Comprando carro em Berna

Nessa vida diplomática itinerante, comprar carro pode ser o céu ou o inferno. Há lugares em que é impossível não ter carro, enquanto há outros em que é impossível tê-lo. Há lugares em que não tê-lo pode ser razão de arrependimento. Há lugares em que os custos altíssimos de ter um carro são tão altos que não compensam as vantagens. Estas questões representam um pouco do que passa na nossa cabeça antes de considerar comprar um carro que durará um período curto de tempo conosco.

Na Armênia, nós optamos por não ter carro como resultado de diversos fatores: quando nós chegamos, as ruas estavam cobertas de neve, o que já nos assustou de cara; táxi lá era muito barato (já contei aqui que custava 4 dólares ir pro aeroporto, que ficava a 15km do nosso apartamento lá); a gente conseguia fazer muita coisa a pé; e assim por diante. Mas, na medida em que o tempo foi passando, nós começamos a nos arrepender um pouco dessa decisão: o carro nos fazia falta na hora de fazer mercado, por exemplo, bem como para viajar pelo país (teria sido muito mais fácil encarar as estradas ruins da Armênia com um carro que fosse nosso e, consequentemente, teríamos conseguido viajar bem mais pelo país).

Desde o momento em que ficou decidido que viríamos pra Suíça, nós definimos que queríamos comprar um carro aqui. Já sabendo que a cidade é razoavelmente pequena e que o transporte público é eficaz, 01 carro seria o suficiente para nós dois, com o propósito de facilitar as compras de mercado, bem como para explorar o país e arredores no nosso tempo livre. Estávamos tão certos disso que, no primeiro sábado que passamos em Berna, visitamos diversas concessionárias para ver carros novos e usados.

No post sobre o nosso cantinho suíço, eu falei que visitamos um outro apartamento, do qual também gostamos, mas que ficava mais afastado do centro e da Embaixada. Um deslocamento diário de 1h20 seria muito custoso para a nossa qualidade de vida, então caso resolvêssemos alugar aquele apartamento, a solução seria comprar 2 carros, ainda que um deles fosse mais simples, porque o trajeto de carro se resumiria a 30min diários de deslocamento.

Como tudo aqui na Suíça, carro é coisa cara. Para além do valor do carro, há o seguro, que é obrigatório por lei e bastante caro. Claramente isso pesou na hora de escolhermos onde queríamos morar, porque não queríamos aumentar tanto a nossa despesa.

Pelo mundo, muitas montadoras oferecem descontos para compras diplomáticas de carros 0km, além da isenção do imposto, mas ainda assim a brincadeira sai muito cara. Aqui na Suíça, especificamente, os carros 0km sofrem uma desvalorização tremenda no momento em que saem da concessionária. É coisa de sair da concessionária e perder CHF10mil de valor de tabela. Chegamos à conclusão de que, mesmo com os descontos, carro 0km aqui na Suíça só valeria a pena se fôssemos passar muitos mais anos aqui – o que não é o caso.

Isto posto, passamos a considerar mais seriamente a possibilidade de comprar um carro usado. Procuramos bastante até encontrar um que nos agradasse e que tivesse um bom custo X benefício. Até que encontramos o Bolinha numa revendedora de carros usados.

Bolinha foi amor a primeira vista pra nós dois. Nascido em 2012, com quase 70mil km rodados, confortável o suficiente para nossas aventuras e, o melhor de tudo, bem dentro do orçamento que tínhamos definido, nós decidimos trazer esse Peugeot 3008 pra nossa vida e planejamos viver muitas aventuras com ele nos próximos anos.

Uma vez decididos a adotar o Bolinha, o processo de compra foi bem simples: em uma semana, a documentação do Bolinha estava toda pronta e pudemos buscá-lo. Uma coisa interessante da Suíça é que, quando você compra uma placa de carro, você fica com ela para o resto da vida – exceto diplomatas, é claro, porque a placa é especial e aí teremos que devolvê-la quando formos embora.

Habemus casa!

E eis que temos, enfim, nossa casinha suíça. Depois de 43 dias em hotéis, muita procura e alguma incerteza, nos instalamos no nosso apê na última semana. Embora tudo ainda esteja bem vazio (e um tanto mais bagunçado do que eu gostaria por conta das caixas que não podemos simplesmente jogar fora, pois reciclagem aqui é coisa séria), já estamos começando a ter aquela sensação boa de estarmos instalados “definitivamente” (as aspas existem porque, como vocês que me acompanham já sabem, nada nessa nossa vida itinerante é definitivo e nós já chegamos aqui com data certa pra deixar a Suíça).

Alugar um imóvel na Suíça (ou, pelo menos, em Berna) não é coisa muito simples. Primeiro, há pouca disponibilidade de imóveis com mais de 1 banheiro para alugar, o que já limita muito a busca. Nós chegamos a ver anunciados apartamentos com 5 quartos e apenas um único banheiro!

Depois de encontrarmos alguns pouquíssimos imóveis com 2 banheiros, vem a luta para conseguir marcar uma visita. Ao dizer que estamos em missão diplomática, muitas imobiliárias nem respondem; pelo que soubemos, parece que há um pouquinho de preconceito em alugar imóveis para diplomatas e suas famílias. Das imobiliárias que nos responderam, várias indicaram que os apartamentos só ficariam disponíveis a partir de outubro, novembro, e até mesmo fevereiro do próximo ano; só aí já tivemos que eliminar mais alguns apartamentos que tinham despertado nosso interesse, pois tínhamos reservado o apart hotel por pouco mais de 2 semanas e estávamos doidos para ter um cantinho para chamar de nosso.

Conseguimos, enfim, visitar 2 apartamentos: este que no fim alugamos, e mais um outro, bastante parecido, só que bem mais longe do centro da cidade e da Embaixada. Berna stricto sensu é bem pequena, com uma população de 140 mil habitantes; lato sensu, a aglomeração de Berna inclui 36 municipalidades, e a população total está acima dos 400 mil habitantes. Todas estas municipalidades estão conectadas à cidade de Berna pelo transporte público, que funciona como um reloginho, mas que pode exigir várias horas de descolamento diário. Numa cidade pequena assim, e tendo encontrado outra opção também dentro da RF bem mais perto, não fazia sentido alugarmos um apartamento que exigiria um deslocamento diário de 1h20 no transporte público (40min pra ir e 40min pra voltar) para que Felipe chegasse ao trabalho, ou então a compra de 2 carros (em outro post eu conto a história automobilística).

Depois de escolhido o apartamento que gostaríamos de alugar, submetemos o pedido à imobiliária, que deveria aprovar o nosso perfil junto do proprietário do apartamento. Uma vez que nós fomos aprovados pela imobiliária e pelo dono do imóvel, nos foi enviado (pelo correio!!!) o contrato de locação, junto dos boletos referentes ao depósito caução e primeiro pagamento de aluguel.

Uma vez que fizemos estes primeiros pagamentos, recebemos as chaves do imóvel e pudemos correr nas lojas de móveis para comprar o básico que precisávamos para mudarmos. Salve a IKEA, que tinha sofá, mesa, rack e cama disponíveis para pronta entrega: fizemos a compra no sábado e os móveis foram entregues na terça feira (03/09). Por “móveis foram entregues”, entendam que caixas com móveis desmontados foram entregues, e nós dois passamos o dia inteiro montando-os, já que a taxa de montagem da IKEA estava beirando os mil francos. Já posso adicionar ao meu curriculum vitae a habilidade “montadora de móveis” hihihihi

Na véspera dessa entrega dos móveis, nós pegamos um carro pelo Mobility (serviço de car sharing) e voltamos na IKEA para comprar as mesas do escritório e coisas básicas como panelas, pratos, canecas, varal, etc. As mesas do escritório nós deixamos para montar no último final de semana, até porque ainda não tínhamos cadeiras. Nós optamos por comprar as cadeiras para a mesa de jantar em outra loja (Pfister) que só poderia entregar nossa compra no dia 09 de setembro. Pelo menos, quando entregaram estas cadeiras, eles mesmos montaram.

Quase diariamente tenho que ir comprar alguma coisinha na rua para nos dar mais conforto em casa, o que é normal nesse comecinho, bem como é normal ainda não ter uma noção certinha do planejamento de compras de alimentos (nossa geladeira aqui é bem menor do que a do apartamento na Armênia, então é mais uma coisa com a qual temos que nos acostumar). Ainda falta muita coisa, até porque ainda não fazemos ideia de quando nossos pertences vindos da Armênia serão entregues. E faltam também coisas básicas como internet e tv por assinatura, porque é claro que isso não é coisa simples por aqui. Até que tenhamos internet em casa, estamos usando os celulares de roteadores para a TV e computadores. Graças a Deus nós conseguimos contratar planos de internet móvel ilimitada, então pelo menos está dando pra assistir Netflix e GloboPlay, e trabalhar com alguma normalidade.

Aos poucos, a vida vai entrando nos eixos e já estamos muito felizes de estarmos instalados no apartamento. Soubemos de colegas da Embaixada que demoraram 4 meses para encontrar um lugar para morar aqui em Berna, bem como colegas das missões em Genebra e Zurique que também demoraram bastante, então nós nos sentimos muito privilegiados e abençoados por já termos um cantinho nosso.

Grüße, Bern!

Chegamos na Suíça, nossa nova morada, no último dia 15. No final de semana, começamos a explorar Berna pra nos situarmos ao mesmo tempo que procuramos um lugar definitivo para morarmos. Marido já está em regime normal de trabalho, e eu tô me desdobrando nas minhas diversas funções. Por enquanto, estamos num hotel residencial bastante confortável, graças a Deus, mas é claro que já estamos doidos pra ter um cantinho pra chamar de nosso. Daqui, temos uma bela vista da capital da Suíça e para os Alpes, já que é um dos prédios mais altos da cidade.

Como eu já contei antes, passamos nossos últimos dias de Yerevan em um hotel. Saímos da Armênia no dia 01 de agosto, dormimos uma noite em Zurique, perto do aeroporto mesmo, e seguimos para Frankfurt, onde passamos nossos dias de trânsito, com direito a day trip para Luxemburgo e uma noite em Basel a caminho de Berna. Depois vou escrever com calma sobre coisas legais que fizemos neste período, embora o nosso foco tenha sido mais no descanso e na compra de coisinhas que o marido estava precisando.

Embora eu já tivesse vindo pra Suíça 2x, não conhecia Berna, e tô encantada com essa cidade. A capital da Suíça tem um feeling de cidade pequena, com construções não muito altas e muitas casinhas que parecem coisa de boneca. Tô conseguindo me virar razoavelmente bem em alemão, e quando necessário me comunico em francês ou mesmo italiano. Surpreendentemente, a galera não fala muito inglês por aqui não, e quando fala é uma coisa meio macarrônica.

Como esperado, o transporte público funciona muito bem, e a cidade é surpreendentemente limpa. Mas nem tudo são flores e a Suíça é caríssima. Muito cara mesmo. Assustadoramente cara, principalmente pra quem acabou de sair de um país tão barato como a Armênia (aliás, aquela região toda é uma pechincha). Já tô com saudade de Yerevan? Sim. Um prato num restaurante/café por aqui dificilmente custa menos do que 15 CHF (algo em torno de R$63 no câmbio de hoje). Há uma tradição de servirem, no almoço, menus que incluem uma saladinha de folhas (já tô ligada que os suíços amam salada e que uma refeição jamais é completa sem um pratinho de alface pra abrir os trabalhos) e provavelmente sopa e pão, além do prato principal, tudo por preços em torno de 20 CHF.

Os preços nos supermercados também vão nas alturas. Embora ainda não tenhamos feito nenhuma compra “de mês”, compramos algumas coisas para comer no hotel, e também já pesquisamos os preços de coisas que passaremos a comprar normalmente; o que mais chama a atenção são os preços das carnes, peixes e frangos que são caríssimos, passando de 34 CHF o quilo. Já tô me preparando psicologicamente pra primeira compra de mercado, que com certeza será um susto. Pra compensar, é fácil de encontrar nos mercados refeições semi-prontas sem aditivos e também refeições prontas (principalmente muitas opções de saladas e também rolls e nigiris) por preços um pouco mais amigos (ainda no padrão Suíça, claro).

Foi bom chegar em Berna e encontrar dias de sol e calorzinho. Aliás, no domingo, fez calor de verdade, com muito sol e passando dos 30˚C. Domingo foi um dia agradabilíssimo, que começou com uma missa ótima e terminou com cineminha ao lado do marido. Ontem e hoje a temperatura caiu e a chuva também veio, fazendo jus a fama da cidade. Marido já perdeu um guarda chuva, como era de se esperar, e eu preciso urgentemente comprar uma galocha porque eu detesto ficar com o pé molhado.

Um domingo em Sochii

Aos 48 do segundo tempo, pouquíssimos dias antes de empacotarem nossa mudança na Armênia, nós demos um “pulinho” na Rússia pra conhecer a cidade litorânea de Sochii.

Sochii fica localizada junto ao Mar Negro, e foi cidade sede dos XXII Jogos Olímpicos de Inverno e os XI Jogos Paralímpicos de Inverno de 2014, bem como uma das cidades sede da Copa do Mundo de 2018.

Em Sochi, pudemos visitar uma das mais famosas Dachas de Josef Stalin, onde o líder soviético costumava passar alguns dias cuidando da sua frágil saúde longe dos olhares curiosos.

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Mas uma das coisas que eu mais gostei de ver em Sochi foi o enorme e belíssimo mosaico em homenagem a Lenin! Se Deus quiser, um dia voltaremos nesta bela cidade para aproveitá-la por mais tempo!

 

Onde comer em Istambul?

Istambul tem uma oferta imensa de restaurantes incríveis para todos os gostos e bolsos. Enquanto Dubai se tornou a verdadeira Mecca do luxo e dos chefes estrelados no Oriente Médio, Istambul não quis ficar muito atrás, e alguns dos restaurantes da cidade figuram nas principais listas gastronômicas do mundo.

Em mais um post da série “Onde comer em…?”, quero registrar duas dicas preciosas para quem procura comida excelente em Istambul a preços que não vão quebrar o banco: os restaurantes Alancha e Mikla.

  • Alancha Restaurant

O Alancha entrou no nosso radar por acaso, nós quase desistimos da reserva, mas graças a Deus acabamos indo e ficamos impressionados com a qualidade e a apresentação dos deliciosos pratos.

O Alancha só abre para o jantar, e os pratos custam a partir de 40 Liras Turcas.

  • Mikla Restaurant

O Mikla foi eleito um dos 50 melhores restaurantes do mundo, e só este fato já nos deu vontade de conferir o que é que o Mikla tem. E, olha, a gente recomenda!

O Mikla também só abre para o jantar (a partir das 18h), e o esquema é de menu fechado por 385 Liras Turcas, com 3 pratos à escolha.

Datas comemorativas e Feriados na Armênia

Já contei aqui sobre as comemorações de final de ano na Armênia (ou melhor, de começo de ano!) e a explicação do porquê celebrarem o Natal no dia 6 de janeiro. Hoje, quero contar para vocês um pouquinho mais sobre as outras datas comemorativas da Armênia.

Ano Novo

As celebrações de ano novo começam na noite de 31 de dezembro e vão até 7 de janeiro, após a celebração do Natal. Nos dias 01 e 02 de janeiro, nada funciona. A partir do dia 03, alguns estabelecimentos comercias passam a retomar suas atividades. Os armênios trocam presentes após a ceia de 31 de dezembro, que é composta de pratos como peixes cozidos ou grelhados, espinafre com ovos, arroz pilaf (preparado com frutas secas).

Dia do Exército

No dia 28 de janeiro, celebra-se o dia do exército. A capital da Armênia é totalmente decorada com bandeiras do país, comemorando aqueles que fazem parte das forças armadas e defendem o país.

Dia de São Valentim

Como na maior parte do mundo, o dia dos namorados é comemorado em 14 de fevereiro, no dia de São Valentim. Os restaurantes organizam jantares especiais, e a cidade fica cheia de flores vermelhas e balões em formato de coração.

Dia da Mulher

No dia 08 de março, a celebração do dia da mulher é feriado nacional, abrindo o mês da mulher. É tradição que todas as mulheres recebam flores e chocolates neste dia. O papel da mulher na sociedade armênia já foi analisado por mim neste post, e o machismo continua tão forte (ou mais) quanto na época em que o escrevi.

Dia da Maternidade e da Beleza

No dia 07 de abril, celebra-se o dia da maternidade e da beleza. É uma celebração que fecha o mês das mulheres.

Páscoa

As celebrações da Páscoa começam na Sexta Feira da Paixão e terminam na Segunda Feira, que pode ser feriado ou não (em 2017 e 2018 foi feriado, mas em 2019 não foi). No Domingo de Páscoa, há uma grande celebração em Etchmiadzin com o Patriarca da Fé da Igreja Apostólica Armênia e, neste dia, abre-se a cortina que revela o altar. No almoço, os armênios se reúnem para comer ovos cozidos, representando o renascimento, e também peixes, pães, espinafre com ovos, e arroz pilaf.

Dia da Memória do Genocídio

No dia 24 de abril, é solene lembrar os mortos no genocídio perpetrado pelos turcos durante a Primeira Guerra Mundial. Autoridades se reúnem no Memorial e Museu do Genocídio, depositando flores junto à Chama Eterna. Muitos armênios também aproveitam para visitar o memorial neste dia e lembrar dos seus antepassados.

Dia da Cidadania

O dia 27 de abril é o dia da cidadania na Armênia. Próximo a este dia, os armênios costumam celebrar a amizade com a União Européia.

Dia do Trabalhador

Como no restante do mundo, o dia 01 de maio é dia do trabalhador e feriado na Armênia.

Dia da Vitória

No dia 09 de maio, celebra-se o Dia da Vitória da Grande Guerra Patriótica (como é conhecida na Rússia e em todas as ex-repúblicas soviéticas), marcando a capitulação da Alemanha Nazista pela União Soviética. Este feriado tem grande importância em todas as ex-repúblicas soviéticas.

Dia da República

O dia da República é celebrado na Armênia em 28 de maio, e este dia é feriado nacional. Para as autoridades do país, há uma importante cerimônia marcando a celebração da Primeira República da Armênia, instaurada em 1918. Esta celebração coincide com o aniversário da Batalha de Sardarabad, que expulsou o Exército do Imperío Otomano da Armênia. Todos os anos, o Presidente da Armênia, o Primeiro Ministro e o Presidente de Artsakh visitam o Memorial de Sardarapat, acompanhados de outras autoridades locais e representantes das Embaixadas.

Dia das Crianças

O dia das crianças na Armênia é celebrado no dia 01 de junho, e todos comemoram bastante a data com muitos balões coloridos.

Dia dos Pais

No dia 16 de junho, é celebrado o dia dos pais na Armênia.

Solstício de Verão

No dia 21 de junho, celebra-se o Solstício de Verão, com a noite mais curta do ano.

Dia da Constituição

O dia da Constituição da Armênia é celebrado com feriado nacional no dia 05 de julho.

Vardavar

No último domingo de julho (coincidentemente, hoje), os armênios têm uma das suas celebrações mais peculiares: Vardavar é o dia da água, em que eles jogam água uns nos outros no meio da rua. Neste dia, as temperaturas costumam passar dos 40ºC e, por conta dessa peculiar forma de lidar com o calor, é um dos poucos dias do ano em que todos os estabelecimentos comerciais fecham as suas portas.

Dia do Conhecimento e da Literatura

No dia 01 de setembro, dia de volta às aulas na grande maioria das escolas e universidades da Armênia, celebra-se o dia do Conhecimento e da Literatura. Neste dia, os estudantes costumam desfilar pelas ruas de Yerevan com calças ou saias pretas e camisas brancas.

Dia da Independência

O dia da independência da Armênia é comemorado no dia 21 de setembro. Esta é a principal data nacional da Armênia, marcando o dia quando o povo armênio votou um referendo para proclamar a independência da Armênia com relação à União Soviética, no ano de 1991. Em novembro de 1991, Levon Ter-Petrosyan foi eleito o primeiro presidente da Armênia, e em 21 de dezembro de 1991 a Armênia entrou na Commonwealth de Estados Independentes. A Armênia tornou-se formalmente independente em 26 de dezembro, coincidindo com a dissolução da União Soviética.

Equinócio de Setembro

O dia 23 de setembro marca o Equinócio na Armênia, correspondendo formalmente ao final do verão.

Dia do Tradutor

Embora não seja feriado nacional, no dia 12 de outubro celebra-se o dia do tradutor na Armênia.

Halloween

Como grande parte da diáspora Armênia está nos Estados Unidos, é apenas natural que esta celebração norte-americana faça parte do calendário de festas armênio. Os jovens aproveitam a data para usar maquiagens e máscaras “assustadoras”!

Dia da Memória de Spitak

Os armênios se lembram do terremoto de magnitude 6.9 na escala Richter que atingiu o noroeste da Armênia em 07 de dezembro de 1988. Este terremoto danificou muito da infraestrutura do país, principalmente as cidades de Spitak, Leninakan (hoje Gyumri), Kirovakan (hoje Vanadzor) e Stepanavan, além de outras pequenas vilas nas imediações.

Solstício de Dezembro

Marcando oficialmente o início do inverno, o dia 22 de dezembro tem a noite mais longa do ano na Armênia.

*texto de minha autoria originalmente publicado no site Brasileiras pelo Mundo

Passeio pelo Bósforo

Dizem que nenhuma viagem para Istambul é completa sem um passeio de barco pelo Bósforo. Há muitas maneiras de realizar esse passeio: diversas empresas organizam tours em grupo (com preços mais atrativos) até tours particulares em embarcações luxuosas.

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Como eu já tinha contado por aqui, nós usamos o Big Bus Tour para explorar a capital da Turquia no final de semana que passamos por lá, e compramos um ticket que incluía um passeio pelo Bósforo. Eu confesso que fiquei positivamente surpresa com o barco e com a organização do passeio, já que eles não lotaram o barco de gente e foi possível aproveitar com tranquilidade o percurso.

Estava um dia MUITO QUENTE quando fizemos esse passeio e, mesmo com o ventinho agradável que soprava, o calor era quase insuportável. Então é muito importante usar roupas leves, preferencialmente de tecidos respiráveis (= fibras naturais), e ter água à mão!

O passeio é interessantíssimo, e é muito legal ver a capital da Turquia de uma perspectiva “de dentro da água”, observando o lado “europeu” e o lado “asiático”, tentando notar todas as diferenças arquitetônicas que separam a cidade que está em dois continentes.

Yerebatan Sarnıcı

Localizadas a apenas 150m da Ayasofya, as Cisternas Subterrâneas (Yerebatan Sarnıcı) são o maior complexo entre as centenas de cisternas antigas que se encontram sob a cidade de Istambul (outrora Constantinopla).

Estas cisternas foram construídas durante o século VI, sob o reinado do Imperador Bizantino Justinian I. Hoje em dia, estas cisternas são esvaziadas para que o público possa caminhar por elas. Mas atenção: ainda há um pouco de água no local, e você pode se molhar com os pingos que caem sem aviso.

O ingresso individual custa 20 Liras Turcas (cerca de R$14), e crianças com menos de 8 anos não pagam. Atenção: não é aceito cartão de crédito para pagamento do ingresso!

Ayasofya Müzesi

Localizada em frente à Mesquita Azul, o Museu Ayasofya ocupa a antiga Catedral Patriarcal Grega Cristã Ortodoxa, que também foi Mesquita Imperial Otomana. Ayasofya, ou Hagia Sophia, ou ainda, em Latim, Sancta Sophia ou Sancta Sapientia, significa “Santa Sabedoria”.

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Construída em 537 AD, antes da Idade Média, se tornou famosa principalmente por sua enorme doma; era a maior construção do mundo, e uma maravilha da engenharia para o seu tempo. É considerada a principal obra da arquitetura Bizantina, e acredita-se que ela mudou a história da arquitetura.

Em 1453, com a Conquista de Constantinopla pelo Império Otomano, Mehmed o Conquistador ordenou que a principal igreja do Cristianismo Ortodoxo Oriental fosse convertida em mesquita. Embora algumas partes da cidade de Constantinopla tenham sido completamente destruídas por falta de investimento em manutenção, a catedral foi mantida com fundos especiais destinados exclusivamente a este fim, e a catedral cristã impressionou fortemente os novos governantes otomanos.

Os sinos, o altar, imagens e outras relíquias cristãs foram destruídos, e os mosaicos representando Jesus, Nossa Senhora, santos cristãos e anjos também foram destruídos ou cobertos. Símbolos e traços islâmicos, como o mihrab (um nicho na parede que indica a direção de Mecca) e 4 minarets, foram adicionados à Ayasofya, que permaneceu até 1931 como uma mesquita.

Em 1935, após 4 anos fechada ao público, Ayasofya foi reaberta como um museu pela República da Turquia e, de acordo com os dados do Ministério da Cutura e Turismo da Turquia, é a atração turística mais visitada do país.

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Desde a sua conversão até a construção da Mesquita do Sultan Ahmed (a Mesquita Azul de Istambul) em 1616, Ayasofya foi a principal mesquita de Istambul. A arquitetura Bizantina da Ayasofya serviu de inspiração para muitas outras mesquitas otomanas, incluindo a Mesquita Şehzade, a Mesquita Süleymaniye, a Mesquita Rüstem Pasha, o Complexo Kılıç Ali Pasha, e a própria Mesquita Azul.

Como eu contei no post sobre a nossa visita ao Palácio Topkapi, nós compramos por lá um ingresso que dava direito a visita também à Ayasofya, e isso nos economizou uma boa hora de fila para entrar nesse museu imperdível.

Sultanahmet Camii, a Mesquita Azul

A Mesquita do Sultão Ahmed (Sultanahmet Camii), ou Mesquita Azul, fica no centro histórico de Istambul, junto ao parque Sultanahmet, onde também está a Aya Sofia.

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Para visitar a Mesquita Azul, é necessário respeitar o código de vestimenta muçulmano: tanto homens quanto mulheres devem estar com os joelhos e pernas cobertos; as mulheres devem ter os braços e o colo cobertos, e também usar um véu sobre a cabeça, cobrindo os cabelos. Para aqueles que chegarem à Mesquita Azul despreparados, eles emprestam roupas adequadas.

Ao entrar na Mesquita, todos são obrigados a tirar os sapatos. Diferentemente da Mesquita do Sheik Zayed, em Abu Dhabi, onde há um local específico para se deixar os sapatos, na Mesquita Azul são disponibilizados saquinhos plásticos transparentes para colocarmos os calçados e carregá-los conosco.

A visita à Mesquita Azul é gratuita.

Topkapı Sarayi

O Palácio Topkapi (Topkapı Sarayı), ou Seraglio, é um enorme museu em Istambul, que outrora serviu de residência e sede administrativa dos sultões Otomanos no século XV.

As construções foram iniciadas em 1459 por ordem de Mehmed o Conquistador, 6 anos depois da conquista de Constantinopla. Para distingui-lo do Palácio Antigo, localizado na Praça Beyazit, o Palácio Topkapi foi originalmente chamado de “Novo Palácio” (Yeni Saray, ou Saray-i Cedîd-i Âmire), recebendo o nome de Topkapi (que significa Portão de Canhão) no século XIX. O complexo foi sendo expandido durante décadas, passando por grandes reformas depois do terremoto de 1509 e do incêndio de 1665.

O complexo do palácio consiste de 4 jardins principais e muitos prédios pequenos. As mulheres da família do Sultão viviam no harém, e os principais oficiais de Estado, incluindo o Grand Vizier (a mesma função do Jafar) tinham suas reuniões no prédio do Conselho Imperial.

Depois do século XVII, o palácio Topkapi perdeu gradualmente a sua importância, porque os sultões daquele período preferiam passar mais tempo nos seus novos palácios às margens do Bósforo. Em 1856, o Sultão Abdulmejid I decidiu transferir a corte para o recém construído Palácio Dolmabahçe.

Após o fim do Império Otomano em 1923, o palácio Topkapi foi transformado em museu por um decreto governamental emitido em 3 de abril de 1924, sendo administrado pelo Ministério da Cultura e do Turismo. O complexo do palácio tem centenas de câmaras e aposentos, mas apenas os mais importantes são abertos ao público, incluindo o Harém Imperial Otomano e o tesouro (hazine), que inclui o Kaşıkçı Elması (um diamante de 86 quilates em formato de pêra, considerado o quarto maior diamante do mundo) e a adaga de Topkapi. No museu, também podemos ver roupas, armas, armaduras, miniaturas, relíquias religiosas e manuscritos do período Otomano. O Palácio Topkapi faz parte das Áreas Históricas de Istambul, que reunidos principais lugares da capital turca que foram reconhecidos pela UNESCO como patrimônio mundial da humanidade em 1985.

O Palácio Topkapi é uma atração turística altamente popular, então é bom programar-se com antecedência para visitá-la e comprar ingressos. Para aqueles que desejarem visitar o Harém do Sultão, será preciso comprar um ingresso suplementar. Nós compramos o ingresso que dava direito a visitar o Palácio, a Hagia Sofia, e o Museu Arqueológico. Esse tipo de ingresso nos economizou um bom tempo de fila quando fomos visitar a Hagia Sofia.

Os Mercados de Istambul

Istambul tem dois mercados principais que atraem os locais e turistas de todo o mundo: o mercado de especiarias e o Grand Bazaar.

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Construído em 1461, o Grand Bazaar (Kapali Çarşi) abriga 5.000 lojas e é um dos maiores mercados cobertos do mundo. Se outrora o Grand Bazaar foi um local vibrante de comércio local e internacional, hoje os seus labirintos atraem as carteiras recheadas de turistas em buscado uma experiência de compra oriental autêntica. É possível encontrar têxteis, temperos, joias, lanternas e souvenires, que convidam à negociação de preços, ao mesmo tempo que há muitos objetos falsificados – então é sempre bom ter cautela. O destaque fica para os grandes arcos (são 22!) que marcam as entradas e saídas.

Próximo ao Grand Bazaar, está o mercado de especiarias egípcio Eminönü, que está aberto 7 dias por semana. Um verdadeiro paraíso gastronômico, que foi inaugurado em 1664, é lá onde se encontram os melhores temperos, azeites e azeitonas, frutas secas, doces turcos, óleos e essências.

Minatürk

No primeiro final de semana de julho, aproveitamos um feriadinho prolongado em Yerevan e cruzamos a fronteira com a Turquia! Bem, não exatamente cruzamos a fronteira, já que a fronteira terrestre é fechada pois Armênia e Turquia não tem relações diplomáticas, mas há vôos diretos entre Yerevan e Istambul, operados pela Atlas, e foi assim que “cruzamos a fronteira”.

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Chegamos bem cedinho e logo fomos explorar Istambul. Como ficaríamos 3 dias na cidade, decidimos comprar o passe do Big Bus válido por 72h. Como nós compramos on-line, com antecedência além do desconto, ganhamos ingressos para o Miniatürk, que é um parque dedicado à miniaturas dos principais prédios e pontos turísticos de toda a Turquia.

O Miniatürk ocupa uma área de cerca de 60.000 metros quadrados, incluindo restaurantes, cafeterias, lojas de souvenires, salas de exibição, e playground externo. As miniaturas criam uma espécie de labirinto por onde vamos passeando.

O passeio é interessante e deve agradar principalmente às crianças. Nós nos divertimos, as miniaturas são super detalhadas, mas a verdade é que talvez tivéssemos aproveitado melhor o tempo fazendo outra coisa.

Para aqueles que se interessarem pelo Miniatürk, vale a pena conferir se a promoção do Big Bus ainda tá rolando. O ingresso individual custa 15 liras turcas.

Sergei Parajanov, o principal cineasta armênio

Sergei Parajanov é um dos principais mestres do cinema do século XX, armênio nascido na Geórgia, em 09 de janeiro de 1924. Parajanov nunca se permitiu conformar seu trabalho ao realismo socialista estrito, preferido pelas autoridades Soviéticas. Depois de estudar cinegrafia e música, Parajanov tornou-se diretor assistente dos estúdios Dovzhenko em Kiev, estreando como diretor cinematográfico em 1954. A partir daquele ano, Parajanov dirigiu inúmeros curtas-metragens e longas-metragens, todos dispensados por ele, por tê-los considerado verdadeiros lixos.

Em 1945, Parajanov viajou para Moscou e se inscreveu no departamento de direção de cinema do VGIK, uma das escolas cinematográficas mais antigas e respeitadas da Europa, estudando sob a tutela dos diretores Igor Savchenko e Aleksandr Dovzhenko.

Em 1948, Parajanov foi condenado a cinco anos de prisão por homossexualidade, que era ilegal naquela época, na União Soviética, mas foi solto sob anistia depois de três meses. Em entrevistas, amigos e parentes contestam estas acusações e as apontam como mentirosas, especulando que a punição era algum tipo de retaliação política por conta das suas visões rebeldes.

Em 1950, Sergei Parajanov casou-se em Moscou pela primeira vez, com Nigyar Kerimova, que vinha de uma família tártaro-muçulmana e converteu-se ao Cristianismo Ortodoxo Ocidental para casar-se com Parajanov, o que motivou seu assassinato por seus parentes. Depois da morte de Kerimova, Parajanov deixou a Rússia para morar em Kiev, onde produziu os documentários “Dumka”, “Mãos Douradas”e “Natalia Uzhvy” e os filmes “Andriesh” (baseado num conto de fadas do escritor moldavo Emilian Bukov), “The Top Guy” (um musical kolkhoz), “Ukrainian Rhapsody” (um melodrama de tempos de guerra), e “Flower on the Stone” (sobre um culto religioso que se infiltrava numa cidade mineradora na região de Donets Basin). Em 1956, casou-se com Svitlana Ivanivna Shcherbatiuk, e teve um filho com ela em 1958, que recebeu o nome de Suren.

O primeiro filme de Andrei Tarkovsky, “A infância de Ivan”, causou um enorme impacto na auto-descoberta de Parajanov como diretor de cinema. Mais tarde, a influência tornou-se mútua, e eles se tornaram muito amigos. Em 1965, Parajanov abandonou o realismo socialista de uma vez, dirigindo o poético “Shadows of Forgotten Ancestors”, o seu primeiro filme com completo controle criativo. Este filme recebeu inúmeros prêmios e foi relativamente bem recebido pelas autoridades Soviéticas. O Quadro Editorial de Roteiros em Goskino, na Ucrânia, exaltou o filme por juntar a qualidade poética com a profundidade filosófica do conto de Kotsiubynsky por meio da linguagem cinematográfica, qualificando o filme como um brilhante sucesso criativo do estúdio Dovzhenko. As autoridades Soviéticas concordaram em lançar o filme com sua trilha sonora ucraniana original, sem modificações ou dublagem dos diálogos para o russo, objetivando a preservação das suas características ucranianas.

Em 1964, Parajanov dirigiu “Os Cavalos de Fogo”, uma celebração rapsódia da cultura folclórica ucraniana, e o mundo passou a conhecer um talento surpreendente e idiossincrático. Assim, Parajanov inventava seu próprio estilo cinematográfico e tornava-se uma celebridade internacional. Simultaneamente à fama, seguiram-se os ataques das autoridades conservadoras da União Soviética.

Pouco tempo depois, Parajanov deixou Kiev para vir morar na Armênia, sua terra ancestral. Em 1969, ele começou a produzir “Sayat Nova”, filme considerado por muitos como seu principal trabalho, embora tenha sido filmado sob condições relativamente precárias e com um orçamento pequeno. As autoridades soviéticas intervieram e baniram “Sayat Nova” por conta do seu conteúdo supostamente inflamatório. Parajanov reeditou suas filmagens e renomeou o filme como “A Cor da Romã”, que foi ainda mais inovadora, explorando a arte e a poesia da sua terra nativa Armênia com uma série de incríveis e belíssimas imagens, e aclamado por críticos como Alexei Korotyukov e Mikhail Vartnov.

Mas, àquela altura, as autoridades Soviéticas já não suportavam mais tanta ousadia. Somando-se ao fato de que Parajanov não se conformava ao estilo artístico realista da União Soviética, seu estilo de vida e comportamento controversos fez com que as autoridades Soviéticas condenassem Parajanov repetidas vezes e censurassem seus filmes. Quase todos os filmes e projetos de Parajanov entre 1965 e 1973 foram banidos ou encerrados pelas administrações cinematográficas Soviéticas, tanto locais (em Kiev e Yerevan) e federal. Parajanov foi preso em 1973 sob acusações de homossexualidade, estupro, suborno e tráfico ilegal de ícones religiosos.

Parajanov foi preso três vezes, e a última delas foi em 1982. Mesmo depois de ser liberto, ele continuou sendo persona non grata no cinema Soviético. Com a chegada da Perestroika e o relaxamento político, ele voltou a trabalhar como diretor e conseguiu produzir “A Lenda da Fortaleza Suram” em 1985, contando com a ajuda e influência do ator georgiano Dodo Abashidze e de outros amigos. Parajanov ainda dirigiu “O Trovador Kerib” em 1988, e A Confissão, que tornou-se conhecida como “A Última Primavera”, lançada em 1992.

A saúde de Parajanov ficou seriamente comprometida pelos quatro anos de trabalho forçado e mais nove meses na prisão em Tbilisi. “A Última Primavera” foi sua última obra, conhecida pelo público dois anos depois da sua morte na Armênia em 20 de julho de 1990, vítima de câncer de pulmão. Naquela época, suas obras estavam voltando a ser conhecidas pelo público, apresentadas em grandes festivais internacionais. Os filmes da Parajanov foram premiados no Festival de Cinema de Mar del Plata, no Festival Internacional de Cinema de Istambul, no Nika Awards, no Festival Internacional de Cinema de Rotterdam, no Festival Internacional de Cinema de Sitges – Catalan, no Festival Internacional de Cinema de São Paulo, entre outros.

Em janeiro de 1988, Parajanov disse em uma entrevista que ele tinha três terras natais, pois tinha nascido na Geórgia, trabalhado na Ucrânia e iria morrer na Armênia. Seu corpo está enterrado no Panteão Komitas, em Yerevan.

texto de minha autoria originalmente publicado no site Brasileiras pelo Mundo

Os 150 anos do nascimento de Hovhannes Tumanyan

Os escritores estão destinados a desempenhar um papel na história literária dos seus países, e alguns poucos também desempenham um papel especial na vida espiritual das suas nações: na literatura armênia, Hovhannes Tumanyan o fez, retratando o perfil do povo armênio, sua história, seus sonhos e seus ideais mais sagrados com profundidade e clareza em seus escritos. Neste ano, a Armênia comemora os 150 anos do nascimento de seu principal poeta.

No norte da Armênia, há uma região chamada Lori, com montanhas muito altas e, aos pés delas, vilas à beira do rio Debet. Hovhannes Tumanyan nasceu em 19 de fevereiro de 1869 em Dsegh, uma das vilas do Lori. Desde a juventude, Tumanyan percebia quão amarga era a vida de um camponês armênio, compreendendo seus sonhos e fardos. Tumanyan cresceu com as lendas e parábolas do seu povo, e o folclore e a beleza da região Lori virou parte integral do seu trabalho.

Este frutífero laço entre o poeta e o seu povo persistiu até a sua morte, ainda que ele tenha morado longe de Lori por quase toda a sua vida, tendo mudado em 1883 para Tíflis, um centro cultural e político na Transcaucásia.

Tumanyan começou seus estudos em Lori, e depois ingressou em uma das melhores escolas armênias de seu tempo, a Escola Nersisyan. Infelizmente, Hovhannes teve que deixar seus estudos quando seu pai adoeceu, e depois morreu. Aos 16 anos, pouco antes de formar-se, encerrou seus estudos formais e retornou para Dsegh para cuidar da sua família.

Aos 19 anos, Tumanyan casou-se e teve 10 filhos. Necessitando de recursos para sustentar sua família, foi obrigado a exercer funções muito aquém dos seus talentos intelectuais, numa atmosfera que o sufocava a ponto de, mais tarde, lembrar-se daqueles dias como um verdadeiro inferno. Na metade da década de 1890, Tumanyan deixou de exercer tais funções que lhe causavam tanto desprazer para focar completamente na escrita.

Tumanyan era persistente e educou-se por meio de ávida leitura; reverenciava os trabalhos de Shakespeare, Byron, Pushkin e Lermontov. Ele tinha muito interesse pelo folclore e, com a sensibilidade que lhe era peculiar, registrou integralmente a história cultural da Armênia, esquivando-se de influências externas na sua escrita, prezando pela sua intuição.

Tumanyan começou a escrever ainda criança, mas só se tornou conhecido como poeta em 1890, quando sua primeira coleção de poesias foi publicada; nestes escritos, já pode-se observar todo o frescor que Tumanyan trouxe para a literatura armênia.

No começo do século XX, Tumanyan tinha reescrito e desenvolvido seus primeiros trabalhos e escrito novas poesias e prosas. Ele consagrou-se como artista, trazendo muita qualidade para a literatura armênia por conta da sua maneira de escrever poesia, e não necessariamente da forma poética que ele escolhia, uma vez que Tumanyan mantinha-se tradicional na forma: na verdade, ele trouxe a poesia para mais perto do povo. Essa etapa do desenvolvimento na literatura armênia é conhecida como “Fase Tumanyan”.

A inspiração de Tumanyan vinha das atividades cotidianas das pessoas, e os heróis dos seus trabalhos eram, em geral, simples camponeses. Tumanyan revelava suas qualidades desenvolvendo textos fortes, com linhas de raciocínio claras, descrevendo rica e profundamente os sentimentos.

A vida era difícil para os camponeses que viviam sob um regime patriarcal de leis não-escritas, muito preconceito e opressão: em face destas dificuldades, os heróis de Tumanyan quase sempre morriam de modo trágico. Ao passo que descrevia estas tristes realidades, Tumanyan expunha a pureza dos sentimentos, da integridade e uma determinação inextinguível dos seus heróis em atingir a justiça. As imagens criadas por Tumanyan conduziam (e ainda conduzem) os leitores as suas verdades mais profundas, mas principalmente moviam (e movem) os leitores delicadamente a uma profunda compaixão pela beleza e verdade na experiência humana.

Entre os trabalhos que retratam os tempos em que Tumanyan viveu, destacam-se o poema “Anush” e a história “Gikor”, trabalhos celebrados pelos leitores contemporâneos como os pináculos da poesia e prosa de Tumanyan, respectivamente.

“Anush” conta a história trágica de amor de um jovem pastor de ovelhas (Saro) por uma jovem (Anush). Este poema descreve a riqueza espiritual dos personagens, seus sentimentos mais profundos, sua devoção infinita um pelo outro, seu altruísmo e sua disposição pelo sacrifício. Ao mesmo tempo em que Tumanyan descrevia os sentimentos, também retratava amplamente a vida cultural do povo, destacando atividades e costumes diários, as alegrias e tristezas do povo, e suas percepções de mundo. Em essência, ele revelava o caráter nacional do povo armênio.

Por sua vez, “Gikor” é o conto de um camponês de 12 anos que vai para a cidade e sucumbe à crueldade daqueles que lá o cercam. Toda a história é extremamente dramática, abundante em qualidade lírica com toques simultâneos de alegria e tristeza.

A contribuição de Tumanyan para a poesia épica armênia tem valor inestimável. A poesia armênia tem uma tradição muito rica e antiga, e seus aspectos líricos são poderosos. Os talentos poéticos de Tumanyan são revelados em ambientes épicos, retratando situações críticas e/ou dramáticas, com personagens fortes e destemidos. Suas inúmeras baladas e poemas estão entre as principais obras épicas mundiais, com forma poética perfeita, principalmente por conta da riqueza descritiva e filosófica da vida que ele retratava.

Os trabalhos de Tumanyan estão permeados pelo pensamento filosófico, já que o escritor se preocupava muitíssimo com as questões de vida e morte, o propósito da vida humana, e a ligação do ser humano com a natureza. Tumanyan buscava na eternidade as respostas para as questões que o preocupavam, tentando penetrar os segredos do universo, como em seu poema “No infinito”. Toda a experiência pessoal e artística de Tumanyan está concentrada nestas questões, expressando suas emoções e pensamentos sobre as pessoas e seus destinos.

Tumanyan escreveu que “cada poeta, antes de tudo, deve ser o coração de seu povo”, e seu trabalho atesta para esta virtude. O povo armênio pode carregar eternamente no seu coração a imagem de Tumanyan e suas sábias palavras. A cada novo leitor encantado com os tesouros inesgotáveis de sua alma e mente, Tumanyan torna-se verdadeiramente imortal.

*texto de minha autoria originalmente publicado no site Brasileiras pelo Mundo