40 dias sem sair de casa – de novo

Eu não sei se já escrevi isso aqui, mas o outono é a minha estação favorita do ano.

Desde que nós nos mudamos pra Armênia e eu comecei a ver a mudança das estações, eu fiquei completamente hipnotizada pelas cores do outono. Aqui na Suíça, não é diferente.

Eu amo a temperatura amena do outono, o ventinho fresco, as cores, o céu azul depois de um dia de chuva. Eu amo observar as árvores mudando de cor, as folhas caindo. Amo ver que cada árvore tem o seu próprio tempo, que umas perdem as folhas mais rápido do que outras, que suas cores podem ser tão diferentes entre si. Eu amo caminhar sobre as folhas secas, observar as diferentes cores e formas que cada folha tem nessa época.

outono da janela

Neste ano, não estou podendo viver o outono do jeito que eu gosto. A situação deteriorou muito e muito rápido por aqui, e eu resolvi me recolher – de novo – há 40 dias. Desde então, estou vendo o outono só pela janela, na esperança de que as pessoas tenham consciência e sigam as orientações para evitar a disseminação ainda maior do vírus.

No último dia que eu saí de casa (na missão de buscar remédios, pra variar), a Suíça estava começando a registrar mais de mil novos casos por dia. Enquanto ouvi/li que isso se dava porque os números de testes tinham aumentado muito, eu me apavorei. Afinal de contas, o verão mal tinha terminado, e na minha memória ainda estava fresco o resultado de menos de 10 casos positivos por dia no país.

Nesses 40 dias em casa, tem sido uma verdadeira montanha-russa acompanhar a evolução da pandemia por aqui: primeiro, os números aumentaram vertiginosamente, passando de mais de 10 mil casos em 24h (mais de uma vez). Depois, os números diários começaram a cair levemente, desde que o uso de máscara se tornou obrigatório em espaços públicos. Mas não observamos uma queda estável: ontem, foram registrados 4.560 casos; hoje, já são 6.114 – isso sem contar o aumento nas hospitalizações e mortes.

Pra completar, nos meus primeiros dias de “auto confinamento” em outubro, eu tive uma belíssima crise de sinusite, seguida por uma considerável crise de asma. E tem uma semana que estou lutando pra evitar uma crise de gastrite, mas hoje acordei com o estômago gritando de dor.

Enquanto eu tento me concentrar pra render o mínimo necessário que o doutorado me exige, são muitos os questionamentos que passam pela minha cabeça, entre eles: quando vou poder sair de casa de novo? Quando vou me sentir segura para andar sem máscara na rua? Quando vou poder rever meus pais? Quando vou ter coragem de viajar de trem/avião? Será que tudo isso só vai ter solução com uma vacina? Será que as pessoas vão se vacinar? Quando eu vou deixar de morrer de medo a cada crise de asma que eu tenho, por não saber se é “apenas” uma crise de asma “normal” ou se é um sintoma de coronavírus?

Outros outonos virão.

Notícias do lado de cá

Desde o meu último post, ensaiei várias vezes escrever alguma coisa por aqui, mas qualquer linha torta simplesmente parecia não fazer sentido.

Primeiro, pensei em contar sobre a sensação de sair de casa pela primeira vez depois de 102 dias, quando meu coração batia tão rápido por uma simples ida na farmácia pra buscar um remédio. Pensei em contar como me preparei toda, com uma roupa que fosse fácil de lavar e cheia de bolsos, porque eu não queria sair de bolsa. Pensei em contar sobre como saí sem mesmo levar carteira, colocando apenas cartão do banco e identidade em um pequeno plástico de documentos, que poderia ser facilmente higienizado quando chegasse em casa. Poderia contar sobre como prendi o cabelo bem preso, pra evitar mexer nele, e que coloquei as lentes de contato, que há tanto tempo não eram usadas, pra evitar ficar botando a mão no rosto toda hora pra acertar ou mesmo trocar os óculos escuros pelo de lentes claras. Pensei em escrever sobre a sensação de caminhar na rua sob o sol das vésperas do verão que logo ia chegar, de ver o céu azul sem a moldura das janelas, de passar pelo parque dos ursos e vê-los aproveitando o dia sem saber que há coronavírus modificando a vida de tanta gente pelo mundo. Pensei em registrar as milhares de sensações ao ver tanta gente andando na rua, entrando nas lojas e supermercados, andando de transporte público, retomando suas vidas. Pensei em escrever sobre ter visto tão pouca gente de máscara na rua – e, pior, tão pouca gente de máscara nos transportes públicos.

Aqui na Suíça nunca foi obrigatório o uso de máscara, e pouquíssimas pessoas optam por usá-las nas ruas. Parece que é uma tendência geral na Europa. Foi há poucos dias que entrou em vigor aqui a obrigatoriedade do uso de máscaras no transporte público, que eu evito pegar quando vou na rua.

Desde aquela primeira vez que saí, no dia 12 de junho, eu fui na rua algumas vezes – sempre com um propósito muito específico, sempre de máscara, sempre neurótica. Fui ao hospital fazer alguns exames de rotina, já que não há previsão de podermos ir ao Brasil. Naquele dia, fiquei em jejum por quase 17 horas, já que eu teria que fazer exame de sangue as 9 da manhã. Mesmo tendo levado um lanchinho, eu só consegui comer quando voltei pra casa porque eu simplesmente não podia tirar a máscara dentro do hospital. Poder, talvez até pudesse, mas cadê que eu tinha coragem? Preferi ficar com fome.

Daqui de casa até o centro é uma agradável caminhada de pouco mais de 1km, descendo com uma bela paisagem, passando pelo parque dos ursos. A volta é pelo mesmo caminho, mas a então subida torna-se um desafio caso eu esteja com alguma compra – o que, quase sempre, é o caso, já que eu só saio de casa com um objetivo claro, com uma rota estratégica traçada.

Pensei, também, em escrever sobre como eu precisei me reorganizar internamente para voltar a ficar em casa sozinha, depois de tanto tempo com o marido dividindo o home office. Foi só ele voltar ao trabalho presencial que eu percebi que desaprendi completamente de ficar em casa sozinha e, pra falar a verdade, acho que ainda não consegui reaprender. Não se trata de ter medo de ficar sozinha ou algo do tipo; é, por exemplo, falar comigo mesma e não ter ele perto de mim pra perguntar se na verdade eu tô falando com ele.

Também pensei em riscar algumas linhas sobre como esse período todo nos fez olhar mais pra dentro da nossa casa e investir no nosso conforto, mudando desde a cor e textura do tecido que revestia o sofá da sala de TV por termos achado uma loja que vende capas feitas sob medida para as peças dos sofás da Ikea, até a aquisição de novas louças e objetos decorativos, passando pela compra de confortáveis almofadas, roupa de cama de qualidade e jogos de mesa que combinam com a gente. Sempre gostamos de ficar em casa, mas a cada dia entendemos mais a importância de termos conforto e vermos beleza no lugar onde passamos a maior parte do nosso tempo curtindo a companhia um do outro.

Pensei em escrever sobre as duas vezes que resolvemos sair pra tomar ar puro em finais de semana, aproveitando pra lavar o Bolinha e abastecê-lo, e conhecemos dois belos lagos daqui, sem saber muito bem se ia dar certo, já que usamos o critério onde-será-que-vai-ter-menos-gente. Também poderia escrever sobre o aniversário do marido, quando eu fiz um estrogonofe gostoso e também o meu primeiro bolo que, na verdade, foi uma torta de maçã que ficou bem deliciosa. Naquele dia, montei uma mesa bem bonita, com muito carinho e cuidado pro meu amor, e de noite também preparei um sashimi de salmão que não ficou aquém de alguns restaurantes japoneses.

Também pensei em escrever sobre a alegria de poder ver o documentário “Sandy & Junior – A História” na Globoplay e relembrar tantas coisas que eu vivi, identificando diversos momentos em que as histórias deles se entrelaçam com a minha. Poderia tentar explicar a alegria ainda maior de finalmente poder assistir ao show “Nossa História”, ainda que seja só pela TV. Pensei até mesmo em escrever sobre como eu não tenho a menor estrutura pra lidar com os vídeos do Junior bem criancinha, quando ele explodia todos os termômetros de fofura. Nesses últimos dias, poder resgatar essa parte da minha história tem sido importantíssimo pra mim; é um alento, um reencontro com a Letícia criança e adolescente, dando um novo fôlego para minha criança interior que é ainda tão viva mas que, por conta da pandemia, tem ficado muito mais calada do que de costume.

Eu poderia também escrever que hoje estou um pouquinho triste porque, se mantidas as CNTPs, meus pais pegariam o avião hoje pra cá, amanhã eu iria buscá-los no aeroporto em Zurique, e eles passariam um mês aqui conosco. Poderia escrever sobre a saudade que eu sinto deles, sobre a vontade de abraçá-los, sobre a dor da incerteza de quando vamos poder nos reencontrar. Poderia escrever sobre como é difícil estar longe de tudo e de todos sempre, e como fica ainda mais difícil num momento tão delicado como esse.

Eu poderia ter escrito sobre todas essas coisas, mas todas as vezes que eu tentava rabiscar qualquer coisa por aqui, os absurdos e crescentes números de casos de covid-19 no Brasil e, pior, as absurdas e crescentes mortes em decorrência do covid-19 vinham na minha cabeça, e parecia que nada do que eu pudesse escrever fazia sentido. Um primo da minha mãe, a quem eu chamava de tio, morreu por complicações causadas pelo coronavírus depois de ficar internado por quase 2 meses. E, mesmo que ninguém da minha família tivesse sido vítima do coronavírus, a dor de todas as quase 80 mil mortes dói profundamente em mim.

100 dias em casa

E, enfim, cheguei ao 100º dia sem sair de casa.

Nos últimos dias, eu andei sem muita vontade de escrever, sem muita vontade de redes sociais, sem muita vontade de nada na verdade. Acho que todos os acontecimentos mundiais e, principalmente, as coisas que vem acontecendo no Brasil, me desanimaram bastante e eu achei melhor respeitar essa minha vontade de reclusão. Os números de casos confirmados e, pior, os números de pessoas mortas não param de crescer. Isso mexe demais comigo. Mas eu não podia deixar de fazer um registro para a posteridade neste centésimo dia sem sair.

A Suíça já entrou na última fase de flexibilização da quarentena. Ainda assim, o “Ministério da Saúde Suíço” continua recomendando que as pessoas que fazem parte de algum grupo de risco evitem sair de casa, usar transporte público, ir em lojas e supermercados movimentados, etc.

De acordo com o calendário da Universidade, as férias de verão já começaram, e graças a Deus temos conseguido fazer on-line todas as compras de que precisamos (e até de que não precisamos), então não vejo razão pra sair e me colocar em risco a toa. Na verdade, quanto mais eu fico em casa, mais eu gosto de ficar em casa.

Meu nariz tem sofrido nos últimos dias porque tinha começado a esquentar, fez calor vários dias seguidos (a ponto de eu precisar comprar uns shorts online porque eu não aguentava mais ficar de calça comprida e sentindo calor), e de repente o tempo virou e ficou frio de novo (a máxima hoje é de 13ºC). Sem contar a umidade nas alturas.

Falando em umidade, ontem eu descobri que um dos desumidificadores estava quebrado  justo na base do recipiente de coleta e, consequentemente, vazando. Aí fui conferir se tinha mais algum na mesma situação (tem que ter um desumidificador em cada cômodo pra tentar dar conta de tanta umidade) e não só todos estavam perfeitos como eu deixei um cair no chão e quebrar.

Continuo tentando manter minha rotina o mais normal possível, me concentrando o máximo que eu posso nos meus estudos (mesmo de férias, porque a pesquisa não vai se realizar sozinha não é mesmo) e tomando meu chazinho pra me esquentar no frio que insistiu em voltar.