Datas comemorativas e Feriados na Armênia

Já contei aqui sobre as comemorações de final de ano na Armênia (ou melhor, de começo de ano!) e a explicação do porquê celebrarem o Natal no dia 6 de janeiro. Hoje, quero contar para vocês um pouquinho mais sobre as outras datas comemorativas da Armênia.

Ano Novo

As celebrações de ano novo começam na noite de 31 de dezembro e vão até 7 de janeiro, após a celebração do Natal. Nos dias 01 e 02 de janeiro, nada funciona. A partir do dia 03, alguns estabelecimentos comercias passam a retomar suas atividades. Os armênios trocam presentes após a ceia de 31 de dezembro, que é composta de pratos como peixes cozidos ou grelhados, espinafre com ovos, arroz pilaf (preparado com frutas secas).

Dia do Exército

No dia 28 de janeiro, celebra-se o dia do exército. A capital da Armênia é totalmente decorada com bandeiras do país, comemorando aqueles que fazem parte das forças armadas e defendem o país.

Dia de São Valentim

Como na maior parte do mundo, o dia dos namorados é comemorado em 14 de fevereiro, no dia de São Valentim. Os restaurantes organizam jantares especiais, e a cidade fica cheia de flores vermelhas e balões em formato de coração.

Dia da Mulher

No dia 08 de março, a celebração do dia da mulher é feriado nacional, abrindo o mês da mulher. É tradição que todas as mulheres recebam flores e chocolates neste dia. O papel da mulher na sociedade armênia já foi analisado por mim neste post, e o machismo continua tão forte (ou mais) quanto na época em que o escrevi.

Dia da Maternidade e da Beleza

No dia 07 de abril, celebra-se o dia da maternidade e da beleza. É uma celebração que fecha o mês das mulheres.

Páscoa

As celebrações da Páscoa começam na Sexta Feira da Paixão e terminam na Segunda Feira, que pode ser feriado ou não (em 2017 e 2018 foi feriado, mas em 2019 não foi). No Domingo de Páscoa, há uma grande celebração em Etchmiadzin com o Patriarca da Fé da Igreja Apostólica Armênia e, neste dia, abre-se a cortina que revela o altar. No almoço, os armênios se reúnem para comer ovos cozidos, representando o renascimento, e também peixes, pães, espinafre com ovos, e arroz pilaf.

Dia da Memória do Genocídio

No dia 24 de abril, é solene lembrar os mortos no genocídio perpetrado pelos turcos durante a Primeira Guerra Mundial. Autoridades se reúnem no Memorial e Museu do Genocídio, depositando flores junto à Chama Eterna. Muitos armênios também aproveitam para visitar o memorial neste dia e lembrar dos seus antepassados.

Dia da Cidadania

O dia 27 de abril é o dia da cidadania na Armênia. Próximo a este dia, os armênios costumam celebrar a amizade com a União Européia.

Dia do Trabalhador

Como no restante do mundo, o dia 01 de maio é dia do trabalhador e feriado na Armênia.

Dia da Vitória

No dia 09 de maio, celebra-se o Dia da Vitória da Grande Guerra Patriótica (como é conhecida na Rússia e em todas as ex-repúblicas soviéticas), marcando a capitulação da Alemanha Nazista pela União Soviética. Este feriado tem grande importância em todas as ex-repúblicas soviéticas.

Dia da República

O dia da República é celebrado na Armênia em 28 de maio, e este dia é feriado nacional. Para as autoridades do país, há uma importante cerimônia marcando a celebração da Primeira República da Armênia, instaurada em 1918. Esta celebração coincide com o aniversário da Batalha de Sardarabad, que expulsou o Exército do Imperío Otomano da Armênia. Todos os anos, o Presidente da Armênia, o Primeiro Ministro e o Presidente de Artsakh visitam o Memorial de Sardarapat, acompanhados de outras autoridades locais e representantes das Embaixadas.

Dia das Crianças

O dia das crianças na Armênia é celebrado no dia 01 de junho, e todos comemoram bastante a data com muitos balões coloridos.

Dia dos Pais

No dia 16 de junho, é celebrado o dia dos pais na Armênia.

Solstício de Verão

No dia 21 de junho, celebra-se o Solstício de Verão, com a noite mais curta do ano.

Dia da Constituição

O dia da Constituição da Armênia é celebrado com feriado nacional no dia 05 de julho.

Vardavar

No último domingo de julho (coincidentemente, hoje), os armênios têm uma das suas celebrações mais peculiares: Vardavar é o dia da água, em que eles jogam água uns nos outros no meio da rua. Neste dia, as temperaturas costumam passar dos 40ºC e, por conta dessa peculiar forma de lidar com o calor, é um dos poucos dias do ano em que todos os estabelecimentos comerciais fecham as suas portas.

Dia do Conhecimento e da Literatura

No dia 01 de setembro, dia de volta às aulas na grande maioria das escolas e universidades da Armênia, celebra-se o dia do Conhecimento e da Literatura. Neste dia, os estudantes costumam desfilar pelas ruas de Yerevan com calças ou saias pretas e camisas brancas.

Dia da Independência

O dia da independência da Armênia é comemorado no dia 21 de setembro. Esta é a principal data nacional da Armênia, marcando o dia quando o povo armênio votou um referendo para proclamar a independência da Armênia com relação à União Soviética, no ano de 1991. Em novembro de 1991, Levon Ter-Petrosyan foi eleito o primeiro presidente da Armênia, e em 21 de dezembro de 1991 a Armênia entrou na Commonwealth de Estados Independentes. A Armênia tornou-se formalmente independente em 26 de dezembro, coincidindo com a dissolução da União Soviética.

Equinócio de Setembro

O dia 23 de setembro marca o Equinócio na Armênia, correspondendo formalmente ao final do verão.

Dia do Tradutor

Embora não seja feriado nacional, no dia 12 de outubro celebra-se o dia do tradutor na Armênia.

Halloween

Como grande parte da diáspora Armênia está nos Estados Unidos, é apenas natural que esta celebração norte-americana faça parte do calendário de festas armênio. Os jovens aproveitam a data para usar maquiagens e máscaras “assustadoras”!

Dia da Memória de Spitak

Os armênios se lembram do terremoto de magnitude 6.9 na escala Richter que atingiu o noroeste da Armênia em 07 de dezembro de 1988. Este terremoto danificou muito da infraestrutura do país, principalmente as cidades de Spitak, Leninakan (hoje Gyumri), Kirovakan (hoje Vanadzor) e Stepanavan, além de outras pequenas vilas nas imediações.

Solstício de Dezembro

Marcando oficialmente o início do inverno, o dia 22 de dezembro tem a noite mais longa do ano na Armênia.

*texto de minha autoria originalmente publicado no site Brasileiras pelo Mundo

Sergei Parajanov, o principal cineasta armênio

Sergei Parajanov é um dos principais mestres do cinema do século XX, armênio nascido na Geórgia, em 09 de janeiro de 1924. Parajanov nunca se permitiu conformar seu trabalho ao realismo socialista estrito, preferido pelas autoridades Soviéticas. Depois de estudar cinegrafia e música, Parajanov tornou-se diretor assistente dos estúdios Dovzhenko em Kiev, estreando como diretor cinematográfico em 1954. A partir daquele ano, Parajanov dirigiu inúmeros curtas-metragens e longas-metragens, todos dispensados por ele, por tê-los considerado verdadeiros lixos.

Em 1945, Parajanov viajou para Moscou e se inscreveu no departamento de direção de cinema do VGIK, uma das escolas cinematográficas mais antigas e respeitadas da Europa, estudando sob a tutela dos diretores Igor Savchenko e Aleksandr Dovzhenko.

Em 1948, Parajanov foi condenado a cinco anos de prisão por homossexualidade, que era ilegal naquela época, na União Soviética, mas foi solto sob anistia depois de três meses. Em entrevistas, amigos e parentes contestam estas acusações e as apontam como mentirosas, especulando que a punição era algum tipo de retaliação política por conta das suas visões rebeldes.

Em 1950, Sergei Parajanov casou-se em Moscou pela primeira vez, com Nigyar Kerimova, que vinha de uma família tártaro-muçulmana e converteu-se ao Cristianismo Ortodoxo Ocidental para casar-se com Parajanov, o que motivou seu assassinato por seus parentes. Depois da morte de Kerimova, Parajanov deixou a Rússia para morar em Kiev, onde produziu os documentários “Dumka”, “Mãos Douradas”e “Natalia Uzhvy” e os filmes “Andriesh” (baseado num conto de fadas do escritor moldavo Emilian Bukov), “The Top Guy” (um musical kolkhoz), “Ukrainian Rhapsody” (um melodrama de tempos de guerra), e “Flower on the Stone” (sobre um culto religioso que se infiltrava numa cidade mineradora na região de Donets Basin). Em 1956, casou-se com Svitlana Ivanivna Shcherbatiuk, e teve um filho com ela em 1958, que recebeu o nome de Suren.

O primeiro filme de Andrei Tarkovsky, “A infância de Ivan”, causou um enorme impacto na auto-descoberta de Parajanov como diretor de cinema. Mais tarde, a influência tornou-se mútua, e eles se tornaram muito amigos. Em 1965, Parajanov abandonou o realismo socialista de uma vez, dirigindo o poético “Shadows of Forgotten Ancestors”, o seu primeiro filme com completo controle criativo. Este filme recebeu inúmeros prêmios e foi relativamente bem recebido pelas autoridades Soviéticas. O Quadro Editorial de Roteiros em Goskino, na Ucrânia, exaltou o filme por juntar a qualidade poética com a profundidade filosófica do conto de Kotsiubynsky por meio da linguagem cinematográfica, qualificando o filme como um brilhante sucesso criativo do estúdio Dovzhenko. As autoridades Soviéticas concordaram em lançar o filme com sua trilha sonora ucraniana original, sem modificações ou dublagem dos diálogos para o russo, objetivando a preservação das suas características ucranianas.

Em 1964, Parajanov dirigiu “Os Cavalos de Fogo”, uma celebração rapsódia da cultura folclórica ucraniana, e o mundo passou a conhecer um talento surpreendente e idiossincrático. Assim, Parajanov inventava seu próprio estilo cinematográfico e tornava-se uma celebridade internacional. Simultaneamente à fama, seguiram-se os ataques das autoridades conservadoras da União Soviética.

Pouco tempo depois, Parajanov deixou Kiev para vir morar na Armênia, sua terra ancestral. Em 1969, ele começou a produzir “Sayat Nova”, filme considerado por muitos como seu principal trabalho, embora tenha sido filmado sob condições relativamente precárias e com um orçamento pequeno. As autoridades soviéticas intervieram e baniram “Sayat Nova” por conta do seu conteúdo supostamente inflamatório. Parajanov reeditou suas filmagens e renomeou o filme como “A Cor da Romã”, que foi ainda mais inovadora, explorando a arte e a poesia da sua terra nativa Armênia com uma série de incríveis e belíssimas imagens, e aclamado por críticos como Alexei Korotyukov e Mikhail Vartnov.

Mas, àquela altura, as autoridades Soviéticas já não suportavam mais tanta ousadia. Somando-se ao fato de que Parajanov não se conformava ao estilo artístico realista da União Soviética, seu estilo de vida e comportamento controversos fez com que as autoridades Soviéticas condenassem Parajanov repetidas vezes e censurassem seus filmes. Quase todos os filmes e projetos de Parajanov entre 1965 e 1973 foram banidos ou encerrados pelas administrações cinematográficas Soviéticas, tanto locais (em Kiev e Yerevan) e federal. Parajanov foi preso em 1973 sob acusações de homossexualidade, estupro, suborno e tráfico ilegal de ícones religiosos.

Parajanov foi preso três vezes, e a última delas foi em 1982. Mesmo depois de ser liberto, ele continuou sendo persona non grata no cinema Soviético. Com a chegada da Perestroika e o relaxamento político, ele voltou a trabalhar como diretor e conseguiu produzir “A Lenda da Fortaleza Suram” em 1985, contando com a ajuda e influência do ator georgiano Dodo Abashidze e de outros amigos. Parajanov ainda dirigiu “O Trovador Kerib” em 1988, e A Confissão, que tornou-se conhecida como “A Última Primavera”, lançada em 1992.

A saúde de Parajanov ficou seriamente comprometida pelos quatro anos de trabalho forçado e mais nove meses na prisão em Tbilisi. “A Última Primavera” foi sua última obra, conhecida pelo público dois anos depois da sua morte na Armênia em 20 de julho de 1990, vítima de câncer de pulmão. Naquela época, suas obras estavam voltando a ser conhecidas pelo público, apresentadas em grandes festivais internacionais. Os filmes da Parajanov foram premiados no Festival de Cinema de Mar del Plata, no Festival Internacional de Cinema de Istambul, no Nika Awards, no Festival Internacional de Cinema de Rotterdam, no Festival Internacional de Cinema de Sitges – Catalan, no Festival Internacional de Cinema de São Paulo, entre outros.

Em janeiro de 1988, Parajanov disse em uma entrevista que ele tinha três terras natais, pois tinha nascido na Geórgia, trabalhado na Ucrânia e iria morrer na Armênia. Seu corpo está enterrado no Panteão Komitas, em Yerevan.

texto de minha autoria originalmente publicado no site Brasileiras pelo Mundo

Os 150 anos do nascimento de Hovhannes Tumanyan

Os escritores estão destinados a desempenhar um papel na história literária dos seus países, e alguns poucos também desempenham um papel especial na vida espiritual das suas nações: na literatura armênia, Hovhannes Tumanyan o fez, retratando o perfil do povo armênio, sua história, seus sonhos e seus ideais mais sagrados com profundidade e clareza em seus escritos. Neste ano, a Armênia comemora os 150 anos do nascimento de seu principal poeta.

No norte da Armênia, há uma região chamada Lori, com montanhas muito altas e, aos pés delas, vilas à beira do rio Debet. Hovhannes Tumanyan nasceu em 19 de fevereiro de 1869 em Dsegh, uma das vilas do Lori. Desde a juventude, Tumanyan percebia quão amarga era a vida de um camponês armênio, compreendendo seus sonhos e fardos. Tumanyan cresceu com as lendas e parábolas do seu povo, e o folclore e a beleza da região Lori virou parte integral do seu trabalho.

Este frutífero laço entre o poeta e o seu povo persistiu até a sua morte, ainda que ele tenha morado longe de Lori por quase toda a sua vida, tendo mudado em 1883 para Tíflis, um centro cultural e político na Transcaucásia.

Tumanyan começou seus estudos em Lori, e depois ingressou em uma das melhores escolas armênias de seu tempo, a Escola Nersisyan. Infelizmente, Hovhannes teve que deixar seus estudos quando seu pai adoeceu, e depois morreu. Aos 16 anos, pouco antes de formar-se, encerrou seus estudos formais e retornou para Dsegh para cuidar da sua família.

Aos 19 anos, Tumanyan casou-se e teve 10 filhos. Necessitando de recursos para sustentar sua família, foi obrigado a exercer funções muito aquém dos seus talentos intelectuais, numa atmosfera que o sufocava a ponto de, mais tarde, lembrar-se daqueles dias como um verdadeiro inferno. Na metade da década de 1890, Tumanyan deixou de exercer tais funções que lhe causavam tanto desprazer para focar completamente na escrita.

Tumanyan era persistente e educou-se por meio de ávida leitura; reverenciava os trabalhos de Shakespeare, Byron, Pushkin e Lermontov. Ele tinha muito interesse pelo folclore e, com a sensibilidade que lhe era peculiar, registrou integralmente a história cultural da Armênia, esquivando-se de influências externas na sua escrita, prezando pela sua intuição.

Tumanyan começou a escrever ainda criança, mas só se tornou conhecido como poeta em 1890, quando sua primeira coleção de poesias foi publicada; nestes escritos, já pode-se observar todo o frescor que Tumanyan trouxe para a literatura armênia.

No começo do século XX, Tumanyan tinha reescrito e desenvolvido seus primeiros trabalhos e escrito novas poesias e prosas. Ele consagrou-se como artista, trazendo muita qualidade para a literatura armênia por conta da sua maneira de escrever poesia, e não necessariamente da forma poética que ele escolhia, uma vez que Tumanyan mantinha-se tradicional na forma: na verdade, ele trouxe a poesia para mais perto do povo. Essa etapa do desenvolvimento na literatura armênia é conhecida como “Fase Tumanyan”.

A inspiração de Tumanyan vinha das atividades cotidianas das pessoas, e os heróis dos seus trabalhos eram, em geral, simples camponeses. Tumanyan revelava suas qualidades desenvolvendo textos fortes, com linhas de raciocínio claras, descrevendo rica e profundamente os sentimentos.

A vida era difícil para os camponeses que viviam sob um regime patriarcal de leis não-escritas, muito preconceito e opressão: em face destas dificuldades, os heróis de Tumanyan quase sempre morriam de modo trágico. Ao passo que descrevia estas tristes realidades, Tumanyan expunha a pureza dos sentimentos, da integridade e uma determinação inextinguível dos seus heróis em atingir a justiça. As imagens criadas por Tumanyan conduziam (e ainda conduzem) os leitores as suas verdades mais profundas, mas principalmente moviam (e movem) os leitores delicadamente a uma profunda compaixão pela beleza e verdade na experiência humana.

Entre os trabalhos que retratam os tempos em que Tumanyan viveu, destacam-se o poema “Anush” e a história “Gikor”, trabalhos celebrados pelos leitores contemporâneos como os pináculos da poesia e prosa de Tumanyan, respectivamente.

“Anush” conta a história trágica de amor de um jovem pastor de ovelhas (Saro) por uma jovem (Anush). Este poema descreve a riqueza espiritual dos personagens, seus sentimentos mais profundos, sua devoção infinita um pelo outro, seu altruísmo e sua disposição pelo sacrifício. Ao mesmo tempo em que Tumanyan descrevia os sentimentos, também retratava amplamente a vida cultural do povo, destacando atividades e costumes diários, as alegrias e tristezas do povo, e suas percepções de mundo. Em essência, ele revelava o caráter nacional do povo armênio.

Por sua vez, “Gikor” é o conto de um camponês de 12 anos que vai para a cidade e sucumbe à crueldade daqueles que lá o cercam. Toda a história é extremamente dramática, abundante em qualidade lírica com toques simultâneos de alegria e tristeza.

A contribuição de Tumanyan para a poesia épica armênia tem valor inestimável. A poesia armênia tem uma tradição muito rica e antiga, e seus aspectos líricos são poderosos. Os talentos poéticos de Tumanyan são revelados em ambientes épicos, retratando situações críticas e/ou dramáticas, com personagens fortes e destemidos. Suas inúmeras baladas e poemas estão entre as principais obras épicas mundiais, com forma poética perfeita, principalmente por conta da riqueza descritiva e filosófica da vida que ele retratava.

Os trabalhos de Tumanyan estão permeados pelo pensamento filosófico, já que o escritor se preocupava muitíssimo com as questões de vida e morte, o propósito da vida humana, e a ligação do ser humano com a natureza. Tumanyan buscava na eternidade as respostas para as questões que o preocupavam, tentando penetrar os segredos do universo, como em seu poema “No infinito”. Toda a experiência pessoal e artística de Tumanyan está concentrada nestas questões, expressando suas emoções e pensamentos sobre as pessoas e seus destinos.

Tumanyan escreveu que “cada poeta, antes de tudo, deve ser o coração de seu povo”, e seu trabalho atesta para esta virtude. O povo armênio pode carregar eternamente no seu coração a imagem de Tumanyan e suas sábias palavras. A cada novo leitor encantado com os tesouros inesgotáveis de sua alma e mente, Tumanyan torna-se verdadeiramente imortal.

*texto de minha autoria originalmente publicado no site Brasileiras pelo Mundo

Broadway sim!

Eu e marido somos fãs de teatro e, principalmente, de musicais. Então é claro que a gente não ia perder a oportunidade de ver algum espetáculo na Broadway. Embora eu tenha argumentado fortemente para assistirmos Harry Potter and the Cursed Child, marido me convenceu de que, por já termos visto em Londres em 2017, deveríamos optar por outro espetáculo. Ou melhor, outros espetáculos!

Como este blog é comprometido com a verdade, eu não posso negar que assistir a estes espetáculos é coisa cara. Porém cada um tem suas prioridades, e nós gostamos muito desse tipo de rolê, então a gente preferiu economizar em outras coisas e assistir a dois espetáculos na Broadway.

Sim, com a TKTS os ingressos ficam mais baratos, mas ainda assim não são diversões baratinhas. Nós fomos 2 vezes ao booth que fica no South Street Seaport (perto de Wall Street) porque, segundo informações colhidas, lá é um pouco mais tranquilo do que o booth da Times Square e eles também vendem ingresso de véspera.

Nós tiramos a quarta feira pra ficar na Broadway e assistimos a dois musicais: Anastasia, que era uma produção temporária, e Frozen. As fotos que ilustram este post foram tiradas durante os agradecimentos, afinal de contas é terminantemente proibido filmar e/ou fotografar os espetáculos.

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Seria até injusto comparar ambas produções, já que Frozen tem toda a estrutura (e magia) Disney por trás. Mas Anastasia nos surpreendeu positivamente, o elenco era muito afiado (e afinado, é claro), e a produção era bem divertida pra contar uma história da qual sempre gostei muito.

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De noite, quando fomos ver Frozen, eu fiquei encantada já entrando no teatro, e a produção era maravilhosa, pura magia Disney. Nós conseguimos ver ambos musicais com o elenco principal, e acho que isso faz toda diferença – principalmente em Frozen, pois dizem que a substituta da Caissie Levy (a Elsa) não chega nem aos pés dela, e a Caissie realmente é um espetáculo.

Além destes musicais na própria Broadway, eu já vi outras produções que existem na Broadway, só que eu assisti em Londres, a saber: Wicked, The Lion King e Aladdin (além de Harry Potter and the Cursed Child, que eu falei ali em cima). Como eu falei ali em cima, Anastasia foi uma produção temporária, e sempre tem produções temporárias, então vale a pena ver o que está em cartaz; em Londres, por exemplo, eu assisti Singin in the Rain, que era produção temporária, e foi incrível.

Eu recomendo fortemente absolutamente todos estes musicais que já assisti; se o orçamento só permitir um, escolhe aquela história que mais toca o seu coraçãozinho e vá ser feliz!

Mais uma atividade esportiva: jogo de basquete em D.C.

Além de termos ido a um jogo de futebol em Vancouver e a um jogo de hóquei em Calgary, nós ainda fomos a um jogo de basquete em Washington D.C.!

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Tanto eu quanto marido já tínhamos ido a jogos da NBA – nos meus anos de guia pra Orlando, eu tive a sorte de levar alguns grupos aos jogos do Orlando Magic, que acabou se tornando meu time do coração! – mas nós quisemos aproveitar a oportunidade para ver o jogo dos Washington Wizards contra os Memphis Grizzlies.

Nós compramos os nossos ingressos pelo SubHub bem em cima da hora – entramos no metrô rumo a Capital One Arena ainda sem os ingressos no email! – mas logo eles chegaram e nós entramos sem problemas.

Aliás, a Capital One Arena tem acesso muito fácil com o metrô de D.C., a gente já sai da estação de metrô praticamente dentro da arena.

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a piadinha do dia foi: “I thought this was a WIZARDS game!” hihihi

Nós demos MUITA sorte com os ingressos: nossos lugares eram praticamente side court, só que sem o preço de um ingresso desse tipo! Assistimos a partida muito de pertinho, e foi uma vitória emocionante dos Wizards!

Passeando pelo National Mall

Depois de muitas horas de viagem entre Calgary e Washington DC, conseguimos chegar à capital dos EUA! Pra vocês terem uma ideia, nós saímos do nosso hotel em Calgary ainda de manhã cedo, e só conseguimos chegar no hotel de Washington DC quase meia noite. Acontece que, além de termos pegado uma conexão razoavelmente longa em Ottawa, deu uma nevasca absurda naquele dia, e o nosso segundo vôo atrasou muitas e muitas horas. Enfim, conseguimos chegar.

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Marido já tinha ido à Washington DC há alguns anos atrás, mas quis voltar para rever alguns amigos que estão morando por lá. Eu achei ótimo, porque tinha vontade de conhecer a capital dos EUA – acho que as capitais guardam histórias que podem nos explicar melhor porquê determinadas coisas são como são.

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Nosso primeiro passeio em DC foi pelo National Mall, mas não sem antes parar na estátua de Albert Einsten que fica em um dos parques-memoriais. Ao longo da nossa estadia de 5 noites em DC, nós voltamos algumas vezes ao National Mall para conseguir ver tudo – ou tentar ver tudo – o que nos interessava.

Quando se fala em National Mall, geralmente se pensa na área inteira que vai do Lincoln Memorial até o Capitólio, com o monumento de Washington dividindo a área como ponto central. O National Mall inclui e faz fronteira com diversos museus smithsonianos, galerias de arte, instituições culturais, e muitos memoriais, esculturas e estátuas.

Nós visitamos com calma o National Air and Space Museum e o recém-inaugurado (e bastante concorrido) National Museum of African American History and Culture. Nós chegamos a entrar no Holocaust Memorial Museum, mas não conseguimos visitar a exposição permanente, que tem ingressos limitados por dia e já estava lotado por todo o período da nossa visita; por conta disso, tivemos acesso apenas a uma pequena área do museu, que tinha acesso livre para visitantes sem ingresso pré-agendado.

Eu adorei o Air and Space Museum, mas eu amei mesmo o Museum of African American History and Culture. Além de ser muito moderno e cheio de experiências interativas, o museu é muito sutil e delicado ao convidar os visitantes à reflexão sobre o papel dos negros na cultura norte-americana, destacando com sensibilidade diversos momentos basilares da história.

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Quanto aos monumentos a céu aberto, nos demoramos um pouco no memorial Lincoln e no monumento à Martin Luther King Jr, no memorial dos veteranos da Guerra da Coréia,  e no memorial da Segunda Guerra Mundial.

A ópera e a tradição musical armênia

A ópera é um gênero musical único, combinando música, poesia, e diversas artes cênicas (habilidades teatrais, pinturas etc). Ao reunir os trabalhos dramáticos e musicais, a ópera foi pautada na síntese da palavra, das representações teatrais e da música. No começo da sua história, o balé também teve importância fundamental nas performances musicais deste gênero. “Eurídice”, a primeira ópera preservada, foi escrita em 1600 pelo compositor italiano Jacopo Peri e estreou em Florença em 06 de outubro daquele ano, no Palazzo Pitti, tendo sido criada em homenagem ao matrimônio entre Henrique IV da França e Maria de Médici.

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A ópera tem um papel importante na história da música clássica armênia. A música armênia tem intrínseca relação com a arte do canto, com seus primeiros registros datando da Idade Média, quando o sistema nacional de gravações foi criado. Os trabalhos eram pautados em khazes. Um khaz é um tipo de neuma (elemento básico do sistema de notação musical, antes da invenção da notação de pautas de cinco linhas), que é um signo especial e usado desde o século VII. A notação musical surgiu, primeiro, com a função de auxiliar quem cantava a recordar-se, e somente muito tempo depois tornou-se algo preciso. O khaz e a música armênia se unem no sistema escrito com a tradição oral. A nova notação armênia surgiu no começo do século XIX e, ao mesmo tempo, exemplos da música folclórica e sagrada começavam a ser gravados.

A música da Armênia tem suas origens nas montanhas, onde as pessoas tradicionalmente entoavam músicas folclóricas. A música folclórica armênia, bem como a música gospel tradicional armênia, não se baseia no sistema europeu tonal, mas no sistema de Tetracordes, em que a última nota de uma tetracorde também serve como a primeira nota da próxima tetracorde. Hoje em dia, o termo tetracorde é usado para qualquer segmento de escala ou série tonal de quatro notas. Por conta desse tipo de segmento de escala ou série tonal, muitas músicas folclóricas armênias são construídas em cima de uma escala teoricamente infinita.

A Armênia tem uma longa tradição musical, primeiramente estudada, coletada e desenvolvida por Komitas, um proeminente padre e musicista (compositor, regente de coral e cantor), no final do século XIX e início do século XX. Komitas nasceu em 26 de setembro de 1869 e morreu em 22 de outubro de 1935, depois de ser uma das vítimas do genocídio armênio, sendo considerado um dos seus principais mártires. Por conta da sua dedicação aos estudos musicais, Komitas é considerado o fundador da Escola Nacional Armênia de Música, e é reconhecido como um dos pioneiros da etnomusicologia.

A música armênia clássica, os gêneros de coral e músicas solo começaram a se desenvolver a partir da segunda metade do século XIX. A criação da primeira ópera armênia, “Arshak II“, em 1868, por Tigran Chukhadzhyan, tem considerável importância histórica, e um cartão-postal comemorativo foi impresso e veiculado em Yerevan em 19 de julho de 2018. A ópera “Anush”, de 1912, escrita por Armen Tigranyan, inaugura uma nova tendência estilística no teatro musical armênio. Por sua vez, a ópera “Almast”, de 1923, escrita por Alexander Spendiarov, foi apresentada pela primeira vez no Teatro Bolshoi de Moscou em 1930. Os balés armênios “Gayane”, de 1942, e “Spartacus”, de 1956, compostos por Aram Khachaturian, ocupam um lugar especial nos clássicos mundiais. Aram Khachaturian é homenageado em Yerevan ao emprestar seu nome ao principal salão de concertos da capital da Armênia.

Na sua tradição musical, a Armênia tem até mesmo seu instrumento genuíno: o duduk, que aos olhos dos desavisados parece uma flauta, mas produz um som diferente e muito potente (principalmente se considerarmos seu tamanho pequeno) por conta da sua construção de único cilindro. O duduk pode ser encontrado, com variações, em outras regiões do Cáucaso e também no Oriente Médio. Este instrumento é comumente tocado em duplas: enquanto um músico toca as melodias, o outro instrumentista toca o dum, um zumbido constante, e os dois duduks juntos criam um som mais rico. A UNESCO proclamou o duduk armênio e sua música como Obra Prima do Patrimônio Imaterial da Humanidade em 2005, tornando o título oficial no ano de 2008. O duduk já foi utilizado, inclusive, na trilha sonora de filmes, entre eles o filme de grande sucesso “Gladiador” (dirigido por Ridley Scott e com Russell Crowe no papel principal).

Em 20 de janeiro de 1933, a cortina da Yerevan Opera House se ergueu pela primeira vez. Idealizada por Alexander Tamanyan, o Teatro de Ópera e Balé é uma obra-prima arquitetônica, que recebeu diversos prêmios pelo mundo, inclusive o prêmio principal da exibição internacional de Paris em 1937. Ao longo de muitas décadas de história, a Ópera de Yerevan recebeu e continua recebendo estrelas internacionais da ópera, companhias de balé de prestígio e músicos reconhecidos no mundo inteiro, que se apresentam orgulhosamente no palco do principal teatro armênio. A música armênia foi apresentada internacionalmente principalmente pelos compositores Aram Khachaturian, Alexander Arutiunian, Arno Babadjanian, Karen Kavaleryan. Além destes artistas clássicos, músicos populares divulgam a tradição da música armênia, entre eles Djivan Gasparian (que faz sucesso pelo mundo apresentando-se com o duduk), a instrumentista e compositora Ara Gevorgyan, os cantores Sirusho e Eva Rivas, entre outros.

*texto de minha autoria originalmente publicado no site Brasileiras pelo Mundo

Visitando a fábrica de Oskar Schindler em Cracóvia

Quem é que não conhece A Lista de Schindler, dirigido por Steven Spielberg? O filme de 1993, ganhador do Oscar de Melhor Filme bem como do Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama em 1994 foi inspirado pela história real de Oskar Schindler (28 abril 1908 – 09 outubro 1974), um alemão industrialista e membro do partido nazista, que salvou a vida de 1.200 judeus durante o Holocausto, ao empregá-los na sua fábrica de metais e armamentos na Polônia ocupada e nos protetorados de Bohemia e Moravia. Oskar Schindler é o objeto do livro Schindler’s Ark (1982), que foi adaptado para o cinema sob a direção de Spielberg, refletindo sua trajetória como um oportunista primeiramente motivado pelo lucro, e que depois passou a mostrar extraordinárias características de iniciativa, tenacidade, coragem e dedicação em salvar a vida dos seus empregados judeus.

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Uma vez em Cracóvia, não podíamos perder a chance de visitar a fábrica da memória, o Fabryka Schindlera oddział – Muzeum Historycznego Miasta Krakowa. Outrora sede da Deutsche Emailwarenfabrik de Schindler, hoje as instalações abrigam a exposição permanente “Kraków under Nazi Occupation 1939–1945” no endereço da rua Lipowa 4. Esta exibição conta a história de Cracóvia e seus habitantes judeus e poloneses durante a Segunda Guerra Mundial, bem como dos alemães nazistas que ocuparam a cidade a partir de 6 de setembro de 1939, interrompendo de maneira brutal a história de relações entre judeus e poloneses que durava muitos séculos. Neste sentido, a História da Segunda Guerra Mundial se confunde com a vida diária, e os dramas pessoais de cada indivíduo se sobrepõem às tragédias que afetaram todo o mundo.

A história da Deutsche Emailwarenfabrik nos anos da guerra é apresentada na exibição como pano de fundo da história de vida dos judeus de Cracóvia que foram salvos por Oskar Schindler no contexto do complexo período.

As atitudes heróicas de Oskar Schindler são mostradas detalhadamente no seu antigo escritório, mantido intacto ao longo dos anos. A exibição proporciona aos visitantes uma experiência cronológica da história, apresentando as tragédias da guerra nas dimensões individual e coletiva, retratando também a vida cotidiana da cidade de Cracóvia ocupada pelos alemães nazistas, imortalizada em objetos diversos, fotografias, jornais, documentos pessoais e documentos oficiais.

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Por conta da maneira como foi concebida e organizada, a exibição convida o visitante a viver a história, de uma maneira quase teatral, respeitando a narrativa. As reconstruções do espaço histórico da cidade de Cracóvia se justapõem a instalações metafóricas que abraçam a história do período da guerra.

Os visitantes, então, passeiam pela cidade reconstruída, andando pelas ruas e encontrando ambientes recriados com fiel perfeição, embarcando num bondinho para assistir a um documentário que mostra a vida cotidiana da cidade no período da guerra, caminhando pelas ruas estreitas do Gueto Judaico para visitar um típico apartamento, chegando ao campo de concentração de Płaszów junto com os judeus.

Os cinco principais pontos da história da cidade são marcados pelas “máquinas da memória” onde cada visitante pode obter um selo comemorativo associado a cada evento histórico, proporcionando aos visitantes a oportunidade de produzirem seus próprios souvenires.

Os ingressos individuais custam 24 Zloty (aproximadamente 24 reais), e é altamente recomendável comprá-los online, já que há um número limitado de ingressos por dia. Os horários de funcionamento variam de acordo com a época do ano: entre novembro e março, o museu funciona às segundas-feiras entre 10am e 2pm, com entrada gratuita, e de terças-feiras aos domingos entre 10am e 6pm; entre abril e outubro, o museu funciona às segundas-feiras entre 9am e 4pm, com entrada gratuita na primeira segunda-feira de cada mês quando fica aberto até 2pm, e de terças-feiras aos domingos entre 9am e 8pm, fechando na primeira quinta-feira de cada mês. A última admissão é sempre 90 minutos antes do fechamento do museu, e os horários atualizados de funcionamento podem ser conferidos aqui.

O Castelo Real de Wawel em Cracóvia

Cracóvia é uma cidade super fofa e charmosa, e certamente foi uma das que mais gostamos de conhecer na nossa road trip pelo Leste Europeu! Pra começar a contar um pouco mais do que conhecemos por lá, resolvi escrever sobre o Castelo Real de Wawel, que fica na Cidade Velha (ou Centro Histórico) de Cracóvia e é patrimônio cultural da UNESCO desde 1978.

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Construído sob ordens do Rei Casemiro III o Grande, o Castelo Real de Wawel consiste em diversas construções situadas em torno de um jardim central de características italianas. Um dos maiores castelos da Polônia, ele reúne quase todos os estilos arquitetônicos europeus dos períodos medieval, do renascimento e barroco. A Colina de Wawel e o Castelo Real de Wawel constituem o lugar mais significativo histórica e culturalmente da Polônia.

Por muitos séculos, o Castelo de Wawel foi a residência dos reis da Polônia e símbolo da governância polonesa. Hoje, o Castelo é aberto ao público como um dos principais museus de arte da Polônia. Criado em 1930, o museu compreende 10 departamentos de curadoria, responsáveis por pinturas (inclusive obras italianas do período renascentista), impressões, esculturas, têxteis (entre eles, a coleção de tapeçaria de Sigismund II Augustus), trabalhos de ourives, armas e armaduras, cerâmicas, porcelanas, e móveis antigos. O acervo do museu de arte oriental inclui a maior coleção de tendas Otomanas da Europa.

Não é permitido fotografar os aposentos reais, museus ou mesmo dentro de qualquer uma das edificações. Os ingressos para as exibições no Castelo de Wawel tem horários marcados, e é possível adquiri-los no portão de Herbowa. Os preços dos ingressos variam de acordo com as exibições escolhidas.

O significado da morte de Charles Aznavour para os armênios

Charles Aznavour, batizado Shahnour Vaghinag Aznavourian, nasceu em 22 de maio de 1924. Aznavour era um cantor, compositor, ator, ativista e diplomata franco-armênio. Conhecido pela sua voz única de tenor, sua carreira de mais de 70 anos rendeu mais de 1200 canções, interpretadas em oito línguas.

Para ele mesmo e para outros cantores, ele escreveu ou foi coautor de mais de mil canções, e Aznavour foi um dos cantores franceses mais populares e de carreira mais longeva. Em 1998, o cantor e compositor foi nomeado “Entertainer of the Century” pela CNN e pelo público da Time Online. Em 24 de agosto de 2017, Aznavour recebeu uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood. Seu último concerto foi no dia 17 de setembro de 2018, na cidade de Tóquio. No dia 01 de outubro de 2018, foi anunciado que ele faleceu em sua casa, na vila de Mouriès no sul da França.

Sem dúvidas, Charles Aznavour foi o armênio mais famoso desta era, e a morte de Charles Aznavour tem um peso enorme para os armênios. Aznavour cantou para presidentes, para papas e para a realeza, do mesmo modo que cantou em eventos humanitários. Em resposta ao terremoto de 1988 na Armênia, ele fundou a organização de caridade “Aznavour pour l’Arménie” junto de Levon Sayan, empresário armênio e seu amigo de longa data.

Aznavour esteve sempre ativamente envolvido na política francesa, na política armênia e na política internacional. Em novembro de 2000, ele assumiu o cargo de Ministro da Cultura da França. Em 12 de fevereiro de 2009, ele foi indicado Embaixador da Armênia para a Suíça, bem como delegado permanente da Armênia junto à Organização das Nações Unidas em Genebra, acumulando a função com aquela que já desempenhava como “ambassator-at-large” da França junto à Armênia.

Desde o terremoto de 1988 (conhecido como terremoto Spitak), Aznavour ajudou a Armênia por meio da sua organização. Com seu cunhado Georgers Garvarentz, escreveu a canção “Pour toi Arménie”, que foi gravada por um grupo de famosos artistas franceses e ficou no topo das paradas musicais por 18 semanas.

No centro de Yerevan, há uma praça que leva o seu nome na rua Abovyan, e uma estátua em sua homenagem foi erguida em Gyumri (a 2ª maior cidade da Armênia), que teve o maior número de mortes quando do terremoto. Em 2011, o Museu Charles Aznavour foi inaugurado em Yerevan, ocupando um lugar nobre na cidade, no topo do Cascade.

Em 1995, Charles Aznavour foi indicado como Embaixador e Delegado Permanente da Armênia junto à UNESCO. Aznavour era membro do Armenia Fund International Board of Trustees, e a organização rendeu mais de US$150 milhões em ajuda humanitária e assistência para desenvolvimento de infraestrutura para a Armênia desde 1992. Em 2004, Charles Aznavour recebeu o título de Herói Nacional da Armênia, que é a maior honraria armênia. Em 26 de dezembro de 2008, o então Presidente da Armênia Serzh Sargsyan assinou um decreto presidencial que dava a Aznavour cidadania armênia, reconhecendo a proeminência de Aznavour como cantor e figura pública, e que ele era um herói para o povo armênio.

Em abril de 2016, Aznavour visitou a Armênia para participar da cerimônia Aurora Prize Award. Em 24 de abril, dia em que é celebrada a memória do genocídio, Charles Aznavour depositou flores no Memorial do Genocídio, ao lado de Serzh Sargsyan, do Católico de Todos os Armênios Sua Santidade Garegin II, e do ator George Clooney. Charles Aznavour escreveu uma música sobre o genocídio armênio, chamada “Ils sont tombés”.

O Presidente francês Emmanuel Macron, ao expressar suas condolências, reconheceu a conexão de Aznavour com suas raízes armênias. Por sua vez, o Ministro das Relações Exteriores da Armênia, Zohrab Mnatsakanyan, também expressou suas condolências sobre a morte de Charles Aznavour, dizendo que ele era um dos grandes tesouros do mundo, uma lenda, filho dos povos armênio e francês. Mnatsakanyan ainda disse que Charles Aznavour emocionava os corações de muitas gerações em todos os cantos do mundo.

O Primeiro Ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, lamentou a morte de Charles Aznavour, destacando que é difícil acreditar que um homem que moldou um século e a história ao servir o seu povo, e que dizia que era 100% francês e 100% armênio, não está mais entre nós. O Primeiro Ministro Pashinyan disse que o dia 01 de outubro era um dia verdadeiramente doloroso para o povo armênio e para o país.

Pashinyan destacou que a morte de Aznavour era uma perda universal, já que ele foi um homem que criou valores universais e acompanhou a humanidade rumo ao amor e à solidariedade. Aznavour era a personificação das relações entre a França e a Armênia, estreitando os laços entre os dois países.

Aro Babloyan, em nome da Assembleia Nacional da Armênia, destacou que a Armênia e todos os armênios se despediam do maior armênio que já existiu e que permanecerá na memória de muitas gerações não apenas por causa das suas canções, mas também pelas suas atividades públicas e humanitárias. Babloyan disse que toda a Armênia está de luto junto aos familiares e amigos de Charles Aznavour. E isso foi personificado em uma vigília iluminada por velas em memória ao herói nacional da Armênia que aconteceu na Praça Aznavour em Yerevan, reunindo a população armênia que quis homenagear esta figura tão importante para o país.

Հայոցգրեր, o alfabeto armênio

O alfabeto armênio (em armênio: Հայոցգրեր) é o sistema de escrita usado para escrever a língua armênia. O alfabeto armênio como se conhece hoje foi desenvolvido por volta de 405 d.C. por Mesrop Mashtots, linguista armênio e líder eclesiástico. A palavra armênia para “alfabeto” é “այբուբեն” (lê-se: aybooben), criada a partir das duas primeiras letras do alfabeto armênio: “Ա” e “Բ”. A língua armênia é escrita horizontalmente, da esquerda para a direita.

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Uma das principais histórias sobre a existência de um alfabeto armênio antes do desenvolvimento do linguista Mashtots vem de Fílon de Alexandria (20 a.C. – 50 d.C.), que, nos seus registros, nota que o trabalho do filósofo e historiador grego Metrodorus de Scepsis (145 a.C. – 70 a.C.), “Sobre os Animais”, foi traduzido para o armênio. Metrodorus foi um amigo próximo e historiador da corte do Imperador Tigranes o Grande, e também escreveu a sua biografia. Outro teólogo romano do século III, Hippolytus de Roma (170-235 d.C.), em sua obra “Crônica”, menciona que os armênios estão entre as nações que tinham seu próprio alfabeto distinto ao escrever sobre a sua contemporaneidade. Filóstrato o Ateniense, filósofo sofista dos séculos II e III, escreveu sobre inscrições no alfabeto armênio.

De acordo com Movses Khorenatsi, historiador armênio do século V, Bardesanes de Edessa (154-222 d.C.), que fundou a corrente gnóstica dos Bardaisanites, foi até o castelo armênio de Ani e, lá, leu o trabalho de Voghyump, um sacerdote armênio pré-cristão, registrado no manuscrito de Mithraic dos templos armênios nos quais, entre outras histórias, notava-se o episódio do Rei Armênio Tigranes VII (que reinou entre 144-161 d.C. e novamente entre 164-188 d.C.) erguendo um monumento na tumba do seu irmão, o Alto Sacerdote Mithraic do Reino da Grande Armênia, Mazhan. Khorenatsi notou que Bardesanes traduziu este livro armênio para o aramaico, e depois para o grego. Outra importante evidência da existência de um alfabeto armênio antes de Mashtots é o fato de que o panteão pagão armênio incluiu Tir, o deus da Escrita e da Ciência.

Vardan Areveltsi, historiador armênio do século XIII, notou que, durante o reinado do Rei Armênio Leo o Magnífico (entre 1187 e 1219), foram encontrados artefatos com inscrições em armênio sobre os deuses pagãos antigos. A evidência de que os acadêmicos armênios da Idade Média sabiam da existência de um alfabeto pré-Mashtotsiano também pode ser encontrada em outros trabalhos medievais, incluindo o primeiro livro escrito com o alfabeto Mashtotsiano pelo pupilo de Mashtots, Koriwn, na primeira metade do século V. Koriwn revela que Mashtots foi instruído sobre a existência de letras armênias antigas, que ele inicialmente tentava integrar ao seu próprio alfabeto.

O alfabeto armênio foi introduzido por Mersrop Mashtots e Isaac da Armênia (Sahak Partev) em 405 d.C. As fontes armênias medievais também alegam que Mashtots inventou os alfabetos georgiano e caucasiano-albaniano na mesma época. Entretanto, a maioria dos acadêmicos relaciona a criação dos manuscritos georgianos ao processo de cristianização da Ibéria, centro do reino georgiano de Kartli. O alfabeto foi, portanto, muito provavelmente criado entre a conversão da Ibéria sob o Rei Mirian III e as inscrições Bir el Qutt de 430 d.C., contemporaneamente ao alfabeto armênio. Tradicionalmente, acredita-se que a primeira frase a ter sido escrita em armênio por Mashtots seja “Para se conhecer a sabedoria e a instrução; para se entenderem as palavras da prudência” (Provérbios 1, 2).

Muitos manuscritos foram creditados como protótipos do alfabeto armênio. Pahlavi era o manuscrito sacerdotal em armênio antes da introdução do cristianismo, e siríaco, junto do grego, foi um dos alfabetos da Escritura Cristã. O armênio mostra algumas similaridades com estes alfabetos, mas o consenso geral é de que o alfabeto armênio foi modelado de acordo com o alfabeto grego, suplementado com letras de diferentes fontes para sons armênios que não são encontrados no grego. Algumas evidências sustentam este argumento: a ordem do alfabeto armênio, o conector ow para a vogal u, e as formas de algumas letras que parecem derivar das letras cursivas gregas.

Existem quatro principais caligrafias dos manuscritos. Erkatagir, ou “letras de ferro”, são como as letras originais de Mashtots, usadas nos manuscritos entre os séculos V e XIII, e ainda escolhidas para inscrições epigráficas. Bolrgir, ou “cursiva”, que foi inventada no século X, ficou popular no século XIII, e tem sido a impressão padrão desde o século XVI. Notrgir, ou “minúscula”, inventada inicialmente para ter mais agilidade, foi extensivamente usada pela diáspora armênia nos séculos XVI e XVIII, e depois se tornou popular nas impressões. Sheghagir, ou “escrita inclinada”, é, agora, a forma mais comum.

O exemplo mais antigo sobre o uso do alfabeto armênio foi uma dedicatória inscrita sobre a porta oeste da Igreja de São Sarkis em Tekor, datada 480 d.C. O exemplo vivo mais antigo desses manuscritos fora da Armênia é uma inscrição num mosaico da metade do século XI numa capela em Jerusalém. Agora na Biblioteque Nationale de France, um papiro descoberto em 1892 em Fayyum, contendo palavras gregas escritas com letras armênias foi datado, em termos históricos, para um período anterior a conquista do Egito – ou seja, antes de 640 d.C. – e em termos paleográficos ao século VI. Os mais antigos manuscritos com letras armênias na língua armênia datam dos séculos VII/VIII.

Algumas mudanças na língua não foram refletidas imediatamente na ortografia. O dígrafo աւ(au) seguido por uma consoante era pronunciado como “au” no armênio clássico mas, por conta de uma mudança de sons, passou a ser pronunciado como “o”, e tem sido escrito como “o” desde o século XIII. Por exemplo, a palavra“աւր” (lê-se “awr” e significa “dia”) passou a ser pronunciada “or” e agora é escrita “օր”. Por essa razão, hoje, há palavras armênias nativas que começam com a letra “o” embora esta letra tenha sido adaptada do alfabeto grego para escrever palavras estrangeiras que começavam com “o”.

O número e ordem das letras foram modificados com o tempo. Na Idade Média, duas novas letras (օ [o], ֆ [f])foram introduzidas para melhor representar sons estrangeiros, o que aumentou o número de letras de 36 para 38. Entre 1922 e 1924, a Armênia Soviética adotou uma reforma ortográfica da língua armênia: a reforma transformou o dígrafo “ու” e o conector “և” em duas novas letras. Aqueles fora da esfera soviética (incluindo os armênios ocidentais e os armênios orientais do Irã) rejeitaram as reformas ortográficas, e continuam usando a ortografia tradicional armênia, enquanto criticam alguns aspectos das reformas e alegam motivações políticas por trás delas.

O alfabeto armênio é celebrado em Yerevan na avenida Mesrop Mashtots, que homenageia o linguista armênio, e que também abriga o Mesrop Mashtots Institute of Ancient Manuscripts, também conhecido como Matenadaran.

Auschwitz-Birkenau, memória viva do Holocausto

Já estamos em Budapeste! Estávamos em Cracóvia até anteontem, dormimos uma noite em Brno (a 2a. maior cidade da República Tcheca), e chegamos hoje na Hungria! Quem está acompanhando #letíciadeférias no instagram está vendo todas as nossas aventuras em tempo real (ou quase!). Mas é claro que não vou deixar de escrever detalhes sobre o que estamos fazendo por aqui!

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a famosa entrada do campo de concentração Auschwitz I, com os dizeres “arbeit macht frei” (o trabalho liberta)

Enquanto estávamos em Cracóvia, fomos visitar os campos de concentração e exterminação nazista Auschwitz-Birkenau, que ficam a cerca de 65km do centro de Cracóvia. Mesmo tendo alugado um carro pra essa viagem (já passamos dos 1000km!), optamos por fazer o tour guiado com a empresa Escape2Poland. Foi uma visita muito emocionante e intensa.

Auschwitz se tornou um símbolo do terror, do genocídio e do Holocausto. Foi criado em 1940 pelos alemães nos subúrbios de Oswiecim, uma cidade polonesa que tinha sido anexada ao Terceiro Reich pelos Nazistas. O seu nome foi modificado para Auschwitz, que também se tornou o nome do campo de concentração (Konzentrationslager Auschwitz). A principal razão para criação desse campo de concentração foi o aumento das prisões em massa dos poloneses, que excediam as capacidades das prisões locais existentes. O primeiro transporte de poloneses chegou até Auschwitz da prisão de Tarnów em 14 de junho de 1940. Inicialmente, Auschwitz seria mais um dos campos de concentração que os nazistas estavam estabelecendo desde o começo da década de 1930, funcionando de acordo com seu papel por todos os anos em que foi usado, mesmo quando, em 1942, se tornou o maior dos campos de extermínio.

O primeiro e mais antigo campo de concentração e extermínio era o chamado “campo principal”, mais tarde conhecido como Auschwitz I (o número de prisioneiros flutuava em torno de 15 mil, às vezes ficando acima de 20 mil), estabelecido nas terras e prédios dos quartéis pré-guerra.

A segunda parte era o campo de Birkenau (que abrigou mais de 90 mil prisioneiros em 1944), também conhecido como Auschwitz II. Este era o maior terreno do complexo de Auschwitz. Os nazistas começaram a construí-lo em 1941 na vila de Brzezinka, a 3km de Oswiecim. A população civil polonesa foi despejada, e suas casas confiscadas e demolidas. A maior parte do aparato de exterminação em massa foi construído em Birkenau, e a maioria das vítimas era assassinada ali: 1 em cada 6 vítimas do Holocausto foi morta neste campo de concentração.

Mais de 40 sub-campos, explorando os prisioneiros e trabalhadores escravos, foram fundados, muitos na forma de diversas indústrias e fazendas alemãs, entre 1942 e 1944. O maior deles era chamado Buna (Monowitz, com 10 mil prisioneiros) e foi aberto pela administração do campo em 1942 nas terras de Buna-Werke à 6km do campo de Auschwitz. Em novembro de 1943, o sub-campo de Buna se tornou o centro de comando da terceira parte do campo, Auschwitz III, ao qual alguns outros sub-campos de Auschwitz eram subordinados.

Os alemães isolaram todos os campos e sub-campos do mundo exterior, e os cercavam com arame farpado. Todo contato com o mundo exterior era proibido. Entretanto, a área administrada pelo comandante e patrulhada pela tropa da SS ia além das terras cercadas por arame farpado, incluindo uma área adicional de aproximadamente 40 quilômetros quadrados (a chamada “Interessengebiet”, a área de interesse), que fica em torno dos campos de Auschwitz I e Auschwitz II-Birkenau.

A população local, os poloneses e judeus vivendo perto do campo recém-fundado, foi despejada entre 1940-1941. Aproximadamente mil das suas casas foram demolidas. Outros prédios foram designados para oficiais e oficiais não-comissionados da tropa da SS do campo, que as vezes estavam acompanhados de todos das suas respectivas famílias. As instalações industriais do pré-guerra na área, tomada pelos alemães, era expandida em alguns casos e, em outro, demolidas para abrir espaço para novas instalações associadas às necessidades militares do Terceiro Reich. A administração do campo usava a zona em torno dele para apoio técnico, workshop, depósitos, escritórios e quartéis para a SS.

Ao chegar no campo de concentração de Auschwitz, os prisioneiros eram selecionados entre aqueles aptos para trabalhar, e aqueles que sediam mortos imediatamente. Os médicos pediam aos prisioneiros que deixassem seus pertences, e entregavam a eles um sabonete para que fossem “tomar banho”; os prisioneiros eram, então, encaminhados para as câmaras de gás. Outros prisioneiros eram assassinados por meio de injeções letais. Estas práticas tinham sido suspendidas temporariamente durante a primavera de 1943, mas foi retomada em seguida para matar prisioneiros judeus.

Registros documentais dos Campos (Zugangslisten Jugen) indicam que, dos 973 judeus provindos da Eslováquia em 17/abril/1942, apenas 88 ainda estavam vivos menos de 4 meses depois. A maioria dos prisioneiros judeus tinha o mesmo destino; eles constituíam a categoria mais baixa na população multiétnica do campo de concentração, que também consistia de poloneses, russos, tchecos, bielorrussos, alemães, franceses, iugoslavos, ucranianos, entre tantas outras nacionalidades e minorias como homossexuais, ciganos, testemunhas de Jeová, etc.

As punições eram aplicadas em Auscwitz de acordo com ordens escritas do comandante ou do diretor do campo, bem como por relatórios dos oficiais da SS e prisioneiros funcionários. As infrações mais comumente punidas incluíam todos os tipos de tentativas de conseguir comida, várias formas de tentar fugir do trabalho ou trabalho de forma insatisfatória, fumar ou até mesmo atender às necessidades fisiológicas em horas impróprias, usar roupas diferentes dos uniformes, ou tentativas de suicídio. As punições eram completamente arbitrárias. Os prisioneiros recebiam penas diferentes para as mesmas infrações. As punições mais frequentes eram as flagelações, confinamento no bloco 11 do campo principal, e tortura por enforcamento.

A participação de inúmeros médicos alemães em experimentos médicos criminosos nos prisioneiros dos campos de concentração era uma instância particularmente drástica do atropelo da ética médica. Os iniciadores e facilitadores destes experimentos eram o Reichsführer SS Heinrich Himmler, o médico chefe, junto do SS-Obergruppenführer Ernst Grawitz, o chefe de polícia, e do SS-Standartenführer Wolfram Sievers, o secretário geral da Associação de Herança (Ahnenerbe Association) e diretor do Waffen SS Instituto Militar-Científico de Pesquisa.

O SS-WVHA (Escritório Principal de Economia e Administração da SS, responsável pelos campos de concentração desde março de 1942) tinha autoridade administrativa e financeira. O apoio na forma de estudos analíticos especializados veio do Waffenn SS Instituto de Higiene, dirigido pelo SS-Oberführer Joachim Mrugowsky, professor mestre de bacteriologia na Escola de Medicina da Universidade de Berlim.

Os experimentos eram planejados nos mais altos níveis para atender às necessidades do exército (alguns pretendiam melhorar a saúde dos soldados) ou planos pós-guerra (incluindo políticas populacionais), ou para reforçar as bases da ideologia racial (incluindo visões avançadas quando à superioridade da “raça nórdica”). Além dos experimentos planejados nos níveis mais altos, muitos médicos nazistas experimentavam nos prisioneiros em nome das companhias farmacêuticas ou institutos médicos alemães. Outros o faziam por interesse pessoal, ou para avançar em suas carreiras acadêmicas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os médicos nazistas se apoiavam nas expectativas das lideranças do Terceiro Reich, apoiando as políticas demográficas do regime. Eles iniciaram uma ampla pesquisa em métodos de esterilização em massa que seriam aplicados aos povos que eram vistos como inferiores.

Quando o Exército Vermelho chegou à linha de Vistula-Wisłoka em julho/agosto de 1944, a menos de 200km de Oświęcim, a liderança germânica considerava duas opções para o campo: liquidação, no caso de sucesso contínuo do Exército Vermelho, ou manter o campo de pé sob circunstâncias favoráveis. Os alemães, então, começaram uma série de passos de evacuação/liquidação, que durou até o meio de janeiro de 1945, mas evitaram fazer qualquer coisa que pudesse impedir que o campo continuasse funcionando.

Na segunda metade de 1944 e nas duas primeiras semanas de janeiro de 1945, cerca de 65 mil prisioneiros, incluindo quase todos os poloneses, russos e tchecos que restavam no campo (cerca de 15 mil homens e mulheres) foram evacuados para várias plantas industriais nas profundezas do Reich. Entretanto, cerca de 65 mil outros prisioneiros foram mantidos em Auschwitz até o último segundo. A maioria deles foi empregada nas plantas da região industrial da Silesia do Norte e outros centros próximos que eram importantes para manter o potencial de guerra germânico. Em dezembro de 1944, oficiais germânicos da indústria química se encontraram em Katowice para discutir meios de aumentar a produtividade dos prisioneiros de Auschwitz que trabalhariam nas suas plantas industriais no ano seguinte. No começo de janeiro, poucas semanas antes do Exército Vermelho chegar até o norte da Silesia, o trabalho continuou a equipar o recém-fundado sub-campo de Hubertshütte, num moinho de aço em Bytom-Łagiewniki.

A exterminação em massa dos judeus nas câmaras de gás terminou em novembro de 1944. A maioria dos prisioneiros judeus que trabalhavam no crematório e nas câmaras de gás foram liquidados em setembro, outubro e novembro como testemunhas da exterminação. Mais de 400 judeus morreram durante um motim realizado por uma equipe do crematório (Sonderkommando) em 7 de outubro de 1944. Muitos membros do Sonderkommando foram mantidos vivos até a liquidação final do campo.

O Crematório IV, avariado durante o motim do Sonderkommando, foi destruído no fim de 1944. Em novembro e dezembro, os alemães fizeram preparações para explodir os outros 3 prédios de crematórios. Eles desinstalaram o equipamento técnico das câmaras de gás e o salão de fornalha dos crematórios II e III, e enviaram a maioria desses equipamentos para as profundezas da Alemanha. Entretanto, deixaram o crematório V e suas câmaras de gás funcionando até a segunda metade de janeiro de 1945.

Ao fim de 1944, como parte dos esforços de remover as evidências dos crimes cometidos em Auschwitz, eles rapidamente liquidaram os fossos cheios de cinzas humanas (os fossos onde eles queimavam corpos e outros onde eles despejavam as cinzas dos crematórios) em Auschwitz-Birkenau. Eles intensificaram a rotina de destruição dos registros que não eram mais necessários, incluindo arquivos e listas de prisioneiros. Eles também passaram a queimar as listas com os nomes dos judeus deportados para morrer em Auschwitz.

Nos últimos meses em que o campo de concentração de Auschwitz esteve em operação, os alemães enviaram uma grande quantidade de material de construção e itens saqueados dos judeus vítimas das exterminações em massa. Na metade de janeiro de 1945, pouco antes da ofensiva Vistula-Oder do Exército Vermelho, os alemães começaram a evacuação final e liquidação do campo.

Entre 17 e 21 de janeiro, os alemães marcharam aproximadamente 56 mil prisioneiros para fora de Auschwitz e seus sub-campos nas colunas de evacuação, em sua maioria na direção oeste, pela Silesia do norte e do sul. 2 dias depois, eles evacuaram 2 mil prisioneiros em trens dos sub-campos de Świętochłowice e Siemianowice. As principais rotas de evacuação levavam a Wodzisław Sląski e Gliwice, onde as muitas colunas de evacuação eram fundidas em transportes ferroviários. Do sub-campo de Jaworzno, 3.200 prisioneiros fizeram uma das maiores marchas: 250km até o Campo de Concentração Gross-Rosen na Silesia do sul.

As colunas de evacuação deveriam ser formadas somente pelas pessoas saudáveis com força suficiente para marchar muitos quilômetros. Entretanto, na prática, prisioneiros doentes e enfraquecidos também se voluntariaram, porque pensaram (e com alguma razão) que os alemães iriam matar aqueles que ficassem pra trás. Crianças judias e polonesas também marcharam com os adultos.

Ao longo de todas as rotas, os guardas da SS atiravam nos prisioneiros que tentavam escapar e aqueles que estavam fisicamente exaustos para continuar no mesmo ritmo dos seus companheiros desafortunados. Milhares de corpos dos prisioneiros que foram assassinados ou que morreram de fatiga ou exposição ao frio ficavam alinhados ao longo das rotas por onde todos os outros prisioneiros passavam a pé ou de trem. Apenas na Silesia do norte, cerca de 3 mil prisioneiros morreram. Estima-se que pelo menos 9 mil (e mais provavelmente 15 mil) prisioneiros de Auschwitz perderam suas vidas nas operações de evacuação. Depois da guerra, estas rotas ficaram conhecidas como “Marchas da Morte”. Um dos poucos documentos nazistas existentes sobre as Marchas da Morte é um relatório da SS de 13 de março de 1945 na chegada no campo de Leitmeritz na Boêmia, de 58 prisioneiros evacuados do sub-campo Hubertushütte de Auschwitz. O relatório indica que 144 prisioneiros (a maioria judeus) morreram na rota.

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Massacres de prisioneiros aconteceram em alguns lugares ao longo das rotas de evacuação. Na estação de trem Leszczyny/Rzędówka perto de Rybnik, na noite de 21 para 22 de janeiro de 1945, um trem carregando cerca de 2.500 prisioneiros de Gliwice parou. Na tarde de 22 de janeiro, os prisioneiros receberam a ordem de desembarcar. Alguns deles estavam muito exaustos para fazê-lo. Homens da SS da comitiva e a polícia nazista local dispararam tiros contra as portas abertas dos vagões dos trens. Os alemães então conduziram os prisioneiros remanescentes na direção oeste. Depois que eles marcharam, mais de 300 corpos de prisioneiros que tinham sido atingidos pelos tiros ou tinham morrido de exaustão foram recolhidos da estação e suas imediações. Muitos residentes poloneses e tchecos de lugarejos ao longo da rota de evacuação procuravam ajudar os prisioneiros. Em grande parte, davam a eles água e comida, e também abrigavam aqueles que conseguiam escapar.

Caminhar por aqueles lugares onde tanto sofrimento e tanto sangue foi derramado foi uma experiência indescritível, que certamente ficará marcada para sempre em mim. As consequências do nazi-fascismo parecem estar vivas até hoje em Auschwitz, para que não nos esqueçamos e jamais permitamos que este horror se repita em nenhum lugar do mundo. Fascismo nunca mais!

Monet no Albertina Museum

Quem me segue no Instagram já está acompanhando mais um período movimentado na hashtag #letíciadeférias! Passei por Paris e Londres com meus pais, depois Moscou com o marido, uma pequena paradinha de 6 dias em Yerevan e já estamos em Viena! Hoje visitamos o Albertina Museum, que inaugurou há poucos dias uma exposição temporária reunindo obras de Claude Monet (1840-1926).

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Monet é o principal representante do impressionismo, e é conhecido como o mestre da luz francês, além de ser um dos pioneiros da pintura do século XX. As cores e a luz das pinturas de Monet mudam nas telas de acordo com a transformação constante da natureza, bem como a diversidade das suas impressões atmosféricas. Monet tinha urgência em capturar a diversidade dos elementos da natureza, e isso o estimulava a criar suas séries de pinturas – por vezes, o artista pintava 4 quadros ao mesmo tempo, objetivando capturar as mudanças de iluminação e cores da maneira mais real possível!

O Museu Albertina, entre 21 de setembro de 2018 e 6 de janeiro de 2019, dedica uma ampla exibição ao tratamento que Claude Monet dava às cores, bem como à apaixonada fascinação do pintor com o jardim da sua casa em Giverny. Com o apoio do Musée Marmottan Monet, 3 pinturas do acervo do museu Albertina se juntam a diversas obras emprestadas por outros museus e coleções privadas para iluminar o desenvolvimento de Monet do realismo para o impressionismo, e em seguida para um modo de pintura em que as cores e as luzes gradualmente se separavam dos sujeitos que as refletiam. Tais pinturas abririam caminho para o expressionismo abstrato após a morte de Monet.

O ingresso para o Museu, que dá acesso à todas as galerias e exposições, custa 14 euros. O Albertina Museum está aberto todos os dias entre 10h e 18h, ficando aberto até 21h nas quartas e sextas feiras. As estações de metrô mais próximas são Karlsplatz/Oper (linhas U1, U2, U4) e Stephansplatz (linha U3).

Musée Yves Saint Laurent

Estava devendo este post faz tempo! Em março, visitei o Musée Yves Saint Laurent, inaugurado recentemente em Paris. Desde outubro de 2017, o endereço 5 avenue Marceau abriga um museu dedicado à vida e aos trabalhos desse verdadeiro artista da moda, no lugar onde, outrora, funcionava a maison de couture de Saint Laurent.

Yves Mathieu-Saint-Laurent nasceu em 1º de agosto de 1936 em Oran, na Argélia. Filho de Lucienne e Charles Mathieu-Saint-Laurent, que dirigia uma companhia de seguros e era dono de uma cadeia de cinemas. Yves e suas duas irmãs, Michèle e Brigitte, cresceram no coração da brilhante sociedade de Oran.

Yves Saint Laurent foi e permanece sendo um dos nomes mais importantes da moda mundial, tendo revolucionado o guarda-roupa feminino ao inspirar-se em peças masculinas para criar suas peças com silhuetas femininas, como no caso do trench coat, do caban, da saharienne e do smoking.

Saint Laurent também foi o primeiro couturier a abrir uma loja prêt-à-porter com seu próprio nome, a SAINT LAURENT rive gauche, em 1966, atendendo às demandas do pós-guerra numa sociedade em constante movimento.

Não se pode falar em Yves Saint Laurent e não lembrar da coleção escandalosa de 1971. Em 29 de janeiro daquele ano, Saint Laurent apresenta a coleção chamada “Libération” ou “Quarante”, inspirada pela moda dos anos 1940, marcada pela guerra. Paloma Picasso inspira o couturier, porque ela se vestia com roupas mais velhas e de brechó. Vestidos curtos, solas baixas, ombros quadrados, maquiagem borrada, referencias à Paris da época da ocupação: tudo isso foi um escândalo. Violentamente criticado pela imprensa, a coleção dá eco à corrente retrô que tomará rapidamente as ruas.

Em 1974, a maison de couture Yves Saint Laurent, situada desde a sua criação em 1961 na rue Spontini, se muda para um hôtel particulier no número 5 da avenue Marceau. Este endereço vivia de acordo com o ritmo das coleções. A maison abrigava o estúdio onde trabalhava Yves Saint Laurent com seis ou sete colaboradores, e os ateliês de couture onde as criações eram realizadas por cerca de 200 costureiros e costureiras. No piso térreo, nos salões, as clientes eram recebidas individualmente para encomendar os modelos que desejavam.

Em 7 de janeiro de 2002, Yves Saint Laurent anuncia, numa coletiva de imprensa, que ele encerrava ali a sua carreira e fecha a maison de couture. Dois anos mais tardes, depois de muitos trabalhos, a Fundation Pierre Bergé – Yves Saint Laurent abre suas portas naquele mesmo endereço, abrigando o Musée Yves Saint Laurent Paris a partir de outubro de 2017.

O Musée Yves Saint Laurent fica aberto de terças a domingos, entre 11h e 18h, com horário estendido (até as 21h) nas quintas feiras. A exposição inaugural fica até o dia 09/09, quando o museu fechará para se preparar para a exposição “L’Asie rêvée d’Yves Saint Laurent”, que será aberta ao público em 02 de outubro. Os ingressos com hora marcada custam a partir de 7 euros.

Quem foi Aram Manukyan?

Na tarde do dia 17 de julho de 2018, uma nova estátua foi inaugurada em Yerevan, com a presença do Primeiro Ministro Nikol Pashinyan, do Presidente da Armênia Armen Sarkissian, e do Patriarca da Igreja Armênia Garegin II (Catholicos of the Armenian Church). A homenagem a Aram Manukyan fica na saída da estação de metrô da Praça da República, na esquina da rua Aram, o que despertou a minha curiosidade em descobrir um pouquinho mais sobre este importante político armênio.

Aram Manukyan (19 março 1879 – 29 janeiro 1919) foi um político armênio revolucionário, membro líder do partido nacionalista Federação Revolucionária Armênia (Dashnaktsutyun). Ele é conhecido como o fundador da Primeira República da Armênia, há 100 anos.

Nos primeiros meses da Primeira Guerra Mundial, Manukyan trabalhou junto aos oficiais Otomanos em Van, uma das maiores cidades da Turquia, para diminuir as crescentes tensões até a metade de abril de 1915, quando as forças turcas sitiaram a cidade. Aram Manukyan então conduziu a auto-defesa civil de Van e, como resultado dessa empreitada, milhares de pessoas não foram deportadas nem massacradas pelo governo turco durante o genocídio armênio.

Depois da Revolução Russa e o colapso do fronte do Cáucaso em 1917-18, Aram Manukyan foi um “ditador popular” da área não-conquistada em torno da cidade de Yerevan. Em maio de 1918, ele organizou a defesa contra o avanço do exército turco, que foi efetivamente contido na Batalha de Sardarabad, prevenindo a destruição completa da nação armênia. Manukyan desempenhou um papel importante no estabelecimento da Primeira República da Armênia, e atuou como Primeiro Ministro dos Assuntos Internos. Ele morreu de febre tifóide em janeiro de 1919.

Aram Manukyan foi um advogado da autoconfiança. Ele era conhecido pela sua habilidade em unir diferentes setores da sociedade por uma causa comum. Ele é considerado por muitos acadêmicos como o fundador da Primeira República da Armênia. Durante o período soviético, ele e outros proeminentes partidários foram negligenciados. Desde 1990, tem sido feitas muitas tentativas de reviver sua memória na Armênia independente, e a inauguração desta belíssima estátua faz parte destes esforços.

A estátua foi idealizada por David Minasyan, e mostra Aram Manukyan, feito de pedra (como a maioria das estátuas e monumentos de Yerevan), envolto na bandeira da Armênia, feita em mármore.