A ópera e a tradição musical armênia

A ópera é um gênero musical único, combinando música, poesia, e diversas artes cênicas (habilidades teatrais, pinturas etc). Ao reunir os trabalhos dramáticos e musicais, a ópera foi pautada na síntese da palavra, das representações teatrais e da música. No começo da sua história, o balé também teve importância fundamental nas performances musicais deste gênero. “Eurídice”, a primeira ópera preservada, foi escrita em 1600 pelo compositor italiano Jacopo Peri e estreou em Florença em 06 de outubro daquele ano, no Palazzo Pitti, tendo sido criada em homenagem ao matrimônio entre Henrique IV da França e Maria de Médici.

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A ópera tem um papel importante na história da música clássica armênia. A música armênia tem intrínseca relação com a arte do canto, com seus primeiros registros datando da Idade Média, quando o sistema nacional de gravações foi criado. Os trabalhos eram pautados em khazes. Um khaz é um tipo de neuma (elemento básico do sistema de notação musical, antes da invenção da notação de pautas de cinco linhas), que é um signo especial e usado desde o século VII. A notação musical surgiu, primeiro, com a função de auxiliar quem cantava a recordar-se, e somente muito tempo depois tornou-se algo preciso. O khaz e a música armênia se unem no sistema escrito com a tradição oral. A nova notação armênia surgiu no começo do século XIX e, ao mesmo tempo, exemplos da música folclórica e sagrada começavam a ser gravados.

A música da Armênia tem suas origens nas montanhas, onde as pessoas tradicionalmente entoavam músicas folclóricas. A música folclórica armênia, bem como a música gospel tradicional armênia, não se baseia no sistema europeu tonal, mas no sistema de Tetracordes, em que a última nota de uma tetracorde também serve como a primeira nota da próxima tetracorde. Hoje em dia, o termo tetracorde é usado para qualquer segmento de escala ou série tonal de quatro notas. Por conta desse tipo de segmento de escala ou série tonal, muitas músicas folclóricas armênias são construídas em cima de uma escala teoricamente infinita.

A Armênia tem uma longa tradição musical, primeiramente estudada, coletada e desenvolvida por Komitas, um proeminente padre e musicista (compositor, regente de coral e cantor), no final do século XIX e início do século XX. Komitas nasceu em 26 de setembro de 1869 e morreu em 22 de outubro de 1935, depois de ser uma das vítimas do genocídio armênio, sendo considerado um dos seus principais mártires. Por conta da sua dedicação aos estudos musicais, Komitas é considerado o fundador da Escola Nacional Armênia de Música, e é reconhecido como um dos pioneiros da etnomusicologia.

A música armênia clássica, os gêneros de coral e músicas solo começaram a se desenvolver a partir da segunda metade do século XIX. A criação da primeira ópera armênia, “Arshak II“, em 1868, por Tigran Chukhadzhyan, tem considerável importância histórica, e um cartão-postal comemorativo foi impresso e veiculado em Yerevan em 19 de julho de 2018. A ópera “Anush”, de 1912, escrita por Armen Tigranyan, inaugura uma nova tendência estilística no teatro musical armênio. Por sua vez, a ópera “Almast”, de 1923, escrita por Alexander Spendiarov, foi apresentada pela primeira vez no Teatro Bolshoi de Moscou em 1930. Os balés armênios “Gayane”, de 1942, e “Spartacus”, de 1956, compostos por Aram Khachaturian, ocupam um lugar especial nos clássicos mundiais. Aram Khachaturian é homenageado em Yerevan ao emprestar seu nome ao principal salão de concertos da capital da Armênia.

Na sua tradição musical, a Armênia tem até mesmo seu instrumento genuíno: o duduk, que aos olhos dos desavisados parece uma flauta, mas produz um som diferente e muito potente (principalmente se considerarmos seu tamanho pequeno) por conta da sua construção de único cilindro. O duduk pode ser encontrado, com variações, em outras regiões do Cáucaso e também no Oriente Médio. Este instrumento é comumente tocado em duplas: enquanto um músico toca as melodias, o outro instrumentista toca o dum, um zumbido constante, e os dois duduks juntos criam um som mais rico. A UNESCO proclamou o duduk armênio e sua música como Obra Prima do Patrimônio Imaterial da Humanidade em 2005, tornando o título oficial no ano de 2008. O duduk já foi utilizado, inclusive, na trilha sonora de filmes, entre eles o filme de grande sucesso “Gladiador” (dirigido por Ridley Scott e com Russell Crowe no papel principal).

Em 20 de janeiro de 1933, a cortina da Yerevan Opera House se ergueu pela primeira vez. Idealizada por Alexander Tamanyan, o Teatro de Ópera e Balé é uma obra-prima arquitetônica, que recebeu diversos prêmios pelo mundo, inclusive o prêmio principal da exibição internacional de Paris em 1937. Ao longo de muitas décadas de história, a Ópera de Yerevan recebeu e continua recebendo estrelas internacionais da ópera, companhias de balé de prestígio e músicos reconhecidos no mundo inteiro, que se apresentam orgulhosamente no palco do principal teatro armênio. A música armênia foi apresentada internacionalmente principalmente pelos compositores Aram Khachaturian, Alexander Arutiunian, Arno Babadjanian, Karen Kavaleryan. Além destes artistas clássicos, músicos populares divulgam a tradição da música armênia, entre eles Djivan Gasparian (que faz sucesso pelo mundo apresentando-se com o duduk), a instrumentista e compositora Ara Gevorgyan, os cantores Sirusho e Eva Rivas, entre outros.

*texto de minha autoria originalmente publicado no site Brasileiras pelo Mundo

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Nove pontos negativos de morar na Armênia

Em quase 2 anos de Armênia, posso dizer que a experiência tem tido um saldo bastante positivo, já que eu gosto muito de morar em Yerevan, e é por isso que eu sempre destaco as muitas qualidades da Armênia, do povo armênio e da delícia que é a culinária armênia!

Eu não gosto de reclamar das coisas, mas nenhum lugar é perfeito, nem mesmo Yerevan. Mesmo vivendo uma experiência bastante positiva na capital da Armênia, nem tudo são flores; há algumas coisas que dificultam um pouco (ou melhor, bastante) o dia a dia, que são até mesmo irritantes, e que vou dividir agora com vocês em caráter informativo; penso que, se alguém tivesse me preparado psicologicamente para algumas dessas coisas, talvez a dificuldade de adaptação fosse menor.

O idioma

É claro que eu tinha que começar por ele. Pode parecer muito óbvio, mas, sim, o idioma impõe uma dificuldade terrível para o estrangeiro por diversos motivos. O alfabeto armênio é completamente diferente de qualquer outro, e a sonoridade não é familiar. A língua armênia é diferente até mesmo do russo, que é quase a segunda língua do país. É bem verdade que os armênios são, em geral, muito solícitos e têm muita vontade de ajudar, tentar compreender o que você precisa, tentando orientar e explicar da melhor maneira possível. Ainda assim, há situações em que nem sempre as coisas são fáceis. Mesmo com o meu russo pobre, eu tenho preferido me explicar em russo (quase sempre gramaticalmente incorreto) do que depender do inglês quase sempre precário deles, que pode causar bastante confusão.

Os endereços são confusos

Diferentemente de outras cidades no mundo, em Yerevan há alguns endereços bem confusos – e é difícil até de explicar como é essa confusão! As entradas dos lugares nem sempre são nas ruas dos respectivos endereços. O meu prédio, por exemplo, tem duas entradas, por ruas paralelas, mas um único endereço – e a minha entrada fica justamente na rua cujo nome não é definido pelo endereço. Quando chegamos e fomos procurar a imobiliária, tivemos muita dificuldade de encontrar o prédio porque o endereço era de uma rua, mas na verdade o prédio ficava dentro de uma praça daquela rua, acessível por uma pequena passagem (e imaginem fazer isso num frio de -17ºC, nevando e com muita neve acumulada no chão).

Delivery raramente dá certo

É claro que, porque os endereços são confusos, pedir delivery raramente é uma tarefa bem-sucedida. Como nós não temos carro, fazemos as compras de mercado online e pedimos para entregar. O site do supermercado está disponível também em inglês, e há um suporte por telefone com atendentes que falam inglês (nem sempre a compreensão é perfeita, mas funciona). Eu sempre escrevo, no pedido, que não falo armênio nem russo (porque é terrível falar russo no telefone), e explico como faz para usar a entrada correta do meu prédio, pedindo para que a mensagem seja transmitida ao courrier. 90% das vezes, os entregadores me telefonam e tenho que me virar para explicar (em russo, é claro) como é que faz para chegar no meu apartamento. Com entregas de restaurantes, fica mais difícil ainda porque, por mais que usemos o aplicativo de entrega (também disponível em inglês) e escrevamos as instruções para chegar ao apartamento, os entregadores sempre erram, telefonam, e aí é o mesmo drama de sempre. Teve uma vez que o entregador desistiu e não entregou a nossa pizza, e nós ficamos com fome.

A mania de telefonar

Ah, o telefone. Eles telefonam para qualquer coisa. Como já contei no item acima, a questão do deliverysempre gera ligações telefônicas. A minha compreensão de russo ao vivo já é sofrível, imagina no telefone?! Isso quando eles não desatam a falar em armênio!! E não é só nos serviços de entrega: o GG, o aplicativo local equivalente ao Uber, tem a opção para que o passageiro indique que não quer receber ligações telefônicas dos motoristas, a menos que haja alguma situação extraordinária. Mas é claro que eles telefonam mesmo assim, e nunca é por causa de uma situação extraordinária. Foge da minha capacidade de compreensão a necessidade de telefonar quando você tem um GPS apontando e guiando o caminho que levará o motorista até o passageiro!

As estradas são muito ruins

Mas muito, muito ruins mesmo! Temos viajado pelo país muito menos do que gostaríamos por esse motivo. A grande maioria das estradas não é duplicada e as faixas são muito estreitas, além de serem bastante esburacadas. Um trecho de 100km, que levaria cerca de 1h para ser percorrido em condições normais, dentro dos limites de velocidade, pode precisar do dobro do tempo por conta das condições rodoviárias. Quando fomos a Gyumri, por exemplo, a estrada era tão esburacada e a gente sacolejava tanto que o meu Apple Watch registrou que eu estava fazendo exercícios enquanto, na verdade, estava sentada no carro!

Eles dirigem feito loucos

O trânsito em Yerevan é terrível. É muita buzina, é muita cortada feia, é muita velocidade; são muitas ruas estreitas, vários sinais de trânsito quebrados, e muita pressa dos motoristas. O resultado disso são acidentes de trânsito constantes, muito engarrafamento e vários carros sem parachoques transitando pela cidade.

Mais de 60ºC de amplitude térmica

Em um único ano, podemos vivenciar -20ºC e +42ºC, ou seja, uma amplitude térmica de mais de 60º! Ao mesmo tempo em que é legal ver as estações do ano bem definidas, a saúde sofre para se adaptar a temperaturas tão extremas. Além disso, é difícil lidar com o calor tão intenso que faz no verão.

Os armênios andam MUITO DEVAGAR

Mas MUITO DEVAGAR MESMO! E eles conseguem ocupar a calçada INTEIRA, mesmo se for uma única pessoa caminhando. Eles andam balançando o corpo de um lado para o outro, com os braços razoavelmente abertos. Se estiverem com sacolas, então, desista de “ultrapassar”.

Não é proibido fumar

Deixei o pior para o final. Sim, a coisa que mais me irrita na Armênia é que não há lei antifumo, e eles fumam em todos os lugares, fechados ou abertos. A cultura daqui é fumar – aparentemente, errado é quem não fuma. Alguns restaurantes até dedicam uma área para não-fumantes, mas é sempre minúscula e sempre colada aos fumantes, no mesmo ambiente, sem de fato uma separação. Isso já seria péssimo para a saúde de qualquer pessoa mas, pra mim, é ainda mais desagradável porque tenho asma e muitas alergias respiratórias. O resultado dessa convivência forçada entre fumantes e não-fumantes nos lugares públicos são roupas e cabelo sempre com cheiro de cigarro, que precisam ser lavados diariamente, não importando a hora.

O significado da morte de Charles Aznavour para os armênios

Charles Aznavour, batizado Shahnour Vaghinag Aznavourian, nasceu em 22 de maio de 1924. Aznavour era um cantor, compositor, ator, ativista e diplomata franco-armênio. Conhecido pela sua voz única de tenor, sua carreira de mais de 70 anos rendeu mais de 1200 canções, interpretadas em oito línguas.

Para ele mesmo e para outros cantores, ele escreveu ou foi coautor de mais de mil canções, e Aznavour foi um dos cantores franceses mais populares e de carreira mais longeva. Em 1998, o cantor e compositor foi nomeado “Entertainer of the Century” pela CNN e pelo público da Time Online. Em 24 de agosto de 2017, Aznavour recebeu uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood. Seu último concerto foi no dia 17 de setembro de 2018, na cidade de Tóquio. No dia 01 de outubro de 2018, foi anunciado que ele faleceu em sua casa, na vila de Mouriès no sul da França.

Sem dúvidas, Charles Aznavour foi o armênio mais famoso desta era, e a morte de Charles Aznavour tem um peso enorme para os armênios. Aznavour cantou para presidentes, para papas e para a realeza, do mesmo modo que cantou em eventos humanitários. Em resposta ao terremoto de 1988 na Armênia, ele fundou a organização de caridade “Aznavour pour l’Arménie” junto de Levon Sayan, empresário armênio e seu amigo de longa data.

Aznavour esteve sempre ativamente envolvido na política francesa, na política armênia e na política internacional. Em novembro de 2000, ele assumiu o cargo de Ministro da Cultura da França. Em 12 de fevereiro de 2009, ele foi indicado Embaixador da Armênia para a Suíça, bem como delegado permanente da Armênia junto à Organização das Nações Unidas em Genebra, acumulando a função com aquela que já desempenhava como “ambassator-at-large” da França junto à Armênia.

Desde o terremoto de 1988 (conhecido como terremoto Spitak), Aznavour ajudou a Armênia por meio da sua organização. Com seu cunhado Georgers Garvarentz, escreveu a canção “Pour toi Arménie”, que foi gravada por um grupo de famosos artistas franceses e ficou no topo das paradas musicais por 18 semanas.

No centro de Yerevan, há uma praça que leva o seu nome na rua Abovyan, e uma estátua em sua homenagem foi erguida em Gyumri (a 2ª maior cidade da Armênia), que teve o maior número de mortes quando do terremoto. Em 2011, o Museu Charles Aznavour foi inaugurado em Yerevan, ocupando um lugar nobre na cidade, no topo do Cascade.

Em 1995, Charles Aznavour foi indicado como Embaixador e Delegado Permanente da Armênia junto à UNESCO. Aznavour era membro do Armenia Fund International Board of Trustees, e a organização rendeu mais de US$150 milhões em ajuda humanitária e assistência para desenvolvimento de infraestrutura para a Armênia desde 1992. Em 2004, Charles Aznavour recebeu o título de Herói Nacional da Armênia, que é a maior honraria armênia. Em 26 de dezembro de 2008, o então Presidente da Armênia Serzh Sargsyan assinou um decreto presidencial que dava a Aznavour cidadania armênia, reconhecendo a proeminência de Aznavour como cantor e figura pública, e que ele era um herói para o povo armênio.

Em abril de 2016, Aznavour visitou a Armênia para participar da cerimônia Aurora Prize Award. Em 24 de abril, dia em que é celebrada a memória do genocídio, Charles Aznavour depositou flores no Memorial do Genocídio, ao lado de Serzh Sargsyan, do Católico de Todos os Armênios Sua Santidade Garegin II, e do ator George Clooney. Charles Aznavour escreveu uma música sobre o genocídio armênio, chamada “Ils sont tombés”.

O Presidente francês Emmanuel Macron, ao expressar suas condolências, reconheceu a conexão de Aznavour com suas raízes armênias. Por sua vez, o Ministro das Relações Exteriores da Armênia, Zohrab Mnatsakanyan, também expressou suas condolências sobre a morte de Charles Aznavour, dizendo que ele era um dos grandes tesouros do mundo, uma lenda, filho dos povos armênio e francês. Mnatsakanyan ainda disse que Charles Aznavour emocionava os corações de muitas gerações em todos os cantos do mundo.

O Primeiro Ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, lamentou a morte de Charles Aznavour, destacando que é difícil acreditar que um homem que moldou um século e a história ao servir o seu povo, e que dizia que era 100% francês e 100% armênio, não está mais entre nós. O Primeiro Ministro Pashinyan disse que o dia 01 de outubro era um dia verdadeiramente doloroso para o povo armênio e para o país.

Pashinyan destacou que a morte de Aznavour era uma perda universal, já que ele foi um homem que criou valores universais e acompanhou a humanidade rumo ao amor e à solidariedade. Aznavour era a personificação das relações entre a França e a Armênia, estreitando os laços entre os dois países.

Aro Babloyan, em nome da Assembleia Nacional da Armênia, destacou que a Armênia e todos os armênios se despediam do maior armênio que já existiu e que permanecerá na memória de muitas gerações não apenas por causa das suas canções, mas também pelas suas atividades públicas e humanitárias. Babloyan disse que toda a Armênia está de luto junto aos familiares e amigos de Charles Aznavour. E isso foi personificado em uma vigília iluminada por velas em memória ao herói nacional da Armênia que aconteceu na Praça Aznavour em Yerevan, reunindo a população armênia que quis homenagear esta figura tão importante para o país.

Khor Virap: um pouco mais de história!

Pode-se dizer, sem medo de errar, que o principal cartão postal da Armênia, e consequentemente uma das principais atrações turísticas do país, é o mosteiro de Khor Virap, que fica a cerca de 50km do centro de Yerevan. Já teve post aqui no blog sobre a primeira vez que fui visitar este lugar de peregrinação aqui na Armênia, mas hoje quis dedicar mais um tempinho para aprender melhor sobre a história desse lugar e dos personagens que fazem parte dela!

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Uma capela foi inicialmente erguida no ano de 642 em Khor Virap por Nerses III O Construtor como marco de veneração a São Gregório. Ao longo dos séculos, foi constantemente reconstruída. No ano de 1662, a Igreja da Santa Mãe de Deus (Astvatsatsin) foi construída em torno das ruínas da antiga capela, do mosteiro, do refeitório e dos aposentos dos monges. Hoje em dia, atividades normais da Igreja acontecem ali, um dos lugares mais visitados da Armênia pelos peregrinos (e também pelos turistas). É recomendado que as mulheres, ao visitar a Igreja, cubram a cabeça e não usem roupas muito curtas e/ou decotadas.

A colina de Khor Virap e suas adjacências correspondem ao local da primeira capital da Armênia, Artashat (ou Artaxiasata), fundada pelo Rei Artashes I (o primeiro da dinastia Artashesid) por volta de 180 a.C. Artashat permaneceu como capital da dinastia até o reinado do Rei Khosrov III (330-339), quando foi transferida para Dvin. Subsequentemente, Artashat foi destruída pelo Rei Persa Shapur II. Artashat é uma província muito próxima à colina de Khor Virap. Até a construção da capela, Khor Virap era utilizada como prisão real.

Quando o Rei Tiridates III governava a Armenia, seu assistente era o cristão Grigor Lusavorich, que pregava a religião cristã. Entretanto, Tiridates, um seguidor da religião pagã, não estava contente em ter um conselheiro de outra religião, e submeteu Gregório a torturas severas. Quando o rei soube que o pai de Gregório, Anak o Parthian, foi responsável pelo assassinato do pai do rei, o rei Tiridates III ordenou que fossem atadas as mãos e os pés de Gregório, e que ele fosse abandonado em Khor Virap para que morresse na masmorra profunda localizada em Artashat. Além disso, a refusa de Gregório em oferecer sacrifício a deusa Anahita provocou a ira do rei Tiridates, que o torturou e condenou à prisão.

Gregório foi, então, esquecido na prisão, enquanto o Rei Tiridates III comandavas guerras e perseguições às minorias cristãs. Entretanto, Gregório não morreu durante os seus 13 anos de aprisionamento. Sua sobrevivência foi atribuída a uma viúva cristã da província local que, sob a influência de visões em sonhos, alimentava Gregório regularmente com folhas de pão (provavelmente lavash) que ela levava até a beira do poço que dava acesso à masmorra.

Durante este período, o Imperador Romano Diocletian queria se casar com uma mulher bonita, e mandou seus agentes e busca da mulher mais bela que existisse. Eles encontraram uma menina chamada Rhipsime em Roma, que estava sob a tutela da Madre-Superiora Gayane em um convento cristão. Quando Rhipsime soube da proposta de casamento do Imperador, ela fugiu para a Armênia para evitar as bodas. Uma busca foi iniciada para que se encontrasse a garota e punisse quem a tivesse ajudado a escapar, e eventualmente Tiridates encontrou Rhipsime, levando-a à força ao seu palácio. Depois de tentar cortejá-la, sem sucesso, o rei ordenou que ela fosse levada à sua presença usando uma coleira, na esperança de conseguir persuadir Rhipsime a casar-se com ele.

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Entretanto, o que sucedeu foi a perseguição e assassinato de Rhipsime, Gaiane e muitos outros cristãos. Tiridates enlouqueceu e acredita-se que ele passou a agir de maneira descontrolada, enquanto demônios possuíam muitos cidadãos. Foi então que a irmã de Tiridates, Khosrovidhukt, teve uma visão à noite, quando um anjo disse a ela sobre o prisioneiro Gregório na cidade de Artashat, que podia pôr fim no sofrimento causado pelos demônios, e ensinaria a eles os remédios para todas as doenças. As pessoas não confiaram muito nesta visão, pois todos acreditavam que Gregório teria morrido após poucos dias do seu aprisionamento. Khosrovidhukt teve o mesmo sonho repetidas vezes, eventualmente sendo ameaçada de que, caso as instruções dos seus sonhos não fossem seguidas, haveria graves consequências. O príncipe Awtay foi confiado com a missão de resgatar Gregório de Khor Virap. Ele foi até a masmorra e gritou para Gregório que, se ele estivesse em algum lugar ali embaixo, que ele saísse, pois o Deus a quem ele adorava tinha ordenado que ele fosse tirado dali. Gregório foi encontrado em estado miserável, e foi levado até Tiridates. O Rei Tiridates tinha enlouquecido, alimentando-se entre os porcos em Valarshapar e arrancando sua própria pele. Gregório curou o Rei Tiridates, trazendo-o de volta às suas capacidades mentais. Gregório soube de todas as atrocidades que foram cometidas, e viu os corpos de muitos mártires que foram cremados. O Rei, acompanhado de sua corte, aproximou-se de Gregório, procurando perdão por todos os pecados que haviam cometido. Daí pra frente, Gregório passou a pregar o cristianismo ao Rei, a sua corte e ao seu exército.

O Rei Tiridates, que abraçou o Cristianismo como sua religião após a sua cura miraculosa, realizada por meio da intervenção divina de Gregório, proclamou o Cristianismo como religião de Estado da Armênia no ano de 301. Gregório se tornou o Bispo de Cesareia, e permaneceu a serviço do Rei até cerca de 314. Uma outra versão atribuída à conversão do Rei Tiridates ao cristianismo é que foi um movimento estratégico para criar uma unidade nacional e vencer a hegemonia dos Persas Zoroastrianos e da Roma pagã e, desde então, a Igreja Cristã tem exercido uma forte influência na Armênia, sendo parte da identidade nacional.

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Khor Virap fica a cerca de 1h de carro do centro de Yerevan, e o percurso de ida e volta num táxi do tipo conforto (com ar condicionado), contabilizando o tempo de espera do motorista, custa por volta de 15.000 AMDs (cerca de US$31). Algumas empresas turísticas oferecem o passeio para Khor Virap e outros pontos históricos da Armênia em roteiros de um dia (day-trip), e custam por volta de 20.000 AMDs (cerca de US$42) por pessoa.

Հայոցգրեր, o alfabeto armênio

O alfabeto armênio (em armênio: Հայոցգրեր) é o sistema de escrita usado para escrever a língua armênia. O alfabeto armênio como se conhece hoje foi desenvolvido por volta de 405 d.C. por Mesrop Mashtots, linguista armênio e líder eclesiástico. A palavra armênia para “alfabeto” é “այբուբեն” (lê-se: aybooben), criada a partir das duas primeiras letras do alfabeto armênio: “Ա” e “Բ”. A língua armênia é escrita horizontalmente, da esquerda para a direita.

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Uma das principais histórias sobre a existência de um alfabeto armênio antes do desenvolvimento do linguista Mashtots vem de Fílon de Alexandria (20 a.C. – 50 d.C.), que, nos seus registros, nota que o trabalho do filósofo e historiador grego Metrodorus de Scepsis (145 a.C. – 70 a.C.), “Sobre os Animais”, foi traduzido para o armênio. Metrodorus foi um amigo próximo e historiador da corte do Imperador Tigranes o Grande, e também escreveu a sua biografia. Outro teólogo romano do século III, Hippolytus de Roma (170-235 d.C.), em sua obra “Crônica”, menciona que os armênios estão entre as nações que tinham seu próprio alfabeto distinto ao escrever sobre a sua contemporaneidade. Filóstrato o Ateniense, filósofo sofista dos séculos II e III, escreveu sobre inscrições no alfabeto armênio.

De acordo com Movses Khorenatsi, historiador armênio do século V, Bardesanes de Edessa (154-222 d.C.), que fundou a corrente gnóstica dos Bardaisanites, foi até o castelo armênio de Ani e, lá, leu o trabalho de Voghyump, um sacerdote armênio pré-cristão, registrado no manuscrito de Mithraic dos templos armênios nos quais, entre outras histórias, notava-se o episódio do Rei Armênio Tigranes VII (que reinou entre 144-161 d.C. e novamente entre 164-188 d.C.) erguendo um monumento na tumba do seu irmão, o Alto Sacerdote Mithraic do Reino da Grande Armênia, Mazhan. Khorenatsi notou que Bardesanes traduziu este livro armênio para o aramaico, e depois para o grego. Outra importante evidência da existência de um alfabeto armênio antes de Mashtots é o fato de que o panteão pagão armênio incluiu Tir, o deus da Escrita e da Ciência.

Vardan Areveltsi, historiador armênio do século XIII, notou que, durante o reinado do Rei Armênio Leo o Magnífico (entre 1187 e 1219), foram encontrados artefatos com inscrições em armênio sobre os deuses pagãos antigos. A evidência de que os acadêmicos armênios da Idade Média sabiam da existência de um alfabeto pré-Mashtotsiano também pode ser encontrada em outros trabalhos medievais, incluindo o primeiro livro escrito com o alfabeto Mashtotsiano pelo pupilo de Mashtots, Koriwn, na primeira metade do século V. Koriwn revela que Mashtots foi instruído sobre a existência de letras armênias antigas, que ele inicialmente tentava integrar ao seu próprio alfabeto.

O alfabeto armênio foi introduzido por Mersrop Mashtots e Isaac da Armênia (Sahak Partev) em 405 d.C. As fontes armênias medievais também alegam que Mashtots inventou os alfabetos georgiano e caucasiano-albaniano na mesma época. Entretanto, a maioria dos acadêmicos relaciona a criação dos manuscritos georgianos ao processo de cristianização da Ibéria, centro do reino georgiano de Kartli. O alfabeto foi, portanto, muito provavelmente criado entre a conversão da Ibéria sob o Rei Mirian III e as inscrições Bir el Qutt de 430 d.C., contemporaneamente ao alfabeto armênio. Tradicionalmente, acredita-se que a primeira frase a ter sido escrita em armênio por Mashtots seja “Para se conhecer a sabedoria e a instrução; para se entenderem as palavras da prudência” (Provérbios 1, 2).

Muitos manuscritos foram creditados como protótipos do alfabeto armênio. Pahlavi era o manuscrito sacerdotal em armênio antes da introdução do cristianismo, e siríaco, junto do grego, foi um dos alfabetos da Escritura Cristã. O armênio mostra algumas similaridades com estes alfabetos, mas o consenso geral é de que o alfabeto armênio foi modelado de acordo com o alfabeto grego, suplementado com letras de diferentes fontes para sons armênios que não são encontrados no grego. Algumas evidências sustentam este argumento: a ordem do alfabeto armênio, o conector ow para a vogal u, e as formas de algumas letras que parecem derivar das letras cursivas gregas.

Existem quatro principais caligrafias dos manuscritos. Erkatagir, ou “letras de ferro”, são como as letras originais de Mashtots, usadas nos manuscritos entre os séculos V e XIII, e ainda escolhidas para inscrições epigráficas. Bolrgir, ou “cursiva”, que foi inventada no século X, ficou popular no século XIII, e tem sido a impressão padrão desde o século XVI. Notrgir, ou “minúscula”, inventada inicialmente para ter mais agilidade, foi extensivamente usada pela diáspora armênia nos séculos XVI e XVIII, e depois se tornou popular nas impressões. Sheghagir, ou “escrita inclinada”, é, agora, a forma mais comum.

O exemplo mais antigo sobre o uso do alfabeto armênio foi uma dedicatória inscrita sobre a porta oeste da Igreja de São Sarkis em Tekor, datada 480 d.C. O exemplo vivo mais antigo desses manuscritos fora da Armênia é uma inscrição num mosaico da metade do século XI numa capela em Jerusalém. Agora na Biblioteque Nationale de France, um papiro descoberto em 1892 em Fayyum, contendo palavras gregas escritas com letras armênias foi datado, em termos históricos, para um período anterior a conquista do Egito – ou seja, antes de 640 d.C. – e em termos paleográficos ao século VI. Os mais antigos manuscritos com letras armênias na língua armênia datam dos séculos VII/VIII.

Algumas mudanças na língua não foram refletidas imediatamente na ortografia. O dígrafo աւ(au) seguido por uma consoante era pronunciado como “au” no armênio clássico mas, por conta de uma mudança de sons, passou a ser pronunciado como “o”, e tem sido escrito como “o” desde o século XIII. Por exemplo, a palavra“աւր” (lê-se “awr” e significa “dia”) passou a ser pronunciada “or” e agora é escrita “օր”. Por essa razão, hoje, há palavras armênias nativas que começam com a letra “o” embora esta letra tenha sido adaptada do alfabeto grego para escrever palavras estrangeiras que começavam com “o”.

O número e ordem das letras foram modificados com o tempo. Na Idade Média, duas novas letras (օ [o], ֆ [f])foram introduzidas para melhor representar sons estrangeiros, o que aumentou o número de letras de 36 para 38. Entre 1922 e 1924, a Armênia Soviética adotou uma reforma ortográfica da língua armênia: a reforma transformou o dígrafo “ու” e o conector “և” em duas novas letras. Aqueles fora da esfera soviética (incluindo os armênios ocidentais e os armênios orientais do Irã) rejeitaram as reformas ortográficas, e continuam usando a ortografia tradicional armênia, enquanto criticam alguns aspectos das reformas e alegam motivações políticas por trás delas.

O alfabeto armênio é celebrado em Yerevan na avenida Mesrop Mashtots, que homenageia o linguista armênio, e que também abriga o Mesrop Mashtots Institute of Ancient Manuscripts, também conhecido como Matenadaran.