada.

Pensei, também, em escrever sobre como eu precisei me reorganizar internamente para voltar a ficar em casa sozinha, depois de tanto tempo com o marido dividindo o home office. Foi só ele voltar ao trabalho presencial que eu percebi que desaprendi completamente de ficar em casa sozinha e, pra falar a verdade, acho que ainda não consegui reaprender. Não se trata de ter medo de ficar sozinha ou algo do tipo; é, por exemplo, falar comigo mesma e não ter ele perto de mim pra perguntar se na verdade eu tô falando com ele.

Também pensei em riscar algumas linhas sobre como esse período todo nos fez olhar mais pra dentro da nossa casa e investir no nosso conforto, mudando desde a cor e textura do tecido que revestia o sofá da sala de TV por termos achado uma loja que vende capas feitas sob medida para as peças dos sofás da Ikea, até a aquisição de novas louças e objetos decorativos, passando pela compra de confortáveis almofadas, roupa de cama de qualidade e jogos de mesa que combinam com a gente. Sempre gostamos de ficar em casa, mas a cada dia entendemos mais a importância de termos conforto e vermos beleza no lugar onde passamos a maior parte do nosso tempo curtindo a companhia um do outro.

Pensei em escrever sobre as duas vezes que resolvemos sair pra tomar ar puro em finais de semana, aproveitando pra lavar o Bolinha e abastecê-lo, e conhecemos dois belos lagos daqui, sem saber muito bem se ia dar certo, já que usamos o critério onde-será-que-vai-ter-menos-gente. Também poderia escrever sobre o aniversário do marido, quando eu fiz um estrogonofe gostoso e também o meu primeiro bolo que, na verdade, foi uma torta de maçã que ficou bem deliciosa. Naquele dia, montei uma mesa bem bonita, com muito carinho e cuidado pro meu amor, e de noite também preparei um sashimi de salmão que não ficou aquém de alguns restaurantes japoneses.

Também pensei em escrever sobre a alegria de poder ver o documentário “Sandy & Junior – A História” na Globoplay e relembrar tantas coisas que eu vivi, identificando diversos momentos em que as histórias deles se entrelaçam com a minha. Poderia tentar explicar a alegria ainda maior de finalmente poder assistir ao show “Nossa História”, ainda que seja só pela TV. Pensei até mesmo em escrever sobre como eu não tenho a menor estrutura pra lidar com os vídeos do Junior bem criancinha, quando ele explodia todos os termômetros de fofura. Nesses últimos dias, poder resgatar essa parte da minha história tem sido importantíssimo pra mim; é um alento, um reencontro com a Letícia criança e adolescente, dando um novo fôlego para minha criança interior que é ainda tão viva mas que, por conta da pandemia, tem ficado muito mais calada do que de costume.

Eu poderia também escrever que hoje estou um pouquinho triste porque, se mantidas as CNTPs, meus pais pegariam o avião hoje pra cá, amanhã eu iria buscá-los no aeroporto em Zurique, e eles passariam um mês aqui conosco. Poderia escrever sobre a saudade que eu sinto deles, sobre a vontade de abraçá-los, sobre a dor da incerteza de quando vamos poder nos reencontrar. Poderia escrever sobre como é difícil estar longe de tudo e de todos sempre, e como fica ainda mais difícil num momento tão delicado como esse.

Eu poderia ter escrito sobre todas essas coisas, mas todas as vezes que eu tentava rabiscar qualquer coisa por aqui, os absurdos e crescentes números de casos de covid-19 no Brasil e, pior, as absurdas e crescentes mortes em decorrência do covid-19 vinham na minha cabeça, e parecia que nada do que eu pudesse escrever fazia sentido. Um primo da minha mãe, a quem eu chamava de tio, morreu por complicações causadas pelo coronavírus depois de ficar internado por quase 2 meses. E, mesmo que ninguém da minha família tivesse sido vítima do coronavírus, a dor de todas as quase 80 mil mortes dói profundamente em mim.

100 dias em casa

E, enfim, cheguei ao 100º dia sem sair de casa.

Nos últimos dias, eu andei sem muita vontade de escrever, sem muita vontade de redes sociais, sem muita vontade de nada na verdade. Acho que todos os acontecimentos mundiais e, principalmente, as coisas que vem acontecendo no Brasil, me desanimaram bastante e eu achei melhor respeitar essa minha vontade de reclusão. Os números de casos confirmados e, pior, os números de pessoas mortas não param de crescer. Isso mexe demais comigo. Mas eu não podia deixar de fazer um registro para a posteridade neste centésimo dia sem sair.

A Suíça já entrou na última fase de flexibilização da quarentena. Ainda assim, o “Ministério da Saúde Suíço” continua recomendando que as pessoas que fazem parte de algum grupo de risco evitem sair de casa, usar transporte público, ir em lojas e supermercados movimentados, etc.

De acordo com o calendário da Universidade, as férias de verão já começaram, e graças a Deus temos conseguido fazer on-line todas as compras de que precisamos (e até de que não precisamos), então não vejo razão pra sair e me colocar em risco a toa. Na verdade, quanto mais eu fico em casa, mais eu gosto de ficar em casa.

Meu nariz tem sofrido nos últimos dias porque tinha começado a esquentar, fez calor vários dias seguidos (a ponto de eu precisar comprar uns shorts online porque eu não aguentava mais ficar de calça comprida e sentindo calor), e de repente o tempo virou e ficou frio de novo (a máxima hoje é de 13ºC). Sem contar a umidade nas alturas.

Falando em umidade, ontem eu descobri que um dos desumidificadores estava quebrado  justo na base do recipiente de coleta e, consequentemente, vazando. Aí fui conferir se tinha mais algum na mesma situação (tem que ter um desumidificador em cada cômodo pra tentar dar conta de tanta umidade) e não só todos estavam perfeitos como eu deixei um cair no chão e quebrar.

Continuo tentando manter minha rotina o mais normal possível, me concentrando o máximo que eu posso nos meus estudos (mesmo de férias, porque a pesquisa não vai se realizar sozinha não é mesmo) e tomando meu chazinho pra me esquentar no frio que insistiu em voltar.