A crônica dos 45 dias

No dia em que confirmaram o primeiro caso de Coronavírus na Suíça, eu pensei em pegar um avião e me refugiar no Brasil, certa de que o vírus demoraria a chegar por lá. No dia seguinte, foi confirmado o primeiro caso de Coronavírus no Brasil. O vírus se espalhou com muito mais rapidez pela Suíça do que no Brasil mas, hoje, a curva na Suíça já está começando a achatar, enquanto a curva no Brasil ainda está crescendo francamente. O Brasil tem uma população infinitamente maior do que a Suíça. E, hoje, o Brasil já tem mais mortos por covid-19 do que a Suíça.

Os primeiros 4 dias dentro de casa já seriam assim de qualquer jeito, porque eu estava atarefada com as coisas do doutorado. A decisão de ficar em casa aconteceu no 5o dia, quando eu deveria ir ao supermercado e optei por não sair. Naquele dia, eu estava decidindo cuidar da minha saúde, evitar colocar minha asma à prova. E, segundo meu otorrino, foi a decisão mais sábia que eu poderia ter tomado.

As primeiras duas semanas dentro de casa foram estranhas. Os números de casos confirmados diariamente não paravam de aumentar, mas ainda de modo razoavelmente lento – naqueles dias, os testes ainda eram muito restritivos. Parecia que tudo ia ficar sob controle, e que logo eu ia poder sair de casa. Mas não. Depois que os testes passaram a ser mais amplos, confirmou-se que o vírus estava muito mais espalhado.

Foi neste período em que eu e marido tomamos a decisão difícil de dormirmos em quartos separados, porque ele ainda estava trabalhando normalmente e, consequentemente, bem mais exposto ao vírus do que eu, que já estava sem sair há vários dias. Esse foi, certamente, o período mais difícil até aqui: naquelas noites, era difícil dormir; a insônia me perseguia e eu passava os dias cansada, produzindo pouco e, ao mesmo tempo, não conseguia dormir quando a noite chegava.

Depois que ele entrou em regime de home office/plantão, ainda ficamos mais alguns dias com o distanciamento social vigorando dentro de casa – tudo por medo de que ele estivesse assintomático e pudesse transmitir o vírus pra mim. Foi só depois de voltarmos a nossa rotina normal que as noites voltaram a ser mais tranquilas pra mim.

Ainda não durmo super bem todos os dias. São várias as noites em que acordo, pensando em tudo o que está acontecendo. Penso nos que tem muito pouco. Penso nos que nada tem. Penso na minha impotência e insignificância diante disso tudo. Penso em alternativas que me tornem menos impotente, e tento implementá-las durante o dia. Penso nos meus pais, idosos e sozinhos lá em casa, sem ter quem faça qualquer coisa por eles.

Ontem, fiz compra no mercado pela internet para que seja entregue hoje lá em casa. Foram quase 2h no FaceTime com meus pais, definindo com eles o que eles queriam que eu comprasse. Foi uma maneira de eu me sentir mais útil e também mais tranquila por saber que, pelo menos por enquanto, eles não precisarão sair de casa.

Nos dias em que a ansiedade bate mais forte – porque, mesmo já tendo passado da pior fase, tem dias que a ansiedade não me deixa esquecer que ela está ainda dentro de mim -, eu olho pro tanto de natureza que está em volta de mim – ou melhor, em volta do prédio onde estamos morando. Tenho testemunhado a chegada da primavera em 180º, graças ao posicionamento das janelas do apartamento. Reconheço que somos muito privilegiados, e agradeço a Deus. Tenho observado a mudança da cor da luz que entra em casa, graças as folhas verdes novas das árvores. As cores lá de fora me pintam aqui dentro.

Um mês e meio sem ir na rua, 45 dias de que a minha casa é o meu mundo. E foi por isso que eu decidi começar a escrever algumas crônicas aqui, porque não vejo sentido em continuar escrevendo sobre viagens nesse momento, mas também quero manter esse nosso cantinho vivo, nem que seja pra servir de distração nesses tempos tão absurdamente difíceis.

2 Comments

  1. PedroL

    De facto, é uma situação difícil… Eu já estou há um mês em casa, saindo muito pontualmente para as compras necessárias. Para mim, o mais difícil é não saber quando poderemos voltar a sair e, posteriormente, como vai ser para voltar a trabalhar ~ tenho trabalhado na área do Turismo e em Portugal o sector dá sinais de estar a entrar em colapso… Que tudo corra bem, cumprimentos, PedroL

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