Datas comemorativas e Feriados na Armênia

Já contei aqui sobre as comemorações de final de ano na Armênia (ou melhor, de começo de ano!) e a explicação do porquê celebrarem o Natal no dia 6 de janeiro. Hoje, quero contar para vocês um pouquinho mais sobre as outras datas comemorativas da Armênia.

Ano Novo

As celebrações de ano novo começam na noite de 31 de dezembro e vão até 7 de janeiro, após a celebração do Natal. Nos dias 01 e 02 de janeiro, nada funciona. A partir do dia 03, alguns estabelecimentos comercias passam a retomar suas atividades. Os armênios trocam presentes após a ceia de 31 de dezembro, que é composta de pratos como peixes cozidos ou grelhados, espinafre com ovos, arroz pilaf (preparado com frutas secas).

Dia do Exército

No dia 28 de janeiro, celebra-se o dia do exército. A capital da Armênia é totalmente decorada com bandeiras do país, comemorando aqueles que fazem parte das forças armadas e defendem o país.

Dia de São Valentim

Como na maior parte do mundo, o dia dos namorados é comemorado em 14 de fevereiro, no dia de São Valentim. Os restaurantes organizam jantares especiais, e a cidade fica cheia de flores vermelhas e balões em formato de coração.

Dia da Mulher

No dia 08 de março, a celebração do dia da mulher é feriado nacional, abrindo o mês da mulher. É tradição que todas as mulheres recebam flores e chocolates neste dia. O papel da mulher na sociedade armênia já foi analisado por mim neste post, e o machismo continua tão forte (ou mais) quanto na época em que o escrevi.

Dia da Maternidade e da Beleza

No dia 07 de abril, celebra-se o dia da maternidade e da beleza. É uma celebração que fecha o mês das mulheres.

Páscoa

As celebrações da Páscoa começam na Sexta Feira da Paixão e terminam na Segunda Feira, que pode ser feriado ou não (em 2017 e 2018 foi feriado, mas em 2019 não foi). No Domingo de Páscoa, há uma grande celebração em Etchmiadzin com o Patriarca da Fé da Igreja Apostólica Armênia e, neste dia, abre-se a cortina que revela o altar. No almoço, os armênios se reúnem para comer ovos cozidos, representando o renascimento, e também peixes, pães, espinafre com ovos, e arroz pilaf.

Dia da Memória do Genocídio

No dia 24 de abril, é solene lembrar os mortos no genocídio perpetrado pelos turcos durante a Primeira Guerra Mundial. Autoridades se reúnem no Memorial e Museu do Genocídio, depositando flores junto à Chama Eterna. Muitos armênios também aproveitam para visitar o memorial neste dia e lembrar dos seus antepassados.

Dia da Cidadania

O dia 27 de abril é o dia da cidadania na Armênia. Próximo a este dia, os armênios costumam celebrar a amizade com a União Européia.

Dia do Trabalhador

Como no restante do mundo, o dia 01 de maio é dia do trabalhador e feriado na Armênia.

Dia da Vitória

No dia 09 de maio, celebra-se o Dia da Vitória da Grande Guerra Patriótica (como é conhecida na Rússia e em todas as ex-repúblicas soviéticas), marcando a capitulação da Alemanha Nazista pela União Soviética. Este feriado tem grande importância em todas as ex-repúblicas soviéticas.

Dia da República

O dia da República é celebrado na Armênia em 28 de maio, e este dia é feriado nacional. Para as autoridades do país, há uma importante cerimônia marcando a celebração da Primeira República da Armênia, instaurada em 1918. Esta celebração coincide com o aniversário da Batalha de Sardarabad, que expulsou o Exército do Imperío Otomano da Armênia. Todos os anos, o Presidente da Armênia, o Primeiro Ministro e o Presidente de Artsakh visitam o Memorial de Sardarapat, acompanhados de outras autoridades locais e representantes das Embaixadas.

Dia das Crianças

O dia das crianças na Armênia é celebrado no dia 01 de junho, e todos comemoram bastante a data com muitos balões coloridos.

Dia dos Pais

No dia 16 de junho, é celebrado o dia dos pais na Armênia.

Solstício de Verão

No dia 21 de junho, celebra-se o Solstício de Verão, com a noite mais curta do ano.

Dia da Constituição

O dia da Constituição da Armênia é celebrado com feriado nacional no dia 05 de julho.

Vardavar

No último domingo de julho (coincidentemente, hoje), os armênios têm uma das suas celebrações mais peculiares: Vardavar é o dia da água, em que eles jogam água uns nos outros no meio da rua. Neste dia, as temperaturas costumam passar dos 40ºC e, por conta dessa peculiar forma de lidar com o calor, é um dos poucos dias do ano em que todos os estabelecimentos comerciais fecham as suas portas.

Dia do Conhecimento e da Literatura

No dia 01 de setembro, dia de volta às aulas na grande maioria das escolas e universidades da Armênia, celebra-se o dia do Conhecimento e da Literatura. Neste dia, os estudantes costumam desfilar pelas ruas de Yerevan com calças ou saias pretas e camisas brancas.

Dia da Independência

O dia da independência da Armênia é comemorado no dia 21 de setembro. Esta é a principal data nacional da Armênia, marcando o dia quando o povo armênio votou um referendo para proclamar a independência da Armênia com relação à União Soviética, no ano de 1991. Em novembro de 1991, Levon Ter-Petrosyan foi eleito o primeiro presidente da Armênia, e em 21 de dezembro de 1991 a Armênia entrou na Commonwealth de Estados Independentes. A Armênia tornou-se formalmente independente em 26 de dezembro, coincidindo com a dissolução da União Soviética.

Equinócio de Setembro

O dia 23 de setembro marca o Equinócio na Armênia, correspondendo formalmente ao final do verão.

Dia do Tradutor

Embora não seja feriado nacional, no dia 12 de outubro celebra-se o dia do tradutor na Armênia.

Halloween

Como grande parte da diáspora Armênia está nos Estados Unidos, é apenas natural que esta celebração norte-americana faça parte do calendário de festas armênio. Os jovens aproveitam a data para usar maquiagens e máscaras “assustadoras”!

Dia da Memória de Spitak

Os armênios se lembram do terremoto de magnitude 6.9 na escala Richter que atingiu o noroeste da Armênia em 07 de dezembro de 1988. Este terremoto danificou muito da infraestrutura do país, principalmente as cidades de Spitak, Leninakan (hoje Gyumri), Kirovakan (hoje Vanadzor) e Stepanavan, além de outras pequenas vilas nas imediações.

Solstício de Dezembro

Marcando oficialmente o início do inverno, o dia 22 de dezembro tem a noite mais longa do ano na Armênia.

*texto de minha autoria originalmente publicado no site Brasileiras pelo Mundo

Sergei Parajanov, o principal cineasta armênio

Sergei Parajanov é um dos principais mestres do cinema do século XX, armênio nascido na Geórgia, em 09 de janeiro de 1924. Parajanov nunca se permitiu conformar seu trabalho ao realismo socialista estrito, preferido pelas autoridades Soviéticas. Depois de estudar cinegrafia e música, Parajanov tornou-se diretor assistente dos estúdios Dovzhenko em Kiev, estreando como diretor cinematográfico em 1954. A partir daquele ano, Parajanov dirigiu inúmeros curtas-metragens e longas-metragens, todos dispensados por ele, por tê-los considerado verdadeiros lixos.

Em 1945, Parajanov viajou para Moscou e se inscreveu no departamento de direção de cinema do VGIK, uma das escolas cinematográficas mais antigas e respeitadas da Europa, estudando sob a tutela dos diretores Igor Savchenko e Aleksandr Dovzhenko.

Em 1948, Parajanov foi condenado a cinco anos de prisão por homossexualidade, que era ilegal naquela época, na União Soviética, mas foi solto sob anistia depois de três meses. Em entrevistas, amigos e parentes contestam estas acusações e as apontam como mentirosas, especulando que a punição era algum tipo de retaliação política por conta das suas visões rebeldes.

Em 1950, Sergei Parajanov casou-se em Moscou pela primeira vez, com Nigyar Kerimova, que vinha de uma família tártaro-muçulmana e converteu-se ao Cristianismo Ortodoxo Ocidental para casar-se com Parajanov, o que motivou seu assassinato por seus parentes. Depois da morte de Kerimova, Parajanov deixou a Rússia para morar em Kiev, onde produziu os documentários “Dumka”, “Mãos Douradas”e “Natalia Uzhvy” e os filmes “Andriesh” (baseado num conto de fadas do escritor moldavo Emilian Bukov), “The Top Guy” (um musical kolkhoz), “Ukrainian Rhapsody” (um melodrama de tempos de guerra), e “Flower on the Stone” (sobre um culto religioso que se infiltrava numa cidade mineradora na região de Donets Basin). Em 1956, casou-se com Svitlana Ivanivna Shcherbatiuk, e teve um filho com ela em 1958, que recebeu o nome de Suren.

O primeiro filme de Andrei Tarkovsky, “A infância de Ivan”, causou um enorme impacto na auto-descoberta de Parajanov como diretor de cinema. Mais tarde, a influência tornou-se mútua, e eles se tornaram muito amigos. Em 1965, Parajanov abandonou o realismo socialista de uma vez, dirigindo o poético “Shadows of Forgotten Ancestors”, o seu primeiro filme com completo controle criativo. Este filme recebeu inúmeros prêmios e foi relativamente bem recebido pelas autoridades Soviéticas. O Quadro Editorial de Roteiros em Goskino, na Ucrânia, exaltou o filme por juntar a qualidade poética com a profundidade filosófica do conto de Kotsiubynsky por meio da linguagem cinematográfica, qualificando o filme como um brilhante sucesso criativo do estúdio Dovzhenko. As autoridades Soviéticas concordaram em lançar o filme com sua trilha sonora ucraniana original, sem modificações ou dublagem dos diálogos para o russo, objetivando a preservação das suas características ucranianas.

Em 1964, Parajanov dirigiu “Os Cavalos de Fogo”, uma celebração rapsódia da cultura folclórica ucraniana, e o mundo passou a conhecer um talento surpreendente e idiossincrático. Assim, Parajanov inventava seu próprio estilo cinematográfico e tornava-se uma celebridade internacional. Simultaneamente à fama, seguiram-se os ataques das autoridades conservadoras da União Soviética.

Pouco tempo depois, Parajanov deixou Kiev para vir morar na Armênia, sua terra ancestral. Em 1969, ele começou a produzir “Sayat Nova”, filme considerado por muitos como seu principal trabalho, embora tenha sido filmado sob condições relativamente precárias e com um orçamento pequeno. As autoridades soviéticas intervieram e baniram “Sayat Nova” por conta do seu conteúdo supostamente inflamatório. Parajanov reeditou suas filmagens e renomeou o filme como “A Cor da Romã”, que foi ainda mais inovadora, explorando a arte e a poesia da sua terra nativa Armênia com uma série de incríveis e belíssimas imagens, e aclamado por críticos como Alexei Korotyukov e Mikhail Vartnov.

Mas, àquela altura, as autoridades Soviéticas já não suportavam mais tanta ousadia. Somando-se ao fato de que Parajanov não se conformava ao estilo artístico realista da União Soviética, seu estilo de vida e comportamento controversos fez com que as autoridades Soviéticas condenassem Parajanov repetidas vezes e censurassem seus filmes. Quase todos os filmes e projetos de Parajanov entre 1965 e 1973 foram banidos ou encerrados pelas administrações cinematográficas Soviéticas, tanto locais (em Kiev e Yerevan) e federal. Parajanov foi preso em 1973 sob acusações de homossexualidade, estupro, suborno e tráfico ilegal de ícones religiosos.

Parajanov foi preso três vezes, e a última delas foi em 1982. Mesmo depois de ser liberto, ele continuou sendo persona non grata no cinema Soviético. Com a chegada da Perestroika e o relaxamento político, ele voltou a trabalhar como diretor e conseguiu produzir “A Lenda da Fortaleza Suram” em 1985, contando com a ajuda e influência do ator georgiano Dodo Abashidze e de outros amigos. Parajanov ainda dirigiu “O Trovador Kerib” em 1988, e A Confissão, que tornou-se conhecida como “A Última Primavera”, lançada em 1992.

A saúde de Parajanov ficou seriamente comprometida pelos quatro anos de trabalho forçado e mais nove meses na prisão em Tbilisi. “A Última Primavera” foi sua última obra, conhecida pelo público dois anos depois da sua morte na Armênia em 20 de julho de 1990, vítima de câncer de pulmão. Naquela época, suas obras estavam voltando a ser conhecidas pelo público, apresentadas em grandes festivais internacionais. Os filmes da Parajanov foram premiados no Festival de Cinema de Mar del Plata, no Festival Internacional de Cinema de Istambul, no Nika Awards, no Festival Internacional de Cinema de Rotterdam, no Festival Internacional de Cinema de Sitges – Catalan, no Festival Internacional de Cinema de São Paulo, entre outros.

Em janeiro de 1988, Parajanov disse em uma entrevista que ele tinha três terras natais, pois tinha nascido na Geórgia, trabalhado na Ucrânia e iria morrer na Armênia. Seu corpo está enterrado no Panteão Komitas, em Yerevan.

texto de minha autoria originalmente publicado no site Brasileiras pelo Mundo

Os 150 anos do nascimento de Hovhannes Tumanyan

Os escritores estão destinados a desempenhar um papel na história literária dos seus países, e alguns poucos também desempenham um papel especial na vida espiritual das suas nações: na literatura armênia, Hovhannes Tumanyan o fez, retratando o perfil do povo armênio, sua história, seus sonhos e seus ideais mais sagrados com profundidade e clareza em seus escritos. Neste ano, a Armênia comemora os 150 anos do nascimento de seu principal poeta.

No norte da Armênia, há uma região chamada Lori, com montanhas muito altas e, aos pés delas, vilas à beira do rio Debet. Hovhannes Tumanyan nasceu em 19 de fevereiro de 1869 em Dsegh, uma das vilas do Lori. Desde a juventude, Tumanyan percebia quão amarga era a vida de um camponês armênio, compreendendo seus sonhos e fardos. Tumanyan cresceu com as lendas e parábolas do seu povo, e o folclore e a beleza da região Lori virou parte integral do seu trabalho.

Este frutífero laço entre o poeta e o seu povo persistiu até a sua morte, ainda que ele tenha morado longe de Lori por quase toda a sua vida, tendo mudado em 1883 para Tíflis, um centro cultural e político na Transcaucásia.

Tumanyan começou seus estudos em Lori, e depois ingressou em uma das melhores escolas armênias de seu tempo, a Escola Nersisyan. Infelizmente, Hovhannes teve que deixar seus estudos quando seu pai adoeceu, e depois morreu. Aos 16 anos, pouco antes de formar-se, encerrou seus estudos formais e retornou para Dsegh para cuidar da sua família.

Aos 19 anos, Tumanyan casou-se e teve 10 filhos. Necessitando de recursos para sustentar sua família, foi obrigado a exercer funções muito aquém dos seus talentos intelectuais, numa atmosfera que o sufocava a ponto de, mais tarde, lembrar-se daqueles dias como um verdadeiro inferno. Na metade da década de 1890, Tumanyan deixou de exercer tais funções que lhe causavam tanto desprazer para focar completamente na escrita.

Tumanyan era persistente e educou-se por meio de ávida leitura; reverenciava os trabalhos de Shakespeare, Byron, Pushkin e Lermontov. Ele tinha muito interesse pelo folclore e, com a sensibilidade que lhe era peculiar, registrou integralmente a história cultural da Armênia, esquivando-se de influências externas na sua escrita, prezando pela sua intuição.

Tumanyan começou a escrever ainda criança, mas só se tornou conhecido como poeta em 1890, quando sua primeira coleção de poesias foi publicada; nestes escritos, já pode-se observar todo o frescor que Tumanyan trouxe para a literatura armênia.

No começo do século XX, Tumanyan tinha reescrito e desenvolvido seus primeiros trabalhos e escrito novas poesias e prosas. Ele consagrou-se como artista, trazendo muita qualidade para a literatura armênia por conta da sua maneira de escrever poesia, e não necessariamente da forma poética que ele escolhia, uma vez que Tumanyan mantinha-se tradicional na forma: na verdade, ele trouxe a poesia para mais perto do povo. Essa etapa do desenvolvimento na literatura armênia é conhecida como “Fase Tumanyan”.

A inspiração de Tumanyan vinha das atividades cotidianas das pessoas, e os heróis dos seus trabalhos eram, em geral, simples camponeses. Tumanyan revelava suas qualidades desenvolvendo textos fortes, com linhas de raciocínio claras, descrevendo rica e profundamente os sentimentos.

A vida era difícil para os camponeses que viviam sob um regime patriarcal de leis não-escritas, muito preconceito e opressão: em face destas dificuldades, os heróis de Tumanyan quase sempre morriam de modo trágico. Ao passo que descrevia estas tristes realidades, Tumanyan expunha a pureza dos sentimentos, da integridade e uma determinação inextinguível dos seus heróis em atingir a justiça. As imagens criadas por Tumanyan conduziam (e ainda conduzem) os leitores as suas verdades mais profundas, mas principalmente moviam (e movem) os leitores delicadamente a uma profunda compaixão pela beleza e verdade na experiência humana.

Entre os trabalhos que retratam os tempos em que Tumanyan viveu, destacam-se o poema “Anush” e a história “Gikor”, trabalhos celebrados pelos leitores contemporâneos como os pináculos da poesia e prosa de Tumanyan, respectivamente.

“Anush” conta a história trágica de amor de um jovem pastor de ovelhas (Saro) por uma jovem (Anush). Este poema descreve a riqueza espiritual dos personagens, seus sentimentos mais profundos, sua devoção infinita um pelo outro, seu altruísmo e sua disposição pelo sacrifício. Ao mesmo tempo em que Tumanyan descrevia os sentimentos, também retratava amplamente a vida cultural do povo, destacando atividades e costumes diários, as alegrias e tristezas do povo, e suas percepções de mundo. Em essência, ele revelava o caráter nacional do povo armênio.

Por sua vez, “Gikor” é o conto de um camponês de 12 anos que vai para a cidade e sucumbe à crueldade daqueles que lá o cercam. Toda a história é extremamente dramática, abundante em qualidade lírica com toques simultâneos de alegria e tristeza.

A contribuição de Tumanyan para a poesia épica armênia tem valor inestimável. A poesia armênia tem uma tradição muito rica e antiga, e seus aspectos líricos são poderosos. Os talentos poéticos de Tumanyan são revelados em ambientes épicos, retratando situações críticas e/ou dramáticas, com personagens fortes e destemidos. Suas inúmeras baladas e poemas estão entre as principais obras épicas mundiais, com forma poética perfeita, principalmente por conta da riqueza descritiva e filosófica da vida que ele retratava.

Os trabalhos de Tumanyan estão permeados pelo pensamento filosófico, já que o escritor se preocupava muitíssimo com as questões de vida e morte, o propósito da vida humana, e a ligação do ser humano com a natureza. Tumanyan buscava na eternidade as respostas para as questões que o preocupavam, tentando penetrar os segredos do universo, como em seu poema “No infinito”. Toda a experiência pessoal e artística de Tumanyan está concentrada nestas questões, expressando suas emoções e pensamentos sobre as pessoas e seus destinos.

Tumanyan escreveu que “cada poeta, antes de tudo, deve ser o coração de seu povo”, e seu trabalho atesta para esta virtude. O povo armênio pode carregar eternamente no seu coração a imagem de Tumanyan e suas sábias palavras. A cada novo leitor encantado com os tesouros inesgotáveis de sua alma e mente, Tumanyan torna-se verdadeiramente imortal.

*texto de minha autoria originalmente publicado no site Brasileiras pelo Mundo

Metelkova e arte em Liubliana

Os 7 prédios de Metelkova, outrora sede militar do exército do Império Austro-Húngaro e, posteriormente, sede eslovena do Exército Nacional da Iugoslávia, estão ocupados por arte desde o começo da década de 1990.

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O Centro Cultural Autônomo de Metelkova (em eslovênio, Avtonomni kulturni center Metelkova mesto), também conhecido pela sigla AKC, fica no centro da cidade de Liubliana com uma área total de 12.500m² ocupada desde setembro de 1993. A área recebeu esse nome por conta da rua Metelko (em eslovênio, Metelkova ulica) que, por sua vez, homenageia o padre da Igreja Católica Romana Fran Metelko.

A história de Metelkova como um centro de arte começa em 25 de junho de 1991, com a declaração da independência da Croácia e da Eslovênia. Esse data é considerada uma das muitas que marcam o fim da República Socialista Federativa da Iugoslávia. Depois da dissolução da Iugoslávia naquele ano, o Exército Iugoslavo deixou Metelkova, que rapidamente se tornou um brownfield militar com seus quartéis abandonados. (Browfield é um termo usado para definir áreas com potencial de desenvolvimento e que antes eram usadas para fins militares.)

 

 

Em 1991, a Rede de Metelkova, formada por 200 organizações jovens e alternativas, pediu à prefeitura de Ljubljana que permitisse o uso daqueles quartéis para fins pacíficos e criativos. A prefeitura, então, cedeu à Rede de Metelkova a permissão formal de usar a área; entretanto, tais promessas não foram de fato cumpridas, e a prefeitura não queria que a área fosse efetivamente ocupada. Esse papel ambíguo se manteve por muitos anos, até que em 1993 Metelkova passou a ocupar ilegalmente a região, sendo redefinida como uma zona autônoma e auto-organizada em 1995. Desde então, o centro se tornou um lugar de aceitação para as minorias, embora ainda existam ameaças por parte das autoridades municipais e do Estado.

Outro exemplo da ambiguidade das ações do Estado Esloveno e da prefeitura com relação à Rede de Metelkova e à região são os subsídios da administração municipal para a construção de um pequeno abrigo de verão, conhecido como Mala Šola (ou Pequena Escola). Este abrigo, planejado e construído em 2001 por voluntários, foi imediatamente classificado como abusivo. À construção, seguiu-se o pedido de demolição, imediatamente depois de outro escritório municipal denunciá-lo para um órgão governamental. Depois de muitas tentativas frustradas, o prédio foi enfim demolido em 2 de agosto de 2006. Embora haja planos para reconstruí-lo, o projeto não saiu do papel.

Nos anos 2000, novos atores se envolveram na zona autônoma de Metelkova como, por exemplo, a comunidade LGBT, outras organizações não-governamentais e até mesmo a UNESCO. Embora não tenha ajudado Metelkova a receber seu status legal, a área foi reconhecida como Patrimônio Cultural Nacional em 2005.

Memento Park em Budapeste

O Szoborpark, ou Parque Memento, reúne em Budapeste as maiores estátuas da Guerra Fria, que enfeitavam a Hungria ao longo da ocupação soviética. Ao todo, são 42 peças de arte da era comunista, compreendida entre 1945 e 1989, incluindo os monumentos “Amizade Húngara-Soviética” e a “Libertação”, bem como estátuas de famosas personalidades do movimento trabalhista, soldados do Exército Vermelho e outras peças gigantes de Lenin, Marx, Engels, Dimitrov, Capitão Ostapenko, Béla Kun e outros heróis comunistas.

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O arquiteto Ákos Eleőd idealizou o Memento Park e, na época da sua inauguração, declarou que o parque era uma memória à ditadura e, ao mesmo tempo, porque pode ser discutida, descrita e estudada, o parque também é uma ode à democracia.

Uma das principais estátuas é a do Soldado do Exército da Libertação, com uma bandeira contendo a imagem da foice e do martelo na sua mão, e uma pistola automática pendendo do seu pescoço. Esta estátua, com 6 metros de altura, ficou outrora no topo da Colina de Gellért, no centro de Budapeste, e podia ser vista de qualquer ponto da cidade.

Os ingressos individuais para adultos custam HUF 1.500, e o Memento Park fica aberto todos os dias das 10h até o pôr do sol. Embora o Memento Park fique um pouco distante das outras atrações turísticas de Budapeste, é fácil chegar até lá usando o transporte público: primeiro, é preciso ir até a estação Kelenföld vasutallomas, atendida pela linha 4 do Metrô; lá, basta tomar um dos seguintes ônibus na direção Budateteny vasutallomas (Campona): 101B, 101E ou 150. Um mapa mostrando a linha 4 do metrô pode ser consultado aqui.

Visitando a fábrica de Oskar Schindler em Cracóvia

Quem é que não conhece A Lista de Schindler, dirigido por Steven Spielberg? O filme de 1993, ganhador do Oscar de Melhor Filme bem como do Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama em 1994 foi inspirado pela história real de Oskar Schindler (28 abril 1908 – 09 outubro 1974), um alemão industrialista e membro do partido nazista, que salvou a vida de 1.200 judeus durante o Holocausto, ao empregá-los na sua fábrica de metais e armamentos na Polônia ocupada e nos protetorados de Bohemia e Moravia. Oskar Schindler é o objeto do livro Schindler’s Ark (1982), que foi adaptado para o cinema sob a direção de Spielberg, refletindo sua trajetória como um oportunista primeiramente motivado pelo lucro, e que depois passou a mostrar extraordinárias características de iniciativa, tenacidade, coragem e dedicação em salvar a vida dos seus empregados judeus.

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Uma vez em Cracóvia, não podíamos perder a chance de visitar a fábrica da memória, o Fabryka Schindlera oddział – Muzeum Historycznego Miasta Krakowa. Outrora sede da Deutsche Emailwarenfabrik de Schindler, hoje as instalações abrigam a exposição permanente “Kraków under Nazi Occupation 1939–1945” no endereço da rua Lipowa 4. Esta exibição conta a história de Cracóvia e seus habitantes judeus e poloneses durante a Segunda Guerra Mundial, bem como dos alemães nazistas que ocuparam a cidade a partir de 6 de setembro de 1939, interrompendo de maneira brutal a história de relações entre judeus e poloneses que durava muitos séculos. Neste sentido, a História da Segunda Guerra Mundial se confunde com a vida diária, e os dramas pessoais de cada indivíduo se sobrepõem às tragédias que afetaram todo o mundo.

A história da Deutsche Emailwarenfabrik nos anos da guerra é apresentada na exibição como pano de fundo da história de vida dos judeus de Cracóvia que foram salvos por Oskar Schindler no contexto do complexo período.

As atitudes heróicas de Oskar Schindler são mostradas detalhadamente no seu antigo escritório, mantido intacto ao longo dos anos. A exibição proporciona aos visitantes uma experiência cronológica da história, apresentando as tragédias da guerra nas dimensões individual e coletiva, retratando também a vida cotidiana da cidade de Cracóvia ocupada pelos alemães nazistas, imortalizada em objetos diversos, fotografias, jornais, documentos pessoais e documentos oficiais.

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Por conta da maneira como foi concebida e organizada, a exibição convida o visitante a viver a história, de uma maneira quase teatral, respeitando a narrativa. As reconstruções do espaço histórico da cidade de Cracóvia se justapõem a instalações metafóricas que abraçam a história do período da guerra.

Os visitantes, então, passeiam pela cidade reconstruída, andando pelas ruas e encontrando ambientes recriados com fiel perfeição, embarcando num bondinho para assistir a um documentário que mostra a vida cotidiana da cidade no período da guerra, caminhando pelas ruas estreitas do Gueto Judaico para visitar um típico apartamento, chegando ao campo de concentração de Płaszów junto com os judeus.

Os cinco principais pontos da história da cidade são marcados pelas “máquinas da memória” onde cada visitante pode obter um selo comemorativo associado a cada evento histórico, proporcionando aos visitantes a oportunidade de produzirem seus próprios souvenires.

Os ingressos individuais custam 24 Zloty (aproximadamente 24 reais), e é altamente recomendável comprá-los online, já que há um número limitado de ingressos por dia. Os horários de funcionamento variam de acordo com a época do ano: entre novembro e março, o museu funciona às segundas-feiras entre 10am e 2pm, com entrada gratuita, e de terças-feiras aos domingos entre 10am e 6pm; entre abril e outubro, o museu funciona às segundas-feiras entre 9am e 4pm, com entrada gratuita na primeira segunda-feira de cada mês quando fica aberto até 2pm, e de terças-feiras aos domingos entre 9am e 8pm, fechando na primeira quinta-feira de cada mês. A última admissão é sempre 90 minutos antes do fechamento do museu, e os horários atualizados de funcionamento podem ser conferidos aqui.

Auschwitz-Birkenau, memória viva do Holocausto

Já estamos em Budapeste! Estávamos em Cracóvia até anteontem, dormimos uma noite em Brno (a 2a. maior cidade da República Tcheca), e chegamos hoje na Hungria! Quem está acompanhando #letíciadeférias no instagram está vendo todas as nossas aventuras em tempo real (ou quase!). Mas é claro que não vou deixar de escrever detalhes sobre o que estamos fazendo por aqui!

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a famosa entrada do campo de concentração Auschwitz I, com os dizeres “arbeit macht frei” (o trabalho liberta)

Enquanto estávamos em Cracóvia, fomos visitar os campos de concentração e exterminação nazista Auschwitz-Birkenau, que ficam a cerca de 65km do centro de Cracóvia. Mesmo tendo alugado um carro pra essa viagem (já passamos dos 1000km!), optamos por fazer o tour guiado com a empresa Escape2Poland. Foi uma visita muito emocionante e intensa.

Auschwitz se tornou um símbolo do terror, do genocídio e do Holocausto. Foi criado em 1940 pelos alemães nos subúrbios de Oswiecim, uma cidade polonesa que tinha sido anexada ao Terceiro Reich pelos Nazistas. O seu nome foi modificado para Auschwitz, que também se tornou o nome do campo de concentração (Konzentrationslager Auschwitz). A principal razão para criação desse campo de concentração foi o aumento das prisões em massa dos poloneses, que excediam as capacidades das prisões locais existentes. O primeiro transporte de poloneses chegou até Auschwitz da prisão de Tarnów em 14 de junho de 1940. Inicialmente, Auschwitz seria mais um dos campos de concentração que os nazistas estavam estabelecendo desde o começo da década de 1930, funcionando de acordo com seu papel por todos os anos em que foi usado, mesmo quando, em 1942, se tornou o maior dos campos de extermínio.

O primeiro e mais antigo campo de concentração e extermínio era o chamado “campo principal”, mais tarde conhecido como Auschwitz I (o número de prisioneiros flutuava em torno de 15 mil, às vezes ficando acima de 20 mil), estabelecido nas terras e prédios dos quartéis pré-guerra.

A segunda parte era o campo de Birkenau (que abrigou mais de 90 mil prisioneiros em 1944), também conhecido como Auschwitz II. Este era o maior terreno do complexo de Auschwitz. Os nazistas começaram a construí-lo em 1941 na vila de Brzezinka, a 3km de Oswiecim. A população civil polonesa foi despejada, e suas casas confiscadas e demolidas. A maior parte do aparato de exterminação em massa foi construído em Birkenau, e a maioria das vítimas era assassinada ali: 1 em cada 6 vítimas do Holocausto foi morta neste campo de concentração.

Mais de 40 sub-campos, explorando os prisioneiros e trabalhadores escravos, foram fundados, muitos na forma de diversas indústrias e fazendas alemãs, entre 1942 e 1944. O maior deles era chamado Buna (Monowitz, com 10 mil prisioneiros) e foi aberto pela administração do campo em 1942 nas terras de Buna-Werke à 6km do campo de Auschwitz. Em novembro de 1943, o sub-campo de Buna se tornou o centro de comando da terceira parte do campo, Auschwitz III, ao qual alguns outros sub-campos de Auschwitz eram subordinados.

Os alemães isolaram todos os campos e sub-campos do mundo exterior, e os cercavam com arame farpado. Todo contato com o mundo exterior era proibido. Entretanto, a área administrada pelo comandante e patrulhada pela tropa da SS ia além das terras cercadas por arame farpado, incluindo uma área adicional de aproximadamente 40 quilômetros quadrados (a chamada “Interessengebiet”, a área de interesse), que fica em torno dos campos de Auschwitz I e Auschwitz II-Birkenau.

A população local, os poloneses e judeus vivendo perto do campo recém-fundado, foi despejada entre 1940-1941. Aproximadamente mil das suas casas foram demolidas. Outros prédios foram designados para oficiais e oficiais não-comissionados da tropa da SS do campo, que as vezes estavam acompanhados de todos das suas respectivas famílias. As instalações industriais do pré-guerra na área, tomada pelos alemães, era expandida em alguns casos e, em outro, demolidas para abrir espaço para novas instalações associadas às necessidades militares do Terceiro Reich. A administração do campo usava a zona em torno dele para apoio técnico, workshop, depósitos, escritórios e quartéis para a SS.

Ao chegar no campo de concentração de Auschwitz, os prisioneiros eram selecionados entre aqueles aptos para trabalhar, e aqueles que sediam mortos imediatamente. Os médicos pediam aos prisioneiros que deixassem seus pertences, e entregavam a eles um sabonete para que fossem “tomar banho”; os prisioneiros eram, então, encaminhados para as câmaras de gás. Outros prisioneiros eram assassinados por meio de injeções letais. Estas práticas tinham sido suspendidas temporariamente durante a primavera de 1943, mas foi retomada em seguida para matar prisioneiros judeus.

Registros documentais dos Campos (Zugangslisten Jugen) indicam que, dos 973 judeus provindos da Eslováquia em 17/abril/1942, apenas 88 ainda estavam vivos menos de 4 meses depois. A maioria dos prisioneiros judeus tinha o mesmo destino; eles constituíam a categoria mais baixa na população multiétnica do campo de concentração, que também consistia de poloneses, russos, tchecos, bielorrussos, alemães, franceses, iugoslavos, ucranianos, entre tantas outras nacionalidades e minorias como homossexuais, ciganos, testemunhas de Jeová, etc.

As punições eram aplicadas em Auscwitz de acordo com ordens escritas do comandante ou do diretor do campo, bem como por relatórios dos oficiais da SS e prisioneiros funcionários. As infrações mais comumente punidas incluíam todos os tipos de tentativas de conseguir comida, várias formas de tentar fugir do trabalho ou trabalho de forma insatisfatória, fumar ou até mesmo atender às necessidades fisiológicas em horas impróprias, usar roupas diferentes dos uniformes, ou tentativas de suicídio. As punições eram completamente arbitrárias. Os prisioneiros recebiam penas diferentes para as mesmas infrações. As punições mais frequentes eram as flagelações, confinamento no bloco 11 do campo principal, e tortura por enforcamento.

A participação de inúmeros médicos alemães em experimentos médicos criminosos nos prisioneiros dos campos de concentração era uma instância particularmente drástica do atropelo da ética médica. Os iniciadores e facilitadores destes experimentos eram o Reichsführer SS Heinrich Himmler, o médico chefe, junto do SS-Obergruppenführer Ernst Grawitz, o chefe de polícia, e do SS-Standartenführer Wolfram Sievers, o secretário geral da Associação de Herança (Ahnenerbe Association) e diretor do Waffen SS Instituto Militar-Científico de Pesquisa.

O SS-WVHA (Escritório Principal de Economia e Administração da SS, responsável pelos campos de concentração desde março de 1942) tinha autoridade administrativa e financeira. O apoio na forma de estudos analíticos especializados veio do Waffenn SS Instituto de Higiene, dirigido pelo SS-Oberführer Joachim Mrugowsky, professor mestre de bacteriologia na Escola de Medicina da Universidade de Berlim.

Os experimentos eram planejados nos mais altos níveis para atender às necessidades do exército (alguns pretendiam melhorar a saúde dos soldados) ou planos pós-guerra (incluindo políticas populacionais), ou para reforçar as bases da ideologia racial (incluindo visões avançadas quando à superioridade da “raça nórdica”). Além dos experimentos planejados nos níveis mais altos, muitos médicos nazistas experimentavam nos prisioneiros em nome das companhias farmacêuticas ou institutos médicos alemães. Outros o faziam por interesse pessoal, ou para avançar em suas carreiras acadêmicas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os médicos nazistas se apoiavam nas expectativas das lideranças do Terceiro Reich, apoiando as políticas demográficas do regime. Eles iniciaram uma ampla pesquisa em métodos de esterilização em massa que seriam aplicados aos povos que eram vistos como inferiores.

Quando o Exército Vermelho chegou à linha de Vistula-Wisłoka em julho/agosto de 1944, a menos de 200km de Oświęcim, a liderança germânica considerava duas opções para o campo: liquidação, no caso de sucesso contínuo do Exército Vermelho, ou manter o campo de pé sob circunstâncias favoráveis. Os alemães, então, começaram uma série de passos de evacuação/liquidação, que durou até o meio de janeiro de 1945, mas evitaram fazer qualquer coisa que pudesse impedir que o campo continuasse funcionando.

Na segunda metade de 1944 e nas duas primeiras semanas de janeiro de 1945, cerca de 65 mil prisioneiros, incluindo quase todos os poloneses, russos e tchecos que restavam no campo (cerca de 15 mil homens e mulheres) foram evacuados para várias plantas industriais nas profundezas do Reich. Entretanto, cerca de 65 mil outros prisioneiros foram mantidos em Auschwitz até o último segundo. A maioria deles foi empregada nas plantas da região industrial da Silesia do Norte e outros centros próximos que eram importantes para manter o potencial de guerra germânico. Em dezembro de 1944, oficiais germânicos da indústria química se encontraram em Katowice para discutir meios de aumentar a produtividade dos prisioneiros de Auschwitz que trabalhariam nas suas plantas industriais no ano seguinte. No começo de janeiro, poucas semanas antes do Exército Vermelho chegar até o norte da Silesia, o trabalho continuou a equipar o recém-fundado sub-campo de Hubertshütte, num moinho de aço em Bytom-Łagiewniki.

A exterminação em massa dos judeus nas câmaras de gás terminou em novembro de 1944. A maioria dos prisioneiros judeus que trabalhavam no crematório e nas câmaras de gás foram liquidados em setembro, outubro e novembro como testemunhas da exterminação. Mais de 400 judeus morreram durante um motim realizado por uma equipe do crematório (Sonderkommando) em 7 de outubro de 1944. Muitos membros do Sonderkommando foram mantidos vivos até a liquidação final do campo.

O Crematório IV, avariado durante o motim do Sonderkommando, foi destruído no fim de 1944. Em novembro e dezembro, os alemães fizeram preparações para explodir os outros 3 prédios de crematórios. Eles desinstalaram o equipamento técnico das câmaras de gás e o salão de fornalha dos crematórios II e III, e enviaram a maioria desses equipamentos para as profundezas da Alemanha. Entretanto, deixaram o crematório V e suas câmaras de gás funcionando até a segunda metade de janeiro de 1945.

Ao fim de 1944, como parte dos esforços de remover as evidências dos crimes cometidos em Auschwitz, eles rapidamente liquidaram os fossos cheios de cinzas humanas (os fossos onde eles queimavam corpos e outros onde eles despejavam as cinzas dos crematórios) em Auschwitz-Birkenau. Eles intensificaram a rotina de destruição dos registros que não eram mais necessários, incluindo arquivos e listas de prisioneiros. Eles também passaram a queimar as listas com os nomes dos judeus deportados para morrer em Auschwitz.

Nos últimos meses em que o campo de concentração de Auschwitz esteve em operação, os alemães enviaram uma grande quantidade de material de construção e itens saqueados dos judeus vítimas das exterminações em massa. Na metade de janeiro de 1945, pouco antes da ofensiva Vistula-Oder do Exército Vermelho, os alemães começaram a evacuação final e liquidação do campo.

Entre 17 e 21 de janeiro, os alemães marcharam aproximadamente 56 mil prisioneiros para fora de Auschwitz e seus sub-campos nas colunas de evacuação, em sua maioria na direção oeste, pela Silesia do norte e do sul. 2 dias depois, eles evacuaram 2 mil prisioneiros em trens dos sub-campos de Świętochłowice e Siemianowice. As principais rotas de evacuação levavam a Wodzisław Sląski e Gliwice, onde as muitas colunas de evacuação eram fundidas em transportes ferroviários. Do sub-campo de Jaworzno, 3.200 prisioneiros fizeram uma das maiores marchas: 250km até o Campo de Concentração Gross-Rosen na Silesia do sul.

As colunas de evacuação deveriam ser formadas somente pelas pessoas saudáveis com força suficiente para marchar muitos quilômetros. Entretanto, na prática, prisioneiros doentes e enfraquecidos também se voluntariaram, porque pensaram (e com alguma razão) que os alemães iriam matar aqueles que ficassem pra trás. Crianças judias e polonesas também marcharam com os adultos.

Ao longo de todas as rotas, os guardas da SS atiravam nos prisioneiros que tentavam escapar e aqueles que estavam fisicamente exaustos para continuar no mesmo ritmo dos seus companheiros desafortunados. Milhares de corpos dos prisioneiros que foram assassinados ou que morreram de fatiga ou exposição ao frio ficavam alinhados ao longo das rotas por onde todos os outros prisioneiros passavam a pé ou de trem. Apenas na Silesia do norte, cerca de 3 mil prisioneiros morreram. Estima-se que pelo menos 9 mil (e mais provavelmente 15 mil) prisioneiros de Auschwitz perderam suas vidas nas operações de evacuação. Depois da guerra, estas rotas ficaram conhecidas como “Marchas da Morte”. Um dos poucos documentos nazistas existentes sobre as Marchas da Morte é um relatório da SS de 13 de março de 1945 na chegada no campo de Leitmeritz na Boêmia, de 58 prisioneiros evacuados do sub-campo Hubertushütte de Auschwitz. O relatório indica que 144 prisioneiros (a maioria judeus) morreram na rota.

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Massacres de prisioneiros aconteceram em alguns lugares ao longo das rotas de evacuação. Na estação de trem Leszczyny/Rzędówka perto de Rybnik, na noite de 21 para 22 de janeiro de 1945, um trem carregando cerca de 2.500 prisioneiros de Gliwice parou. Na tarde de 22 de janeiro, os prisioneiros receberam a ordem de desembarcar. Alguns deles estavam muito exaustos para fazê-lo. Homens da SS da comitiva e a polícia nazista local dispararam tiros contra as portas abertas dos vagões dos trens. Os alemães então conduziram os prisioneiros remanescentes na direção oeste. Depois que eles marcharam, mais de 300 corpos de prisioneiros que tinham sido atingidos pelos tiros ou tinham morrido de exaustão foram recolhidos da estação e suas imediações. Muitos residentes poloneses e tchecos de lugarejos ao longo da rota de evacuação procuravam ajudar os prisioneiros. Em grande parte, davam a eles água e comida, e também abrigavam aqueles que conseguiam escapar.

Caminhar por aqueles lugares onde tanto sofrimento e tanto sangue foi derramado foi uma experiência indescritível, que certamente ficará marcada para sempre em mim. As consequências do nazi-fascismo parecem estar vivas até hoje em Auschwitz, para que não nos esqueçamos e jamais permitamos que este horror se repita em nenhum lugar do mundo. Fascismo nunca mais!