Sergei Parajanov, o principal cineasta armênio

Sergei Parajanov é um dos principais mestres do cinema do século XX, armênio nascido na Geórgia, em 09 de janeiro de 1924. Parajanov nunca se permitiu conformar seu trabalho ao realismo socialista estrito, preferido pelas autoridades Soviéticas. Depois de estudar cinegrafia e música, Parajanov tornou-se diretor assistente dos estúdios Dovzhenko em Kiev, estreando como diretor cinematográfico em 1954. A partir daquele ano, Parajanov dirigiu inúmeros curtas-metragens e longas-metragens, todos dispensados por ele, por tê-los considerado verdadeiros lixos.

Em 1945, Parajanov viajou para Moscou e se inscreveu no departamento de direção de cinema do VGIK, uma das escolas cinematográficas mais antigas e respeitadas da Europa, estudando sob a tutela dos diretores Igor Savchenko e Aleksandr Dovzhenko.

Em 1948, Parajanov foi condenado a cinco anos de prisão por homossexualidade, que era ilegal naquela época, na União Soviética, mas foi solto sob anistia depois de três meses. Em entrevistas, amigos e parentes contestam estas acusações e as apontam como mentirosas, especulando que a punição era algum tipo de retaliação política por conta das suas visões rebeldes.

Em 1950, Sergei Parajanov casou-se em Moscou pela primeira vez, com Nigyar Kerimova, que vinha de uma família tártaro-muçulmana e converteu-se ao Cristianismo Ortodoxo Ocidental para casar-se com Parajanov, o que motivou seu assassinato por seus parentes. Depois da morte de Kerimova, Parajanov deixou a Rússia para morar em Kiev, onde produziu os documentários “Dumka”, “Mãos Douradas”e “Natalia Uzhvy” e os filmes “Andriesh” (baseado num conto de fadas do escritor moldavo Emilian Bukov), “The Top Guy” (um musical kolkhoz), “Ukrainian Rhapsody” (um melodrama de tempos de guerra), e “Flower on the Stone” (sobre um culto religioso que se infiltrava numa cidade mineradora na região de Donets Basin). Em 1956, casou-se com Svitlana Ivanivna Shcherbatiuk, e teve um filho com ela em 1958, que recebeu o nome de Suren.

O primeiro filme de Andrei Tarkovsky, “A infância de Ivan”, causou um enorme impacto na auto-descoberta de Parajanov como diretor de cinema. Mais tarde, a influência tornou-se mútua, e eles se tornaram muito amigos. Em 1965, Parajanov abandonou o realismo socialista de uma vez, dirigindo o poético “Shadows of Forgotten Ancestors”, o seu primeiro filme com completo controle criativo. Este filme recebeu inúmeros prêmios e foi relativamente bem recebido pelas autoridades Soviéticas. O Quadro Editorial de Roteiros em Goskino, na Ucrânia, exaltou o filme por juntar a qualidade poética com a profundidade filosófica do conto de Kotsiubynsky por meio da linguagem cinematográfica, qualificando o filme como um brilhante sucesso criativo do estúdio Dovzhenko. As autoridades Soviéticas concordaram em lançar o filme com sua trilha sonora ucraniana original, sem modificações ou dublagem dos diálogos para o russo, objetivando a preservação das suas características ucranianas.

Em 1964, Parajanov dirigiu “Os Cavalos de Fogo”, uma celebração rapsódia da cultura folclórica ucraniana, e o mundo passou a conhecer um talento surpreendente e idiossincrático. Assim, Parajanov inventava seu próprio estilo cinematográfico e tornava-se uma celebridade internacional. Simultaneamente à fama, seguiram-se os ataques das autoridades conservadoras da União Soviética.

Pouco tempo depois, Parajanov deixou Kiev para vir morar na Armênia, sua terra ancestral. Em 1969, ele começou a produzir “Sayat Nova”, filme considerado por muitos como seu principal trabalho, embora tenha sido filmado sob condições relativamente precárias e com um orçamento pequeno. As autoridades soviéticas intervieram e baniram “Sayat Nova” por conta do seu conteúdo supostamente inflamatório. Parajanov reeditou suas filmagens e renomeou o filme como “A Cor da Romã”, que foi ainda mais inovadora, explorando a arte e a poesia da sua terra nativa Armênia com uma série de incríveis e belíssimas imagens, e aclamado por críticos como Alexei Korotyukov e Mikhail Vartnov.

Mas, àquela altura, as autoridades Soviéticas já não suportavam mais tanta ousadia. Somando-se ao fato de que Parajanov não se conformava ao estilo artístico realista da União Soviética, seu estilo de vida e comportamento controversos fez com que as autoridades Soviéticas condenassem Parajanov repetidas vezes e censurassem seus filmes. Quase todos os filmes e projetos de Parajanov entre 1965 e 1973 foram banidos ou encerrados pelas administrações cinematográficas Soviéticas, tanto locais (em Kiev e Yerevan) e federal. Parajanov foi preso em 1973 sob acusações de homossexualidade, estupro, suborno e tráfico ilegal de ícones religiosos.

Parajanov foi preso três vezes, e a última delas foi em 1982. Mesmo depois de ser liberto, ele continuou sendo persona non grata no cinema Soviético. Com a chegada da Perestroika e o relaxamento político, ele voltou a trabalhar como diretor e conseguiu produzir “A Lenda da Fortaleza Suram” em 1985, contando com a ajuda e influência do ator georgiano Dodo Abashidze e de outros amigos. Parajanov ainda dirigiu “O Trovador Kerib” em 1988, e A Confissão, que tornou-se conhecida como “A Última Primavera”, lançada em 1992.

A saúde de Parajanov ficou seriamente comprometida pelos quatro anos de trabalho forçado e mais nove meses na prisão em Tbilisi. “A Última Primavera” foi sua última obra, conhecida pelo público dois anos depois da sua morte na Armênia em 20 de julho de 1990, vítima de câncer de pulmão. Naquela época, suas obras estavam voltando a ser conhecidas pelo público, apresentadas em grandes festivais internacionais. Os filmes da Parajanov foram premiados no Festival de Cinema de Mar del Plata, no Festival Internacional de Cinema de Istambul, no Nika Awards, no Festival Internacional de Cinema de Rotterdam, no Festival Internacional de Cinema de Sitges – Catalan, no Festival Internacional de Cinema de São Paulo, entre outros.

Em janeiro de 1988, Parajanov disse em uma entrevista que ele tinha três terras natais, pois tinha nascido na Geórgia, trabalhado na Ucrânia e iria morrer na Armênia. Seu corpo está enterrado no Panteão Komitas, em Yerevan.

texto de minha autoria originalmente publicado no site Brasileiras pelo Mundo

Os 150 anos do nascimento de Hovhannes Tumanyan

Os escritores estão destinados a desempenhar um papel na história literária dos seus países, e alguns poucos também desempenham um papel especial na vida espiritual das suas nações: na literatura armênia, Hovhannes Tumanyan o fez, retratando o perfil do povo armênio, sua história, seus sonhos e seus ideais mais sagrados com profundidade e clareza em seus escritos. Neste ano, a Armênia comemora os 150 anos do nascimento de seu principal poeta.

No norte da Armênia, há uma região chamada Lori, com montanhas muito altas e, aos pés delas, vilas à beira do rio Debet. Hovhannes Tumanyan nasceu em 19 de fevereiro de 1869 em Dsegh, uma das vilas do Lori. Desde a juventude, Tumanyan percebia quão amarga era a vida de um camponês armênio, compreendendo seus sonhos e fardos. Tumanyan cresceu com as lendas e parábolas do seu povo, e o folclore e a beleza da região Lori virou parte integral do seu trabalho.

Este frutífero laço entre o poeta e o seu povo persistiu até a sua morte, ainda que ele tenha morado longe de Lori por quase toda a sua vida, tendo mudado em 1883 para Tíflis, um centro cultural e político na Transcaucásia.

Tumanyan começou seus estudos em Lori, e depois ingressou em uma das melhores escolas armênias de seu tempo, a Escola Nersisyan. Infelizmente, Hovhannes teve que deixar seus estudos quando seu pai adoeceu, e depois morreu. Aos 16 anos, pouco antes de formar-se, encerrou seus estudos formais e retornou para Dsegh para cuidar da sua família.

Aos 19 anos, Tumanyan casou-se e teve 10 filhos. Necessitando de recursos para sustentar sua família, foi obrigado a exercer funções muito aquém dos seus talentos intelectuais, numa atmosfera que o sufocava a ponto de, mais tarde, lembrar-se daqueles dias como um verdadeiro inferno. Na metade da década de 1890, Tumanyan deixou de exercer tais funções que lhe causavam tanto desprazer para focar completamente na escrita.

Tumanyan era persistente e educou-se por meio de ávida leitura; reverenciava os trabalhos de Shakespeare, Byron, Pushkin e Lermontov. Ele tinha muito interesse pelo folclore e, com a sensibilidade que lhe era peculiar, registrou integralmente a história cultural da Armênia, esquivando-se de influências externas na sua escrita, prezando pela sua intuição.

Tumanyan começou a escrever ainda criança, mas só se tornou conhecido como poeta em 1890, quando sua primeira coleção de poesias foi publicada; nestes escritos, já pode-se observar todo o frescor que Tumanyan trouxe para a literatura armênia.

No começo do século XX, Tumanyan tinha reescrito e desenvolvido seus primeiros trabalhos e escrito novas poesias e prosas. Ele consagrou-se como artista, trazendo muita qualidade para a literatura armênia por conta da sua maneira de escrever poesia, e não necessariamente da forma poética que ele escolhia, uma vez que Tumanyan mantinha-se tradicional na forma: na verdade, ele trouxe a poesia para mais perto do povo. Essa etapa do desenvolvimento na literatura armênia é conhecida como “Fase Tumanyan”.

A inspiração de Tumanyan vinha das atividades cotidianas das pessoas, e os heróis dos seus trabalhos eram, em geral, simples camponeses. Tumanyan revelava suas qualidades desenvolvendo textos fortes, com linhas de raciocínio claras, descrevendo rica e profundamente os sentimentos.

A vida era difícil para os camponeses que viviam sob um regime patriarcal de leis não-escritas, muito preconceito e opressão: em face destas dificuldades, os heróis de Tumanyan quase sempre morriam de modo trágico. Ao passo que descrevia estas tristes realidades, Tumanyan expunha a pureza dos sentimentos, da integridade e uma determinação inextinguível dos seus heróis em atingir a justiça. As imagens criadas por Tumanyan conduziam (e ainda conduzem) os leitores as suas verdades mais profundas, mas principalmente moviam (e movem) os leitores delicadamente a uma profunda compaixão pela beleza e verdade na experiência humana.

Entre os trabalhos que retratam os tempos em que Tumanyan viveu, destacam-se o poema “Anush” e a história “Gikor”, trabalhos celebrados pelos leitores contemporâneos como os pináculos da poesia e prosa de Tumanyan, respectivamente.

“Anush” conta a história trágica de amor de um jovem pastor de ovelhas (Saro) por uma jovem (Anush). Este poema descreve a riqueza espiritual dos personagens, seus sentimentos mais profundos, sua devoção infinita um pelo outro, seu altruísmo e sua disposição pelo sacrifício. Ao mesmo tempo em que Tumanyan descrevia os sentimentos, também retratava amplamente a vida cultural do povo, destacando atividades e costumes diários, as alegrias e tristezas do povo, e suas percepções de mundo. Em essência, ele revelava o caráter nacional do povo armênio.

Por sua vez, “Gikor” é o conto de um camponês de 12 anos que vai para a cidade e sucumbe à crueldade daqueles que lá o cercam. Toda a história é extremamente dramática, abundante em qualidade lírica com toques simultâneos de alegria e tristeza.

A contribuição de Tumanyan para a poesia épica armênia tem valor inestimável. A poesia armênia tem uma tradição muito rica e antiga, e seus aspectos líricos são poderosos. Os talentos poéticos de Tumanyan são revelados em ambientes épicos, retratando situações críticas e/ou dramáticas, com personagens fortes e destemidos. Suas inúmeras baladas e poemas estão entre as principais obras épicas mundiais, com forma poética perfeita, principalmente por conta da riqueza descritiva e filosófica da vida que ele retratava.

Os trabalhos de Tumanyan estão permeados pelo pensamento filosófico, já que o escritor se preocupava muitíssimo com as questões de vida e morte, o propósito da vida humana, e a ligação do ser humano com a natureza. Tumanyan buscava na eternidade as respostas para as questões que o preocupavam, tentando penetrar os segredos do universo, como em seu poema “No infinito”. Toda a experiência pessoal e artística de Tumanyan está concentrada nestas questões, expressando suas emoções e pensamentos sobre as pessoas e seus destinos.

Tumanyan escreveu que “cada poeta, antes de tudo, deve ser o coração de seu povo”, e seu trabalho atesta para esta virtude. O povo armênio pode carregar eternamente no seu coração a imagem de Tumanyan e suas sábias palavras. A cada novo leitor encantado com os tesouros inesgotáveis de sua alma e mente, Tumanyan torna-se verdadeiramente imortal.

*texto de minha autoria originalmente publicado no site Brasileiras pelo Mundo

A ópera e a tradição musical armênia

A ópera é um gênero musical único, combinando música, poesia, e diversas artes cênicas (habilidades teatrais, pinturas etc). Ao reunir os trabalhos dramáticos e musicais, a ópera foi pautada na síntese da palavra, das representações teatrais e da música. No começo da sua história, o balé também teve importância fundamental nas performances musicais deste gênero. “Eurídice”, a primeira ópera preservada, foi escrita em 1600 pelo compositor italiano Jacopo Peri e estreou em Florença em 06 de outubro daquele ano, no Palazzo Pitti, tendo sido criada em homenagem ao matrimônio entre Henrique IV da França e Maria de Médici.

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A ópera tem um papel importante na história da música clássica armênia. A música armênia tem intrínseca relação com a arte do canto, com seus primeiros registros datando da Idade Média, quando o sistema nacional de gravações foi criado. Os trabalhos eram pautados em khazes. Um khaz é um tipo de neuma (elemento básico do sistema de notação musical, antes da invenção da notação de pautas de cinco linhas), que é um signo especial e usado desde o século VII. A notação musical surgiu, primeiro, com a função de auxiliar quem cantava a recordar-se, e somente muito tempo depois tornou-se algo preciso. O khaz e a música armênia se unem no sistema escrito com a tradição oral. A nova notação armênia surgiu no começo do século XIX e, ao mesmo tempo, exemplos da música folclórica e sagrada começavam a ser gravados.

A música da Armênia tem suas origens nas montanhas, onde as pessoas tradicionalmente entoavam músicas folclóricas. A música folclórica armênia, bem como a música gospel tradicional armênia, não se baseia no sistema europeu tonal, mas no sistema de Tetracordes, em que a última nota de uma tetracorde também serve como a primeira nota da próxima tetracorde. Hoje em dia, o termo tetracorde é usado para qualquer segmento de escala ou série tonal de quatro notas. Por conta desse tipo de segmento de escala ou série tonal, muitas músicas folclóricas armênias são construídas em cima de uma escala teoricamente infinita.

A Armênia tem uma longa tradição musical, primeiramente estudada, coletada e desenvolvida por Komitas, um proeminente padre e musicista (compositor, regente de coral e cantor), no final do século XIX e início do século XX. Komitas nasceu em 26 de setembro de 1869 e morreu em 22 de outubro de 1935, depois de ser uma das vítimas do genocídio armênio, sendo considerado um dos seus principais mártires. Por conta da sua dedicação aos estudos musicais, Komitas é considerado o fundador da Escola Nacional Armênia de Música, e é reconhecido como um dos pioneiros da etnomusicologia.

A música armênia clássica, os gêneros de coral e músicas solo começaram a se desenvolver a partir da segunda metade do século XIX. A criação da primeira ópera armênia, “Arshak II“, em 1868, por Tigran Chukhadzhyan, tem considerável importância histórica, e um cartão-postal comemorativo foi impresso e veiculado em Yerevan em 19 de julho de 2018. A ópera “Anush”, de 1912, escrita por Armen Tigranyan, inaugura uma nova tendência estilística no teatro musical armênio. Por sua vez, a ópera “Almast”, de 1923, escrita por Alexander Spendiarov, foi apresentada pela primeira vez no Teatro Bolshoi de Moscou em 1930. Os balés armênios “Gayane”, de 1942, e “Spartacus”, de 1956, compostos por Aram Khachaturian, ocupam um lugar especial nos clássicos mundiais. Aram Khachaturian é homenageado em Yerevan ao emprestar seu nome ao principal salão de concertos da capital da Armênia.

Na sua tradição musical, a Armênia tem até mesmo seu instrumento genuíno: o duduk, que aos olhos dos desavisados parece uma flauta, mas produz um som diferente e muito potente (principalmente se considerarmos seu tamanho pequeno) por conta da sua construção de único cilindro. O duduk pode ser encontrado, com variações, em outras regiões do Cáucaso e também no Oriente Médio. Este instrumento é comumente tocado em duplas: enquanto um músico toca as melodias, o outro instrumentista toca o dum, um zumbido constante, e os dois duduks juntos criam um som mais rico. A UNESCO proclamou o duduk armênio e sua música como Obra Prima do Patrimônio Imaterial da Humanidade em 2005, tornando o título oficial no ano de 2008. O duduk já foi utilizado, inclusive, na trilha sonora de filmes, entre eles o filme de grande sucesso “Gladiador” (dirigido por Ridley Scott e com Russell Crowe no papel principal).

Em 20 de janeiro de 1933, a cortina da Yerevan Opera House se ergueu pela primeira vez. Idealizada por Alexander Tamanyan, o Teatro de Ópera e Balé é uma obra-prima arquitetônica, que recebeu diversos prêmios pelo mundo, inclusive o prêmio principal da exibição internacional de Paris em 1937. Ao longo de muitas décadas de história, a Ópera de Yerevan recebeu e continua recebendo estrelas internacionais da ópera, companhias de balé de prestígio e músicos reconhecidos no mundo inteiro, que se apresentam orgulhosamente no palco do principal teatro armênio. A música armênia foi apresentada internacionalmente principalmente pelos compositores Aram Khachaturian, Alexander Arutiunian, Arno Babadjanian, Karen Kavaleryan. Além destes artistas clássicos, músicos populares divulgam a tradição da música armênia, entre eles Djivan Gasparian (que faz sucesso pelo mundo apresentando-se com o duduk), a instrumentista e compositora Ara Gevorgyan, os cantores Sirusho e Eva Rivas, entre outros.

*texto de minha autoria originalmente publicado no site Brasileiras pelo Mundo

Metelkova e arte em Liubliana

Os 7 prédios de Metelkova, outrora sede militar do exército do Império Austro-Húngaro e, posteriormente, sede eslovena do Exército Nacional da Iugoslávia, estão ocupados por arte desde o começo da década de 1990.

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O Centro Cultural Autônomo de Metelkova (em eslovênio, Avtonomni kulturni center Metelkova mesto), também conhecido pela sigla AKC, fica no centro da cidade de Liubliana com uma área total de 12.500m² ocupada desde setembro de 1993. A área recebeu esse nome por conta da rua Metelko (em eslovênio, Metelkova ulica) que, por sua vez, homenageia o padre da Igreja Católica Romana Fran Metelko.

A história de Metelkova como um centro de arte começa em 25 de junho de 1991, com a declaração da independência da Croácia e da Eslovênia. Esse data é considerada uma das muitas que marcam o fim da República Socialista Federativa da Iugoslávia. Depois da dissolução da Iugoslávia naquele ano, o Exército Iugoslavo deixou Metelkova, que rapidamente se tornou um brownfield militar com seus quartéis abandonados. (Browfield é um termo usado para definir áreas com potencial de desenvolvimento e que antes eram usadas para fins militares.)

 

 

Em 1991, a Rede de Metelkova, formada por 200 organizações jovens e alternativas, pediu à prefeitura de Ljubljana que permitisse o uso daqueles quartéis para fins pacíficos e criativos. A prefeitura, então, cedeu à Rede de Metelkova a permissão formal de usar a área; entretanto, tais promessas não foram de fato cumpridas, e a prefeitura não queria que a área fosse efetivamente ocupada. Esse papel ambíguo se manteve por muitos anos, até que em 1993 Metelkova passou a ocupar ilegalmente a região, sendo redefinida como uma zona autônoma e auto-organizada em 1995. Desde então, o centro se tornou um lugar de aceitação para as minorias, embora ainda existam ameaças por parte das autoridades municipais e do Estado.

Outro exemplo da ambiguidade das ações do Estado Esloveno e da prefeitura com relação à Rede de Metelkova e à região são os subsídios da administração municipal para a construção de um pequeno abrigo de verão, conhecido como Mala Šola (ou Pequena Escola). Este abrigo, planejado e construído em 2001 por voluntários, foi imediatamente classificado como abusivo. À construção, seguiu-se o pedido de demolição, imediatamente depois de outro escritório municipal denunciá-lo para um órgão governamental. Depois de muitas tentativas frustradas, o prédio foi enfim demolido em 2 de agosto de 2006. Embora haja planos para reconstruí-lo, o projeto não saiu do papel.

Nos anos 2000, novos atores se envolveram na zona autônoma de Metelkova como, por exemplo, a comunidade LGBT, outras organizações não-governamentais e até mesmo a UNESCO. Embora não tenha ajudado Metelkova a receber seu status legal, a área foi reconhecida como Patrimônio Cultural Nacional em 2005.

Centro de Zagreb

Zagrebe nos encantou por muitos motivos, e há muita coisa interessante para se fazer na cidade. Para além da região de Kaptol, o centro tem várias atrações bacanas, e vou destacar algumas delas neste post.

Teatro Nacional da Croácia

O Hrvatsko narodno kazalište u Zagrebu (comumente conhecido como HNK Zagreb) é o principal palco de espetáculos de ópera, balé e teatro da Croácia. Este teatro foi uma evolução do primeiro teatro da cidade, construído em 1836 e que, hoje, é a antiga sede da prefeitura. O teatro foi criado em 1860, e no ano seguinte ganhou o apoio do governo para que fosse igualado a outros teatros nacionais da Europa. Em 1870, uma companhia de ópera foi criada no teatro, e em 1895 finalmente mudou-se para o prédio que conhecemos hoje como Teatro Nacional da Croácia. O Imperador Austro-Húngaro Francisco José I participou da inauguração desta construção quando visitou Zagrebe em 1895. A arquitetura foi projetada pelos vienenses Ferdinand Fellner e Herman Helmer, cuja firma tinha construído muitos dos teatros de Viena. Na entrada do teatro, está localizada a fonte Zdenac života (ou “fonte da vida”), idealizada pelo artista e escultor croata Ivan Meštrović em 1905.

Museu Mimara

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O Muzej Mimara é um museu de arte localizado na Praça Roosevelt, abrigando a coleção de Wiltrud e e Ante Topić Mimara (por conta disso, seu nome oficial e completo é Art Collection of Ante and Wiltrud Topić Mimara). Ao todo, são 3.700 obras de arte, das quais 1.500 compõem a exibição permanente do museu, que foi inaugurado em 1987 numa instalação original do século XIX.

Jardim Botânico

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O Botanički vrt PMF-a u Zagrebu é um jardim botânico fundado em 1889 por Antun Heinz, professor da Universidade de Zagrebe. Aberto ao público em 1891, é parte da Faculdade de Ciências da Universidade de Zagrebe. Com uma área de 5 hectares, o jardim é situado numa altitude de 120 metros acima do nível do mar, e abriga mais de 10 mil espécies de plantas de todo o mundo – das quais 1.800 são exóticas -, com direito a grandes lagos para as plantas aquáticas.

Parque Zrinjevac

O parque Zrinjevac foi o primeiro parque da Donji grad (parte baixa, ou centro), trazendo um frescor dos tempos modernos para Zagrebe. Antes de 1886, era conhecido como Novi terg (ou “nova praça”), porque estava localizado fora dos limites da cidade. Hoje, este nome soa irônico, pois Zrinjevac é a praça planejada mais antiga de Zagrebe. Hoje em dia, Zrinjevac é uma das partes favoritas da cidade tanto dos locais quanto dos turistas. Por conta dos prédios que o circundam, o parque é, hoje, como uma porta de entrada para a história e arte da Croácia: a Suprema Corte, o Museu Arqueológico de Zagrebe, a Academia de Artes e Ciências da Croácia, o Ministério das Relações Exteriores e Integração Européia, e a Corte Regional de Zagrebe estão localizados em torno deste parque.

O significado da morte de Charles Aznavour para os armênios

Charles Aznavour, batizado Shahnour Vaghinag Aznavourian, nasceu em 22 de maio de 1924. Aznavour era um cantor, compositor, ator, ativista e diplomata franco-armênio. Conhecido pela sua voz única de tenor, sua carreira de mais de 70 anos rendeu mais de 1200 canções, interpretadas em oito línguas.

Para ele mesmo e para outros cantores, ele escreveu ou foi coautor de mais de mil canções, e Aznavour foi um dos cantores franceses mais populares e de carreira mais longeva. Em 1998, o cantor e compositor foi nomeado “Entertainer of the Century” pela CNN e pelo público da Time Online. Em 24 de agosto de 2017, Aznavour recebeu uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood. Seu último concerto foi no dia 17 de setembro de 2018, na cidade de Tóquio. No dia 01 de outubro de 2018, foi anunciado que ele faleceu em sua casa, na vila de Mouriès no sul da França.

Sem dúvidas, Charles Aznavour foi o armênio mais famoso desta era, e a morte de Charles Aznavour tem um peso enorme para os armênios. Aznavour cantou para presidentes, para papas e para a realeza, do mesmo modo que cantou em eventos humanitários. Em resposta ao terremoto de 1988 na Armênia, ele fundou a organização de caridade “Aznavour pour l’Arménie” junto de Levon Sayan, empresário armênio e seu amigo de longa data.

Aznavour esteve sempre ativamente envolvido na política francesa, na política armênia e na política internacional. Em novembro de 2000, ele assumiu o cargo de Ministro da Cultura da França. Em 12 de fevereiro de 2009, ele foi indicado Embaixador da Armênia para a Suíça, bem como delegado permanente da Armênia junto à Organização das Nações Unidas em Genebra, acumulando a função com aquela que já desempenhava como “ambassator-at-large” da França junto à Armênia.

Desde o terremoto de 1988 (conhecido como terremoto Spitak), Aznavour ajudou a Armênia por meio da sua organização. Com seu cunhado Georgers Garvarentz, escreveu a canção “Pour toi Arménie”, que foi gravada por um grupo de famosos artistas franceses e ficou no topo das paradas musicais por 18 semanas.

No centro de Yerevan, há uma praça que leva o seu nome na rua Abovyan, e uma estátua em sua homenagem foi erguida em Gyumri (a 2ª maior cidade da Armênia), que teve o maior número de mortes quando do terremoto. Em 2011, o Museu Charles Aznavour foi inaugurado em Yerevan, ocupando um lugar nobre na cidade, no topo do Cascade.

Em 1995, Charles Aznavour foi indicado como Embaixador e Delegado Permanente da Armênia junto à UNESCO. Aznavour era membro do Armenia Fund International Board of Trustees, e a organização rendeu mais de US$150 milhões em ajuda humanitária e assistência para desenvolvimento de infraestrutura para a Armênia desde 1992. Em 2004, Charles Aznavour recebeu o título de Herói Nacional da Armênia, que é a maior honraria armênia. Em 26 de dezembro de 2008, o então Presidente da Armênia Serzh Sargsyan assinou um decreto presidencial que dava a Aznavour cidadania armênia, reconhecendo a proeminência de Aznavour como cantor e figura pública, e que ele era um herói para o povo armênio.

Em abril de 2016, Aznavour visitou a Armênia para participar da cerimônia Aurora Prize Award. Em 24 de abril, dia em que é celebrada a memória do genocídio, Charles Aznavour depositou flores no Memorial do Genocídio, ao lado de Serzh Sargsyan, do Católico de Todos os Armênios Sua Santidade Garegin II, e do ator George Clooney. Charles Aznavour escreveu uma música sobre o genocídio armênio, chamada “Ils sont tombés”.

O Presidente francês Emmanuel Macron, ao expressar suas condolências, reconheceu a conexão de Aznavour com suas raízes armênias. Por sua vez, o Ministro das Relações Exteriores da Armênia, Zohrab Mnatsakanyan, também expressou suas condolências sobre a morte de Charles Aznavour, dizendo que ele era um dos grandes tesouros do mundo, uma lenda, filho dos povos armênio e francês. Mnatsakanyan ainda disse que Charles Aznavour emocionava os corações de muitas gerações em todos os cantos do mundo.

O Primeiro Ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, lamentou a morte de Charles Aznavour, destacando que é difícil acreditar que um homem que moldou um século e a história ao servir o seu povo, e que dizia que era 100% francês e 100% armênio, não está mais entre nós. O Primeiro Ministro Pashinyan disse que o dia 01 de outubro era um dia verdadeiramente doloroso para o povo armênio e para o país.

Pashinyan destacou que a morte de Aznavour era uma perda universal, já que ele foi um homem que criou valores universais e acompanhou a humanidade rumo ao amor e à solidariedade. Aznavour era a personificação das relações entre a França e a Armênia, estreitando os laços entre os dois países.

Aro Babloyan, em nome da Assembleia Nacional da Armênia, destacou que a Armênia e todos os armênios se despediam do maior armênio que já existiu e que permanecerá na memória de muitas gerações não apenas por causa das suas canções, mas também pelas suas atividades públicas e humanitárias. Babloyan disse que toda a Armênia está de luto junto aos familiares e amigos de Charles Aznavour. E isso foi personificado em uma vigília iluminada por velas em memória ao herói nacional da Armênia que aconteceu na Praça Aznavour em Yerevan, reunindo a população armênia que quis homenagear esta figura tão importante para o país.

Musée d’Orsay

Vocês acreditam que, até essa minha última ida a Paris, eu não tinha entrado no Musée d’Orsay?! Pois é! Finalmente corrigi esse erro e fui conhecer o acervo desse museu incrível, e também dar uma olhadinha nas exposições temporárias.

O Musée d’Orsay fica no coração de Paris, às margens do Sena, de frente para o Jardin des Tuileries. O museu ocupa o espaço que foi, um dia, a Gare d’Orsay, um edifício construído para a exposição universal de 1900, o que torna o prédio a primeira obra de arte do Museu, que tem uma coleção exposta de peças que datam de 1848 a 1914.

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Às vésperas da exposição universal de 1900, a França cedeu o terreno à Compagnie des Chemins de fer d’Orléans que, desfavorecidos pela posição excêntrica da estação de Austerlitz, projetavam construir, no lugar do Palais d’Orsay, uma estação mais central. Em 1887, a Compagnie consultou três arquitetos (Lucien Magne, Emile Bénard e Victor Laloux) sobre as restrições do espaço – a elegância do quarteirão, a vizinhança ao Palais du Louvre e da Légion d’Honneur – que apresentavam um desafio: integrar a Gare ao elegante espaço urbano em que estava inserida. Victor Laloux foi o escolhido em 1898.

Construída num período de 2 anos, a estação foi inaugurada para a exposição universal em 14 de julho de 1900. O exterior desenhado por Laloux mascarava as estruturas metálicas da estação com uma fachada de pedra de estilo eclético; no interior, o modernismo se impunha: planos inclinados e elevadores de carga para as bagagens, elevadores para os passageiros, 16 pistas no porão, os serviços de recepção no piso térreo, tração elética. O grande hall tinha 32m de altura, 40m de largura e 138m de profundidade.

Entre 1900 e 1939, a Gare d’Orsay desempenhou papel fundamental para a linha sudoeste da França. O Hôtel d’Orsay recebia, além dos viajantes, as associações e partidos políticos para conferências e banquetes. Porém, a partir de 1939, a estação servia apenas aos subúrbios, já que suas plataformas ficaram muito curtas por conta da eletrificação progressiva das linhas ferroviárias e do prolongamento dos trens.

A transformação de estação de trem em museu foi colocada a cargo dos arquitetos Bardon, Colboc e Philippon, do grupo ACT-Architecture. O projeto deles, selecionado entre 6 propostas em 1979, deveria respeitar a arquitetura de Victor Laloux em todo o tempo da reinterpretação da sua função para a nova vocação, o que permitia valorizar o grande salão, utilizando a nave como eixo principal do percurso, e transformando a marquise em entrada principal.

Três níveis desenham o percurso do museu: no térreo, as salas são distribuídas ao longo do corredor central; no nível intermediário, as esplanadas dominam o percurso, e introduzem as salas de exposição; no nível superior, localizado acima do pórtico ao longo do cais, se estende até a parte mais alta do Hôtel, na rue de Bellechasse. Os outros espaços são acessíveis a partir destes três níveis principais de exposição das obras: o pavilhão de subida, as passagens vitrais ao oeste da estação, o restaurante do museu (localizado na antiga sala de refeições do Hôtel), o café dos autores, a biblioteca e o auditório.

O interior original do museu foi projetado por uma equipe de cenógrafos e arquitetos, sob a direção de Gae Aulenti, que trabalho com Italo Rota, Piero Castiglioni (consultor de iluminação) e Richard Peduzzi (responsável pela apresentação arquitetônica) para criar uma disposição unificada a partir de uma grande diversidade de volumes, particularmente pela homogeneidade dos materiais utilizados (revestimento de pedra no chão e nas paredes). Tal desenvolvimento corresponde ao volume desproporcional da antiga estação. A sinalização foi projetada por B. Monguzzi e J. Widmer. Quanto à iluminação, alterna-se entre natural e artificial, o que permite variar as intensidades necessárias de acordo com a diversidade das obras expostas.

O Musée d’Orsay está aberto entre 9h30 e 18h todos os dias, exceto às segundas (quando o museu fecha) e quintas, quando o museu fica aberto até 21h45. O ingresso custa €12, mas há também a opção de comprar o “Passeport Musée d’Orsay + Musée Rodin”, que permite uma vista a cada um dos museus, por €18.

Musée des Arts Décoratifs: Margiela, les années Hermès

Localizado na Rue de Rivoli em Paris, o Musée des Arts Décoratifs exibe, até o dia 22 de setembro de 2018, a exposição “Margiela, les années Hermès” celebra os anos em que Martin Margiela esteve à frente de uma das principais maisons francesas.

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Entre 1997 e 2003, Margiela comandou a direção criativa da Hermès, e esta homenagem apresenta, pela primeira vez na França, as coleções femininas de prêt-à-porter que o estilista desenhou para a célebre maison parisiense, sem perder a identidade das criações da sua própria maison. É interessantíssimo comparar as peças expostas no Musée des Arts Décoratifs com aquelas que em exposição no Pallais Galliera (até 15 de julho!).

Entre a desconstrução inovadora e o luxo atemporal, 98 silhuetas dialogam entre si, expressando e dando voz à visão particular de Martin Margiela. Estes dois universos, muito próprios desse designer, constituem o ponto de partida da exposição, cuja direção artística é do próprio Margiela.

Considerado um dos criadores mais atípicos e misteriosos da sua geração, Martin Margiela faz parte do seleto grupo de estilistas que radicalizou e renovou bruscamente o universo da moda. Depois de fundar sua própria marca, a Maison Martin Margiela, em 1988, ele decidiu, desde o início, que faria do anonimato uma das suas características essenciais, recusando o aparecimento do seu nome nas suas criações, adotando a etiqueta branca costurada nos quatro cantos como sua marca registrada. O famoso “blanc de Meudon” é escolhido como assinatura dos seus desfiles. Desde o início, Margiela desenvolve um trabalho contra a corrente da época da logomania e da padronização, e se destaca em seu meio. Ele surpreende com seus cortes construídos-desconstruídos, suas silhuetas oversize, seus materiais reciclados, ou mesmo os tecidos monocromáticos, que destacam o aspecto artesanal das suas criações.

Foi em outubro de 1997 que Jean-Louis Dumas, então presidente e diretor artístico da Hermès, convidou Martin Margiela a desenhar as coleções de prêt-à-porter femininas, quando este já era considerado, depois de quase uma década, como uma das figuras vanguardistas mais influentes. Era uma escolha audaciosa, que rompia com as tendências do universo da moda de escolher estilistas estrelados. A maison Hermès tem, então, um fator surpresa ao convidar este criador iconoclasta que ninguém (ou quase ninguém) conhece o rosto, e que dispensa os holofotes e o mundo do entretenimento.

Entre 1997 e 2003, acompanhado da expertise do estúdio e dos ateliês da maison Hermès, da qual compartilhava seus valores, Martin Margiela instaura, por meio de 12 coleções consecutivas, uma visão coerente e profunda de um luxo contemporâneo. Conforto, atemporalidade, sensualidade e autenticidade são as palavras-chave para definir a visão de Margiela da mulher Hermès, associada a um estilo apurado. A nova paleta de cores sóbrias e monocromáticas que ele apresenta estão alinhadas ao universo colorido das estampas da Hermès, suscitando a surpresa da imprensa.

Desde a entrada da exposição, o visitante descobre dois estilos distintos que propõem um diálogo apaixonado entre as roupas que Margiela criou para a Hermès e aquelas que ele criou para sua própria Maison. O conjunto se desenvolve com uma sucessão de sequências temáticas de mais de 100 silhuetas, de fotos e de vídeos num percurso que alterna entre o laranja inconfundível da maison Hermès e o branco da Maison Martin Margiela.

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Desse modo, o visitante aprende um pouco do processo criativo que navega sem confusão entre as duas maisons e de cada um dos seus códigos. É a primeira vez que o Musée des Arts Décoratifs se dedica a destacar um ícone da história da moda, com um criador que se desdobra entre as colaborações para as outras Maisons e a sua própria.

Conceitual e subversivo, Martin Margiela revolucionou totalmente o sistema da moda no fim dos anos 1980, e suas criações continuam sendo importantes impressões no universo da moda contemporânea, com uma silhueta vanguardista pautada na desconstrução, a reciclagem e recuperação de materiais. Margiela introduz na Hermès um esboço de cortes e colores com base nos materiais excepcionais da selaria parisiense, e integra numerosas inovações.

A exposição no Musée des Arts Décoratifs homenageia esta figura única da moda, dentro do período “Saison Margiela 2018 à Paris“, que celebra o estilista em comunhão com a retrospectiva “Margiela/Galliera, 1989-2009” e, até o dia 15 de julho, é possível comprar o 2º bilhete com tarifa reduzida na apresentação do bilhete da outra exposição. O bilhete integral (plein tarif) para o Musée des Arts Décoratifs custa €11, e o museu está aberto de terças a domingos das 11h às 18h (a bilheteria fecha às 17h15), e às quintas-feiras fica aberto até as 21h (a bilheteria fecha às 20h15).

 

Ulster Museum em Belfast

Coladinho no Jardim Botânico de Belfast, o Ulster Museum oferece um pouco de tudo pra quem ama arte e história, com curiosidade de descobrir mais sobre o mundo, seja adulto ou criança. As coleções expostas no Ulster Museum contam a história da Irlanda e também de outras partes do mundo, colocando os visitantes frente a frente com dinossauros e também com uma múmia do Egito, e também propiciando experiências interativas. A entrada é gratuita, e o museu fica aberto de terça a domingo, entre 10h e 17h. O Ulster Museum foi um dos museus que eu mais gostei de visitar na vida, e acho que, depois desse post, vocês vão entender o porquê.

Tapeçaria de Game of Thrones

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A Irlanda do Norte é a terra de Game of Thrones e ninguém tem dúvida disso – e eles assumem, com orgulho. Prova disso é a épica tapeçaria de 77 metros exposta no Ulster Museum, que conta a história das temporadas de 1 a 7 da série. De Winterfell às Iron Islands, todos os eventos, locações e histórias estão tecidas ali. A tapeçaria é realmente impressionante, e podemos recordar todos os momentos cruciais da série que levaram até o final épico da temporada 7.

Desenhada à mão, mas tecida por uma máquina especial e finalizada à mão na Irlanda do Norte por artesãos locais, o linho usado para formar a base da tapeçaria foi fornecido por uma das últimas fábricas de linho da Irlanda do Norte, a Ferguson’s Irish Linen.

Os bordados delicados, realizados por um time de 30 costureiros no Ulster Museum e no Ulster Folk & Transport Museum, contam histórias dos personagens e momentos da série com ponto de corrente, ponto partido, ponto traseiro, ponto de correr e ponto de semente, usando fios metálicos, de algodão e de seda para ilustrar, em forma de bordado, uma das séries mais populares da atualidade.

Esta gloriosa peça de arte deve ficar em exibição até o dia 27 de agosto de 2018, mas eu boto fé que eles vão estender esta data – e também a tapeçaria, contando as histórias da 8ª temporada que ainda está por vir. De todo jeito, se você tiver a oportunidade de ir a Belfast, não deixe de conferir esta verdadeira obra-prima!!

1923-1968: Vivendo numa Ilha dividida

Uma das exposições mais interessantes do Ulster Museum é a “1923-1968 Living on a Divided Island“, que conta a história da formação da fronteira entre Irlanda e Irlanda do Norte em meio ao caos da guerra irlandesa de independência. O Ato 1920 do Governo da Irlanda do Norte colocava fim às lutas para manter a Irlanda no Reino Unido, mas os esforços de Edward Carson garantiu que 6 condados do norte da Irlanda fossem mantidos sob a Coroa.

A nova fronteira dividia aliados antigos no Estado Livre da Irlanda, e a coleção em exibição no museu inclui notas de alfândega, a nova moeda do Estado Livre da Irlanda, e a efemeridade política da época, bem como uma coleção de itens da Segunda Guerra Mundial, e itens de memorabilia tanto de nacionalistas quanto de unionistas. Aprender um pouco mais sobre a história da separação daquela ilha, com tantas imagens e itens impressionantes, foi uma experiência única.

Gilbert U-238 Atomic Energy Lab: o brinquedo mais perigoso do mundo!

Na exibição dos Elementos, que fica no 3º andar do museu e conta com uma tabela periódica que mostra seus respectivos elementos encontrados na Terra, um cantinho escurecido chama a atenção: o brinquedo Atomic Energy Lab (ou Laboratório de Energia Atômica), lançado nos anos 1950, considerado o brinquedo mais perigoso do mundo porque continha elementos radioativos!

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Nos anos 1950, a Era Atômica nascia num ambiente otimismo: a fissão nuclear era vista como uma fonte de energia barata e ilimitada, e o fim para todas as guerras. Dentro desta visão utópica, em 1951, surgiu o Gilbert U-238 Atomic Energy Lab, um brinquedo educativo excepcional, com uma imagem idílica de uma criança maravilhada com a nova tecnologia. O jogo continha diversos materiais radioativos, com amostras de minério de urânio, um espinteroscópio (instrumento que mostra a incidência de partículas alfa por flashes em uma tela fluorescente) e uma câmara de nuvem (cloud chamber). Um jovem cientista nuclear poderia usar todo o equipamento para observar flashes e traços das partículas subatômicas vertendo de isótopos instáveis, e também usar o contador Geiger para descobrir o quão contaminados ficaram.

Pra quem não sabe, eu me apaixonei por energia nuclear em 2006, fiz meu mestrado em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança na UFF e escrevi minha dissertação sobre a Política Nuclear Brasileira. Eu não sei até hoje como não estudei Física na faculdade, mas fato é que eu dediquei 10 anos da minha vida exclusivamente aos estudos das questões nucleares e eu sou completamente alucinada pelo assunto. Quando eu vi esse brinquedo em exposição no Ulster Museum, eu surtei e queria de qualquer jeito um desses.

É claro que esse brinquedo sensacional não atende aos requisitos de segurança e saúde de hoje em dia, e foi tirado de circulação ainda em 1951 porque o preço de US$50 (o equivalente a quase US$500 hoje) era muito caro para a maioria das famílias, e também muito complexo. No mercado de colecionáveis, a maioria dos jogos Atomic Energy Lab se encontra em condição imaculada. Se algum dia eu achar um, não respondo por mim!

British Library: A History of Magic

Quem me segue no Instagram já viu que estamos em Londres! Já estava na hora de tirarmos férias de novo, e decidimos fazer um tour pelo Reino Unido, começando por essa cidade que eu amo!

Na verdade, nesta primeira semana, enquanto o marido passeia eu estou me dedicando intensivamente a uma nova formação profissional – mas vou falar mais sobre isso num próximo post!

Hoje quero contar pra vocês sobre a exposição Harry Potter: A History of Magic, que está acontecendo na British Library desde outubro e vai até fevereiro de 2018.

Os tickets precisam ser agendados com antecedência pelo site da British Library e custam £16 pra cada adulto. Nós agendamos a nossa visita pra ontem (terça) com entrada entre 17h30 e 18h00, e levamos cerca de 2h pra ver toda a exposição e comprar lembrancinhas. Não é permitido fotografar a exposição.

Harry Potter: A History of Magic comemora os 20 anos do lançamento do primeiro livro da série, “Pedra Filosofal”, trazendo ao conhecimento público desenhos nunca antes vistos feitos pela própria J. K. Rowling, bem como alguns manuscritos e também trechos inéditos que ficaram de fora das edições publicadas.

Além dos manuscritos e desenhos da autora da série que encanta bilhões pelo mundo, podemos apreciar algumas das artes de Jim Kay, o ilustrador que está dando cores à série de livros em novas edições. A primeira edição ilustrada foi publicada em 2015, seguida de “Câmara Secreta” em 2016, e acabou de ser publicada a versão ilustrada de “Prisioneiro de Azkaban”, o terceiro livro da série.

A exposição é dividida em seções que remetem às disciplinas ensinadas em Hogwarts, unindo os trabalhos de J. K. Rowling e Jim Kay à livros e manuscritos antigos e folclórico que explicam as origens de diversos elementos do mundo mágico, desde plantas e astros até as criaturas mágicas ou das trevas.

Ao final da exposição, ainda podemos apreciar uma das primeiras versões do roteiro do filme “Animais Fantásticos e Onde Habitam” com anotações de J. K. Rowling naquela que foi a sua primeira aventura como roteirista de cinema. A expectativa é de que esta nova série, que tem o mazizoologista Newt Scamandee como personagem principal, conte com 5 filmes ao todo. O próximo filme da série, “Os Crimes de Grindelwald”, tem estréia marcada para novembro de 2018.

É fácil chegar na British Library de metrô, já que as estações de Euston e King’s Cross/Sr. Pacras ficam bem próximas da enorme biblioteca.

Se você estiver com visita marcada pra Londres até fevereiro do ano que vem e for fã do mundo mágico criado por J. K. Rowling, você não pode perder essa exposição de jeito nenhum! E, se não for fã, mas estiver por Londres e tiver um tempinho livre, ainda assim recomendo fortemente a visita, pois é mágico ver como a autora da série de livros mais bem sucedida da história tinha tudo alinhado para seus 7 livros, fundamentando os argumentos e elementos do mundo mágico a partir do folclore encontrado em livros e manuscritos antigos e tradicionais.

Quem foi Martiros Saryan?

Pra continuarmos aprendendo mais sobre a Armênia, sua história e cultura, é impossível não falar de grandes personalidades armênias. Já conversamos um pouquinho sobre Alexander Tamanyan, e agora é a vez de Martiros Saryan ser o nosso “objeto de estudo”. Ele é, sem dúvida, a figura mais importante da arte moderna armênia. Aproveitando a edição de verão da revista Armenia Tourism Magazine (nº18), pude aprender um pouco mais sobre esta personalidade armênia, e vou dividir com vocês um pouquinho do que aprendi sobre este artista. Ele, que nasceu no sul da Rússia, estudou em Moscou e mudou-se para a Armênia em 1921, desempenhando papel importantíssimo no reavivamento da cultura armênia na sua terra natal histórica.

Martiros Saryan nasceu na cidade de Nakhichevan-on-Don (hoje, Rostov-on-Don) em uma grande família armênia: seus ancestrais saíram da antiga capital armênia Ani. Os pais de Martiros eram agricultores, e ele passou sua infância no interior, às margens do rio Sambek. Martiros compreendia a vida da natureza de maneira muito colorida, o que contribuiu para sua escolha de se tornar pintor. Durante seus estudos na escola Armênia-Russa de Novonakhichevan, ele fez aulas particulares de desenho e, aos 15 anos, recebeu um prêmio escolar. Hovhannes, irmão mais velho de Martiros, incentivou sua vocação para a arte e o ajudou a continuar seus estudos em Moscou. É verdade de que a mãe deles não aprovava a escolha do filho, duvidando de que ele pudesse se manter sendo artista. O artista Hmayak Artsatpanyan, amigo de Hovhannes que estudava em Moscou, preparou Martiros para os exames de admissão por um ano. Em 1897, Saryan se tornou aluno da Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou. Depois da formatura, ele participou de workshops e, graças a seus professores, Saryan conheceu as tendências avançadas da arte francesa, como o impressionismo e o pós-impressionismo, e conheceu a elite da inteligência russa.

Notando a importância das habilidades profissionais desenvolvidas na academia, Saryan, tendo embarcado no caminho de criar livre e independentemente, sentiu a necessidade de superar a academia. O artista foi conduzido por seu instinto por um caminho ainda novo na arte, com sua imaginação clamando por novas impressões, que ele conquistou em suas viagens pelo Cáucaso e pela Armênia Ocidental. Em 1902, ele visitou sua cidade natal histórica, Ani. Já na obra “Evening in the Armenian Village”, criada em 1903, uma paleta colorida do futuro pintor começou a tomar forma, suas linhas angulares mostrando o início de um estilo independente.

Entre 1904-1907, Saryan viveu o ciclo da aquarela de “Fairy Tales and Dreams”, cheio de lirismo e harmonia. O artista começou a ganhar fama com as exposições “Scarlet Rose”de 1904 em Saratov, e “Blue Rose” de 1907 em Moscou. Saryan gradualmente mudou da técnica da aquarela e guache para pintura à têmpera, e em 1905 ele criou “The Enchantment of the Sun”. O ano desta criação coincidiu com a primeira exposição de artistas fauvistas, conduzida por Henri Matisse em Paris. Em 1906, tendo visto o trabalho dos pós-impressionistas em Moscou, na coleção de S.I. Shchukin, Saryan percebeu que o caminho que ele tinha escolhido na arte estava certo e, nos anos seguintes, ele continuou a desenvolver seu estilo nesta direção. Depois de conhecer os franceses, ele não foi para Paris, mas sim pra Turquia (1910), Egito (1911) e Pérsia (1913).

Ele pintava o comum, a vida diária destes países, surpreendendo os conhecedores de arte com cores vivas e com uma visão singular das coisas. Saryan mostrou as obras de seus ciclos no Leste nas mais famosas exposições de Moscou e São Petersburgo, como “Mir iskusstva (World of Art)”, “Union of Russian Artists”, “Association of Moscow Artists”. Em 1910, dois trabalhos de Saryan foram comprados pela Galeria Tretyakov. Exibido em Roma em 1911, suas pinturas egípcias – “Egyptian Masks”, “Night Landscape Egypt”, “The Walking Woman” e outras – causaram fortes impressões nos círculos dos amantes de arte. Em 1912, em Londres, na segunda exposição pós-impressionista, foi apresentada a obra “Constantinople Dogs”.

Em 1914, Martiros Saryan foi para Tiflis, onde, junto com membros da Sociedade Etnográfica da Armênia, ele trabalhou na organização da filial transcaucasiana da “Society of Zealots of Armenian Antiquities”, fundada em Moscou sob o Instituto Lazarevsky. Ele viajou muito pelo Cáucaso Sul, manteve anotações e estudou sobre monumentos históricos, desenhou esboços e, novamente, exibiu suas pinturas em Moscou.

Os eventos sanguinolentos que começaram em 1915 no Império Otomano mudam sua vida por completo. O artista fechou seu ateliê em Moscou e foi para Echmiadzin participar da organização para assistência dos milhares de armênios refugiados que milagrosamente escaparam da morte certeira. Tendo chegado ao vale do Ararat, muitos deles morreram de fome e epidemias. Não conseguindo suportar o que viu, Saryan adoeceu e estava à beira de desenvolver problemas mentais, e então seus amigos o levaram para Tiflis. Lá, ele encontrou força para, lentamente, retomar sua vida normal e recomeçou a pintar.

Saryan retomou seu interesse na vida graças a Lusik Aghayan, a filha do famoso escritor armênio Ghazaros Aghayan, por quem se apaixonou à primeira vista e assim ficou o resto da vida. Em 1916, Lusik e Saryan se casaram, e ela se tornou a eterna musa do artista, sendo o ideal de beleza feminina do pintor.

Depois da Revolução de Outubro em Rostov-on-Don, Saryan se tornou diretor do Museu Armênio de História Local. A criatividade artística continuou sendo a principal esfera das suas atividades. Em 1919, ele mostrou 45 dos seus trabalhos em Rostov, na exibição “Lotus”.

Em 1921, à convite de Alexander Myasnikyan, o Presidente do Conselho do Comissariado do Povo na Armênia, Martiros Saryan e sua família se mudaram definitivamente para Yerevan, atuando ativamente no processo de reavivamento do país. Ele desenvolveu esboços para o emblema e a bandeira da Armênia, participou da fundação do Primeiro Museu Estatal da Armênia e encabeçou seus trabalhos, organizou a Associação dos Trabalhadores de Arte e a Faculdade de Arte de Yerevan, criou uma cortina para o Primeiro Teatro Dramático da Armênia, com quem colaborou ativamente.

Em 1926, Saryan foi para Paris, onde ele viveu e trabalhou por um ano e meio, e organizou sua exposição pessoal. Entretanto, a maioria das pinturas parisienses de Saryan pegaram fogo no caminho de volta para a Armênia, num incêndio que começou no Porto de Constantinopla. As únicas pinturas que sobreviveram foram aquelas que ele tinha vendido em Paris, ou aquelas que ele trouxe com ele.

A Grande Guerra Patriótica de 1941-1945 teve um impacto tremendo nos trabalhos de Martiros Saryan: ele vivenciou este evento não apenas de maneira global, mas também pessoalmente, uma vez que seu filho Ghazar foi para o front, mas o artista deu continuidade aos seus trabalhos. Depois da vitória, a vida de Saryan não ficou mais fácil: ele foi acusado de falta de ideologia, adesão à arte burguesa francesa, e formalismo anti-popular. Saryan só respirou livremente depois que Khrushchev assumiu o poder e o descongelamento da URSS começou.

Em 1965, os 85 anos de Martiros foram celebrados com grande festa, e exibições especiais em Moscou, Leningrado, Tbilisi e Yerevan. Naquela época, ele recebeu o título de Herói do Trabalho Socialista. No estúdio Armenfilm, o diretor Laert Vagharshyan fez um documentário dedicado à Saryan, com texto escrito por Ilya Ehrenburg. Em 1966, a memória do artista, “From my Life”, foi publicada. Em 1967, foi aberta sua casa-museu em Yerevan. Saryan não parou de trabalhar até o fim da sua vida: seu último desenho foi feito um mês antes de sua morte. Saryan morreu em 5 de maio de 1972, com 92 anos, e foi enterrado no Panteão de Komitas.

Martiros Saryan é um grande artista, mas sua contribuição para a cultura do povo armênio e para o mundo como um todo não se limitou a isso. Ele provou ser um ótimo organizador e incansável lutador pela preservação da herança cultural. Muitos monumentos no território da Armênia Soviética – por exemplo, a igreja de São Zoravor – foram preservados por esforço de Saryan. Além disso, o artista conseguiu defender a Catedral Armênia de Surb Khach em Rostov, que não só foi destruída, mas em 1958 foi restaurada, algo jamais visto na URSS. Como suplente do Soviete Supremo da URSS e depois da Armênia Soviética, ele apoiou jovens talentos, ajudando-os a entrar nas melhores universidades do país, e cuidou deles de todas as formas que pôde. A magnitude de Saryan não está refletida somente na sua arte brilhante, mas em toda a sua vida.

Khachkars, as cruzes de pedra da Armênia

No primeiro post sobre cultura e história da Armênia, mencionei as Khachkars – as cruzes de pedra da Armênia, que receberam atenção numa matéria bacana da edição de verão da revista Armenia Tourism Magazine (nº18). Elas são tão interessantes que merecem de fato que nós saibamos um pouco mais sobre esta forma de arte!

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Acredita-se que os protótipos das khachkars eram vishaps, criaturas mitológicas, deidades e espíritos da água que, desde os tempos antigos, eram cravadas em pedra sólida. A altura das vishaps eram de 5 metros de altura, segundo os arqueólogos que as descobriram. Entre as imagens esculpidas, encontram-se peixes, pássaros, e outros animais. Depois, o significado das vishaps foi transformado e associado à dragões. A palavra vishap significa dragão. No livro “The Art of Armenia”, de Nonna Stepanyan, descreve-se como, ao longo do tempo, as vishaps foram gradualmente substituídas por monumentos de pedra refletindo a iconografia Cristã. Mais tarde, adotou-se a forma de lápides, que se tornaram a base para criar uma nova forma decorativa, as khachkars.

Em 301, os armênios adotaram oficialmente o Cristianismo, que se tornou a religião do Estado. Isso foi não só um importante evento para a vida espiritual do povo armênio, mas também um prenúncio da identidade escultural. O verdadeiro desenvolvimento e distribuição das khachkars aconteceu muitos séculos depois, quando finalmente tomaram sua forma única. As khachkars se tornaram um símbolo da fé Cristã, um modo de evidenciar o pertencimento dos habitantes ao novo mundo Cristão.

Cada khachkar, feita à mão por talentosos artistas, é única: nenhuma é igual a outra, ainda que todas elas obedeçam a um estilo.

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Desde os tempos antigos, as khachkars não apenas decoraram cemitérios, mas também passaram a ser esculpidas em honra à construção das catedrais e igrejas, construção de novas vilas e em outras ocasiões especiais. Os lugares onde as khachkars são colocadas são considerados santos. Muitas khachkars foram preservadas em antigos cemitérios armênios, onde podem ser admiradas tanto por residentes da Armênia quanto por turistas interessados na cultura do país.

Em muitos aspectos, devido à distribuição das khachkars, a Armênia é, por muitas vezes, considerada um museu a céu aberto, por conta das muitas cruzes de pedra que podem ser encontradas não só em lugares importantes mas também por diversos lugares nas cidades.

A estrutura clássica das khachkars é um bloco de pedra monolítico, com uma cruz esculpida no meio, geralmente a partir de um círculo de galhos ou flores. As imagens ornamentais se ondulam em torno da cruz, por muitas vezes com romãs e videiras, que são os símbolos principais da arte decorativa da Armênia.

O Museu Estatal de História da Armênia, na Praça da República, tem vários exemplares de khachkars expostas. Nelas, pode-se observar a história das khachkars e a evolução das suas formas desde que começaram a ser esculpidas até os dias atuais. Se, nos tempos antigos, os padrões circundavam a cruz, mais tarde as khachkars passaram a se parecer cada vez mais com uma renda feita na pedra, nas quais a cruz se integra perfeitamente ao ornamento. Mais tarde, no lugar das cruzes, começaram também a esculpir letras do alfabeto armênio.

Tradicionalmente, a khachkar é feita de tuff, uma pedra densa, formada de produtos sólidos de erupções vulcânicas, que depois são compactadas e cimentadas. De acordo com Varazdat Hambardzumyan, um grande escultor de Yerevan, é impossível imaginar uma oração armênia em frente à mármore ou granito. Há muitos séculos, as cruzes armênias são feitas de pedra tuff, e os armênios acreditam que esta pedra vulcânica pode absorver todas as coisas negativas como, por exemplo, doenças, das mãos do seu escultor ou de alguém que a tenha tocado.

A pedra tuff é encontrada em diversas cores. Para criar os padrões, os escultores primeiro desenham e depois esculpem a pedra com ferramentas específicas. O polimento das khachkars, quando estão quase prontas, é gentilmente chamado de massagem pelos artistas armênios.

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As khachkars ainda retém sua característica artística principal: apresentar a beleza da pedra. É graças a este princípio que algumas pedras parecem pequenos pedaços de paredes esculpidas, que por vezes são montadas em blocos únicos, tornando-se elementos decorativos da fachada como, por exemplo, em catedrais. As khachkars são um fenômeno original da memória escultural armênia.

Vou terminar este post com um fun fact: quando o marido estava trabalhando no Zimbábue, um armênio que trabalhava com ele deu de presente pra ele uma Khachkars e uma garrafa de conhaque Ararat! Infelizmente a cruz não foi adequadamente transportada entre o Zimbábue e o Brasil e, ao chegar em Brasília, estava absolutamente danificada. Mas o que eu acho mais bacana nesta história toda é que isso aconteceu em 2013, e a gente não fazia ideia de que viríamos morar na Armênia!