Adeus ano velho, feliz ano todo!

Meu Deus, eu nem acredito que 2021 já vai chegar ao fim. É impressão minha ou esse ano passou voando?!

Não é que esse ano tenha sido fácil: na verdade, foi extremamente difícil, talvez até mais desafiador do que 2020 já que havia um cansaço acumulado no Ano II da pandemia. Sem contar que, nesse segundo semestre, a minha vida parecia virar de cabeça para baixo diariamente, e eu acabei deixando o blog completamente de lado por conta disso, tentando dar conta minimamente das demandas acadêmicas. Mas a minha sensação é de que ontem mesmo o ano começava, e agora falta muito pouco para acabar.

Algumas coisas que aconteceram no 2º semestre merecem destaques positivos, como o retiro acadêmico de que participei em outubro, a passagem relâmpago por Hamburgo em novembro pra participar de um encontro de doutorandos seguida de uma semaninha em Portugal que quase me fez achar que a vida estava voltando ao normal, e a 3ª dose da vacina contra COVID na semana passada. Eu pretendo escrever um pouquinho mais sobre essa viagem de novembro, talvez um post sobre minhas impressões de Hamburgo depois de caminhar pela cidade uma tarde inteira, talvez um outro post sobre o que fizemos em Portugal (caso você seja leitor novo, eu já tinha ido pra lá em 2017).

boosted!

Na verdade, não fosse a progressiva piora da pandemia na Suíça, talvez eu já tivesse tido ânimo de escrever sobre esse período de quase normalidade. Mas todas as vezes que eu pensava em escrever sobre esses passeios, eu ficava desanimada por ver o aumento consistente no número de casos diários de COVID por aqui. Aliás, justamente por conta dessa piora da pandemia na Suíça e na Europa como um todo, nós passamos as últimas duas semanas em casa – saindo uma única vez para tomar a 3ª dose da vacina – e, agora que marido voltou a trabalhar depois desses pouquinhos dias de férias, eu continuo em casa e não tô pretendendo sair tão cedo (a menos que tenha muita necessidade ou uma emergência, é claro). Antes, nós tínhamos planos de viajar por pelo menos 10 dias nessas 2 semanas, mas consideramos imprudente. Ontem, o Conselho Federal confirmou que a Ômicron é a variante predominante nos casos por aqui.

Pra você que está lendo esse post, o meu sincero agradecimento por não ter desistido de ler este blog mesmo quando eu não o mantive suficientemente atualizado. Eu desejo sinceramente que 2022 seja um ano cheio de alegrias e de muita saúde pra todos nós, e que a gente possa, enfim, vencer essa pandemia. Aqui em casa, 2022 já promete ser um ano cheio de emoções e aventuras, uma vez que, se tudo correr como de costume, devemos sair da Suíça rumo ao próximo posto – que ainda é um mistério até pra nós mesmos, mas que eu tenho muita fé de que será mais um lugar muito legal providenciado por Deus para nós. Vai ser uma loucura preparar mudança fazendo doutorado e ainda enfrentando a pandemia? Vai. Mesmo assim, eu farei o meu melhor não só pra dar conta de tudo isso, mas também de voltar a escrever aqui com mais frequência – algo que me faz tanta falta e que me faz tão bem.

Feliz ano novo! Feliz ano todo!

Tô vacinada! E outras notícias

Gentes, antes de qualquer coisa, quero pedir desculpas pelo meu sumiço. Acontece que os últimos meses foram nada menos do que enlouquecedores e eu não consegui parar pra escrever aqui nem uma única vez. Como vocês já sabem, eu gosto de escrever por aqui com calma e com dedicação; em tudo na minha vida, se não for pra fazer bem feito, eu nem começo.

A primeira grande notícia que quero dividir com vocês é que eu tô vacinada! A vacinação estava bem lenta na Suíça até meados de abril quando, de repente, começou a acelerar muito rápido. Por fazer parte de grupo de risco, pude agendar minha 1ª dose já pra última semana de abril, com a 2ª dose pro final de maio. Aqui no cantão de Berna, o sistema pra agendamento das vacinas foi abrindo de acordo com os grupos, seguindo as prioridades por idade e comorbidades, e já colocava o agendamento pras 2 doses, com um intervalo de 4 semanas, bastando escolher entre os horários disponíveis. Poucos dias depois, eles já abriram o agendamento também para pessoas que moram com quem é de grupos de risco; com isso, meu marido também já tá vacinado, graças a Deus.

Embora tenhamos tomado vacinas diferentes (não por escolha, porque aqui não tem ninguém nem doido de ficar escolhendo qual vacina quer ou não tomar – afinal, vacina boa é a vacina que tá disponível!), nós 2 tivemos reações bem fortes à 2ª dose. Na 1ª dose, eu tive MUITA dor no braço por 3 dias, enquanto meu marido sentiu uma dor mais intensa só no 1º dia. Já na 2ª dose, nós 2 tivemos efeitos colaterais mais fortes: eu tive calafrios e febre baixa na 1ª madrugada, além de sonolência, dor de cabeça, no corpo e no braço, e ele teve os mesmos sintomas, exceto pelo calafrio. Graças a Deus esse mal estar passou em 48h. Agora é esperar que a nossa imunização esteja completa pra que possamos, ainda com muito cuidado, voltar a dar alguns passeios. Continuamos e continuaremos usando máscara e mantendo distanciamento social. Em quase 2 anos de Suíça, nós ficamos 1 ano e meio praticamente sem sair de casa. Do jeito que o tempo tá passando rápido, a gente vai piscar e já vai tá na hora de “levantar o acampamento” pra mudar pro próximo país.

Ainda falando em vacina, tanto os meus pais quanto a minha sogra também já estão vacinados no Brasil. Viva a ciência! Viva o SUS!

O semestre de primavera na Universidade termina oficialmente hoje, o que significa que eu posso tirar uns dias de descanso pra me recuperar das maratonas que enfrentei nesse semestre. Não vai rolar de passar os 3 meses das férias de verão descansando 100% porque tô cheia de coisas pra ler e mais ainda pra escrever, mas meu plano é descansar da vida acadêmica pelo menos essas 2 primeiras semanas, e aí vou organizar meu horário pra estudar algumas horinhas por semana. Na verdade, como minha última atividade acadêmica foi na sexta-feira passada, nessa semana eu já consegui descansar um pouco – ainda que eu tenha feito umas limpezas mais pesadas em casa (tipo limpar as janelas, que é coisa que eu faço 2x no ano e olhe lá). Nesse exato momento, por exemplo, tô assistindo Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban – na segunda-feira eu assisti Pedra Filosofal e na quarta-feira assisti Câmara Secreta. Tinha TANTO TEMPO que eu não assistia Harry Potter que eu nem me lembro qual foi a última vez – prova de que estava realmente muito atolada. Por isso, era uma das minhas prioridades rever os 8 filmes tão logo entrasse de férias, e também quero rever os 2 filmes de Animais Fantásticos.

Por falar em filme, no sábado nós assistimos Cruella no Disney+ (nós pagamos pelo Premier Access; não sei se já falei por aqui mas, pra gente, pelo preço que custa um ingresso de cinema aqui na Suíça, o Premier Access é um ótimo negócio – até porque o filme fica disponível antecipadamente pra todos os perfis da nossa conta). Eu AMEI Cruella, e marido também aprovou! Já quero assistir de novo. Amei todas as referências (e não só ao desenho clássico dos 101 Dálmatas) e o humor ácido. Não vou escrever muito mais sobre porque não quero dar spoiler, mas é definitivamente o meu live action original favorito (ainda não tô preparada para dizer que é O live action favorito porque eu AMO o live action de Aladdin, mas é definitivamente o favorito entre os originais).

Outra notícia é que eu cortei meu cabelo super curtinho na última sexta! Eu aproveitei que meu compromisso acadêmico da sexta passada começava às 18h e consegui um horário no salão às 10h45 – o que me dava tempo suficiente de fazer tudo o que eu precisava no meio tempo. Fazia tempo que eu já tava doida pra cortar o cabelo curto outra vez, mas tava enrolando porque queria cortar no Brasil por 2 motivos: pra doar pro Cabelegria mais uma vez, e porque é bem mais barato do que aqui. Só que eu tava ficando cada vez mais irritada de demorar cerca de 20min por dia secando o cabelo (já que a temperatura ainda não subiu o suficiente), e eu lavo o cabelo pelo menos 1x ao dia, então resolvi cortar aqui mesmo. Vou tentar doar o cabelo aqui na Suíça mesmo, pra ser mais fácil, mas, se não rolar, pretendo levar pra doar quando eu conseguir ir pro Brasil. Tô aliviada demais de ter cortado o cabelo, minha vida já tá bem mais fácil.

Acho que era isso que eu tinha pra registrar hoje por aqui. Prometo que vou me esforçar pra escrever mais e não sumir por tanto tempo!

1 ano em isolamento

Não dá pra dizer que parece que foi ontem, ao mesmo tempo em que parece que foi.

O 1º caso confirmado de coronavírus na Suíça foi em 25.02.2020. Em poucos dias, novos casos começaram a pipocar pelo país todo – em 03.03.2020, já eram 56 casos confirmados. Os meus primeiros dias de isolamento, começando em 02.03.2020, não foram exatamente propositais, embora eu já ensaiasse não sair de casa até que a situação melhorasse. De todo modo, acabaram sendo adicionados à conta dos primeiros 102 dias sem sair de casa. Na verdade, eu tomei a decisão consciente de não sair mais uns poucos dias depois.

dias iguais

Neste um ano isolada, eu saí (bem) menos de 30 vezes, eu tive quase nenhum contato com outras pessoas, e todas as minhas interações foram realizadas de máscara. Faz um ano que eu não vou nem tirar o lixo sem máscara. Das interações que tive, 90% foram resultantes de necessários cuidados com a saúde – check up no hospital, exame de vista, buscar remédios na farmácia – ou das entregas das compras de supermercado. Meu Deus, tem mais de um ano que eu não faço uma compra de supermercado no supermercado. Os outros 10% de interações eu deixo por conta das vezes que encontrei com os vizinhos nas escadas quando ia tirar o lixo ou buscar o correio, ou das pouquíssimas vezes que fui muito corajosa de entrar numa loja pra fazer uma compra presencial. Depois de tanto tempo isolada, a rotina vai tomando formas estranhas. Os meus dias são muito iguais, cronometrados, e a passagem do tempo parece ficar marcada mesmo pela mudança na paisagem que eu vejo pelas janelas. Eu me organizo pra dar conta de todas as tarefas domésticas e pra não deixar acumular nada do doutorado, e me continuo me forçando a fazer exercícios físicos (quase) diariamente.

Os efeitos do isolamento ainda não são todos conhecidos, mas confesso que tem dias que eu vejo minha sanidade mental se esvair. As vezes me falta vontade até de ver TV. Eu me pergunto até quando vamos viver nessa situação, até quando eu vou ter que esperar pra poder rever meus pais, meus amigos, minha família. Me pergunto se eu ainda vou ter chance de vivenciar um pouco do doutorado na Universidade, como deveria ser. Me pego pensando na rotina que eu desenhei dentro das paredes dessa casa, com o marido como meu único companheiro, e como ele é a minha paz no meio do caos. Me pergunto se eu vou conseguir voltar a dormir uma noite de sono completa.

No meio desse caminho, ficaram tantos posts na aba de rascunhos. As linhas ensaiadas para contar da última viagem de férias que fizemos antes do caos tomar conta não me pareciam fazer nenhum sentido. Do mesmo modo, mal comecei a rascunhar sobre nossas rápidas escapadas no verão até Vaduz – numa segunda-feira sem ninguém nas ruas da capital de Liechtenstein, pra onde fomos e voltamos no nosso fiel Bolinha, levando nossa comida pra não precisar nem entrar em nenhum restaurante – ou até o Blausee numa manhã ensolarada. Em algum momento, eu sei que essas linhas tortas sobre dias quase normais lá fora vão sair, mas não agora.

A marca dos 365 dias isolada tá sendo “celebrada” com uma belíssima crise de sinusite, super forte, daquelas como há muito tempo eu não tinha. Estou no 8º dia de antibiótico, 9º dia de corticóide. Ontem, meu ouvido esquerdo parecia que ia explodir. Hoje ele me deu uma trégua, e é o ouvido direito que tá me incomodando mais. Já faz uns anos que a minha congestão nasal faz pressão nos meus ouvidos, e a dor é algo difícil de descrever – tanto quanto esse um ano que se passou.

Um texto desconexo

Dizer que 2020 foi um ano difícil é um eufemismo tremendo.

Se 2019 foi um ano definido por uma grande mudança – desde a preparação para sair da Armênia até a adaptação depois de chegarmos na Suíça, passando pela entrada no doutorado (que já seria uma enorme mudança por si só!) -, 2020 começou com a promessa de dias tranquilos, de conhecer gente nas aulas na Universidade, de trocar, de crescer.

De tudo, só se cumpriu o crescimento.

Desde que eu me entendo por gente, eu acredito que o sofrimento oferece pra gente a grande chance de aprender e crescer. E 2020 foi, sim, marcado pelo sofrimento. Mas eu tentei aprender muito com ele.

E todo o medo, o desespero
E a alegria
E a tempestade, a falsidade
A calmaria
E os teus espinhos
E o frio que eu sinto
Isso vai passar
Também

Pra mim, desde que nós saímos do Brasil, o mais difícil de tudo sempre foi encarar a distância dos meus pais, da minha família e dos meus amigos. Estar longe de tudo que nos traz conforto no dia a dia já era difícil pra mim num contexto normal, e isso foi potencializado esse ano, por conta de todas as incertezas e o isolamento completo. Não saber quando eu vou poder reencontrar meus pais é o que mais me dói o tempo todo, ao mesmo tempo que eu aprendo a descobrir em mim uma força que eu nem sabia que eu tinha.

Nesse ano, eu me reconectei com várias partes de mim mesma, e muitas delas que precisavam ser curadas. Muita coisa ainda é um processo, mas eu sinto que, nesse ano, eu consegui me apropriar ainda mais da mulher que eu sou.

Uma dessas reconexões foi com o meu amor por Sandy & Junior, e pelos dois individualmente. Eu fui muito fã de Sandy & Junior a minha vida inteira, mas eu neguei isso por alguns anos por conta do bullying que eu sofria. Parte do combustível pro bullying era justamente o meu amor pela dupla e a possibilidade que eu tinha de consumir o que eles produziam, de ir aos shows, comprar os CDs e DVDs, etc. Ao perceber isso, logo depois do lançamento do álbum “Identidade”, eu tentei criar uma nova identidade pra mim mesma, rejeitando esse amor que morava dentro de mim pra tentar ser aceita pelos meus colegas. É claro que não adiantou.

O bullying não parou porque eu não manifestava mais o meu amor por Sandy & Junior, porque eu não mais ia aos shows, porque eu não mais comprava os discos deles. Eu precisei mudar de colégio pra que eu parasse de sofrer bullying. Só que eu tava tão machucada, e é claro que aos 14 anos eu não tinha a maturidade que eu tenho hoje, que eu nem pensei em retomar, naquele momento, essa parte tão importante de mim. Ficou lá, adormecida, machucada pelas memórias ruins do sofrimento do bullying.

Eu lembro que, quando eles anunciaram o fim da dupla, eu me senti muito mal, mas eu ainda não tinha força suficiente pra me reconectar com essa parte de mim, com essa parte da minha história. Só que essa reconexão que eu me permiti profundamente nesse ano não começou agora.

Foi em 2015 que eu comecei a me reconectar com essa parte de mim. Primeiro, resgatando do alto de um dos armários lá de casa o meu teclado de Sandy & Junior, no qual eu dedilhava As Quatro Estações. Depois, no dia seguinte de dar uma limpa nos meus CDs e decidir não me desfazer da coleção de Sandy & Junior porque eu não podia traí-los dessa forma, ao ver os dois a menos de 3m de mim no aeroporto.

Eu ainda sinto as emoções daquele dia de uma maneira muito intensa, como se eu estivesse revivendo aquela hora em loop. Eu lembro com perfeição de detalhes de ter passado praticamente uma hora tremendo da cabeça aos pés enquanto tentava comer meu sanduíche (que, na época, era meu jantar característico no aeroporto) observando a Sandy e o Junior tão perto de mim. Eu falava no telefone com a minha mãe, e ela ficou preocupada de eu ter um troço no aeroporto. Eu tentava reunir coragem pra ir falar com eles, mas até eu ter coragem suficiente de me aproximar, cada um foi pegar seu respectivo voo, e eu acabei indo atrás do Junior – que foi tão atencioso e tão querido que eu queria poder agradecer a ele por aqueles minutos que ele conversou comigo.

No ano passado, com a turnê Nossa História, eu queria MUITO ter ido. MUITO. Eu não consigo nem dizer o quanto. Eu sentia que precisava estar presente. Mas eu não consegui. Se eu imaginasse que 2020 seria desse jeito, eu não só teria dado meus pulos pra ir no show em Portugal (mesmo tendo sido na véspera da entrega da mudança aqui), mas também teria ido a todos os shows no Brasil e até em Nova Iorque.

Mas foi em 2020 que eu dei as mãos pra Letícia de 13 anos e me reconciliei com ela. Foi nesse ano que eu compreendi o porquê de ter me afastado dessa parte de mim, e foi nesse ano que eu consegui me reconectar com isso que eu sinto pela Sandy, pelo Junior, e por Sandy & Junior. A minha história se confunde com a deles em tantas coisas que é mesmo a Nossa História.

No primeiro disco solo da Sandy, “Manuscrito”, de 2010, ela lançou a música “Tempo”. Mas foi só nesse ano, 10 anos depois do seu lançamento, que essa música me tocou profundamente. Ela foi a minha trilha sonora de 2020: “isso vai passar também“.

O meu maior arrependimento de 2020 foi, certamente, não ter ido passar o carnaval no Brasil. Nós decidimos não ir porque a semana do carnaval correspondia à primeira semana do semestre letivo, e eu não sabia se teria alguma atividade presencial com a antecedência necessária pra comprar as passagens. Hoje, eu me arrependo de não ter “chutado o balde” pra festejar com meus amigos no Maior Show da Terra.

Eu sempre fui uma pessoa que gosta de ficar em casa. Mas nesse ano em que eu me vi obrigada a ficar dentro de casa, eu fiquei incomodada com isso. Por duas vezes, estivemos de férias e não nos sentíamos livres pra sair, passear, quem dirá viajar.

As aulas foram online. Eu nunca passei tanto tempo diante de telas. E precisou chegar novembro pra eu me questionar e começar a entender o que é mesmo importante pra mim, o que é prioritário, o que merece minha energia e minha atenção.

2020 foi o ano em que eu, finalmente, coloquei toda a disciplina que me é característica para cuidar da minha pele, e é a primeira vez em muito tempo que o inverno começa e meu rosto não está totalmente ressecado. Ainda preciso aprimorar a hidratação das mãos, que estão sacrificadas de tanto higienizar coisas.

E também esse foi o ano em que eu mais me exercitei em toda a minha vida, e isso, pra mim, é uma vitória tremenda. Eu sempre tive pavor de exercícios físicos, e ainda é uma vitória diária me encaminhar pro nosso “espacinho fitness” e dedicar uma horinha do meu dia pra me mexer.

No dia a dia, eu continuo tentando aprofundar a minha fé. Eu nunca passei tanto tempo sem ir à igreja, mas eu tentei trazê-la pra dentro de casa todos os dias – fosse pelas missas transmitidas pela tv ou internet, ou pela meditação silenciosa da liturgia. A música também me ajuda a aprofundar a minha fé – eu realmente acredito que, quem canta, reza duas vezes.

Tudo passa. Meu pai sempre diz que 31 de dezembro chega na mesma hora pra todo mundo. E, nesse ano que parecia não ter fim, 31 de dezembro finalmente chegou. 2021 vem chegando com a promessa da vacina e, eu espero, com a possibilidade da reabertura das fronteiras, da gente poder receber nossos pais aqui, da gente poder ir ver nossa família e amigos no Brasil, de trazer de volta e dobrar todos os abraços que não pudemos abraçar nos últimos 366 dias.

31

“Estais sempre alegres, orai incessantemente, dai graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus a vosso respeito em Cristo Jesus” (I Ts 16-18).

Eu considero meu aniversário meu ano novo particular. Esse ano não foi fácil pra ninguém, e pra mim não foi muito diferente.

Nos últimos 366 dias, tive que enfrentar a minha ansiedade de frente e lutar para não deixar que meus monstros me dominassem. Eu, que sempre gostei de ver o copo meio-cheio, tive meus dias de copo meio-vazio. Mas a minha fé – que vai muito além do meu otimismo – me segurou e me sustentou em todos os momentos. Todos os dias eu me lembrei de todas as razões que tenho pra agradecer, e eu sei que minha fé me fez continuar seguindo em frente.

A vida é cheia de incertezas mas, nesse ano, parece que todas elas foram aumentadas, potencializadas, escancaradas.

Nunca passei tanto tempo longe dos meus pais, dos meus amigos, dos meus parentes e familiares. Nunca fiquei tanto tempo dentro de casa. Nunca senti tanto medo da minha asma ser a minha maior fraqueza.

Eu poderia reclamar e dizer que nada do que eu planejei pra esse ano se concretizou. Mas eu tenho que reconhecer que esse ano me fez crescer muito, me permitiu que eu me reconectasse com camadas muito profundas de quem eu sou, me fez me sentir cada dia mais viva, me fez ter ainda mais motivos para agradecer.

Se, antes da pandemia, eu já sabia que tinha no meu marido o meu grande companheiro de vida, esse ano confirmou isso mais uma vez – se não fosse pelo Felipe, que é meu maior amigo, confidente, parceiro pra todas as horas, este ano teria sido realmente insuportável. E hoje, mais uma vez, ele provou ser o maior presente que eu podia ter nessa vida – inclusive fazendo um delicioso bolo de côco para cantarmos parabéns pra mim.

E, se o ano foi – no mínimo – esquisito, pelo menos hoje eu realizei meu sonho de infância de ter uma “festa” com o tema d’A Bela e a Fera. Quando eu era criança, eu sempre pensava em escolher esse tema pras minhas festas, mas sempre vinha algum outro desenho que eu também gostava e postergava A Bela e a Fera. Aos 31, o tema do meu aniversário foi, finalmente, A Bela e a Fera, numa festa pra dois.

40 dias sem sair de casa – de novo

Eu não sei se já escrevi isso aqui, mas o outono é a minha estação favorita do ano.

Desde que nós nos mudamos pra Armênia e eu comecei a ver a mudança das estações, eu fiquei completamente hipnotizada pelas cores do outono. Aqui na Suíça, não é diferente.

Eu amo a temperatura amena do outono, o ventinho fresco, as cores, o céu azul depois de um dia de chuva. Eu amo observar as árvores mudando de cor, as folhas caindo. Amo ver que cada árvore tem o seu próprio tempo, que umas perdem as folhas mais rápido do que outras, que suas cores podem ser tão diferentes entre si. Eu amo caminhar sobre as folhas secas, observar as diferentes cores e formas que cada folha tem nessa época.

outono da janela

Neste ano, não estou podendo viver o outono do jeito que eu gosto. A situação deteriorou muito e muito rápido por aqui, e eu resolvi me recolher – de novo – há 40 dias. Desde então, estou vendo o outono só pela janela, na esperança de que as pessoas tenham consciência e sigam as orientações para evitar a disseminação ainda maior do vírus.

No último dia que eu saí de casa (na missão de buscar remédios, pra variar), a Suíça estava começando a registrar mais de mil novos casos por dia. Enquanto ouvi/li que isso se dava porque os números de testes tinham aumentado muito, eu me apavorei. Afinal de contas, o verão mal tinha terminado, e na minha memória ainda estava fresco o resultado de menos de 10 casos positivos por dia no país.

Nesses 40 dias em casa, tem sido uma verdadeira montanha-russa acompanhar a evolução da pandemia por aqui: primeiro, os números aumentaram vertiginosamente, passando de mais de 10 mil casos em 24h (mais de uma vez). Depois, os números diários começaram a cair levemente, desde que o uso de máscara se tornou obrigatório em espaços públicos. Mas não observamos uma queda estável: ontem, foram registrados 4.560 casos; hoje, já são 6.114 – isso sem contar o aumento nas hospitalizações e mortes.

Pra completar, nos meus primeiros dias de “auto confinamento” em outubro, eu tive uma belíssima crise de sinusite, seguida por uma considerável crise de asma. E tem uma semana que estou lutando pra evitar uma crise de gastrite, mas hoje acordei com o estômago gritando de dor.

Enquanto eu tento me concentrar pra render o mínimo necessário que o doutorado me exige, são muitos os questionamentos que passam pela minha cabeça, entre eles: quando vou poder sair de casa de novo? Quando vou me sentir segura para andar sem máscara na rua? Quando vou poder rever meus pais? Quando vou ter coragem de viajar de trem/avião? Será que tudo isso só vai ter solução com uma vacina? Será que as pessoas vão se vacinar? Quando eu vou deixar de morrer de medo a cada crise de asma que eu tenho, por não saber se é “apenas” uma crise de asma “normal” ou se é um sintoma de coronavírus?

Outros outonos virão.

Tudo (ou quase tudo) o que eu já escrevi num só lugar: aqui

A partir de hoje, 07 de outubro de 2020, este blog reúne TUDO o que eu já escrevi e publiquei na minha vida de internet – ou quase tudo, já que uma parte continua e continuará exclusivamente publicada no leticiatostes.com.

Decidi comunicar oficialmente este feito num post porque eu vou ter um pouquinho de trabalho (pra não dizer muito) pra organizar absolutamente TUDO nas respectivas categorias de um jeito que faça sentido por aqui. Até lá, peço que tenham um pouquinho de paciência comigo!

A quem interessar possa, eu comecei o meu primeiro blog nos idos de 2007 e, desde então, tive alguns domínios, cada um dedicado a um tema.

Resolvi importar todo o conteúdo já produzido pra cá na intenção de ter o omundoéaminhacasa.com como grande diário de todas as minhas aventuras, tornando mais fáceis os momentos em que eu quiser revisitar as minhas memórias.

Notícias do lado de cá

Desde o meu último post, ensaiei várias vezes escrever alguma coisa por aqui, mas qualquer linha torta simplesmente parecia não fazer sentido.

Primeiro, pensei em contar sobre a sensação de sair de casa pela primeira vez depois de 102 dias, quando meu coração batia tão rápido por uma simples ida na farmácia pra buscar um remédio. Pensei em contar como me preparei toda, com uma roupa que fosse fácil de lavar e cheia de bolsos, porque eu não queria sair de bolsa. Pensei em contar sobre como saí sem mesmo levar carteira, colocando apenas cartão do banco e identidade em um pequeno plástico de documentos, que poderia ser facilmente higienizado quando chegasse em casa. Poderia contar sobre como prendi o cabelo bem preso, pra evitar mexer nele, e que coloquei as lentes de contato, que há tanto tempo não eram usadas, pra evitar ficar botando a mão no rosto toda hora pra acertar ou mesmo trocar os óculos escuros pelo de lentes claras. Pensei em escrever sobre a sensação de caminhar na rua sob o sol das vésperas do verão que logo ia chegar, de ver o céu azul sem a moldura das janelas, de passar pelo parque dos ursos e vê-los aproveitando o dia sem saber que há coronavírus modificando a vida de tanta gente pelo mundo. Pensei em registrar as milhares de sensações ao ver tanta gente andando na rua, entrando nas lojas e supermercados, andando de transporte público, retomando suas vidas. Pensei em escrever sobre ter visto tão pouca gente de máscara na rua – e, pior, tão pouca gente de máscara nos transportes públicos.

Aqui na Suíça nunca foi obrigatório o uso de máscara, e pouquíssimas pessoas optam por usá-las nas ruas. Parece que é uma tendência geral na Europa. Foi há poucos dias que entrou em vigor aqui a obrigatoriedade do uso de máscaras no transporte público, que eu evito pegar quando vou na rua.

Desde aquela primeira vez que saí, no dia 12 de junho, eu fui na rua algumas vezes – sempre com um propósito muito específico, sempre de máscara, sempre neurótica. Fui ao hospital fazer alguns exames de rotina, já que não há previsão de podermos ir ao Brasil. Naquele dia, fiquei em jejum por quase 17 horas, já que eu teria que fazer exame de sangue as 9 da manhã. Mesmo tendo levado um lanchinho, eu só consegui comer quando voltei pra casa porque eu simplesmente não podia tirar a máscara dentro do hospital. Poder, talvez até pudesse, mas cadê que eu tinha coragem? Preferi ficar com fome.

Daqui de casa até o centro é uma agradável caminhada de pouco mais de 1km, descendo com uma bela paisagem, passando pelo parque dos ursos. A volta é pelo mesmo caminho, mas a então subida torna-se um desafio caso eu esteja com alguma compra – o que, quase sempre, é o caso, já que eu só saio de casa com um objetivo claro, com uma rota estratégica traçada.

Pensei, também, em escrever sobre como eu precisei me reorganizar internamente para voltar a ficar em casa sozinha, depois de tanto tempo com o marido dividindo o home office. Foi só ele voltar ao trabalho presencial que eu percebi que desaprendi completamente de ficar em casa sozinha e, pra falar a verdade, acho que ainda não consegui reaprender. Não se trata de ter medo de ficar sozinha ou algo do tipo; é, por exemplo, falar comigo mesma e não ter ele perto de mim pra perguntar se na verdade eu tô falando com ele.

Também pensei em riscar algumas linhas sobre como esse período todo nos fez olhar mais pra dentro da nossa casa e investir no nosso conforto, mudando desde a cor e textura do tecido que revestia o sofá da sala de TV por termos achado uma loja que vende capas feitas sob medida para as peças dos sofás da Ikea, até a aquisição de novas louças e objetos decorativos, passando pela compra de confortáveis almofadas, roupa de cama de qualidade e jogos de mesa que combinam com a gente. Sempre gostamos de ficar em casa, mas a cada dia entendemos mais a importância de termos conforto e vermos beleza no lugar onde passamos a maior parte do nosso tempo curtindo a companhia um do outro.

Pensei em escrever sobre as duas vezes que resolvemos sair pra tomar ar puro em finais de semana, aproveitando pra lavar o Bolinha e abastecê-lo, e conhecemos dois belos lagos daqui, sem saber muito bem se ia dar certo, já que usamos o critério onde-será-que-vai-ter-menos-gente. Também poderia escrever sobre o aniversário do marido, quando eu fiz um estrogonofe gostoso e também o meu primeiro bolo que, na verdade, foi uma torta de maçã que ficou bem deliciosa. Naquele dia, montei uma mesa bem bonita, com muito carinho e cuidado pro meu amor, e de noite também preparei um sashimi de salmão que não ficou aquém de alguns restaurantes japoneses.

Também pensei em escrever sobre a alegria de poder ver o documentário “Sandy & Junior – A História” na Globoplay e relembrar tantas coisas que eu vivi, identificando diversos momentos em que as histórias deles se entrelaçam com a minha. Poderia tentar explicar a alegria ainda maior de finalmente poder assistir ao show “Nossa História”, ainda que seja só pela TV. Pensei até mesmo em escrever sobre como eu não tenho a menor estrutura pra lidar com os vídeos do Junior bem criancinha, quando ele explodia todos os termômetros de fofura. Nesses últimos dias, poder resgatar essa parte da minha história tem sido importantíssimo pra mim; é um alento, um reencontro com a Letícia criança e adolescente, dando um novo fôlego para minha criança interior que é ainda tão viva mas que, por conta da pandemia, tem ficado muito mais calada do que de costume.

Eu poderia também escrever que hoje estou um pouquinho triste porque, se mantidas as CNTPs, meus pais pegariam o avião hoje pra cá, amanhã eu iria buscá-los no aeroporto em Zurique, e eles passariam um mês aqui conosco. Poderia escrever sobre a saudade que eu sinto deles, sobre a vontade de abraçá-los, sobre a dor da incerteza de quando vamos poder nos reencontrar. Poderia escrever sobre como é difícil estar longe de tudo e de todos sempre, e como fica ainda mais difícil num momento tão delicado como esse.

Eu poderia ter escrito sobre todas essas coisas, mas todas as vezes que eu tentava rabiscar qualquer coisa por aqui, os absurdos e crescentes números de casos de covid-19 no Brasil e, pior, as absurdas e crescentes mortes em decorrência do covid-19 vinham na minha cabeça, e parecia que nada do que eu pudesse escrever fazia sentido. Um primo da minha mãe, a quem eu chamava de tio, morreu por complicações causadas pelo coronavírus depois de ficar internado por quase 2 meses. E, mesmo que ninguém da minha família tivesse sido vítima do coronavírus, a dor de todas as quase 80 mil mortes dói profundamente em mim.

100 dias em casa

E, enfim, cheguei ao 100º dia sem sair de casa.

Nos últimos dias, eu andei sem muita vontade de escrever, sem muita vontade de redes sociais, sem muita vontade de nada na verdade. Acho que todos os acontecimentos mundiais e, principalmente, as coisas que vem acontecendo no Brasil, me desanimaram bastante e eu achei melhor respeitar essa minha vontade de reclusão. Os números de casos confirmados e, pior, os números de pessoas mortas não param de crescer. Isso mexe demais comigo. Mas eu não podia deixar de fazer um registro para a posteridade neste centésimo dia sem sair.

A Suíça já entrou na última fase de flexibilização da quarentena. Ainda assim, o “Ministério da Saúde Suíço” continua recomendando que as pessoas que fazem parte de algum grupo de risco evitem sair de casa, usar transporte público, ir em lojas e supermercados movimentados, etc.

De acordo com o calendário da Universidade, as férias de verão já começaram, e graças a Deus temos conseguido fazer on-line todas as compras de que precisamos (e até de que não precisamos), então não vejo razão pra sair e me colocar em risco a toa. Na verdade, quanto mais eu fico em casa, mais eu gosto de ficar em casa.

Meu nariz tem sofrido nos últimos dias porque tinha começado a esquentar, fez calor vários dias seguidos (a ponto de eu precisar comprar uns shorts online porque eu não aguentava mais ficar de calça comprida e sentindo calor), e de repente o tempo virou e ficou frio de novo (a máxima hoje é de 13ºC). Sem contar a umidade nas alturas.

Falando em umidade, ontem eu descobri que um dos desumidificadores estava quebrado  justo na base do recipiente de coleta e, consequentemente, vazando. Aí fui conferir se tinha mais algum na mesma situação (tem que ter um desumidificador em cada cômodo pra tentar dar conta de tanta umidade) e não só todos estavam perfeitos como eu deixei um cair no chão e quebrar.

Continuo tentando manter minha rotina o mais normal possível, me concentrando o máximo que eu posso nos meus estudos (mesmo de férias, porque a pesquisa não vai se realizar sozinha não é mesmo) e tomando meu chazinho pra me esquentar no frio que insistiu em voltar.

75 dias em casa

Se alguém me dissesse, um dia, que eu ficaria 75 dias sem sair de casa, eu acho que não acreditaria. Eu amo ficar em casa, mas eu também adoro dar umas voltinhas na rua. Eu gosto de ir ao supermercado escolher as coisas que teremos em casa e, quase toda semana, preciso ir na farmácia pra repor algum remédio.

Mas já são 75 sem sair.

Aqui em Berna, aparentemente acabou a transmissão comunitária, graças a Deus. Nessa semana, todo o comércio na Suíça reabriu. Pode-se dizer que, por aqui, já se está vivendo o “novo normal”.

Mas como eu poderia viver o “novo normal” enquanto, no Brasil, não chegamos nem ao pico? Como eu vou viver o “novo normal” enquanto, no Brasil, temos subnotificação tanto do número de casos quanto do número de mortes causadas pelo coronavírus? Como posso viver o “novo normal” enquanto todo mundo que eu amo tá no Brasil?

Eu estou postergando a minha vivência do “novo normal” porque, sinceramente, eu continuo com muito medo de ser contaminada, porque o consenso médico é de que meu sistema respiratório não dá conta do coronavírus. Além disso, optando por ficar em casa mais um pouco, eu distribuo melhor o meu tempo pra poder conversar mais vezes por mais tempo com os meus pais no FaceTime e, assim, distraí-los enquanto eles não podem sair de casa.

Hoje eu tive 8 horas de aula de estatística.

 

60 dias em casa

60 dias em casa. São 60 dias sem saber o que é andar pela rua, sem sentir o vento balançar o cabelo, sem pegar ônibus, sem andar no Bolinha nem de Patineco, sem ver e/ou interagir com outras pessoas.

Tenho dias melhores, e dias piores. Tive crise de asma semana passada, e nessa semana a sinusite está querendo me pegar. Estou tentando evitar ir ao hospital neste momento – por ser parte de um dos grupos de risco, eu ainda não me sinto confortável pra sair de casa, embora o governo já tenha começado a relaxar a quarentena por aqui.

Tem dias que eu acordo muito animada pra me exercitar, e tem dias que eu só quero ficar no sofá. Tem dias que escrevo 3, 4, 5 páginas. Tem dias que estudo muito. Tem dias que eu só quero ver Disney+. Tem dias que eu esqueço de beber água. Tem dias que eu quero comer tudo o que tá na minha frente.

Tem dias que eu leio todas as notícias. Tem dias que eu só leio as manchetes da página principal dos jornais. Tem dias que não estou disposta nem pra isso.

Tem dias que eu choro diante da minha impotência, pensando em todas as pessoas que não tem uma casa onde se abrigar, nem comida pra comer. Choro pensando nas famílias das pessoas que morreram por conta do covid-19, principalmente por aqueles que nem conseguiram o diagnóstico. Tem dias que eu choro pelo Brasil.

Mas também tem dias em que eu sorrio bem mais do que eu choro. Tem dias que as alegrias são maiores do que as tristezas. As vezes é por causa do canto dos pássaros. As vezes é porque chegou a compra do mercado e, mesmo tendo que higienizar tudo antes de guardar, me dá alegria ter tanta coisa boa pra comer. As vezes a razão da alegria é ficar horas no FaceTime com meus pais. E todos os dias eu fico feliz porque o marido está trabalhando de casa, dividindo o home office comigo.

Aqui em casa, nós tentamos manter a rotina o mais normal possível. Continuamos acordando cedo, continuamos dormindo cedo. Continuei pintando minhas unhas às quintas feiras, e cuidando das unhas dos meus pés a cada 15 dias, porque isso me faz sentir um pouco de normalidade. Continuamos mantendo nossos horários das refeições, continuamos comendo pizza aos domingos, continuamos tendo bolo pros lanches dos finais de semana (graças as aptidões do marido). Continuamos sendo muito companheiros um do outro, porque há muito descobrimos que só temos um ao outro.

Eu ainda não sei quando vou sair de casa. Eu ainda não sei quando vou poder ir ao supermercado, à farmácia, ao correio, à papelaria (entre outras coisas, estou precisando urgentemente de uma pasta pra organizar meus papéis). Eu ainda não sei quando vou rever meus pais, meus amigos, minha família.

Em um momento de tantas incertezas, a única certeza que eu tenho é que a gente precisa se cuidar, a gente precisa se preservar, a gente precisa preservar o sistema de saúde e todas as pessoas que são obrigadas a trabalhar em meio a pandemia. A gente tem a obrigação de fazer a nossa parte, que nem é tão difícil assim. A gente só precisa ficar em casa mais um pouco. Quanto mais ficarmos em casa agora, mais rapidamente vamos poder nos ver de novo.

Coincidentemente, hoje faz 20 anos desde que Harry Potter foi publicado no Brasil pela Editora Rocco.

A crônica dos 45 dias

No dia em que confirmaram o primeiro caso de Coronavírus na Suíça, eu pensei em pegar um avião e me refugiar no Brasil, certa de que o vírus demoraria a chegar por lá. No dia seguinte, foi confirmado o primeiro caso de Coronavírus no Brasil. O vírus se espalhou com muito mais rapidez pela Suíça do que no Brasil mas, hoje, a curva na Suíça já está começando a achatar, enquanto a curva no Brasil ainda está crescendo francamente. O Brasil tem uma população infinitamente maior do que a Suíça. E, hoje, o Brasil já tem mais mortos por covid-19 do que a Suíça.

Os primeiros 4 dias dentro de casa já seriam assim de qualquer jeito, porque eu estava atarefada com as coisas do doutorado. A decisão de ficar em casa aconteceu no 5o dia, quando eu deveria ir ao supermercado e optei por não sair. Naquele dia, eu estava decidindo cuidar da minha saúde, evitar colocar minha asma à prova. E, segundo meu otorrino, foi a decisão mais sábia que eu poderia ter tomado.

As primeiras duas semanas dentro de casa foram estranhas. Os números de casos confirmados diariamente não paravam de aumentar, mas ainda de modo razoavelmente lento – naqueles dias, os testes ainda eram muito restritivos. Parecia que tudo ia ficar sob controle, e que logo eu ia poder sair de casa. Mas não. Depois que os testes passaram a ser mais amplos, confirmou-se que o vírus estava muito mais espalhado.

Foi neste período em que eu e marido tomamos a decisão difícil de dormirmos em quartos separados, porque ele ainda estava trabalhando normalmente e, consequentemente, bem mais exposto ao vírus do que eu, que já estava sem sair há vários dias. Esse foi, certamente, o período mais difícil até aqui: naquelas noites, era difícil dormir; a insônia me perseguia e eu passava os dias cansada, produzindo pouco e, ao mesmo tempo, não conseguia dormir quando a noite chegava.

Depois que ele entrou em regime de home office/plantão, ainda ficamos mais alguns dias com o distanciamento social vigorando dentro de casa – tudo por medo de que ele estivesse assintomático e pudesse transmitir o vírus pra mim. Foi só depois de voltarmos a nossa rotina normal que as noites voltaram a ser mais tranquilas pra mim.

Ainda não durmo super bem todos os dias. São várias as noites em que acordo, pensando em tudo o que está acontecendo. Penso nos que tem muito pouco. Penso nos que nada tem. Penso na minha impotência e insignificância diante disso tudo. Penso em alternativas que me tornem menos impotente, e tento implementá-las durante o dia. Penso nos meus pais, idosos e sozinhos lá em casa, sem ter quem faça qualquer coisa por eles.

Ontem, fiz compra no mercado pela internet para que seja entregue hoje lá em casa. Foram quase 2h no FaceTime com meus pais, definindo com eles o que eles queriam que eu comprasse. Foi uma maneira de eu me sentir mais útil e também mais tranquila por saber que, pelo menos por enquanto, eles não precisarão sair de casa.

Nos dias em que a ansiedade bate mais forte – porque, mesmo já tendo passado da pior fase, tem dias que a ansiedade não me deixa esquecer que ela está ainda dentro de mim -, eu olho pro tanto de natureza que está em volta de mim – ou melhor, em volta do prédio onde estamos morando. Tenho testemunhado a chegada da primavera em 180º, graças ao posicionamento das janelas do apartamento. Reconheço que somos muito privilegiados, e agradeço a Deus. Tenho observado a mudança da cor da luz que entra em casa, graças as folhas verdes novas das árvores. As cores lá de fora me pintam aqui dentro.

Um mês e meio sem ir na rua, 45 dias de que a minha casa é o meu mundo. E foi por isso que eu decidi começar a escrever algumas crônicas aqui, porque não vejo sentido em continuar escrevendo sobre viagens nesse momento, mas também quero manter esse nosso cantinho vivo, nem que seja pra servir de distração nesses tempos tão absurdamente difíceis.

40 dias sem sair de casa

Quando eu era criança, eu lembro que o número 40 me impressionava na liturgia. Pensava nos 40 dias e 40 noites que Jesus passou no deserto. Achava a Quaresma, os 40 dias que separam a Quarta-Feira de Cinzas da Semana Santa, um período longuíssimo. E hoje eu completo 40 dias sem sair de casa – coincidentemente, hoje é Sexta-feira Santa.

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tirei essa foto no 38º dia em casa, mas a frase estampada na blusa (by Coletivo Lírico) se torna mais importante a cada dia dessa quarentena.

Quando estávamos Armênia, fiz uma viagem sozinha pro Brasil de 40 dias. Naqueles 40 dias, senti saudade do marido. Naqueles 40 dias, fui a vários médicos, fiz vários exames, visitei minha sogra e minha cunhada em SP, visitei meus tios no interior do RJ. Nos últimos 40 dias, os visitei pela internet.

Eu não estaria sendo sincera se dissesse que estes últimos 40 dias foram fáceis. A tristeza de ver as consequências de uma pandemia e a sensação de impotência diante de tudo o que está acontecendo são potencializadas por ser uma pessoa ansiosa. Tenho dias melhores, e tenho dias piores. Mas, há cerca de 2 semanas, meu coração tem ficado mais tranquilo, os picos de ansiedade tem sido menores, e eu tenho conseguido lidar melhor com as oscilações inevitáveis deste período de confinamento. Coincidentemente ou não, há duas semanas o Papa Francisco deu a benção urbi et orbi, após 1 hora de oração transmitida ao vivo para o mundo inteiro, com uma Praça São Pedro vazia, debaixo de chuva.

A minha fé tem sido um baluarte importante neste período. É a minha fé que me mantém com os pés no chão, e também com a certeza de que tudo isso vai passar. É a minha fé que me dá esperança de que o mundo não vai “voltar ao normal”, mas que caminharemos em direção a um mundo mais humano, mais solidário, mais irmão.

Além das minhas orações diárias, outra coisa que tem me ajudado bastante no controle da ansiedade é fazer exercícios físicos (quase) diariamente. Durante 1 hora, eu mexo meu corpo, seja dançando, fazendo alongamentos ou algum exercício funcional de que eu me lembro.

Manter-me ocupada também é fundamental. Até 31/03, estava muito atarefada escrevendo uma versão do projeto de tese. Ontem tive o último de 2 seminários sobre filosofia (em alemão!) com 4 horas de duração cada, ministrados online. Continuo tendo minhas aulas de alemão online 2x na semana. E já estou inscrita para mais um seminário, também online, com 2 dias de duração na metade de maio. As atividades acadêmicas não param e preenchem meu tempo, até demais.

Foi só nos últimos dias que consegui me dar umas horinhas de folga durante a semana – coisa necessária em tempos tão difíceis. Assisti Harry Potter, e também comecei a ver algumas séries do Disney+ que muito me interessam. Me transportar um pouquinho para meus universos mágicos favoritos também colaboram para manter minha sanidade.

Hoje é meu 40º dia sem sair de casa e, sinceramente, não sei quantos dias mais passarei entre essas paredes, sem poder sair por ser parte de um dos grupos de risco. Reconheço que sou privilegiada por morarmos num apartamento bom, que nos permite circular e não surtar, com janelas que possibilitam a entrada do sol e que vejamos o céu azul (aliás, nunca antes na história desse país fez tantos dias de sol e céu azul), com um home office bem estruturado pra dar continuidade as minhas atividades acadêmicas e todas as responsabilidades do marido.

O governo da Suíça já anunciou uma prorrogação da quarentena até (pelo menos) 26 de abril. A Universidade suspendeu todas as atividades presenciais deste semestre. Especula-se que, em junho, a situação comece a normalizar. Enquanto isso, eu fico em casa.

Coronavírus e home office: a minha casa é o meu mundo

Eu tô cheia de coisa pra contar sobre a nossa última viagem de férias, mas é impossível não falar, antes, sobre o coronavírus, como isso afetou a minha rotina e também dividir algumas dicas para quem nunca trabalhou em home office e está se vendo nessa situação.

O mundo é a minha casa, mas, desde o dia 01/03, a minha casa é o meu mundo. Eu faço parte de um dos grupos de risco, porque tenho problemas respiratórios. Muito antes de ser recomendado pela OMS ou pelas autoridades, eu optei por ficar em casa, me concentrando o máximo possível nos meus estudos.

Há muito anos eu trabalho de casa e, graças a Deus, tenho conseguido me manter produtiva todo esse tempo. No doutorado, o processo de pesquisa e escrita ainda é bem solitário, e passo a maior parte do meu tempo estudando em casa.

Já na infância, meus pais me ensinaram sobre a importância de ter um cantinho separado pro estudo, de preferência fora do meu próprio quarto, com um cronograma a ser seguido. Eles sempre se esforçaram pra que isso fosse possível ao longo da minha vida e, depois dos meus 9 anos, o único período que tive uma estação de trabalho no meu quarto foi quando a Mivó ficou doente e morou com a gente.

Desde que casamos, sempre expliquei pro Felipe que era importante demais pra mim ter um canto separado em casa pra estudar/trabalhar. Pra mim, faz toda diferença me arrumar um pouco e ir pra um espaço dedicado ao estudo/trabalho. Ao entrar no home office, é como se ligasse uma chave dentro da minha cabeça que me diz que é hora de concentrar.

Sei que sou muito privilegiada pois nem todo mundo pode dedicar um cômodo da casa para o trabalho/estudo. Nesse caso, minha dica é encontrar um cantinho na sua casa que você possa se concentrar e, se for o caso, deixar claro pras pessoas que moram com você que aquele é seu horário de estudo/trabalho.

Eu admito que a pandemia covid-19 atrapalhou um pouco a minha capacidade de concentração, afinal são muitas notícias e muita coisa acontecendo muito rápido, sem contar a preocupação com nossos pais, familiares e amigos que estão tão longe de nós nesse momento. No entanto, tentei não alterar muito o meu cronograma diário, que é mais ou menos assim:

  1. Acordo cedo e rezo, lavo meu rosto, tomo um bom café da manhã, faço exercício físico por 30min (em casa mesmo!), tomo um banho tranquilo, cumpro a rotina de skincare (nada mirabolante), visto meu combo T-shirt + calça de moletom (tão confortável quanto um pijama, mas não é pijama, então meu cérebro entende que não to em casa pra descansar), medito a Palavra de Deus com calma, escrevo minha to-do list e vejo meus e-mails.
  2. Entre 10h e 10h30 faço minha 1ª pausa para comer, que é chamada “colação”. Em geral, tomo um café com leite e como um mix de castanhas com frutas secas + queijo ou algum embutido (proteína).
  3. Terminada a pausa pra colação, volto pro escritório pra trabalhar. Quando não estou conseguindo me concentrar direito, coloco um relógio de pulso, que é o tipo de coisa que a gente só usa quando vai pra rua. Em tempos de covid-19, se você quiser usar um relógio ou algum outro acessório em casa, é recomendável que esteja adequadamente higienizado.
  4. Pra me manter bem hidratada, deixo uma garrafa de água de 500ml do meu lado e, na 1ª pausa, faço também um chá de limão com gengibre (que coloco num copo de 500ml do Starbucks). Se não fizer isso, as chances de me esquecer de beber água são muito grandes. Quando acabo o 1º copo de chá, faço outro. Pra mim, chá é reconfortante, que me mantém hidratada e evita que me entupa de cafeína.
  5. Entre 12:30 e 12:50 toca o alarme que me lembra de fazer o almoço. Durante a semana, os almoços aqui em casa são super práticos, coisas que posso colocar no forno por +-20min ou 40min, e deixo os legumes cozinhando no vapor. Enquanto o almoço praticamente se faz sozinho, volto pro escritório e estudo mais um pouco (as vezes uso esse tempo pra organizar alguma coisa em casa).
  6. Depois do almoço, volto a trabalhar por volta de 15h. Entre 15h e 16h, tento produzir o máximo possível, porque sei que, nesse horário, a minha produtividade já começa a cair.
  7. Entre 16h e 16h30 faço a minha pausa para o lanche, graças ao alarme já pré-marcado no celular. Essa pausa é crucial: eu PRECISO de um bom café da tarde. Tomo café e como 2 biscoitos de arroz (substituto de pão) com geleia de morango + queijo ou algum embutido.
  8. Das 16h30 até 18h, sei que minha produtividade já está bem mais baixa do que o ideal, embora haja dias em que esteja tão focada que eu continuo produzindo bem (AMO quando isso acontece). Costumo planejar, pra esse horário, coisas mais leves, tipo estudar alemão ou russo, ler os jornais, imprimir os artigos que preciso ler pra tese, etc.
  9. 18h pontualmente toca o alarme me avisando que é hora de parar e começar a pensar no jantar (sopa no frio, salada no calor).
  10. Assisto TV com o marido, tomamos chá e dormimos cedo. Procuro largar o celular as 21h, planejando dormir as 22h. Essa 1h sem celular antes de dormir é fundamental pra mim. Acredito que disciplina é liberdade, e uma boa noite de sono é necessária pra que eu encare a rotina de forma leve e tranquila.

No mais, sigo em oração, e espero que o mundo inteiro consiga superar logo esse momento tão indescritivelmente difícil. Enquanto isso, ficamos em casa, fazendo a nossa parte pra achatar a curva de contaminação e, assim, dar uma melhor chance aos profissionais de saúde que estão na linha de frente de atendimento.

Fiquem em casa, cuidem-se, cuidem das pessoas ao seu redor praticando o distanciamento social, mas também mandem mensagens/telefone pras pessoas queridas, marquem um café virtual, não deixem de conversar uns com os outros.

Como disse Albus Dumbledore, nós somos tão fortes quanto a nossa união, e tão fracos quanto a nossa desunião.

Habemus casa!

E eis que temos, enfim, nossa casinha suíça. Depois de 43 dias em hotéis, muita procura e alguma incerteza, nos instalamos no nosso apê na última semana. Embora tudo ainda esteja bem vazio (e um tanto mais bagunçado do que eu gostaria por conta das caixas que não podemos simplesmente jogar fora, pois reciclagem aqui é coisa séria), já estamos começando a ter aquela sensação boa de estarmos instalados “definitivamente” (as aspas existem porque, como vocês que me acompanham já sabem, nada nessa nossa vida itinerante é definitivo e nós já chegamos aqui com data certa pra deixar a Suíça).

Alugar um imóvel na Suíça (ou, pelo menos, em Berna) não é coisa muito simples. Primeiro, há pouca disponibilidade de imóveis com mais de 1 banheiro para alugar, o que já limita muito a busca. Nós chegamos a ver anunciados apartamentos com 5 quartos e apenas um único banheiro!

Depois de encontrarmos alguns pouquíssimos imóveis com 2 banheiros, vem a luta para conseguir marcar uma visita. Ao dizer que estamos em missão diplomática, muitas imobiliárias nem respondem; pelo que soubemos, parece que há um pouquinho de preconceito em alugar imóveis para diplomatas e suas famílias. Das imobiliárias que nos responderam, várias indicaram que os apartamentos só ficariam disponíveis a partir de outubro, novembro, e até mesmo fevereiro do próximo ano; só aí já tivemos que eliminar mais alguns apartamentos que tinham despertado nosso interesse, pois tínhamos reservado o apart hotel por pouco mais de 2 semanas e estávamos doidos para ter um cantinho para chamar de nosso.

Conseguimos, enfim, visitar 2 apartamentos: este que no fim alugamos, e mais um outro, bastante parecido, só que bem mais longe do centro da cidade e da Embaixada. Berna stricto sensu é bem pequena, com uma população de 140 mil habitantes; lato sensu, a aglomeração de Berna inclui 36 municipalidades, e a população total está acima dos 400 mil habitantes. Todas estas municipalidades estão conectadas à cidade de Berna pelo transporte público, que funciona como um reloginho, mas que pode exigir várias horas de descolamento diário. Numa cidade pequena assim, e tendo encontrado outra opção também dentro da RF bem mais perto, não fazia sentido alugarmos um apartamento que exigiria um deslocamento diário de 1h20 no transporte público (40min pra ir e 40min pra voltar) para que Felipe chegasse ao trabalho, ou então a compra de 2 carros (em outro post eu conto a história automobilística).

Depois de escolhido o apartamento que gostaríamos de alugar, submetemos o pedido à imobiliária, que deveria aprovar o nosso perfil junto do proprietário do apartamento. Uma vez que nós fomos aprovados pela imobiliária e pelo dono do imóvel, nos foi enviado (pelo correio!!!) o contrato de locação, junto dos boletos referentes ao depósito caução e primeiro pagamento de aluguel.

Uma vez que fizemos estes primeiros pagamentos, recebemos as chaves do imóvel e pudemos correr nas lojas de móveis para comprar o básico que precisávamos para mudarmos. Salve a IKEA, que tinha sofá, mesa, rack e cama disponíveis para pronta entrega: fizemos a compra no sábado e os móveis foram entregues na terça feira (03/09). Por “móveis foram entregues”, entendam que caixas com móveis desmontados foram entregues, e nós dois passamos o dia inteiro montando-os, já que a taxa de montagem da IKEA estava beirando os mil francos. Já posso adicionar ao meu curriculum vitae a habilidade “montadora de móveis” hihihihi

Na véspera dessa entrega dos móveis, nós pegamos um carro pelo Mobility (serviço de car sharing) e voltamos na IKEA para comprar as mesas do escritório e coisas básicas como panelas, pratos, canecas, varal, etc. As mesas do escritório nós deixamos para montar no último final de semana, até porque ainda não tínhamos cadeiras. Nós optamos por comprar as cadeiras para a mesa de jantar em outra loja (Pfister) que só poderia entregar nossa compra no dia 09 de setembro. Pelo menos, quando entregaram estas cadeiras, eles mesmos montaram.

Quase diariamente tenho que ir comprar alguma coisinha na rua para nos dar mais conforto em casa, o que é normal nesse comecinho, bem como é normal ainda não ter uma noção certinha do planejamento de compras de alimentos (nossa geladeira aqui é bem menor do que a do apartamento na Armênia, então é mais uma coisa com a qual temos que nos acostumar). Ainda falta muita coisa, até porque ainda não fazemos ideia de quando nossos pertences vindos da Armênia serão entregues. E faltam também coisas básicas como internet e tv por assinatura, porque é claro que isso não é coisa simples por aqui. Até que tenhamos internet em casa, estamos usando os celulares de roteadores para a TV e computadores. Graças a Deus nós conseguimos contratar planos de internet móvel ilimitada, então pelo menos está dando pra assistir Netflix e GloboPlay, e trabalhar com alguma normalidade.

Aos poucos, a vida vai entrando nos eixos e já estamos muito felizes de estarmos instalados no apartamento. Soubemos de colegas da Embaixada que demoraram 4 meses para encontrar um lugar para morar aqui em Berna, bem como colegas das missões em Genebra e Zurique que também demoraram bastante, então nós nos sentimos muito privilegiados e abençoados por já termos um cantinho nosso.