3 anos de Suíça e o fim de uma vida não vivida

Eu acredito firmemente que todos nós vivemos muitas vidas dentro de uma única vida e, no nosso caso, acho que isso se torna mais palpável por conta das constantes mudanças de país. Eu já contei pra vocês aqui um pouco de como funciona o processo de remoção, e que nós sempre chegamos a um país já com data certa de partida, ainda que não saibamos pra onde iremos depois. Dessa vez, chegou a hora de encerrar a vida na Suíça, exatamente 3 anos depois da nossa chegada em Berna.

Na verdade, encerrar a vida aqui tem sido um processo longo, que começou já no fim de janeiro. Esse primeiro semestre foi um caos, e também por isso eu não consegui cumprir com a minha meta de voltar a escrever mais por aqui. Embora a gente já soubesse que sairia daqui nesse verão – a intenção era aproveitar minhas férias mais longas na Universidade pra fazer a mudança -, não esperávamos que seria preciso entregar o apto onde morávamos antes do final do contrato – previsto para o fim de agosto, o que nos daria tempo suficiente pra acompanhar o plano de remoção sem (muita) ansiedade e preparar a mudança com um tempo razoável. Afinal de contas, a mudança de um país pro outro vai muito além de “simplesmente” empacotar todas as nossas coisas e viver de mala por alguns meses; a gente precisa encerrar toda uma vida (fechar conta de banco, vender carro, encerrar contratos, etc, etc) antes da partida – e, aqui na Suíça, nada é simples, nada pode ser feito de uma hora pra outra: pra encerrar a conta de internet e celulares, por exemplo, é preciso avisar com no mínimo 3 meses de antecedência para que o contrato seja encerrado.

Fato é que, no último final de semana de janeiro, nós recebemos uma notificação da imobiliária de que o dono do apto onde morávamos queria que entregássemos as chaves até 30 de abril (!!!) porque ele e a mulher vão se mudar pra lá. O caos se instaurou aí porque, apesar de depois de muito sangue, suor e lágrimas termos conseguido negociar a entrega das chaves pra até 30 de junho, a gente entrou em modo turbo de mudança antes mesmo do início do plano de remoção, antes mesmo de sabermos qual seria nosso novo posto!!!

Tivemos que procurar um lugar provisório pra morar, planejar os encerramentos de contratos, vender o Bolinha… enfim, viver todo o caos que é o processo de mudança no meio do meu semestre letivo que foi super intenso enquanto o marido estava atolado de trabalho. Graças a Deus, meus pais puderam (finalmente!!!) vir pra Suíça nos ajudar na preparação da mudança, e a gente nem imaginava o quão importante seria, de fato, todo o trabalho que eles fizeram de empacotamento e arrumação. Eles ficaram o mês de maio todinho com a gente, e quem dera pudessem ter ficado mais pra arrumar mais coisas!!

O trabalho deles já teria sido valioso, mas ficou ainda mais evidente o quão importante foi nos dias da mudança de facto, já que a empresa que venceu a licitação prestou um serviço muito abaixo do satisfatório, e não só tivemos que colocar a mão na massa pra empacotar coisas (diferente das outras vezes, quando só supervisionávamos a embalagem e carregamento das nossas coisas no caminhão) como também ficamos estressadíssimos por conta de erros diversos acumulados, inclusive de cálculo da cubagem necessária pra transportar nossas coisas, o que resultou na necessidade de descartar muito mais móveis do que tínhamos planejado.

entre caixas

De todo jeito, como o marido mesmo disse depois que o impacto do caos passou, o mais importante é que temos um ao outro; bens materiais vem e vão, mas o amor que a gente sente um pelo outro e o nosso companheirismo são permanentes e são as coisas mais importantes que nós temos nessa vida doida que a gente escolheu viver juntos.

Depois de merecidas férias + trânsito, amanhã nós partimos rumo ao nosso novo posto – eu conto qual é quando chegarmos lá, mas já posso dar um pequeno spoiler de que é um lugar onde eu já estive e pra onde sempre tive muita vontade de voltar -, e a sensação é de que encerramos essa vida na Suíça sem termos, de fato, vivido. Vocês já sabem que, em razão da pandemia, passamos muito tempo isolados em casa, tivemos cuidado extremo pra evitar contaminação e, consequentemente, não viajamos o tanto que queríamos, não conseguimos conhecer todos os cantões da Suíça como planejávamos, não pude vivenciar a Universidade e o doutorado como eu esperava, não conseguimos viver verdadeiramente as nossas expectativas.

Tanto esforço para não nos contaminarmos acabou indo por água abaixo nas férias: ao viajar, ficamos muito expostos e ambos tivemos resultado positivo pra COVID. Foram alguns dias de agonia enquanto tentávamos nos isolar o máximo possível no hotel onde estávamos, sem ter nem mesmo a opção de voltar pra casa já que, no momento, não tínhamos (e ainda não temos!) casa. Se não fossem as 3 doses da vacina, acho que ambos teríamos precisado de hospitalização. Ao chegar no nosso novo posto, certamente procurarei atendimento médico pra ver ao certo quais os impactos que a COVID teve na minha asma.

Tschüss, Bern!!

Conseguimos aprender muito com essa experiência na Suíça, e saímos daqui mais fortes, mais certos das nossas escolhas, mais seguros das nossas decisões. Saímos da Suíça sem termos vivido tudo o que queríamos, mas certamente vivemos tudo o que precisávamos pra nos preparar pro que vem pela frente. E eu sei que Deus está cuidando de tudo, e que os nossos próximos passos estão iluminados por Ele.

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