1 ano em isolamento

Não dá pra dizer que parece que foi ontem, ao mesmo tempo em que parece que foi.

O 1º caso confirmado de coronavírus na Suíça foi em 25.02.2020. Em poucos dias, novos casos começaram a pipocar pelo país todo – em 03.03.2020, já eram 56 casos confirmados. Os meus primeiros dias de isolamento, começando em 02.03.2020, não foram exatamente propositais, embora eu já ensaiasse não sair de casa até que a situação melhorasse. De todo modo, acabaram sendo adicionados à conta dos primeiros 102 dias sem sair de casa. Na verdade, eu tomei a decisão consciente de não sair mais uns poucos dias depois.

dias iguais

Neste um ano isolada, eu saí (bem) menos de 30 vezes, eu tive quase nenhum contato com outras pessoas, e todas as minhas interações foram realizadas de máscara. Faz um ano que eu não vou nem tirar o lixo sem máscara. Das interações que tive, 90% foram resultantes de necessários cuidados com a saúde – check up no hospital, exame de vista, buscar remédios na farmácia – ou das entregas das compras de supermercado. Meu Deus, tem mais de um ano que eu não faço uma compra de supermercado no supermercado. Os outros 10% de interações eu deixo por conta das vezes que encontrei com os vizinhos nas escadas quando ia tirar o lixo ou buscar o correio, ou das pouquíssimas vezes que fui muito corajosa de entrar numa loja pra fazer uma compra presencial. Depois de tanto tempo isolada, a rotina vai tomando formas estranhas. Os meus dias são muito iguais, cronometrados, e a passagem do tempo parece ficar marcada mesmo pela mudança na paisagem que eu vejo pelas janelas. Eu me organizo pra dar conta de todas as tarefas domésticas e pra não deixar acumular nada do doutorado, e me continuo me forçando a fazer exercícios físicos (quase) diariamente.

Os efeitos do isolamento ainda não são todos conhecidos, mas confesso que tem dias que eu vejo minha sanidade mental se esvair. As vezes me falta vontade até de ver TV. Eu me pergunto até quando vamos viver nessa situação, até quando eu vou ter que esperar pra poder rever meus pais, meus amigos, minha família. Me pergunto se eu ainda vou ter chance de vivenciar um pouco do doutorado na Universidade, como deveria ser. Me pego pensando na rotina que eu desenhei dentro das paredes dessa casa, com o marido como meu único companheiro, e como ele é a minha paz no meio do caos. Me pergunto se eu vou conseguir voltar a dormir uma noite de sono completa.

No meio desse caminho, ficaram tantos posts na aba de rascunhos. As linhas ensaiadas para contar da última viagem de férias que fizemos antes do caos tomar conta não me pareciam fazer nenhum sentido. Do mesmo modo, mal comecei a rascunhar sobre nossas rápidas escapadas no verão até Vaduz – numa segunda-feira sem ninguém nas ruas da capital de Liechtenstein, pra onde fomos e voltamos no nosso fiel Bolinha, levando nossa comida pra não precisar nem entrar em nenhum restaurante – ou até o Blausee numa manhã ensolarada. Em algum momento, eu sei que essas linhas tortas sobre dias quase normais lá fora vão sair, mas não agora.

A marca dos 365 dias isolada tá sendo “celebrada” com uma belíssima crise de sinusite, super forte, daquelas como há muito tempo eu não tinha. Estou no 8º dia de antibiótico, 9º dia de corticóide. Ontem, meu ouvido esquerdo parecia que ia explodir. Hoje ele me deu uma trégua, e é o ouvido direito que tá me incomodando mais. Já faz uns anos que a minha congestão nasal faz pressão nos meus ouvidos, e a dor é algo difícil de descrever – tanto quanto esse um ano que se passou.

Notícias do lado de cá

Desde o meu último post, ensaiei várias vezes escrever alguma coisa por aqui, mas qualquer linha torta simplesmente parecia não fazer sentido.

Primeiro, pensei em contar sobre a sensação de sair de casa pela primeira vez depois de 102 dias, quando meu coração batia tão rápido por uma simples ida na farmácia pra buscar um remédio. Pensei em contar como me preparei toda, com uma roupa que fosse fácil de lavar e cheia de bolsos, porque eu não queria sair de bolsa. Pensei em contar sobre como saí sem mesmo levar carteira, colocando apenas cartão do banco e identidade em um pequeno plástico de documentos, que poderia ser facilmente higienizado quando chegasse em casa. Poderia contar sobre como prendi o cabelo bem preso, pra evitar mexer nele, e que coloquei as lentes de contato, que há tanto tempo não eram usadas, pra evitar ficar botando a mão no rosto toda hora pra acertar ou mesmo trocar os óculos escuros pelo de lentes claras. Pensei em escrever sobre a sensação de caminhar na rua sob o sol das vésperas do verão que logo ia chegar, de ver o céu azul sem a moldura das janelas, de passar pelo parque dos ursos e vê-los aproveitando o dia sem saber que há coronavírus modificando a vida de tanta gente pelo mundo. Pensei em registrar as milhares de sensações ao ver tanta gente andando na rua, entrando nas lojas e supermercados, andando de transporte público, retomando suas vidas. Pensei em escrever sobre ter visto tão pouca gente de máscara na rua – e, pior, tão pouca gente de máscara nos transportes públicos.

Aqui na Suíça nunca foi obrigatório o uso de máscara, e pouquíssimas pessoas optam por usá-las nas ruas. Parece que é uma tendência geral na Europa. Foi há poucos dias que entrou em vigor aqui a obrigatoriedade do uso de máscaras no transporte público, que eu evito pegar quando vou na rua.

Desde aquela primeira vez que saí, no dia 12 de junho, eu fui na rua algumas vezes – sempre com um propósito muito específico, sempre de máscara, sempre neurótica. Fui ao hospital fazer alguns exames de rotina, já que não há previsão de podermos ir ao Brasil. Naquele dia, fiquei em jejum por quase 17 horas, já que eu teria que fazer exame de sangue as 9 da manhã. Mesmo tendo levado um lanchinho, eu só consegui comer quando voltei pra casa porque eu simplesmente não podia tirar a máscara dentro do hospital. Poder, talvez até pudesse, mas cadê que eu tinha coragem? Preferi ficar com fome.

Daqui de casa até o centro é uma agradável caminhada de pouco mais de 1km, descendo com uma bela paisagem, passando pelo parque dos ursos. A volta é pelo mesmo caminho, mas a então subida torna-se um desafio caso eu esteja com alguma compra – o que, quase sempre, é o caso, já que eu só saio de casa com um objetivo claro, com uma rota estratégica traçada.

Pensei, também, em escrever sobre como eu precisei me reorganizar internamente para voltar a ficar em casa sozinha, depois de tanto tempo com o marido dividindo o home office. Foi só ele voltar ao trabalho presencial que eu percebi que desaprendi completamente de ficar em casa sozinha e, pra falar a verdade, acho que ainda não consegui reaprender. Não se trata de ter medo de ficar sozinha ou algo do tipo; é, por exemplo, falar comigo mesma e não ter ele perto de mim pra perguntar se na verdade eu tô falando com ele.

Também pensei em riscar algumas linhas sobre como esse período todo nos fez olhar mais pra dentro da nossa casa e investir no nosso conforto, mudando desde a cor e textura do tecido que revestia o sofá da sala de TV por termos achado uma loja que vende capas feitas sob medida para as peças dos sofás da Ikea, até a aquisição de novas louças e objetos decorativos, passando pela compra de confortáveis almofadas, roupa de cama de qualidade e jogos de mesa que combinam com a gente. Sempre gostamos de ficar em casa, mas a cada dia entendemos mais a importância de termos conforto e vermos beleza no lugar onde passamos a maior parte do nosso tempo curtindo a companhia um do outro.

Pensei em escrever sobre as duas vezes que resolvemos sair pra tomar ar puro em finais de semana, aproveitando pra lavar o Bolinha e abastecê-lo, e conhecemos dois belos lagos daqui, sem saber muito bem se ia dar certo, já que usamos o critério onde-será-que-vai-ter-menos-gente. Também poderia escrever sobre o aniversário do marido, quando eu fiz um estrogonofe gostoso e também o meu primeiro bolo que, na verdade, foi uma torta de maçã que ficou bem deliciosa. Naquele dia, montei uma mesa bem bonita, com muito carinho e cuidado pro meu amor, e de noite também preparei um sashimi de salmão que não ficou aquém de alguns restaurantes japoneses.

Também pensei em escrever sobre a alegria de poder ver o documentário “Sandy & Junior – A História” na Globoplay e relembrar tantas coisas que eu vivi, identificando diversos momentos em que as histórias deles se entrelaçam com a minha. Poderia tentar explicar a alegria ainda maior de finalmente poder assistir ao show “Nossa História”, ainda que seja só pela TV. Pensei até mesmo em escrever sobre como eu não tenho a menor estrutura pra lidar com os vídeos do Junior bem criancinha, quando ele explodia todos os termômetros de fofura. Nesses últimos dias, poder resgatar essa parte da minha história tem sido importantíssimo pra mim; é um alento, um reencontro com a Letícia criança e adolescente, dando um novo fôlego para minha criança interior que é ainda tão viva mas que, por conta da pandemia, tem ficado muito mais calada do que de costume.

Eu poderia também escrever que hoje estou um pouquinho triste porque, se mantidas as CNTPs, meus pais pegariam o avião hoje pra cá, amanhã eu iria buscá-los no aeroporto em Zurique, e eles passariam um mês aqui conosco. Poderia escrever sobre a saudade que eu sinto deles, sobre a vontade de abraçá-los, sobre a dor da incerteza de quando vamos poder nos reencontrar. Poderia escrever sobre como é difícil estar longe de tudo e de todos sempre, e como fica ainda mais difícil num momento tão delicado como esse.

Eu poderia ter escrito sobre todas essas coisas, mas todas as vezes que eu tentava rabiscar qualquer coisa por aqui, os absurdos e crescentes números de casos de covid-19 no Brasil e, pior, as absurdas e crescentes mortes em decorrência do covid-19 vinham na minha cabeça, e parecia que nada do que eu pudesse escrever fazia sentido. Um primo da minha mãe, a quem eu chamava de tio, morreu por complicações causadas pelo coronavírus depois de ficar internado por quase 2 meses. E, mesmo que ninguém da minha família tivesse sido vítima do coronavírus, a dor de todas as quase 80 mil mortes dói profundamente em mim.

100 dias em casa

E, enfim, cheguei ao 100º dia sem sair de casa.

Nos últimos dias, eu andei sem muita vontade de escrever, sem muita vontade de redes sociais, sem muita vontade de nada na verdade. Acho que todos os acontecimentos mundiais e, principalmente, as coisas que vem acontecendo no Brasil, me desanimaram bastante e eu achei melhor respeitar essa minha vontade de reclusão. Os números de casos confirmados e, pior, os números de pessoas mortas não param de crescer. Isso mexe demais comigo. Mas eu não podia deixar de fazer um registro para a posteridade neste centésimo dia sem sair.

A Suíça já entrou na última fase de flexibilização da quarentena. Ainda assim, o “Ministério da Saúde Suíço” continua recomendando que as pessoas que fazem parte de algum grupo de risco evitem sair de casa, usar transporte público, ir em lojas e supermercados movimentados, etc.

De acordo com o calendário da Universidade, as férias de verão já começaram, e graças a Deus temos conseguido fazer on-line todas as compras de que precisamos (e até de que não precisamos), então não vejo razão pra sair e me colocar em risco a toa. Na verdade, quanto mais eu fico em casa, mais eu gosto de ficar em casa.

Meu nariz tem sofrido nos últimos dias porque tinha começado a esquentar, fez calor vários dias seguidos (a ponto de eu precisar comprar uns shorts online porque eu não aguentava mais ficar de calça comprida e sentindo calor), e de repente o tempo virou e ficou frio de novo (a máxima hoje é de 13ºC). Sem contar a umidade nas alturas.

Falando em umidade, ontem eu descobri que um dos desumidificadores estava quebrado  justo na base do recipiente de coleta e, consequentemente, vazando. Aí fui conferir se tinha mais algum na mesma situação (tem que ter um desumidificador em cada cômodo pra tentar dar conta de tanta umidade) e não só todos estavam perfeitos como eu deixei um cair no chão e quebrar.

Continuo tentando manter minha rotina o mais normal possível, me concentrando o máximo que eu posso nos meus estudos (mesmo de férias, porque a pesquisa não vai se realizar sozinha não é mesmo) e tomando meu chazinho pra me esquentar no frio que insistiu em voltar.

75 dias em casa

Se alguém me dissesse, um dia, que eu ficaria 75 dias sem sair de casa, eu acho que não acreditaria. Eu amo ficar em casa, mas eu também adoro dar umas voltinhas na rua. Eu gosto de ir ao supermercado escolher as coisas que teremos em casa e, quase toda semana, preciso ir na farmácia pra repor algum remédio.

Mas já são 75 sem sair.

Aqui em Berna, aparentemente acabou a transmissão comunitária, graças a Deus. Nessa semana, todo o comércio na Suíça reabriu. Pode-se dizer que, por aqui, já se está vivendo o “novo normal”.

Mas como eu poderia viver o “novo normal” enquanto, no Brasil, não chegamos nem ao pico? Como eu vou viver o “novo normal” enquanto, no Brasil, temos subnotificação tanto do número de casos quanto do número de mortes causadas pelo coronavírus? Como posso viver o “novo normal” enquanto todo mundo que eu amo tá no Brasil?

Eu estou postergando a minha vivência do “novo normal” porque, sinceramente, eu continuo com muito medo de ser contaminada, porque o consenso médico é de que meu sistema respiratório não dá conta do coronavírus. Além disso, optando por ficar em casa mais um pouco, eu distribuo melhor o meu tempo pra poder conversar mais vezes por mais tempo com os meus pais no FaceTime e, assim, distraí-los enquanto eles não podem sair de casa.

Hoje eu tive 8 horas de aula de estatística.

 

60 dias em casa

60 dias em casa. São 60 dias sem saber o que é andar pela rua, sem sentir o vento balançar o cabelo, sem pegar ônibus, sem andar no Bolinha nem de Patineco, sem ver e/ou interagir com outras pessoas.

Tenho dias melhores, e dias piores. Tive crise de asma semana passada, e nessa semana a sinusite está querendo me pegar. Estou tentando evitar ir ao hospital neste momento – por ser parte de um dos grupos de risco, eu ainda não me sinto confortável pra sair de casa, embora o governo já tenha começado a relaxar a quarentena por aqui.

Tem dias que eu acordo muito animada pra me exercitar, e tem dias que eu só quero ficar no sofá. Tem dias que escrevo 3, 4, 5 páginas. Tem dias que estudo muito. Tem dias que eu só quero ver Disney+. Tem dias que eu esqueço de beber água. Tem dias que eu quero comer tudo o que tá na minha frente.

Tem dias que eu leio todas as notícias. Tem dias que eu só leio as manchetes da página principal dos jornais. Tem dias que não estou disposta nem pra isso.

Tem dias que eu choro diante da minha impotência, pensando em todas as pessoas que não tem uma casa onde se abrigar, nem comida pra comer. Choro pensando nas famílias das pessoas que morreram por conta do covid-19, principalmente por aqueles que nem conseguiram o diagnóstico. Tem dias que eu choro pelo Brasil.

Mas também tem dias em que eu sorrio bem mais do que eu choro. Tem dias que as alegrias são maiores do que as tristezas. As vezes é por causa do canto dos pássaros. As vezes é porque chegou a compra do mercado e, mesmo tendo que higienizar tudo antes de guardar, me dá alegria ter tanta coisa boa pra comer. As vezes a razão da alegria é ficar horas no FaceTime com meus pais. E todos os dias eu fico feliz porque o marido está trabalhando de casa, dividindo o home office comigo.

Aqui em casa, nós tentamos manter a rotina o mais normal possível. Continuamos acordando cedo, continuamos dormindo cedo. Continuei pintando minhas unhas às quintas feiras, e cuidando das unhas dos meus pés a cada 15 dias, porque isso me faz sentir um pouco de normalidade. Continuamos mantendo nossos horários das refeições, continuamos comendo pizza aos domingos, continuamos tendo bolo pros lanches dos finais de semana (graças as aptidões do marido). Continuamos sendo muito companheiros um do outro, porque há muito descobrimos que só temos um ao outro.

Eu ainda não sei quando vou sair de casa. Eu ainda não sei quando vou poder ir ao supermercado, à farmácia, ao correio, à papelaria (entre outras coisas, estou precisando urgentemente de uma pasta pra organizar meus papéis). Eu ainda não sei quando vou rever meus pais, meus amigos, minha família.

Em um momento de tantas incertezas, a única certeza que eu tenho é que a gente precisa se cuidar, a gente precisa se preservar, a gente precisa preservar o sistema de saúde e todas as pessoas que são obrigadas a trabalhar em meio a pandemia. A gente tem a obrigação de fazer a nossa parte, que nem é tão difícil assim. A gente só precisa ficar em casa mais um pouco. Quanto mais ficarmos em casa agora, mais rapidamente vamos poder nos ver de novo.

Coincidentemente, hoje faz 20 anos desde que Harry Potter foi publicado no Brasil pela Editora Rocco.

A crônica dos 45 dias

No dia em que confirmaram o primeiro caso de Coronavírus na Suíça, eu pensei em pegar um avião e me refugiar no Brasil, certa de que o vírus demoraria a chegar por lá. No dia seguinte, foi confirmado o primeiro caso de Coronavírus no Brasil. O vírus se espalhou com muito mais rapidez pela Suíça do que no Brasil mas, hoje, a curva na Suíça já está começando a achatar, enquanto a curva no Brasil ainda está crescendo francamente. O Brasil tem uma população infinitamente maior do que a Suíça. E, hoje, o Brasil já tem mais mortos por covid-19 do que a Suíça.

Os primeiros 4 dias dentro de casa já seriam assim de qualquer jeito, porque eu estava atarefada com as coisas do doutorado. A decisão de ficar em casa aconteceu no 5o dia, quando eu deveria ir ao supermercado e optei por não sair. Naquele dia, eu estava decidindo cuidar da minha saúde, evitar colocar minha asma à prova. E, segundo meu otorrino, foi a decisão mais sábia que eu poderia ter tomado.

As primeiras duas semanas dentro de casa foram estranhas. Os números de casos confirmados diariamente não paravam de aumentar, mas ainda de modo razoavelmente lento – naqueles dias, os testes ainda eram muito restritivos. Parecia que tudo ia ficar sob controle, e que logo eu ia poder sair de casa. Mas não. Depois que os testes passaram a ser mais amplos, confirmou-se que o vírus estava muito mais espalhado.

Foi neste período em que eu e marido tomamos a decisão difícil de dormirmos em quartos separados, porque ele ainda estava trabalhando normalmente e, consequentemente, bem mais exposto ao vírus do que eu, que já estava sem sair há vários dias. Esse foi, certamente, o período mais difícil até aqui: naquelas noites, era difícil dormir; a insônia me perseguia e eu passava os dias cansada, produzindo pouco e, ao mesmo tempo, não conseguia dormir quando a noite chegava.

Depois que ele entrou em regime de home office/plantão, ainda ficamos mais alguns dias com o distanciamento social vigorando dentro de casa – tudo por medo de que ele estivesse assintomático e pudesse transmitir o vírus pra mim. Foi só depois de voltarmos a nossa rotina normal que as noites voltaram a ser mais tranquilas pra mim.

Ainda não durmo super bem todos os dias. São várias as noites em que acordo, pensando em tudo o que está acontecendo. Penso nos que tem muito pouco. Penso nos que nada tem. Penso na minha impotência e insignificância diante disso tudo. Penso em alternativas que me tornem menos impotente, e tento implementá-las durante o dia. Penso nos meus pais, idosos e sozinhos lá em casa, sem ter quem faça qualquer coisa por eles.

Ontem, fiz compra no mercado pela internet para que seja entregue hoje lá em casa. Foram quase 2h no FaceTime com meus pais, definindo com eles o que eles queriam que eu comprasse. Foi uma maneira de eu me sentir mais útil e também mais tranquila por saber que, pelo menos por enquanto, eles não precisarão sair de casa.

Nos dias em que a ansiedade bate mais forte – porque, mesmo já tendo passado da pior fase, tem dias que a ansiedade não me deixa esquecer que ela está ainda dentro de mim -, eu olho pro tanto de natureza que está em volta de mim – ou melhor, em volta do prédio onde estamos morando. Tenho testemunhado a chegada da primavera em 180º, graças ao posicionamento das janelas do apartamento. Reconheço que somos muito privilegiados, e agradeço a Deus. Tenho observado a mudança da cor da luz que entra em casa, graças as folhas verdes novas das árvores. As cores lá de fora me pintam aqui dentro.

Um mês e meio sem ir na rua, 45 dias de que a minha casa é o meu mundo. E foi por isso que eu decidi começar a escrever algumas crônicas aqui, porque não vejo sentido em continuar escrevendo sobre viagens nesse momento, mas também quero manter esse nosso cantinho vivo, nem que seja pra servir de distração nesses tempos tão absurdamente difíceis.

40 dias sem sair de casa

Quando eu era criança, eu lembro que o número 40 me impressionava na liturgia. Pensava nos 40 dias e 40 noites que Jesus passou no deserto. Achava a Quaresma, os 40 dias que separam a Quarta-Feira de Cinzas da Semana Santa, um período longuíssimo. E hoje eu completo 40 dias sem sair de casa – coincidentemente, hoje é Sexta-feira Santa.

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tirei essa foto no 38º dia em casa, mas a frase estampada na blusa (by Coletivo Lírico) se torna mais importante a cada dia dessa quarentena.

Quando estávamos Armênia, fiz uma viagem sozinha pro Brasil de 40 dias. Naqueles 40 dias, senti saudade do marido. Naqueles 40 dias, fui a vários médicos, fiz vários exames, visitei minha sogra e minha cunhada em SP, visitei meus tios no interior do RJ. Nos últimos 40 dias, os visitei pela internet.

Eu não estaria sendo sincera se dissesse que estes últimos 40 dias foram fáceis. A tristeza de ver as consequências de uma pandemia e a sensação de impotência diante de tudo o que está acontecendo são potencializadas por ser uma pessoa ansiosa. Tenho dias melhores, e tenho dias piores. Mas, há cerca de 2 semanas, meu coração tem ficado mais tranquilo, os picos de ansiedade tem sido menores, e eu tenho conseguido lidar melhor com as oscilações inevitáveis deste período de confinamento. Coincidentemente ou não, há duas semanas o Papa Francisco deu a benção urbi et orbi, após 1 hora de oração transmitida ao vivo para o mundo inteiro, com uma Praça São Pedro vazia, debaixo de chuva.

A minha fé tem sido um baluarte importante neste período. É a minha fé que me mantém com os pés no chão, e também com a certeza de que tudo isso vai passar. É a minha fé que me dá esperança de que o mundo não vai “voltar ao normal”, mas que caminharemos em direção a um mundo mais humano, mais solidário, mais irmão.

Além das minhas orações diárias, outra coisa que tem me ajudado bastante no controle da ansiedade é fazer exercícios físicos (quase) diariamente. Durante 1 hora, eu mexo meu corpo, seja dançando, fazendo alongamentos ou algum exercício funcional de que eu me lembro.

Manter-me ocupada também é fundamental. Até 31/03, estava muito atarefada escrevendo uma versão do projeto de tese. Ontem tive o último de 2 seminários sobre filosofia (em alemão!) com 4 horas de duração cada, ministrados online. Continuo tendo minhas aulas de alemão online 2x na semana. E já estou inscrita para mais um seminário, também online, com 2 dias de duração na metade de maio. As atividades acadêmicas não param e preenchem meu tempo, até demais.

Foi só nos últimos dias que consegui me dar umas horinhas de folga durante a semana – coisa necessária em tempos tão difíceis. Assisti Harry Potter, e também comecei a ver algumas séries do Disney+ que muito me interessam. Me transportar um pouquinho para meus universos mágicos favoritos também colaboram para manter minha sanidade.

Hoje é meu 40º dia sem sair de casa e, sinceramente, não sei quantos dias mais passarei entre essas paredes, sem poder sair por ser parte de um dos grupos de risco. Reconheço que sou privilegiada por morarmos num apartamento bom, que nos permite circular e não surtar, com janelas que possibilitam a entrada do sol e que vejamos o céu azul (aliás, nunca antes na história desse país fez tantos dias de sol e céu azul), com um home office bem estruturado pra dar continuidade as minhas atividades acadêmicas e todas as responsabilidades do marido.

O governo da Suíça já anunciou uma prorrogação da quarentena até (pelo menos) 26 de abril. A Universidade suspendeu todas as atividades presenciais deste semestre. Especula-se que, em junho, a situação comece a normalizar. Enquanto isso, eu fico em casa.

Coronavírus e home office: a minha casa é o meu mundo

Eu tô cheia de coisa pra contar sobre a nossa última viagem de férias, mas é impossível não falar, antes, sobre o coronavírus, como isso afetou a minha rotina e também dividir algumas dicas para quem nunca trabalhou em home office e está se vendo nessa situação.

O mundo é a minha casa, mas, desde o dia 01/03, a minha casa é o meu mundo. Eu faço parte de um dos grupos de risco, porque tenho problemas respiratórios. Muito antes de ser recomendado pela OMS ou pelas autoridades, eu optei por ficar em casa, me concentrando o máximo possível nos meus estudos.

Há muito anos eu trabalho de casa e, graças a Deus, tenho conseguido me manter produtiva todo esse tempo. No doutorado, o processo de pesquisa e escrita ainda é bem solitário, e passo a maior parte do meu tempo estudando em casa.

Já na infância, meus pais me ensinaram sobre a importância de ter um cantinho separado pro estudo, de preferência fora do meu próprio quarto, com um cronograma a ser seguido. Eles sempre se esforçaram pra que isso fosse possível ao longo da minha vida e, depois dos meus 9 anos, o único período que tive uma estação de trabalho no meu quarto foi quando a Mivó ficou doente e morou com a gente.

Desde que casamos, sempre expliquei pro Felipe que era importante demais pra mim ter um canto separado em casa pra estudar/trabalhar. Pra mim, faz toda diferença me arrumar um pouco e ir pra um espaço dedicado ao estudo/trabalho. Ao entrar no home office, é como se ligasse uma chave dentro da minha cabeça que me diz que é hora de concentrar.

Sei que sou muito privilegiada pois nem todo mundo pode dedicar um cômodo da casa para o trabalho/estudo. Nesse caso, minha dica é encontrar um cantinho na sua casa que você possa se concentrar e, se for o caso, deixar claro pras pessoas que moram com você que aquele é seu horário de estudo/trabalho.

Eu admito que a pandemia covid-19 atrapalhou um pouco a minha capacidade de concentração, afinal são muitas notícias e muita coisa acontecendo muito rápido, sem contar a preocupação com nossos pais, familiares e amigos que estão tão longe de nós nesse momento. No entanto, tentei não alterar muito o meu cronograma diário, que é mais ou menos assim:

  1. Acordo cedo e rezo, lavo meu rosto, tomo um bom café da manhã, faço exercício físico por 30min (em casa mesmo!), tomo um banho tranquilo, cumpro a rotina de skincare (nada mirabolante), visto meu combo T-shirt + calça de moletom (tão confortável quanto um pijama, mas não é pijama, então meu cérebro entende que não to em casa pra descansar), medito a Palavra de Deus com calma, escrevo minha to-do list e vejo meus e-mails.
  2. Entre 10h e 10h30 faço minha 1ª pausa para comer, que é chamada “colação”. Em geral, tomo um café com leite e como um mix de castanhas com frutas secas + queijo ou algum embutido (proteína).
  3. Terminada a pausa pra colação, volto pro escritório pra trabalhar. Quando não estou conseguindo me concentrar direito, coloco um relógio de pulso, que é o tipo de coisa que a gente só usa quando vai pra rua. Em tempos de covid-19, se você quiser usar um relógio ou algum outro acessório em casa, é recomendável que esteja adequadamente higienizado.
  4. Pra me manter bem hidratada, deixo uma garrafa de água de 500ml do meu lado e, na 1ª pausa, faço também um chá de limão com gengibre (que coloco num copo de 500ml do Starbucks). Se não fizer isso, as chances de me esquecer de beber água são muito grandes. Quando acabo o 1º copo de chá, faço outro. Pra mim, chá é reconfortante, que me mantém hidratada e evita que me entupa de cafeína.
  5. Entre 12:30 e 12:50 toca o alarme que me lembra de fazer o almoço. Durante a semana, os almoços aqui em casa são super práticos, coisas que posso colocar no forno por +-20min ou 40min, e deixo os legumes cozinhando no vapor. Enquanto o almoço praticamente se faz sozinho, volto pro escritório e estudo mais um pouco (as vezes uso esse tempo pra organizar alguma coisa em casa).
  6. Depois do almoço, volto a trabalhar por volta de 15h. Entre 15h e 16h, tento produzir o máximo possível, porque sei que, nesse horário, a minha produtividade já começa a cair.
  7. Entre 16h e 16h30 faço a minha pausa para o lanche, graças ao alarme já pré-marcado no celular. Essa pausa é crucial: eu PRECISO de um bom café da tarde. Tomo café e como 2 biscoitos de arroz (substituto de pão) com geleia de morango + queijo ou algum embutido.
  8. Das 16h30 até 18h, sei que minha produtividade já está bem mais baixa do que o ideal, embora haja dias em que esteja tão focada que eu continuo produzindo bem (AMO quando isso acontece). Costumo planejar, pra esse horário, coisas mais leves, tipo estudar alemão ou russo, ler os jornais, imprimir os artigos que preciso ler pra tese, etc.
  9. 18h pontualmente toca o alarme me avisando que é hora de parar e começar a pensar no jantar (sopa no frio, salada no calor).
  10. Assisto TV com o marido, tomamos chá e dormimos cedo. Procuro largar o celular as 21h, planejando dormir as 22h. Essa 1h sem celular antes de dormir é fundamental pra mim. Acredito que disciplina é liberdade, e uma boa noite de sono é necessária pra que eu encare a rotina de forma leve e tranquila.

No mais, sigo em oração, e espero que o mundo inteiro consiga superar logo esse momento tão indescritivelmente difícil. Enquanto isso, ficamos em casa, fazendo a nossa parte pra achatar a curva de contaminação e, assim, dar uma melhor chance aos profissionais de saúde que estão na linha de frente de atendimento.

Fiquem em casa, cuidem-se, cuidem das pessoas ao seu redor praticando o distanciamento social, mas também mandem mensagens/telefone pras pessoas queridas, marquem um café virtual, não deixem de conversar uns com os outros.

Como disse Albus Dumbledore, nós somos tão fortes quanto a nossa união, e tão fracos quanto a nossa desunião.